Quem mexeu em nossas doutrinas?

Teólogo explica a necessidade de periodicamente a igreja revisar sua declaração de crenças

Mudanças editoriais nas crenças adventistas, que estão sendo votadas pela assembleia em San Antonio, foram propostas durante o Concílio Anual realizado nos Estados Unidos no ano passado. Foto: Ansel Oliver

Mudanças editoriais nas crenças adventistas, discutidas na assembleia em San Antonio, foram propostas durante o Concílio Anual realizado na sede mundial da igreja no ano passado. Foto: Ansel Oliver

Um dos importantes itens da agenda da assembleia mundial em San Antonio (EUA) é a revisão da declaração de crenças fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia, cuja publicação em português se intitula Nisto Cremos. Algumas das 28 crenças fundamentais que figuram nesse livro foram objeto de discussão na manhã e tarde de hoje, dia 6. As revisões mais importantes, porém, ocorreram em duas crenças: “A Criação” (nº 6) e “Matrimônio e Família” (nº 23).

É possível que você, se for um adventista, tenha se incomodado com a ideia de que a assembleia poderia estar votando a “mudança das doutrinas da igreja”. Embora essa inquietação seja justificável num primeiro momento, ao você entender como se dá esse processo, poderá constatar a seriedade com que a Igreja Adventista lida com as verdades bíblicas e confirmar sua confiança na Palavra de Deus. Para tanto, é preciso responder a duas perguntas: (1) o que é uma crença?; e (2) o que é uma declaração de crenças? Espero, ao fim desse artigo, ter explicado também se uma crença e uma declaração de crença podem mudar.

Pode uma crença mudar?

No contexto cristão, crença pode ser definida como a convicção ou compreensão acerca da realidade, a partir das “lentes” oferecidas pela Bíblia. Nesse sentido, doutrinas se referem à uma determinada realidade descrita pela Bíblia, como o conceito que temos sobre Deus, a criação, o grande conflito e a lei. É importante também fazer uma distinção entre a realidade em si e a compreensão acerca dela. A primeira é sempre mais profunda e abrangente do que a segunda. Ou seja, na medida em que estudamos as Escrituras, nós adquirimos uma compreensão cada vez mais ampla das verdades bíblicas, mas a realidade delas ainda vai muito além da nossa compreensão. Por isso, dizemos que nosso entendimento é parcial e progressivo.

Ao ler a Bíblia, é possível perceber como Deus lida com esse processo de progressão cognitiva dos seres humanos na compreensão de realidades espirituais, um processo tanto do desenvolvimento de indivíduos, quanto de um desenvolvimento histórico. Jesus, por exemplo, não informou os discípulos acerca de coisas que eles ainda não podiam “suportar” ou entender (Jo 16:12). Nova luz viria com o tempo por influência do Espírito Santo (Jo 16:13). Num contexto mais amplo, histórico, temos o exemplo das profecias dadas para Daniel, que seriam compreendias apenas em certa época (Dn 8:26-27; 12:4, 8-9). Desse modo, o próprio Daniel não foi capaz de entender plenamente o significado da revelação que ele recebeu. Nesse caso, é possível falar não apenas de uma revelação progressiva, mas também de uma compreensão progressiva (o conhecimento profético se multiplicaria no tempo do fim de acordo com Daniel 12:4) acerca das realidades espirituais.

Portanto, uma crença não se refere a um “produto final” ou credo imutável. Elas tratam de realidades cuja a compreensão humana ainda não esgotou. Isso significaria que uma crença pode ser revisada? Sim, na medida em que haja uma compreensão mais ampla das realidades espirituais, derivada do estudo das Escrituras. Note que uma compreensão mais ampla não requer a rejeição do conhecimento prévio. Antes, a ampliação pressupõe a presença de um conhecimento anterior que passa a se conectar com outras ideias que dão mais profundidade a esse conhecimento. Pense, por exemplo, na ampliação que Jesus ofereceu da compreensão da lei mosaica no sermão da montanha (Mt 5:21-48). Essa ampliação não contraria a revelação do Antigo Testamento, mas demonstra que sua aplicação é bem mais abrangente que a compreensão oferecida pelos líderes religiosos daquela época.

Pode uma declaração de crença mudar?

No entanto, existe outro elemento que precisa ser considerado. A declaração ou expressão de crenças. Uma crença pode ser expressada em diferente formas, ênfases ou estilos. Se existe distinção entre a realidade crida e a crença, o mesmo ocorre entre a crença e sua expressão. Um quadro geral da sequência dessas distinções seria: (1) realidade – (2) crença – (3) declaração. Em outras palavras, a crença não é a compreensão final e definitiva da realidade, assim como a declaração não é a expressão final e definitiva da crença. As limitações de uma declaração de crença estão relacionadas ao caráter dinâmico da linguagem, ou seja, as palavras e expressões ganham novo sentido com o tempo.

E se uma declaração de crença não é clara e inteligível, acaba distorcendo a mensagem original ou não comunicando nada. Logo, ela perde sua utilidade, pois acaba não sendo compreendida pelos membros (público interno), nem pelos que não são adventistas (público externo), mas desejam conhecer as doutrinas da igreja por meio de uma fonte confiável e oficial. Para quem pesquisa com seriedade o que acreditamos, um material como esse pode ajudar a minimizar ou a evitar a má compreensão sobre nossas crenças.

Tendo em vista a importante função de uma declaração de crenças, a editora adventista de Battle Creek, Michigan, publicou em 1872 uma “sinopse de nossa fé” em 25 proposições. Revisado e ampliado para 28 proposições, esse documento apareceu no Yearbook denominacional em 1889. Uma declaração de 22 doutrinas fundamentais foi impressa no Yearbook de 1931. E em 1980, a assembleia mundial em Dallas votou um sumário mais abrangente de 27 crenças fundamentais. Esse sumário corresponde ao texto atual do Nisto Cremos, com a adição da crença “Crescendo em Cristo”, aprovada em St. Louis, em 2005 (veja a introdução do Nisto Cremos).

Em realidade, essas revisões da expressão do pensamento doutrinário adventista em 1872, 1889, 1931, 1980 e 2005 não representam uma mudança na crença, mas ajustes na declaração que resume e sistematiza o que acreditamos. Essas mudanças vão desde ajustes editoriais até a inclusão de uma ou mais crenças, que em sua essência não eram novas para a igreja.

A denominação entende que revisões das declarações de crença podem ser esperadas “numa assembleia da Associação Geral, quando a igreja é levada pelo Espírito Santo a uma compreensão mais completa da verdade bíblica ou encontra melhor linguagem para expressar os ensinos da Santa Palavra de Deus.” (Nisto Cremos, p. 4, grifos acrescentados). Perceba que essa citação contempla dois tipos de revisão: da crença (no caso de uma compreensão mais ampla) e da expressão ou declaração da crença (no caso de uma linguagem mais adequada).

Em geral, as revisões adotadas se referem mais ao segundo tipo, como foi o caso das revisões aprovadas hoje em San Antonio. A igreja não mudou sua compreensão doutrinária. Contudo, na sociedade atual, visões seculares com respeito à origem do universo e à natureza do matrimônio têm penetrado vários círculos religiosos, que passam a utilizar uma linguagem doutrinária mais geral (e até mesmo ambígua) para acomodar essas visões. Em absoluto contraste a essa tendência, a sugestão de revisão da declaração das crenças fundamentais 6 e 23 teve o objetivo de imprimir uma linguagem mais clara e explícita que reflita de forma inequívoca a compreensão bíblica adventista: de que a semana da criação foi real/literal e de que o matrimônio é entre homem e mulher. Portanto, em vez de se tratar de mudança de conteúdo, a revisão foi um ajuste de redação a fim de tornar mais claro o que a igreja sempre acreditou.

Adriani Milli é professor de Teologia no Unasp e aluno do Ph.D. em Teologia Sistemática na Universidade Andrews (EUA)

  • Maria Eduarda

    Real e literal Sr. Adriani? é mesmo? o matrimônio é entre homem e mulher por causa de Adão e Eva, e tambem por conta das penas de diversos crimes de levíticos? Lev 20:17 condena sexo entre irmãos. Ora, as filhas de Adão e Eva não seriam irmãs dos filhos de Adão e Eva? como surgiram as gerações seguintes? Havia outro “casal” gerando filhos para que os filhos de Adão e Eva procriassem? Esse termo “literal”, é obscuro e emburrece. Fico a pensar no conteúdo e na luz que está sobre a pós-graduação da Andrews. Na verdade, enquanto a semana passada, praticamente por unanimidade a igreja episcopal americana deliberou sobre suas crenças na assembleia geral deles, parece óbvio e pelos resultados, a presença Divina nas deliberações. Vendo o resultado da nossa, não tenho duvida alguma que faltou entendimento, clarividência e sabedoria. Somente de joelhos alcançariamos isso. Faltou à todos os presentes mais oração. E eu me incluo nisso e nesse desastroso resultado. Devia ter orado mais. Que Deus nos perdoe. Amém.

    • Adriani Rodrigues

      Muito obrigado por seu interesse em ler meu artigo. Para que eu possa responder seu comentário adequadamente, eu precisaria de um esclarecimento. Deixe-me explicar: no artigo, eu indico que a redação de duas crenças fundamentais foram revisadas em San Antonio. A revisão da crença sobre a criação (crença 6) especificou que a semana da criação foi real/literal, ao passo que a revisão da crença sobre matrimônio e família enfatizou que o matrimônio é entre homem e mulher. Contudo, em contraste com o artigo, o comentário acima parece trazer os termos real/literal (que no artigo se referem à crença da criação) para a discussão da crença sobre o matrimônio. Talvez, um esclarecimento desse ponto no seu comentário poderia me colocar em melhores condições para um diálogo cordial sobre essa importante discussão. Por agora, minha impressão é que o comentário foge do escopo do artigo.

    • Cesar Pradela

      irma Maria… a senhora jah ouviu ou leu a respeito dos termos: texto, contexto e pretexto?

      me pergunto, qual o link valido no teu comentario entre igreja episcopal e adventista, entre phd de um comentarista e um estudo sobre a manifestacao doutrinaria de uma deniminacao ou uma geracao anti diluviana e a pos diluviana, onde Deus teve se manifestar de e/ou atuar de maneiras distintas?

      • Maria Eduarda

        Sr Pradela, já ouvi por alto falar sobre texto, contexto e pretexto. Em ambos comentários está implícito o subtexto que vcs dois pretendem na resposta. A igreja episcopal e presibiteriana americana são mais antigas que os adventistas, basicamente este é o Link, exceto o sábado, estudam a mais tempo por isso estão mais acessíveis no entendimento das escrituras. Mais isso poderia não ser assim necessariamente. Não acho que o comentário foge do escopo como escreveu o Sr. Adriani. Os questionamentos são enfáticos quanto ao último parágrafo. E uma constatação, pós CG. A igreja diminui proporcionalmente nos EUA e Europa e cresce na África e América do Sul, justamente onde há miséria, falta de cultura e IDH mais baixos. Jesus sempre esteve com os mais humildes, Pedro era semianalfabeto. E isso é muito bom, algum alento estas pessoas podem ter, por outro lado, porque pessoas com mais instrução não estão sendo tocadas pelo evangelho? E porque o “balde” furado como advertiu o pastor na CG, o número de pessoas que saíram da igreja também aumentou? Eu estou entendendo isto um pouco melhor agora. Tenho certeza que a igreja cresce na África, justamente porque as pessoas não entendem texto, contexto ou pretexto. E eu, dentro do balde vazio todo furado, acabo de ver uma luz por um dos inúmeros orifícios. Vou sair por um deles. Tenham um bom dia, e sintam-se a vontade para apagar meus comentários.

        • Mané Araujo

          Prezada Maria Eduarda, é lamentável você sair pelo furo do Balde. Talvez o balde tenha mais furos e esteja mais vazio do que você imagina. Esta será uma verdade maior daqui para frente, mas o Remanescente sairá vitorioso. Recomendo que frequente qualquer igreja progressista e analise a doutrina pregada à luz da escritura. Deus está chamando o seu povo para ser fiel aos seus princípios e não a ser subserviente ao relativismo moral atual. Assista este vídeo e leia Romanos 1, e tire suas próprias conclusões – https://www.youtube.com/watch?v=dtuG9PglL9w
          Saudações!

        • pedro moraes

          Olá Maria Eduarda. Interessante sua argumentação, principalmente na pergunta retórica que diz “porque pessoas com mais instrução não estão sendo tocadas pelo evangelho?” Acredito que você esteja sustentando sua saída do balde por esse questionamento, mas a verdade é que os países considerados com mais instrução também são os chamados desenvolvidos que por sua vez são os menos religiosos como constatado por você. Confiam nas suas posses e na sua pseudo intelectualidade que dizem não poder conciliar com a fé; mesmo com mais instrução a OMS constata que o índice de suicídio nesses países são alarmantes (confira). Eu reescreveria sua retórica da seguinte forma: posso aceitar pela fé o que não consigo responder pela razão? Hebreus 11:6; e iria ficar no balde embora furado.

  • Pan da Graça

    Bom artigo. Se a igreja revisou para deixar ainda mais clara a sua posição acerca do matrimônio, que segundo a bíblia é a união entre um homem e uma mulher exclusivamente, Deus seja louvado!! E o que dizer da semana da criação em sete dias literais? A bíblia não dá margem a dúvida; os sete dias foram literais. Ao ler o texto fiquei alegre em constatar que a igreja foi, é e continua sendo guiada por Deus.

  • Cate Meddoutom

    Prezada Maria Eduarda, Pedro Moraes e Mané Araújo, li os comentários de todos vcs e confesso me angustiou a postura final da Eduarda, mas também achei que os comentários de Adriani e Celso foram um pouco soberbos. Talvez ela precisasse ouvir outras palavras, outra mensagem. Gostei do que você escreveu Pedro Moraes, “posso aceitar pela fé o que não posso aceitar pela razão?” Acho que todos nós podemos e devemos aceitar. Talvez nesse caso e eu me incluo nele a razão é a nossa ou dos outros? Explico melhor, não concordo com a pergunta que foi formulada aos delegados sobre a ordenação de mulheres. Deveria ser sim sim ou não não . A pergunta foi capciosamente formulada abrindo um precedente de falta de unidade. ” você concorda que algumas regiões possam ordenar mulheres ao ministério?” Quando deveria ser ” você concorda com a ordenação de mulheres ao ministério? Percebam a diferença, na primeira pergunta, que foi a usada na conferencia abre-se o precedente de algumas regiões, isto atentaria contra a unidade da igreja. Eu votaria NÃO na primeira pergunta, mas se fosse a segunda formulada, votaria sim. Porque esta pressupõe unidade, todos aceitariam e teriam esse procedimento em todo mundo. É sabido que a união de Colúmbia já deliberou positivamente ordenação de mulheres, assim como a igreja adventista da Alemanha e a chinesa. Se vão voltar atrás não sei. Os argumentos do pastor Doug, Mané Araújo, parte de um princípio estatístico comparando igrejas que implodiram nos EUA por diversas causas. A principal delas passa longe da ordenação de mulheres ou aceitação de casamentos gays. Tem a ver com as diversas ramificações e subigrejas que foram desmatriciadas a partir da célula principal. Assembleia de Deus segue soberana como a maior igreja evangélica do mundo, mas tem mais de 100 tipologias e crenças diferentes. Acho o vídeo muito infeliz quando usa outras igrejas e seus problemas para balizar e justificar nossas decisões futuras. É como se não estivéssemos sob a Luz do Espírito Santo. Me incomoda, o catecismo católico que não ordena mulheres ser o mesmo que o nosso. Os doze discípulos e sua missão. Vocês sabem que quando Cristo agonizava na cruz, três corajosas mulheres estavam aos pés de Jesus. Elas e Joao. O discípulo que Jesus amou. Os dez outros discípulos? Acuados, com medo, escondidos, fugiram da face do Senhor. Essas mulheres, pra mim são a verdadeira inspiração Maria Eduarda, de amor, de confiança, fé, paz, bondade e misericórdia. Acho sim, que mulheres ordenadas ajudariam e muito o ministério, sei também que o Balde está cheio de furos. Todo dia percebo, ações de preconceito, homofobia, pouca tolerância com os incultos, os que aparentam estar em pecado, enfim falta de amor ao próximo dentro de nossas igrejas. Mas sabe aquela música dos Arautos ” só um pouco mais”? Tente ficar no balde um pouco mais. Só um pouquinho mais. (Se você ainda não foi atrás da Luz que vc disse ter visto por um dos orifícios). EGW num dos seus livros, diz que Deus não acha bom o casamento entre um homem negro e uma mulher branca. Sabemos que isso ficou no passado. Outras coisas ficarão no passado. A igreja é dirigida por homens, falhos e pecadores. Vamos nós pensar e sentir que o melhor lugar que podemos estar é onde estavam as três mulheres, aos pés de Jesus na Cruz, contaminados com seu maravilhoso amor, ternura, tolerância, benignidade. As demais coisas, você vai ver que são insignificantes. Aos pés da Cruz, não há desvios de caminho, e qualquer coisa cabe dentro deste balde, esteja ele furado ou não, cheio ou vazio.