Carência do evangelho

Após 100 anos de presença adventista em Bangladesh, a pregação do evangelho ainda é pouco expressiva no país com a maior densidade demográfica do mundo

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Créditos da imagem: ADRA Bangladesh

Apenar de mais de um milhão de adventistas viverem no território da Divisão do Pacífico Sul-Asiático da Igreja Adventista, a população dessa geografia é de quase um bilhão de pessoas. Neste contexto está Bangladesh, país com a maior densidade demográfica do mundo, se não forem levados em conta cidades-estado e nações com menos de 10 milhões de habitantes. São quase 160 milhões de pessoas numa área um pouco maior do que o Amapá, o que significa mil pessoas dividindo o mesmo quilômetro quadrado (no Brasil, são 23 habitantes/km2).

A pobreza é outra característica do país: 43% da população vivem com menos de 1,25 dólar por dia. Segundo dados de 2013, a renda per capita é de 1.044 dólares, enquanto a média mundial é de quase 8 mil. No Índice Global da Fome, Bangladesh está entre os dez piores países, sendo a falta de diversidade na dieta um dos principais problemas. A nação também está entre os cinco países com maiores chances de sofrer desastres naturais. Todos os anos, enchentes, ciclones e maremotos arrasam cidades e matam milhares de pessoas.

Mesmo com esse cenário, a Igreja Adventista está há mais de 100 anos em Bangladesh. No entanto, os desafios ainda são enormes. Sendo realista, a igreja tem pouco menos de 10 mil membros ativos, mesmo que conste com mais de 30 mil na secretaria. Se faltam adventistas, não faltam alegria e música por aqui.

Com mais de 92% da população adepta ao islamismo, menos de 1% de cristãos e muitas restrições à pregação do evangelho, o adventismo enfrenta obstáculos para crescer. Por causa da renda per capita tão baixa, a igreja não consegue sequer manter três ou quatro pastores que se formam a cada ano. Bangladesh possui quatro Missões e uma União, mas sobrevive com subsídios da Divisão local, Associação Geral e doações esporádicas de estrangeiros.

Os adventistas representam apenas 0,019% da população bengali: são supostos 30.115 membros distribuídos em 129 igrejas. A grande maioria dos membros não conhece muito da Bíblia. Na luta diária pela sobrevivência, investem pouco tempo à oração e estudo da Palavra, que são fundamentais para o crescimento sadio da fé cristã.

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Por meio de projetos sociais e na área de saúde, a ADRA Bangladesh tem ajudado a mudar a vida da população. No Índice Global da Fome, o país está entre os dez piores. A falta de diversidade na dieta é um dos principais problemas. Foto: arquivo pessoal / Landerson Serpa

O país faz parte da Janela 10/40, região em vivem 66% da população mundial, e que corresponde a 33% da área do planeta, compreendendo 62 países. Bangladesh, cujo governo insiste em dizer que é laico, está na lista das 50 nações mais intolerantes aos cristãos, o que torna muito difícil a vida dessa minoria.

No campo das possibilidades, a educação tem sido uma das principais frentes de atuação da igreja em Bangladesh. Com um total de 150 escolas, incluindo sete internatos, a igreja trabalha bastante para ajudar a comunidade local, atendendo 9.085 alunos. Mas os desafios são grandes. Apenas um internato consegue se manter por conta própria. O mesmo ocorre com as 13 escolas nas cidades, apenas uma não representa prejuízos financeiros para a igreja. As outras 137 escolas são as chamadas village school (escolas de vilas), que não possuem prédios próprios e as aulas são ministradas nas casas dos pastores.

A Igreja Adventista tem um papel muito importante a exercer nesse país: ser luz em meio às trevas. Por isso, cada adventista de Bangladesh deve se apegar ainda mais a Cristo, e permitir que ele o transforme diariamente a fim de que a missão de Deus avance nesse país desafiador. Ore por Bangladesh e pela Janela 10/40.

Landerson Serpa Santana é pastor e trabalha para a ADRA Bangladesh (com colaboração de Ketlin Brito e Kevin Dantas)

Cultura ou Escritura?

O grande teste da fé é se manter fiel à Bíblia quando ela contraria os valores do nosso tempo

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A declaração de Ellen White de que a Bíblia é “a voz de Deus nos falando […] como se pudéssemos ouvi-la literalmente” (Testemunhos para a Igreja, v. 6, p. 393) é, ao mesmo tempo, confortante e desafiadora.

Ela é facilmente aceita quando a Bíblia diz que “Deus é amor” (1Jo 4:8), que Jesus foi preparar “moradas” para nós (Jo 14:2) e que ele pode “nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1:9).

No entanto, a mesma Bíblia também afirma que os israelitas foram instrumentos divinos para punição dos cananeus (Lv 26:7, 8), que o escravo Onésimo deveria voltar para seu senhor (Fm 12), que as mulheres devem ser “sujeitas” ao marido (Ef 5:22; 1Pe 3:1) e que os “efeminados” não herdarão “o reino de Deus” (1Co 6:10). Para muitos, nisso, a Bíblia entra em choque com os valores mais lógicos e atuais e deixa de parecer a voz de um Deus de amor.

Inclusão e igualdade são hoje ideais hegemônicos. É coerente e atual abrir espaço para as minorias marginalizadas. Defender os direitos femininos irrestritos é politicamente correto. Diante disso, certas declarações bíblicas têm causado constrangimento. As indagações surgem às dezenas:

Por que Deus manteria aliança com os israelitas se eles fizeram “pior” do que os cananeus que haviam contaminado a terra de Canaã (2Rs 21:9)? Não teria essa história sido narrada da perspectiva de Israel, retratando os cananeus como ímpios, quando na verdade os israelitas foram piores do que eles? Por que a escravidão foi tolerada ao longo de séculos sem nenhuma condenação direta? Por que a Bíblia, desde o princípio, não estabeleceu a igualdade entre homem e mulher, combatendo o machismo? Por que a marginalização não foi encarada corajosamente, da mesma forma que Jesus defendeu a mulher adúltera?

Lentes da cultura

Para muitos, a resposta é simples: a verdade bíblica, transmitida pelos autores inspirados, se acomoda às estruturas socioculturais do contexto em que foi escrita. Essa abordagem procura resolver os dilemas causados pelo relato bíblico quando este entra em choque com os valores e a visão de mundo do tempo atual. Para os defensores do ponto de vista da verdade aculturalizada, o relato bíblico da criação, por exemplo, incorpora as ideias mitológicas do tempo de Moisés e a descrição dos costumes sociais reproduz os valores do contexto em questão sem interferir neles. Portanto, essas pessoas defendem que, hoje, o ensino das origens deve substituir as ideias de Moisés pela visão dominante da ciência. Da mesma forma, uma abordagem atual da condição da mulher e dos excluídos deve incorporar o sentimento de igualdade e inclusão predominantes.

Além disso, a valorização da pluralidade na cultura pós-moderna tem fomentado leituras diversas da Escritura, possibilitando a cada grupo social uma teologia específica. Existe a teologia da libertação, que usa a Bíblia para dar voz aos pobres e oprimidos; a teologia feminista, que empreende a defesa da mulher; a teologia negra e a teologia homossexual, em defesa dos marginalizados. Todas essas abordagens partem da suspeita de que há sistemas de dominação na sociedade e que a tarefa da teologia é desmontar tais estruturas sociais e promover a emancipação das diversas classes oprimidas. Henry A. Vikler afirma que “a hermenêutica da suspeita reivindica a tarefa de desmascarar a visão de mundo em que o texto bíblico se apoia, a qual se suspeita ser o suporte dos poderosos em sua opressão sobre os fracos” (Hermeneutics: Principles and Process of Biblical Interpretation, p. 69).

Orientados por esse espírito desconstrucionista, os teólogos dissecam o texto bíblico como se fosse possível estabelecer quando os autores inspirados estão transmitindo uma verdade espiritual e quando estão apenas refletindo a visão de mundo e as ultrapassadas estruturas socioculturais de seu tempo. Decorre daí a centralidade do intérprete em detrimento da autoridade do texto sagrado.

Submissão à Palavra

Contrariamente a essa tendência de elevar o intérprete acima do autor inspirado e de considerar a Palavra de Deus como acomodada à cultura antiga, Cristo endossou “todas as Escrituras” (Lc 24:27), e Paulo declarou que “toda a Escritura é divinamente inspirada por Deus” (2Tm 3:16).

Em defesa da verdade bíblica, Ekkehardt Mueller afirma que “a Palavra de Deus não é cultural nem historicamente condicionada, mas cultural/historicamente constituída”. Apesar de ser transmitida por meio da linguagem humana, “ela transcende a cultura e nos alcança hoje”. Por isso, diz ele, “o que o texto bíblico significava em seu ambiente original é precisamente o que ele significa para nós hoje”, e toda a verdade bíblica precisa ser entendida a partir de “seu significado original” (Compreendendo as Escrituras, p. 113).

Quando os dilemas sociais são analisados no contexto bíblico, deve-se notar que a salvação é o objetivo primordial da revelação divina. Nessa perspectiva, Deus foi capaz de libertar o povo de Israel da escravidão egípcia, quando essa condição comprometia o plano da salvação, mas ele também foi capaz de entregar esse mesmo povo à escravidão novamente, sob as mãos do rei pagão Nabucodonosor, a quem ele chamou de “meu servo” (Jr 25:9). Libertar e escravizar do ponto de vista social são ações subordinadas ao plano da salvação, que é superior e essencial, ficando subentendido que a escravidão decorre do afastamento do plano salvífico de Deus.

Diante das expectativas dos discípulos acerca da restauração do reino de Israel e da libertação do jugo romano, Jesus foi claro em dizer que o reino de Deus estava dentro deles (Lc 17:20, 21). Esse reino espiritual, que liberta do poder do pecado, é a essência do reino da graça inaugurado por Jesus. Mais tarde, antes da descida do Espírito, ele disse que não competia aos discípulos saber o tempo para a implantação do reino da glória (At 1:6, 7), que incluiria libertação social e política de todo tipo de jugo. O objetivo da manifestação e da ação de Deus na história é a salvação de seus filhos.

É notório que Jesus não só frustrou as expectativas emancipatórias imediatas dos discípulos, mas disse que eles seriam perseguidos e maltratados por causa de seu nome (Lc 21:12). Ele deixou sugerido que Roma continuaria soberana e que perseguiria os próprios crentes. E não esboçou nenhum plano de quebrar esse poder, senão no reino da glória. O plano da salvação é prioritário, e essa questão deve ser levada em conta na leitura dos relatos bíblicos envolvendo questões sociais.

A despeito disso, porém, é preciso considerar que a submissão da mulher na Bíblia não é a mesma da cultura machista do mundo. A relação da igreja com Cristo é o modelo da submissão feminina e da autoridade masculina. O escravo na Bíblia também não é o mesmo escravo da história europeia-americana, pois não raro o escravo em Israel preferia ficar com seu senhor quando ele podia ser livre (Dt 15:13-16). Todos os pecadores, por mais socialmente excluídos que sejam, são salvos mediante o arrependimento e abandono do pecado possibilitados pela graça de Cristo.

Nas últimas décadas, os cristãos têm manifestado grande reverência para com as Escrituras. Nunca se leu tanto a Bíblia nem jamais foram vendidas tantas cópias do livro sagrado. No entanto, as Escrituras têm sido lidas mais como um compêndio de autoajuda do que como revelação da verdade divina.

O teólogo britânico John Barton considera que as hermenêuticas pós-modernas “permitem às pessoas atribuir o significado que elas desejam ver nos textos sagrados”. Essa abordagem oferece um modelo de exegese que proporciona às pessoas “bem-estar dentro de suas comunidades”. Segundo ele, na verdade, os crentes pós-modernos não desejam ser desafiados pelo significado do texto bíblico, a despeito do “lugar de honra” que dão à Bíblia (Cambridge Companion to Biblical Interpretation, p. 18).

Teste da fé

O grande teste da reverência para com a verdade bíblica não é quando a Bíblia afirma o que acreditamos, mas quando ela contraria nossas expectativas e convicções mais íntimas. A mesma voz que diz que Jesus pode perdoar nossos pecados também afirma que a igreja não é deste mundo nem deve se acomodar à cultura secular; em vez disso, precisa ser separada.

O teste da fé é quando a Bíblia diz uma coisa que a ciência, com seus métodos, tem demonstrado o contrário. É quando um autor inspirado faz uma afirmação que entra em choque direto com os valores do nosso tempo. Manter essa afirmação inspirada é não apenas uma questão de fé, mas de submissão.

Nisso, a própria Bíblia nos dá inúmeros exemplos. Jó pôde dizer: “ainda que ele me mate nele esperarei” (Jó 13:15). O pequeno Samuel disse: “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve” (1Sm 3:9). A primeira característica da fé é a submissão à voz de Deus.

Vanderlei Dorneles é Doutor em Ciências pela Escola de Comunicação e Artes (USP) e redator-chefe associado na CPB

Não é hora de medir forças

Na guerra dos sexos, a questão não é quem tem o perfil para mandar, e sim para obedecer a Deus

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Uma grande questão estava em jogo. O povo de Israel vinha sendo cruelmente oprimido pelos inimigos durante 20 anos e, depois de clamarem ao Senhor, a resposta veio por meio de uma pessoa bastante improvável para a cultura da época.

Débora mandou chamar Baraque e lhe deu uma ordem. Ele devia reunir 10 mil homens e ir a um determinado monte, pois Sísera, o comandante do exército de Jabim, rei de Canaã, o atacaria. Mas Baraque não deveria ficar preocupado, pois Deus entregaria os inimigos em suas mãos. Baraque acreditou em Débora e seguiu à risca suas ordens. Mas ele fez um pedido: que ela o acompanhasse na batalha. Meio estranho, não é? O que levou um homem experiente, que comandava 10 mil soldados, a fazer um pedido desse? A resposta está em quem era Débora e quais as credenciais que ela portava.

A Bíblia conta que Débora exercia as funções de esposa, mãe, profetisa e líder de Israel na época dos juízes. Deus Se comunicava com ela, e ela transmitia as mensagens ao povo. Literalmente, Débora trabalhava fora, pois costumava ficar sentada embaixo de uma tamareira, onde o povo a procurava para que ela julgasse suas questões. Com uma responsabilidade tão grande pesando sobre si, Débora teria todas as razões do mundo para responder negativamente ao pedido de Baraque. No entanto, surpreendentemente, ela não só aceitou como ainda fez uma profecia: por causa da atitude de Baraque, a honra de capturar Sísera seria transferida a uma mulher. E ela não estava se referindo a si mesma (Jz 4:17-21).

Não se tem registro de outra mulher que tenha exercido um cargo de tanta influência em Israel e que tenha sido tão respeitada pelo povo. Débora vivia um relacionamento íntimo e pessoal com Deus, que a tornava uma pessoa diferenciada. Tinha profunda percepção espiritual, compreendia o motivo da triste situação de Israel e acreditava no que Deus faria por seu povo caso se voltassem para ele. Ela não teve medo de assumir a responsabilidade pela nação e sua motivação estava em servir a Deus e fazer a vontade dele. Não havia reivindicado nem sonhado com essa função, mas aceitou a autoridade que lhe foi concedida pelo próprio Deus para colaborar na libertação de seu povo.

Baraque teve um papel tão importante quanto Débora. Foi ele quem comandou o exército israelita e transmitiu a confiança necessária aos soldados para irem à luta. Seu nome é citado em Hebreus 11 (v. 32) entre aqueles que foram fiéis a Deus e realizaram grandes coisas, como por exemplo ser poderoso na batalha e colocar em fuga exércitos estrangeiros.

Lado a lado

A experiência desses dois personagens parece se encaixar perfeitamente neste texto de Ellen G. White: “Quando se tem a fazer uma grande e decisiva obra, Deus escolhe homens e mulheres para realizá-la, e ela sofrerá o dano caso os talentos de ambas as partes não se aliarem” (Evangelismo, p. 469). Também nos faz refletir sobre o papel que homens e mulheres precisam desempenhar na obra de Deus, se quisermos ver Jesus voltar em nossos dias.

Foi com o objetivo de tornar as mulheres aliadas dos homens e não rivais que, em 1995, a Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia reativou um ministério antigo, que havia surgido em 1898, com uma consagrada mulher norte-americana chamada Sarepta Myranda Irish Henry. Ela se tornou adventista somente nos últimos anos de sua vida e seu trabalho foi elogiado e incentivado por outra grande mulher, que semelhante a Débora, havia aceitado a difícil missão de dar direcionamento ao povo de Deus, transmitindo as mensagens necessárias para este tempo.

Ellen White conhecia os benefícios de trabalhar em parceria e acreditava que nenhum talento deveria ser desperdiçado. Se os homens e mulheres de sua época não tivessem se unido e trabalhado juntos, a Igreja Adventista não teria prosperado. Jesus valorizou o trabalho das mulheres em Seu ministério e o apóstolo Paulo destacou algumas mulheres que foram essenciais na pregação do evangelho. Esse é o padrão divino, porque Deus nunca fez acepção de pessoas. Ao escolher alguém para uma obra especial, Ele sempre considerou a disposição para servir. A questão nunca foi quem tem o perfil para mandar, e sim para obedecer – obedecer à voz de Deus e realizar sua vontade.

Baraque não se importou de obedecer às ordens de uma mulher. Ele sabia quem era Débora e acreditava que Deus a havia escolhido para cumprir uma importante missão. Por causa dessa atitude, Deus pôde usar ambos e a vitória foi garantida.

Ministério da Mulher sul-americano completa 20 anos de existência em 2015. Foto: acervo pessoal / Meibel Guedes

Ministério da Mulher sul-americano completa 20 anos em 2015. Foto: acervo pessoal / Meibel Guedes

Em 2015, o Ministério da Mulher completa vinte anos e, com certeza, existem muitos motivos para comemorar. Milhares de mulheres têm sido atendidas em suas necessidades e hoje têm a possibilidade de uma vida melhor. Mas ainda existem desafios, e nos resta bem pouco tempo. Não é hora de medir forças. Precisamos ser humildes e corajosos para ocupar a posição em que Deus nos colocar. É o Capitão e não o soldado que decide quem deve liderar as fileiras do exército. A vitória já foi garantida por Aquele que hoje nos diz: “Tudo ficará bem, apenas venha comigo…”

Neila Oliveira é graduada em Letras, autora e editora de livros infanto-juvenis na CPB

A unidade é possível se …

… o foco da igreja não estiver excessivamente nas divergências, mas naquilo que nos une: nossa mensagem e missão
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Unidade na diversidade é uma das características que definem a Igreja Adventista do Sétimo Dia em seus 152 anos como um movimento oficialmente organizado. Porém, muitos se perguntam: O que significa essa unidade em nossos dias? Além disso, alguns questionam: Até que ponto permaneceremos unidos enquanto crescemos agregando pessoas e culturas tão diferentes entre si? Como podemos ter opiniões divergentes e ainda nos considerarmos irmãos?

Em 1870, sete anos depois de sua organização, os adventistas reuniam pouco mais de 5 mil pessoas, distribuídas em 179 igrejas, em uma denominação essencialmente norte-americana. A ideia de unidade nesse contexto parecia viável. Como é possível, contudo, falar na unidade de uma igreja que soma quase 19 milhões de membros, espalhados em 216 países, vivendo a fé e os desafios da vida em realidades tão contrastantes? Como manter a unidade doutrinária e administrativa numa realidade tão diversificada e em constante mudança?

Divergências teológicas e administrativas já sacudiram o movimento adventista ao longo das décadas. Em 1888, a doutrina da justificação pela fé e a compreensão do significado da lei no livro de Gálatas dividiam as opiniões. A reorganização administrativa no início do século 20 foi realizada buscando o consenso de diferentes pontos de vista. Na década de 1980, polêmicas teológicas levantadas por Desmond Ford e Walter Rea sacudiram a igreja, questionando pilares distintivos do adventismo como a doutrina do santuário e a inspiração profética de Ellen G. White. Na atualidade, assim como aconteceu nos anos 1990, o debate sobre a ordenação de mulheres ao ministério pastoral divide opiniões.

Em diversas situações de tensão e divergências, muitos viram a igreja prestes a sofrer um cisma ou muito perto de um racha irreversível. Porém, uma igreja levantada por Deus não seria destruída pelo capricho humano. Após as polêmicas de 1888, os adventistas chegaram a uma compreensão muito mais clara da justificação pela fé em sua mensagem profética. A reorganização administrativa deu novo impulso às missões e ao crescimento da igreja. Os questionamentos sobre o santuário e o ministério profético resultaram em profundo estudo bíblico desses temas e colocaram a igreja em um novo patamar de compreensão de pilares de sua mensagem. Não há motivo para acreditar que, com a discussão sobre a ordenação feminina será diferente. Assim como aconteceu no passado, Deus continuará guiando seu povo a uma compreensão mais clara a respeito de temas em debate.

Convergências

Em seu livro The Fragmenting of Adventism, lançado há 20 anos, o ex-redator-chefe da Revista Adventista dos Estados Unidos, William Johnsson, cita alguns fatores que desafiavam a unidade da igreja naquela época e deveriam continuar a desafiar os novos líderes: diferenças de geração, novas mídias, forte crescimento, diversidade de vozes e opiniões, polarização teológica, entre outros pontos. “A igreja nunca mais retornará à relativa calma e ordem dos anos 1960 e 1970”, ele afirma. Na opinião do experiente editor, a saída não está em focalizar excessivamente as divergências, mas buscar a convergência no que é essencial à fé e à missão do povo do advento.

Johnsson sugere o enfoque no que é fundamental: “Somos o povo da esperança – isso é básico, então a segunda vinda de Cristo deve ser central. Somos o povo do sábado – então a lei deve ter destaque, mas colocada sob o prisma da graça. E somos o povo da Bíblia. E um povo com o espírito de profecia. E a mensagem do santuário. E temos uma missão para o mundo. E Deus nos chamou para vivermos como seus filhos, para representá-lo nos últimos dias” (p. 121). “Vamos dirigir nossos esforços para esse objetivo”, ele orienta.

Surgida no século 19, a Igreja Adventista do Sétimo Dia atravessou as turbulências do século 20 e chegou ao século 21 com o desafio de continuar crescendo de maneira integrada, em espírito de unidade. O desafio parece impossível? Porém, todas as conquistas alcançadas até aqui não são fruto das possibilidades humanas, mas resultado do poder de Deus. O mesmo poder continuará atuando enquanto houver homens e mulheres dispostos a cumprir as orientações divinas.

Guilherme Silva é pastor, jornalista e editor de livros na CPB

Água e óleo

O evolucionismo teísta tenta misturar o que é impossível conciliar: Bíblia e evolução

origens

Mudanças editoriais na crença da criação foi um dos itens da agenda da assembleia mundial da igreja nesta segunda-feira, 6 de julho.

Num diálogo, é sempre mais cômodo concordar com o interlocutor. Às vezes, para evitar a discussão, há até quem “concorde” com aquilo de que discorda. Infelizmente, há muitos cristãos – e, mais infelizmente ainda, até mesmo adventistas do sétimo dia – optando por essa via fácil. A fim de evitar o debate, tentam misturar óleo e água, criando um simbionte aberrante; uma teoria que se compõe de péssima ciência com péssima teologia. E ela se chama evolucionismo teísta.

Mas, afinal de contas, por que não seria possível misturar a crença num Deus criador com a teoria da evolução? Por que não admitir que Deus possa ter criado a matéria por meio do Big Bang e dado início ao processo evolutivo? Simples, não? Na verdade, parece simples, mas não é.

Se partirmos da premissa de que Deus é o Criador, mas se utilizou de processos evolutivos para trazer a vida como a conhecemos à existência, a primeira a ser atingida por esse raciocínio “conciliatório” é a Bíblia. Vejamos por quê.

A Palavra de Deus deixa clara nossa responsabilidade diante do Criador. Mas se a espécie humana é o resultado final do acaso e da evolução através das eras cronológicas, temos nós qualquer responsabilidade diante de um poder mais elevado? De acordo com o Dr. Siegfried Schwantes (Colunas do Caráter, p. 205), “que estímulo há para se forjarem caracteres nobres e se praticarem atos heroicos numa filosofia que não reconhece outra lei que não a da selva, nem outra sanção que não a sobrevivência do mais forte?”

Se a espécie humana evoluiu, teria significado o importante conceito “todos são criados iguais”? E como a regra áurea “fazei aos outros o que quereis que vos façam” encontra significado na sociedade, se a “sobrevivência dos mais aptos” tem sido responsável por trazer a humanidade ao seu presente estado de inteligência superior? As duas ideias não parecem ser compatíveis.

Como se pode ver, a teologia bíblica é atingida bem no centro se rejeitarmos o relato da Criação. Importantíssimas doutrinas da Bíblia dependem desse relato. Por exemplo: a Bíblia afirma que a morte ocorreu como resultado do pecado (Gn 2). E na carta de Paulo aos Romanos, lemos que “por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte” (5:12). Mas a evolução ensina que a morte existiu desde o princípio, muito antes que houvesse um ser humano. Em outras palavras: a morte não é resultado do pecado.

Nesse caso, qual é o significado teológico da vida e da morte de Jesus? Paulo diz: “Como pela desobediência de um só homem [Adão] muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência de um só muitos se tornarão justos” (Rm 5:19). Por que precisamos de redenção e libertação? Se não houve um Jardim do Éden, com sua árvore da vida, qual é o futuro que Apocalipse 22 descreve para os remidos? Se as rochas da crosta terrestre já estivessem cheias de restos fossilizados de bilhões de animais, e mesmo de formas hominídeas que pareciam homens, então o próprio Deus é diretamente responsável por ter criado o sofrimento e a morte, não como julgamento pela rebelião, mas como fator integral da sua obra de criação e governo soberano. E isso significa caos teológico!

O quarto mandamento da lei de Deus diz: “Lembra-te do dia do sábado para o santificar, seis dias trabalharás e farás toda a tua obra, mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus […] porque em seis dias fez o Senhor os Céus e a Terra e o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado e o santificou” (Êx 20:8-11). Além de ser um mandamento e um sinal distintivo entre o Senhor e seu povo (Ez 20:20), o sábado comemora a obra criadora de Deus, em seis dias literais. Cristo confirmou esse mandamento guardando-o (Lc 4:16). A Bíblia assegura que na Nova Terra (Ap 21) também será observado o sábado (Is 66:23). Pela teoria evolucionista teríamos que ignorar também esse importante conceito bíblico que é uma evidência de nosso amor ao Criador (Jo 14:15), memorial da criação e selo de obediência e fidelidade a Deus.

Como se pode ver, evolução e criação é uma mistura impossível. A tentativa de conciliação (talvez para se evitar maiores discussões) acaba originando uma teoria amorfa e ilógica. A criação não pode ser provada em laboratório, é verdade. Mas a evolução biológica (especialmente a abiogênese) também não. No fundo, tudo é uma questão de fé. De minha parte, prefiro crer no Deus Criador Todo-poderoso, a crer no acaso e no tempo como fatores “desencadeadores” da vida.

Michelson Borges é jornalista, mestre em Teologia e editor da revista Vida e Saúde na CPB


Saiba +

Entenda o histórico da redação acerca da crença sobre a criação e por que os ajustes editoriais propostos reafirmam a rejeição da igreja ao evolucionismo teísta

O debate por trás de uma declaração

Entenda o histórico da redação acerca da crença sobre a criação e por que os ajustes editoriais propostos reafirmam a rejeição da igreja ao evolucionismo teísta

assembleia-San-Antonio-2015-02.07-creditos-leonidas-guedes-16A assembleia mundial da igreja tem grandes tarefas à sua frente. Além de nomear a liderança da denominação para os próximos cinco anos, os delegados terão que debater uma proposta que muda um pouco a redação da declaração de crença número 6, relacionada à doutrina da criação. A razão para o ajuste é que a linguagem atual do texto é muito abrangente, dando margem para que o evolucionismo teísta seja considerado um dos possíveis métodos usados por Deus para criar a vida na Terra (clique aqui e leia o artigo “Água e óleo”).

Apesar de a Igreja Adventista do Sétimo Dia, desde sua fundação em 1863, acreditar no relato bíblico das origens (Gn 1-11) – história da criação, dia de descanso, e dilúvio – e de valorizar as contribuições positivas do pensamento iluminista, a igreja jamais referendou o evolucionismo teísta. E isso é algo que precisa ficar claro na redação de nossas crenças.

Nesse contexto, uma pergunta que ouço com frequência é: Por que a igreja teria aprovado o texto atual em 1980, na assembleia de Dallas, sendo que essa redação não representa com precisão aquilo em que os adventistas acreditam? A resposta passa pela compreensão do que levou a igreja a preparar uma declaração de crença sobre criação e qual foi o processo usado para isso (clique aqui e leia o artigo “Quem mexeu em nossas doutrinas?”).

Contexto histórico

A igreja surgiu num período histórico (meados do século 19) de grande turbulência epistemológica, ou seja, época em que estava em debate qual fonte de conhecimento (Bíblia ou ciência) deveria ser considerada a autoridade máxima sobre a questão das origens. Após a publicação do livro Origem das Espécies, por Charles Darwin (em 1859), essa busca por uma base segura de conhecimento se intensificou. Isso fez com que muitos cristãos renunciassem à crença de que a Bíblia é uma fonte confiável sobre a criação do Universo, da Terra e da vida. Ainda que Igreja Adventista tenha mantido sua confiança na revelação divina através desses anos, o fato é que a denominação percebeu a necessidade de formular uma lista de crenças fundamentais. O objetivo principal era (e ainda é) informar agências governamentais e outras entidades sobre aquilo em que igreja acredita e o que ensina.

No entanto, entre os anos 1859 e 1980, as listas de crenças fundamentais da igreja não incluíam uma declaração explícita sobre a criação. Isso mudou na manhã de 25 de abril de 1980, quando a assembleia mundial reunida em Dallas, também no Texas, aprovou a atual redação publicada no livro Nisto Cremos.

Oficialmente, a formulação da declaração dessa crença sobre a criação começou no dia 8 de junho de 1978, quando a sede mundial da igreja aprovou uma comissão para coordenar o processo (X-1535). Logo a X-1535 apresentou o primeiro rascunho de uma declaração sobre criação para os líderes da sede mundial. Essa declaração continha algumas das frases essenciais para a teologia cristã em geral, e particularmente para a teologia adventista. Constavam nela expressões como “crônica confiável da criação do mundo”, “em seis dias literais e consecutivos, Deus criou o mundo” e “dilúvio nos dias de Noé.” Nessa fase, e conforme sugerido por W. J. Hackett, a declaração sobre a criação preparada pela X-1535 estava preservando os pontos cruciais do relato bíblico (Review and Herald, 26 de maio de 1977, p. 2).

O trabalho progrediu e, no dia 4 de março de 1979, Bernard Seton trouxe uma nova versão da declaração para a comissão responsável. Satisfeita com o progresso dos trabalhos do grupo da X-1535, a sede mundial sugeriu que W. Duncan Eva enviasse uma cópia da nova lista de crenças fundamentais para a Universidade Andrews, onde os teólogos daquela época poderiam aperfeiçoar as declarações antes de que a lista fosse publicada na Adventist Review (Revista Adventista dos Estados Unidos).

No documento enviado para análise da Universidade Andrews, na primeira coluna estava a lista com as 22 crenças fundamentais usadas entre 1931 e 1980; na segunda coluna, estava a lista das crenças mostrando algumas revisões e os acréscimos; e, na terceira coluna, apareciam as 22 crenças revisadas. Segundo W. Duncan Eva, nesse documento com três colunas, a declaração sobre a criação aparece como a sétima declaração (saiba mais aqui) A diferença entre a declaração que foi para a universidade e a que voltou é bem visível quando comparadas lado a lado:

Tabela 1 – Comparação

X-1535 Proposta enviada para a Universidade Andrews Declaração que retornou da Universidade Andrews
Que o livro de Genesis contém a única crônica inspirada e confiável da criação do mundo; e que Deus, juntamente com Cristo e o Espírito Santo, é o Criador de todas as coisas. Em seis dias literais o Senhor fez o céu e a terra e todos os seres viventes sobre eles, juntamente com seu meio ambiente. O Senhor então estabeleceu o sétimo dia como o sábado, um memorial perpétuo da sua criação completada. O homem foi criado originalmente à imagem de Deus, mas sua queda em pecado por causa da tentação de Satanás no jardim do Éden resultou na deformação progressiva daquela imagem. Isso também levou à desfiguração do trabalho artesanal na criação e ao dilúvio universal nos dias de Noé. Através de Cristo, Deus irá erradicar o pecado e seus resultados do Universo, e no fechamento da História da humanidade, Ele irá restaurar a perfeição da sua criação em um novo Céu e uma Nova Terra (Gn 1:1-26; Sl 33:6-9; Gn 3:1-24; Êx 20:8-11; Gn 6-8; Ap 21:1-7). Deus e? o Criador de todas as coisas e revelou nas Escrituras o relato autêntico de sua atividade criadora. “Em seis dias, fez o Senhor os Céus e a Terra” e tudo que tem vida sobre a Terra, e descansou no sétimo dia dessa primeira semana (Êx 20:11). Assim, ele estabeleceu o sábado como perpétuo monumento comemorativo de sua esmerada obra criadora. O primeiro homem e a primeira mulher foram formados a? imagem de Deus como obra-prima da Criação, foi-lhes dado domínio sobre o mundo e atribuiu-se lhes a responsabilidade de cuidar dele. Quando o mundo foi concluído, ele era “muito bom”, proclamando a glória de Deus. (Gn 1 e 2; Êx 20:8-11; Sl 19:1-6; 33:6 e 9; 104; Hb 11:3).

De acordo com Fritz Guy, a declaração atual (que foi redigida pelo teólogo Larry Geraty) foi deliberadamente preparada sob a premissa de que a igreja têm vários pontos de vista “sobre a história da vida na Terra. Adventistas, cientistas, teólogos, pastores e outros, têm pontos de vista muito diferentes em relação à idade do Universo, do planeta Terra e da vida na Terra” (leia mais sobre o assunto aqui).

Na assembleia mundial, Larry Geraty explicou que a razão que o levou a usar aquela linguagem foi que, em sua opinião, “criação é muito mais extensa do que apenas origens”. Para enfatizar seu ponto, ele argumentou: “Em um parágrafo sobre a Criação, eu gostaria de testemunhar ao mundo que Deus não meramente dá início às coisas para logo em seguida deixá-las prosseguir sozinhas, como os deístas acreditam. Eu gostaria de incluir atividade criativa, o que inclui não só as origens, mas muito mais” (Review and Herald, 24 de abril de 1980, p. 24). Assim, no dia 25 de abril de 1980, e ainda que vários delegados tenham expressado objeções à linguagem usada para descrever a crença da igreja acerca da criação, a declaração foi aprovada. Como resultado, uma iniciativa positiva como a de formular uma crença sobre criação acabou abrindo portas para controvérsias internas sobre as origens.

Preservando o futuro

Felizmente, depois de 35 anos de controvérsias, e com um compromisso reavivado para reafirmar a interpretação literal dos primeiros capítulos de Gênesis, a assembleia mundial da igreja votou, em 2010, na cidade de Atlanta, reformular essa declaração de crença. Os ajustes editoriais que estão sendo propostos em San Antonio deixam claro que os adventistas rejeitam o evolucionismo teísta; que os dias da semana da criação foram literais, com aproximadamente 24 horas cada; que apenas a vida na Terra, e não o Universo, foi especialmente criada recentemente; e que os primeiros capítulos de Gênesis contêm relatos históricos e não mitologia hebraica. Se aprovada, essa nova declaração irá cumprir com o propósito de expressar aquilo que a igreja como organização mantém com respeito aos ensinos da Bíblia.

Sérgio Silva é aluno do programa de PhD em Teologia na Universidade Andrews (EUA)

Avanço na África

O crescimento e as dificuldades da igreja no continente que concentra 38% dos adventistas

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Continente tem 7 milhões de adventistas. Foto: Leônidas Guedes

Como ilustrou o secretário-executivo da sede mundial da igreja, G. T. Ng, se o povo adventista ao redor do mundo formasse uma vila com cem pessoas, 38 delas seriam da África. A força do continente no contexto do adventismo pode ser verificada em outro dado recente. Há poucos meses, a Zâmbia entrou para o seleto grupo de países com mais de um milhão de adventistas (para saber mais sobre o assunto, clique aqui). Com 14,5 milhões de habitantes, a nação do sudeste africano só fica atrás do Brasil, Índia e Estados Unidos.

A comemoração pelo crescimento da igreja na Zâmbia, felizmente não se restringe ao país, é uma tendência em todo o continente, abaixo do deserto do Saara. Em maio, por exemplo, 30 mil pessoas foram batizadas numa grande campanha evangelística no Zimbábue (leia mais aqui), que integrou pregação pública com atendimento gratuito de saúde. O país é vizinho da Zâmbia e já caminha a passos largos para chegar a um milhão de adventistas.

Dividida em três grandes áreas administrativas (divisões), a igreja hoje na África tem 7 milhões de adventistas. E conforme afirmou o pastor Paul Ratsara, presidente da Divisão Sul-Africana Oceano Índico, os líderes têm trabalhado para que na África evangelismo não seja apenas um evento, mas um estilo de vida.

No entanto, pregar o evangelho por lá não é tão fácil quanto possa parecer. Embora os números sejam animadores, a igreja tem enfrentado grandes dificuldades em alguns lugares. Segundo o pastor Osni Fernandes, missionário por seis anos nas ilhas de Cabo Verde, a liderança local muitas vezes é carente de treinamento e material para realizar o trabalho. São muitos os casos em que faltam Bíblias, lições, livros de Ellen White, hinários e folhetos. A igreja africana também reflete a pobreza do continente. De acordo com a revista Global Finance, dos 50 países mais pobres do mundo, 42 estão na África.

Além do mais, o continente africano é um dos mais culturalmente diversos do planeta. Conforme informa o pastor Gilberto Araújo, vice-presidente da Divisão Sul-Africana Oceano Índico e missionário há 28 anos, existem mais de 600 culturas apenas no território dessa divisão que é formada por 20 países. Em regiões como essas, “crescer de forma harmoniosa, mantendo a unidade na fé e na doutrina” é particularmente desafiador.

Mas nem sempre o missionário é chamado para trabalhar diretamente com evangelismo na África, alguns, como pastor brasileiro Matson Santana e sua família, vão para lá a fim de atuar em ministérios de promoção do bem-estar integral. No caso da família Santana, ao trabalharem no Egito com pessoas que possuem deficiências físicas, sensoriais e mentais, eles conseguiram transpor barreiras religiosas, políticas e socioculturais para compartilhar a fé.

Outra realidade do trabalho da África e de qualquer campo missionário transcultural, é que a missão ocorre em mão dupla. Ou seja, ao mesmo tempo em que o missionário procura transformar pessoas e culturas, ele também é impactado. “Conviver com eles e ver de perto o entusiasmo das pessoas, apesar dos muitos problemas que enfrentam”, confessa o pastor Osni, “tem sido uma experiência marcante e positiva em meu ministério”. Aprendizado semelhante tem experimentado o pastor Gilberto Araújo: “posso dizer que esse trabalho me ajudou a manter meu primeiro amor, conservou minha paixão pela salvação de pessoas, ampliou a visão sobre meu campo missionário e tem me ensinado a conviver com pessoas de outras culturas e a desejar estar pronto para o breve retorno de Cristo.”

Glauber Araújo é filho de missionários, cresceu na África e trabalha como editor de livros na CPB. É pastor e mestre em Ciências da Religião


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O modelo de governo representativo e a realização de assembleias têm precedente bíblico

assembleia-San-Antonio-2015-02.07-creditos-leonidas-guedes-4De praticamente cada nação do globo, há representantes dos adventistas do sétimo dia em San Antonio, Texas. Eles vão passar os dias 2 a 11 de julho acompanhando a 60ª assembleia da Associação Geral. O evento, descrito por Sheri Clemmer, uma das suas organizadoras, como uma “reunião campal gigante”, deve receber, além dos 2.570 delegados, mais de 65 mil visitantes nos cultos sabáticos. O encontro irá gerar um impacto missionário na metrópole, que receberá projetos sociais dos adventistas e conhecerá a face multicultural da igreja. No entanto, as principais finalidades da reunião são administrativas e doutrinárias.

Nas assembleias mundiais, são apresentados os relatórios das atividades e do progresso de cada uma das 13 regiões administrativas da igreja (divisões). Os delegados – grupo formado por administradores, pastores, funcionários de linha de frente e membros da igreja – elegem os líderes da sede mundial da igreja e das 13 divisões. Eles também podem decidir mudanças no Manual da Igreja e na redação das crenças fundamentais da denominação (Nisto Cremos). O sistema de assembleias mantém a unidade e a representatividade da igreja e é necessário por causa do modelo administrativo adotado pelos adventistas.

Algumas igrejas cristãs são regidas por um líder carismático, que legisla a ordem e, às vezes, a doutrina da igreja (modelos papista e personalista). Outras mantêm cada congregação local bastante independente em questões de ordem, finanças e costumes (modelo congregacionalista). Já os adventistas mesclaram o sistema episcopal dos metodistas com o modelo presbiteriano de governo. O resultado foi uma estrutura representativa, com uma hierarquia flexível, mas com as decisões sendo tomadas pelas comissões de delegados. Não é uma democracia no sentido de que cada membro pode votar no que a denominação vai crer ou quais práticas vai seguir. Mas harmoniza-se com o ensino bíblico sobre a igreja e com a doutrina do sacerdócio de todos os cristãos.

Portanto, as crenças e procedimentos da igreja não são definidos pelo presidente da Associação Geral e outros líderes eclesiásticos, como alguns podem ser tentados a pensar. As decisões que afetam a igreja como um todo são tomadas por representantes de todo o mundo em assembleias como a que ocorre no Texas.

Sistema já aprovado

O sistema, aparentemente moderno, foi elaborado a partir de princípios seguidos pelos apóstolos. Obviamente, no primeiro século não havia a necessidade de uma estrutura como a de hoje. Mesmo assim, os primeiros cristãos tomaram grandes decisões em assembleias gerais.

Na história narrada em Atos 15, a unidade do cristianismo estava ameaçada por uma difícil questão: a inclusão dos não judeus na igreja. As congregações estabelecidas fora da Judeia enviaram representantes a Jerusalém a fim de arbitrarem o procedimento teologicamente correto quanto ao assunto. A Bíblia fala da diversidade dos representantes: eram “apóstolos e presbíteros” (v. 6). Menciona os relatórios (v. 4) e descreve o debate e a argumentação bíblica do tema (v. 7 a 19). O consenso foi estabelecido e um documento com as resoluções foi publicado e enviado a todas as igrejas (v. 20, 21, 23 a 30). Líderes foram eleitos com a responsabilidade de fazer valer as resoluções do concílio e manter a unidade da igreja (v. 22). Todos esses são procedimentos usuais nas reuniões administrativas da Igreja Adventista.

Apesar da enorme distância no tempo e espaço entre Jerusalém e San Antonio, ambas as assembleias compartilham os mesmos princípios. Assim como o apego à Palavra de Deus manteve a unidade há tanto tempo, é ainda indispensável para preservar a harmonia da igreja. A Bíblia, a base da nossa fé, é também o cimento de nossa unidade denominacional.

Fernando Dias é pastor e editor de livros didáticos na CPB


 

Para saber +

Andrew McChesney, “Surpresas em San Antonio”, em Adventist World, junho de 2015.

George R. Knight, Uma Igreja Mundial (CPB, 2000).

Wendel Lima, “Lições da nossa história”, Revista Adventista, maio de 2013.

Manual da Igreja (CPB, 2010).


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