O futuro da missão

Igreja brasileira deve atentar para a diversidade de métodos e para os novos fluxos migratórios

o-futuro-da-missaoEm 2014, pelo décimo ano consecutivo, mais de 1 milhão de pessoas se tornaram adventistas no intervalo de um ano. Esse crescimento fez a denominação atingir a marca de 18,5 milhões de fiéis e ser considerada a quinta maior denominação cristã do mundo, segundo a revista Christianity Today. Diante desses números, a possibilidade de evangelizar as nações e ver o retorno de Cristo em nossos dias parece estar mais próximo hoje do que nunca antes na história.

No entanto, o cenário das missões está sendo afetado por vários fatores que devem influenciar nossas estratégias e métodos de trabalho. São variáveis demográficas, econômicas, políticas, tecnológicas, culturais e religiosas. Esse panorama em mutação inclui as mudanças que têm ocorrido na compreensão e prática do evangelismo nos últimos cinco anos no Brasil. Estamos diante de desafios e oportunidades únicas para a missão.

Visão ampliada

Na medida em que a possibilidade de completar a grande comissão (Mt 28:18-20) se torna uma realidade, os estrategistas de missões estão aprendendo a ver o mundo com outros olhos. Com isso, o paradigma do simples alcance de países e geografias tem sido substituído pelo da evangelização de grupos etno-linguísticos. Textos como o chamado de Deus a Abraão para que ele fosse uma bênção para todas as nações (Gn 12:3) e a visão de João sobre a diversidade cultural da grande multidão de salvos (Ap 7:9) têm ajudado a igreja a enxergar o globo como Deus enxerga: dividido em grupos étnicos, em grego, panta ta ethn?.

Perceber essas nuances da evangelização e colocar o foco nesses grupos têm sido a tendência mais notável e significativa da estratégia missionária da Igreja Adventista na América do Sul nos últimos anos. Ao investir na evangelização de cegos, surdos, ciganos, tribos urbanas, grupos étnicos e segmentos específicos da população, a igreja reconhece a necessidade de diversificar suas abordagens a fim de que o evangelho eterno circunde o globo. O despertamento para esse cenário vem em hora oportuna, porque a missão adventista se vê desafiada a responder a três tendências mundiais que se verificam também no Brasil: urbanização, migração e internacionalização.

Urbanização

Se o adventismo começou na zona rural nos Estados Unidos do século 19, hoje ele é desafiado a comunicar o evangelho eterno para uma audiência do século 21 que majoritariamente vive nas cidades. Se em 1950, havia 83 cidades no mundo com uma população de mais de 1 milhão, hoje são 280, e 14 que excedem 10 milhões.

Ao mesmo tempo em que o contexto urbano exige dos seus habitantes um ritmo acelerado de vida com o foco na sobrevivência e no consumo, as metrópoles são ambientes propícios para novas experiências, inclusive religiosas. São nas grandes cidades também que muitas pessoas podem ser alcançadas de uma só vez. Apesar da aglomeração urbana, as metrópoles não são monolíticas, mas sim um labirinto de comunidades etnicamente distintas e com estratos sociais e econômicos diversificados que desafiam qualquer abordagem tamanho único. Assim, para que o mundo seja evangelizado, as cidades devem ser alcançadas.

Migração

Estima-se que 125 milhões de pessoas vivem fora dos seus países de origem, de forma permanente, e outros como uma força de trabalho temporário. Nos séculos 18 e 19, a migração fluiu de países mais ricos para os mais pobres; agora, o fluxo é de regiões menos desenvolvidas para as mais desenvolvidas. Segundo o jornal El Pais, Quase 57.300 imigrantes ilegais chegaram à Europa só no primeiro trimestre de 2015.

O Brasil também está na rota dos fluxos migratórios. Temos recebido novos trabalhadores de Bangladesh, Gana, Senegal, Haiti e Bolívia, em uma das maiores ondas migratórias já registradas no país. As ruas das principais cidades do Brasil estão cheias de cores, sons e cheiros de dezenas de diferentes culturas asiáticas, andinas, africanas e árabes.

Com isso, já não podemos mais falar em alcançar outras culturas, se negligenciarmos os estrangeiros descrentes que estão do outro lado da rua. Será que estamos atentos à essa nova realidade? Temos recebido os refugiados e imigrantes de braços abertos ou os enxergamos como invasores de nossas igrejas e bairros? Em alguns casos, grupos que são altamente resistentes ao evangelho em seus países de origem, podem ser muito receptivos num ambiente urbano longe de suas raízes. Além disso, o contato intencional com essas comunidades poderia servir de treino para missionários que desejam atravessar o mar e servir em contextos mais desafiadores.

Globalização

Se no passado a rota das missões saia do mundo desenvolvido para o subdesenvolvido, do ocidente para o oriente e do norte para o sul, hoje é de qualquer lugar para qualquer lugar. De acordo com Todd Johnson, professor do Gordon-Conwell Theological Seminary (EUA), dos 400 mil missionários enviados em 2010, 34 mil partiram do Brasil, o segundo país no ranking liderado pelos Estados Unidos com 127 mil missionários enviados.

Uma das portas que se abrem com a globalização é para a participação de escolas, igrejas e agências missionárias em missões de curta duração. Congregações paulistanas como a de Moema e o Unasp, campus São Paulo, têm feito isso por meio de seus estudantes e profissionais voluntários. Apesar dos cuidados que devem ser tomados com esses projetos para que não se tornem meras viagens de turismo ou de intercâmbio cultural, o envolvimento de pessoas nesse tipo de iniciativa só tem aumentado. As vantagens são que as missões de curta duração podem envolver pessoas até então sem treino e experiência ministerial no trabalho de Deus, liberando assim os missionários mais experientes para trabalhos mais específicos. Ao que parece, somente uma grave crise financeira inibiria esse fluxo.

Futuro

Hoje, essas três tendências representam grandes desafios e oportunidades para a Igreja Adventista que não podem ser ignorados. A primeira lição a ser aprendida é que não existe só um método para a evangelização. Com a globalização, precisamos desenvolver abordagens que não ofendam, mas que atraiam diversos povos ao evangelho. Isso significa que atendimento de saúde, aulas de inglês, séries públicas de evangelismo e pequenos grupos que enfatizam o discipulado podem ser métodos úteis para contextos distintos, e não necessariamente para todos os contextos.

Em segundo lugar, o sucesso da empreitada missionária não pode ser medida apenas pelo número de batismos. Numa reunião realizada em 2013, líderes revelaram que a igreja perdeu um em cada três membros ao longo dos últimos 50 anos. Além disso, para cada 100 pessoas que a Igreja Adventista batiza ao redor do mundo, ela perde 43 membros antigos. http://www.christianitytoday.com/gleanings/2013/december/seventh-day-adventists-assess-why-1-in-3-members-leave-sda.html Portanto, o evangelismo bem-sucedido deve deixar de ser mensurado apenas em termos de “números de batismos” ou de quantos “vieram à frente”, mas em crescimento real que se traduz na multiplicação de discípulos.

Felizmente, a missão é a prioridade de Deus, e assim permanecerá até a volta de Cristo. Os desafios que a Igreja Adventista enfrenta podem tornar-se cada vez mais difíceis, mas Deus transcende a todas eles. É nossa crença de que Deus proverá as habilidades e dons necessários para o desafio de alcançar os povos do mundo. Essa é a agenda de Deus; e pode tornar-se cada vez mais a nossa também. A missão é obra de Deus. O mundo é a esfera de sua missão. E a igreja é sua parceira no reino vindouro.

Emílio Abdala é doutor em Ministério pela Universidade Andrews (EUA) e diretor de Missão Global na sede paulista da Igreja Adventista


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