Presença providencial

Ellen White ajudou a descentralizar as decisões da igreja na assembleia de 1901

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A presença de Ellen White, ainda na véspera da assembleia de 1901, foi fundamental para que a igreja se reestruturasse. Créditos da imagem: White Estate

Se hoje muitos adventistas celebram o modelo de governo adotado pela igreja, que privilegia a representatividade, sem abrir mão da unidade e diversidade, devem esse legado à assembleia de 1901 e à influência de Ellen White sobre os delegados da época. A existência de quatro níveis administrativos na igreja, a integração dos ministérios e instituições sob o guarda-chuva da sede mundial e a utilização de comissões no processo decisório é uma herança que remonta à última assembleia realizada em Battle Creek, em 1901.

Por duas vezes a Igreja Adventista passou pelo processo de (re)estruturação administrativa. A primeira ocorreu em 1863, com a formação das associações locais. Naquele ano, a igreja possuía 3.500 membros, a maioria morando no Nordeste dos Estados Unidos, e apenas uma instituição, a editora Review and Herald. A reestruturação sucedeu em 1901, com a formação das uniões e dos departamentos. Naquela oportunidade, a igreja possuía 75 mil membros espalhados por toda a América do Norte e outras partes do mundo (80% residiam nos Estados Unidos).

Desafios do crescimento

A assembleia de 1901, iniciada no dia 2 de abril, foi a primeira a que Ellen White assistiu após ter passado quase dez anos na Austrália. Ainda no exterior, ela recebeu revelações de Deus sobre a situação espiritual de seu povo e a necessidade de retornar imediatamente aos Estados Unidos para orientar a igreja em sua reorganização administrativa. Embora tivesse crescido bastante em número de membros e instituições, a igreja passava por dificuldades financeiras e de gestão.

A chegada de Ellen White a Michigan, para a assembleia no tabernáculo de Battle Creek, trouxe muito alento aos 267 delegados presentes. Aquela foi a última assembleia realizada na cidade que, por décadas, serviu de quartel-general da igreja. Na época, havia 45 associações locais, sendo que 31 estavam dentro dos Estados Unidos. Existiam também as instituições que surgiram depois da organização de 1863, como o primeiro sanatório (1866) e a primeira escola (1874).

Em vez de departamentos, havia associações ou sociedades formadas para incrementar o trabalho da igreja em setores diversos. Entre elas: a Sociedade Internacional de Folhetos Missionários, que surgiu em 1874; a Associação Internacional da Escola Sabatina, em 1878; a Associação de Saúde e Temperança, em 1879; a Associação Nacional de Liberdade Religiosa, em 1889; e a Associação Médica Internacional Missionária e Benevolente, em 1893. Embora essas instituições aparentassem ser da Igreja Adventista, seus líderes a administravam de forma independente, como se não fizessem parte da organização. A obra de saúde, por exemplo, era dirigida pelo Dr. John H. Kellogg, e não pela Associação Geral nem pela associação local.

O maior sanatório era o de Battle Creek, que possuía instalações para atender mais de mil pacientes. No ano de 1901, duas mil pessoas foram empregadas nessa instituição, enquanto o número de missionários contratados em todas as associações locais e no evangelismo não passava de 1.500. Uma reorganização administrativa da igreja era necessária para que fossem eliminadas essas discrepâncias.

Outro setor que necessitava de reestruturação era o financeiro. Não havia um orçamento bem elaborado. Em geral, as associações mais próximas da sede eram socorridas, enquanto as mais distantes não eram contempladas com auxílios. Também faltava dinheiro para as despesas regulares, inclusive para o salário de quem trabalhava na linha de frente, e dívidas eram assumidas para cobrir essas demandas.

Um procedimento que trazia muita preocupação para alguns líderes, inclusive para Ellen White, era a centralização das decisões da Associação Geral na mão de poucas pessoas. Os meios de comunicação da época eram precários em relação aos de nossos dias, as correspondências demoravam semanas de um continente para outro, e as decisões para a negociação de propriedades ou admissão de funcionários em um país distante nem sempre podiam esperar. Somente a descentralização administrativa poderia sanar esse problema.

Mudanças

A presença de Ellen White, ainda na véspera da assembleia de 1901, foi fundamental para que a igreja se reestruturasse. Ela participou de uma reunião na biblioteca do Colégio de Battle Creek com os principais líderes da denominação. Arthur G. Daniells dirigiu esse encontro e cedeu a palavra para a mensageira de Deus. Ela então esboçou os princípios da reestruturação administrativa da igreja: (1) enfatizou a reorganização, sem entrar em detalhes sobre sua forma; (2) disse que a mente de um homem ou a de poucos nunca deveria ser o bastante em sabedoria e poder para controlar a igreja e delinear os planos a ser seguidos; (3) defendeu a formação de uma comissão executiva com representantes de todas as áreas e; (4) salientou que Deus não desejava que o trabalho médico estivesse separado do religioso.

Durante a assembleia, foram considerados os princípios indicados por Ellen White: (1) foi formada uma comissão executiva com representantes de todos os ramos da igreja; (2) foram criadas as primeiras uniões norte-americanas; (3) a igreja passou a ter quatro níveis administrativos: igreja local, associação local, união e Associação Geral e; (4) as associações ou sociedades, que eram independentes, passaram a ser departamentos integrados à sede mundial.

Apesar dessas mudanças, as reformas somente foram completadas na assembleia de 1903, quando o presidente da comissão executiva da Associação Geral passou a ser eleito pelos delegados da assembleia, e não por uma comissão; e a área médica foi também incorporada como departamento da igreja.

Desde 1903, a igreja tem sido administrada basicamente assim. Sua estrutura organizacional e instituições têm servido adequadamente à igreja. Essa estrutura continua a facilitar o ministério e a missão da igreja adventista no mundo e tem sido uma plataforma para a igreja responder aos desafios da evangelização global.

Paulo Roberto Pinheiro é editor dos livros de Ellen G. White na CPB


Para saber +

Arthur White, Ellen White: Mulher de Visão (CPB, Tatuí: 2015).

Barry D. Oliver, “The Development of Organization and Leadership Paradigms in the Seventh-day Adventist Church”, Journal of Adventist Mission Studies (JAMS), v. 3, nº 1, 2007, p. 4-28.

Bert B. Beach, “The Church, Structural Organization, and Acculturation”, Journal of Adventist Mission Studies (JAMS), v. 3, nº 1, 2007.


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