O real tamanho da igreja

Relatório apresentado por David Trim, diretor do Departamento de Arquivos, Estatísticas e Pesquisa, no dia 3 de julho, revela que nossos números ainda estão inflados

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Foto: reprodução Adventist Review

No último quinquênio, a igreja mundial realizou uma série de auditorias detalhadas de seus membros. O resultado da análise feita pelo Escritório de Arquivos, Estatísticas e Pesquisas indicou que o total de membros no papel é maior do que a realidade e, em algumas áreas, consideravelmente maior. Uma análise mais profunda sugeriu que o número de membros se encontra inflado por causa de falhas sistêmicas em relatar com precisão as perdas, tanto por morte, quanto de membros vivos, chamada em diferentes partes do mundo de apostasia, abandono e assim por diante. Este relatório resume os resultados das auditorias de membros e sugere algumas implicações para a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Em geral, uma única estatística-chave revela insights vitais a uma organização quanto à precisão de uma série de outros dados. Ao mensurar o total de membros adventistas, a estatística-chave é a taxa de mortalidade: o número de mortes a cada mil habitantes. Na análise do ASTR, a taxa de mortalidade adventista foi calculada em cada Divisão e globalmente, e depois comparada com a taxa de mortalidade da população em geral da respectiva Divisão e do mundo inteiro. Uma vez que um ano isolado não revela uma tendência, o ASTR fez essa análise no período de 1995 a 2010.

Descobrimos que a taxa de mortalidade adventista global sempre esteve abaixo do índice de mortalidade geral e caiu especialmente ao longo da década de 2000 (ver Figura 1). Além disso, em muitas Divisões, a taxa de mortalidade adventista foi significativamente inferior à taxa de mortalidade geral daquele território.

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Os adventistas do sétimo dia têm princípios divinos de vida saudável que nos foram concedidos pelos escritos de Ellen G. White, mas a diferença entre as taxas de mortalidade entre os adventistas e a população em geral é tão grande que somente o estilo de vida saudável não é suficiente para justificá-la.

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Na primeira década do século 21, havia 3,39 mortes de adventistas em cada mil membros da igreja ao redor do mundo, em contraste com 8,55 mortes em cada mil pessoas da população em geral. Isto é, nossa mortalidade média era de apenas 39,65% da mortalidade geral. Estudos científicos indicam que os efeitos de seguir a alimentação e o estilo de vida adventista definiriam essa porcentagem, na melhor das hipóteses, em cerca de dois terços da população geral. Logo, nossa taxa global de mortalidade estava pelo menos na metade do que deveria, mesmo levando em conta as vantagens das orientações de saúde adventistas.

Em oito Divisões (incluindo quatro das seis com mais de um milhão de membros), a mortalidade adventista era equivalente a menos de 40% da mortalidade geral e, em cinco Divisões, inferior a vinte por cento. O total de membros registrado nessas Divisões é, na verdade, maior do que o número de membros vivos. Essa auditoria é importante por três motivos: planejamento, mordomia e cuidado pastoral. Todas essas considerações são importantes, mas é possível que a última seja a mais relevante entre elas.

Os líderes da igreja necessitam de registros fiéis do número de membros; primeiro, para planejar de modo estratégico e eficaz; segundo, para ser bons mordomos, já que, do contrário, os recursos podem ser mal-empregados. Acima de tudo, porém, se o número de membros não corresponder à realidade, fica muito difícil cuidar dos membros da igreja. A parábola da ovelha perdida (Lc 15:4-7) nos revela que saber quantas ovelhas estão no aprisco é fundamental para o Pastor divino, cujo exemplo procuramos seguir.

A igreja mundial instituiu uma série de medidas corretivas, com o objetivo de chegar a uma estatística fiel do número de membros. Contagens regulares dos presentes foram acrescentadas às estatísticas que todas as igrejas locais e unidades administrativas devem relatar anualmente. Em 2012, foi criado o Escritório do Software de Membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia, na Associação Geral. Hoje duas Divisões inteiras e Uniões de outras cinco já adotaram ou estão começando a adotar o software aprovado da secretaria.

No entanto, a medida que exerceu maior impacto foram as abrangentes auditorias de membros. Todas as Divisões realizaram auditorias em pelo menos parte de seu território e, de igual forma, a maioria das Uniões realizou pelo menos uma auditoria parcial. Contudo, ao redor do mundo, o processo de auditorias se encontra incompleto. Por isso, este relatório é, em certo sentido, preliminar.

Em 2014, foi relatado um total de 55.320 mortes, ou seja, três mortes em cada mil adventistas ao redor do mundo, aumentando de 2,67 no início do último quinquênio, que corresponde exatamente a um terço da taxa de mortalidade geral do planeta, a menor porcentagem em nossa história estatística. As três mortes em cada mil em 2014 equivalem a 39% da taxa de mortalidade líquida de 7,84 mortes por mil no mesmo ano. Logo, ainda temos um longo caminho a percorrer para que as mortes sejam relatadas com precisão.

O que mais chama atenção, porém, é que as auditorias revelaram grandes perdas. Não foram apenas as mortes que deixaram de ser relatadas. O número daqueles que saíram da igreja (hoje descritos nos relatórios estatísticos oficiais com o termo “afastados” em lugar do antigo “apostatados”) e o número de “desaparecidos” também, isto é, pessoas que simplesmente não foram encontradas quando a auditoria foi realizada.

O resultado do abrangente processo de auditorias ao longo dos últimos cinco anos foi um total de 2.983.905 membros que deixaram a igreja ou foram registrados como desaparecidos; 261.888 mortes foram registradas; e um total de 5.563.377 foram acrescentados mediante o batismo ou a profissão de fé. O número de mortes relatadas cresceu um pouco, mas permaneceu relativamente estável, ao passo que o total de desaparecidos e afastados aumentou drasticamente.

A magnitude das perdas (desaparecidos e afastados) identificadas nas auditorias mina o número considerável de acréscimos. O número gigantesco de membros que sai pela metafórica porta dos fundos mina o crescimento que chega pela porta da frente (Figura 2). A melhoria na conservação dos membros é vital.

Por causa disso, o crescimento nos últimos cinco anos foi muito mais lento do que nos cinco anos anteriores (ver Figura 3), mas, na verdade, não passa de ilusão estatística. Muitos daqueles cuja saída foi registrada não deixaram nossas fileiras ao longo dos últimos cinco anos. Nossa falha de longo prazo em realizar auditorias de membros em grande parte do mundo significa que estamos registrando perdas dos últimos 25 anos (e, em alguns casos, provavelmente até mais do que isso).

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Expressando de forma simples, em vez de sofrer uma crise de crescimento da igreja, estamos somente sentindo os efeitos de uma correção estatística. Os índices de crescimento ao longo da década de 1990 e início dos anos 2000 foram, na verdade, inferiores ao que se pensava, ao passo que nossa real taxa de crescimento neste quinquênio foi maior do que parece. Além disso, é importante reconhecer que as perdas não foram causadas pelas auditorias. As auditorias de membros apenas registram a partida daqueles que já haviam se afastado da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Elas revelam o tamanho do problema que já existe há muitos anos.

Por fim, não realizamos auditorias para limpar o rol de membros e obter números mais precisos. Cada um dos 2.983.905 membros registrados como desaparecidos ou afastados da igreja ao longo dos últimos cinco anos (e cada um dos 13.026.925 membros que se “afastaram” ou “desapareceram” durante os últimos cinquenta anos) é precioso para Jesus.

As auditorias devem continuar como parte de uma estratégia mais ampla para melhorar a conservação e a disciplina dos membros. Precisamos imitar o Bom Pastor, que deixou tudo de lado para ir em busca de apenas 1% de seu rebanho que havia desaparecido. Registros estatísticos precisos não são um fim em si mesmos, mas a base para um ministério mais poderoso ao rebanho que nos foi confiado pelo Salvador.


Nota: Kathleen Jones, Joshua Marcoe, Carole Proctor e Lisa Rasmussen contribuíram com a análise estatística deste relatório.


[Fonte: Adventist Review / Tradução: Cecília Eller Nascimento]

Márcio Tonetti View more

Márcio Tonetti
Editor associado da Revista Adventista
  • Israel Ferreira Marques

    Estes números retratam uma fotografia do momento da Igreja. Diria que não servem, sequer para avaliar sucesso da Igreja, porque a missão da Igreja é pregar o evangelho a toda criatura no mundo. Cristo em breve voltará.