Não é hora de medir forças

Na guerra dos sexos, a questão não é quem tem o perfil para mandar, e sim para obedecer a Deus

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Uma grande questão estava em jogo. O povo de Israel vinha sendo cruelmente oprimido pelos inimigos durante 20 anos e, depois de clamarem ao Senhor, a resposta veio por meio de uma pessoa bastante improvável para a cultura da época.

Débora mandou chamar Baraque e lhe deu uma ordem. Ele devia reunir 10 mil homens e ir a um determinado monte, pois Sísera, o comandante do exército de Jabim, rei de Canaã, o atacaria. Mas Baraque não deveria ficar preocupado, pois Deus entregaria os inimigos em suas mãos. Baraque acreditou em Débora e seguiu à risca suas ordens. Mas ele fez um pedido: que ela o acompanhasse na batalha. Meio estranho, não é? O que levou um homem experiente, que comandava 10 mil soldados, a fazer um pedido desse? A resposta está em quem era Débora e quais as credenciais que ela portava.

A Bíblia conta que Débora exercia as funções de esposa, mãe, profetisa e líder de Israel na época dos juízes. Deus Se comunicava com ela, e ela transmitia as mensagens ao povo. Literalmente, Débora trabalhava fora, pois costumava ficar sentada embaixo de uma tamareira, onde o povo a procurava para que ela julgasse suas questões. Com uma responsabilidade tão grande pesando sobre si, Débora teria todas as razões do mundo para responder negativamente ao pedido de Baraque. No entanto, surpreendentemente, ela não só aceitou como ainda fez uma profecia: por causa da atitude de Baraque, a honra de capturar Sísera seria transferida a uma mulher. E ela não estava se referindo a si mesma (Jz 4:17-21).

Não se tem registro de outra mulher que tenha exercido um cargo de tanta influência em Israel e que tenha sido tão respeitada pelo povo. Débora vivia um relacionamento íntimo e pessoal com Deus, que a tornava uma pessoa diferenciada. Tinha profunda percepção espiritual, compreendia o motivo da triste situação de Israel e acreditava no que Deus faria por seu povo caso se voltassem para ele. Ela não teve medo de assumir a responsabilidade pela nação e sua motivação estava em servir a Deus e fazer a vontade dele. Não havia reivindicado nem sonhado com essa função, mas aceitou a autoridade que lhe foi concedida pelo próprio Deus para colaborar na libertação de seu povo.

Baraque teve um papel tão importante quanto Débora. Foi ele quem comandou o exército israelita e transmitiu a confiança necessária aos soldados para irem à luta. Seu nome é citado em Hebreus 11 (v. 32) entre aqueles que foram fiéis a Deus e realizaram grandes coisas, como por exemplo ser poderoso na batalha e colocar em fuga exércitos estrangeiros.

Lado a lado

A experiência desses dois personagens parece se encaixar perfeitamente neste texto de Ellen G. White: “Quando se tem a fazer uma grande e decisiva obra, Deus escolhe homens e mulheres para realizá-la, e ela sofrerá o dano caso os talentos de ambas as partes não se aliarem” (Evangelismo, p. 469). Também nos faz refletir sobre o papel que homens e mulheres precisam desempenhar na obra de Deus, se quisermos ver Jesus voltar em nossos dias.

Foi com o objetivo de tornar as mulheres aliadas dos homens e não rivais que, em 1995, a Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia reativou um ministério antigo, que havia surgido em 1898, com uma consagrada mulher norte-americana chamada Sarepta Myranda Irish Henry. Ela se tornou adventista somente nos últimos anos de sua vida e seu trabalho foi elogiado e incentivado por outra grande mulher, que semelhante a Débora, havia aceitado a difícil missão de dar direcionamento ao povo de Deus, transmitindo as mensagens necessárias para este tempo.

Ellen White conhecia os benefícios de trabalhar em parceria e acreditava que nenhum talento deveria ser desperdiçado. Se os homens e mulheres de sua época não tivessem se unido e trabalhado juntos, a Igreja Adventista não teria prosperado. Jesus valorizou o trabalho das mulheres em Seu ministério e o apóstolo Paulo destacou algumas mulheres que foram essenciais na pregação do evangelho. Esse é o padrão divino, porque Deus nunca fez acepção de pessoas. Ao escolher alguém para uma obra especial, Ele sempre considerou a disposição para servir. A questão nunca foi quem tem o perfil para mandar, e sim para obedecer – obedecer à voz de Deus e realizar sua vontade.

Baraque não se importou de obedecer às ordens de uma mulher. Ele sabia quem era Débora e acreditava que Deus a havia escolhido para cumprir uma importante missão. Por causa dessa atitude, Deus pôde usar ambos e a vitória foi garantida.

Ministério da Mulher sul-americano completa 20 anos de existência em 2015. Foto: acervo pessoal / Meibel Guedes

Ministério da Mulher sul-americano completa 20 anos em 2015. Foto: acervo pessoal / Meibel Guedes

Em 2015, o Ministério da Mulher completa vinte anos e, com certeza, existem muitos motivos para comemorar. Milhares de mulheres têm sido atendidas em suas necessidades e hoje têm a possibilidade de uma vida melhor. Mas ainda existem desafios, e nos resta bem pouco tempo. Não é hora de medir forças. Precisamos ser humildes e corajosos para ocupar a posição em que Deus nos colocar. É o Capitão e não o soldado que decide quem deve liderar as fileiras do exército. A vitória já foi garantida por Aquele que hoje nos diz: “Tudo ficará bem, apenas venha comigo…”

Neila Oliveira é graduada em Letras, autora e editora de livros infanto-juvenis na CPB

  • Giovanna Bonilha

    Muito bom esse texto e oportuno. Realmente para completar a obra no final dos tempo, Jesus chamará a todos. Mas trabalhar para Deus não precisa de ordenação. A ordenação ao pastorado, que está sendo discutida agora na #GC2015, não tem a função de excluir pessoas para trabalhar na obra e sim colocar cada um no seu lugar no Reino de Deus, enquanto não estamos no Reino dos Céus. Deus trabalha com organização e estabeleceu funções para o homem e a mulher lá no Éden. Independente disso, precisamos ser um povo unido ou ficaremos perambulando no deserto igual o antigo povo de Israel.

  • José Kyrkof

    Argumentos muito bem expostos, mas falta a imparcialidade necessária nesse momento delicado, e muito mais no ambiente em que foi exposto, onde está o artigo do outro lado para compararmos/analisarmos ou para a Revista Adventista este artigo é mais do que suficiente para esclarecer as dúvidas e questionamentos? Não tratemos os nossos assuntos da mesma forma como alguns do mau jornalismo secular tratam os adventistas, de forma estreita e rasa sem direito a ouvir o outro lado!

    • Rudy Barros

      A decisão da igreja foi sensata, tenho plena convicção disso. Mas também gostaria de ouvir qual o motivo do outro lado. O que dizem? O que argumentam? E porque lutam tanto a favor de ordenação de mulheres?

  • Olá José Kyrkof e Rudy Ramos, vocês podem ter uma noção das três posições sobre o assunto no seguinte link: http://www.adventistreview.org/church-news/theology-of-ordination-position-no.-1. Sugerimos também a leitura da nossa reportagem sobre a votação, que também procura mostrar os dois lados: http://www.revistaadventista.com.br/conferencia-geral-2015/um-dia-decisivo/. Wendel, editor associado.