Prévia do Céu

Com apenas 10 anos de idade, ela visitou a assembleia na Holanda e se encantou com o evento que aumentou seu respeito pela igreja

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Créditos da imagem: Adventist Review

Dizem que a primeira impressão é a que fica. No caso da minha primeira visita a uma assembleia mundial da igreja, foi exatamente o que aconteceu: nunca apagarei da minha memória, ainda que juvenil (na época eu tinha 10 anos), a cena vívida de centenas de pessoas bem vestidas, caminhando para a entrada do pavilhão, com a Bíblia na mão, sob uma enorme faixa, que dizia: Welcome, Seventh-day Adventists! (“Bem-vindos, adventistas do sétimo dia!”).

Sempre me emociona relembrar: a sensação foi uma pálida prévia do que será ver as multidões dos salvos sendo recebidas com um “bem-vindos” de Cristo na Nova Jerusalém.

E é realmente uma sensação de prévia do Céu tudo o que ocorre numa convenção como essa. São dez dias de reuniões administrativas, é verdade, mas até para uma criança é muito esclarecedor ver a igreja em movimento organizacional, usando de bom senso representativo, respeito democrático e dependência de Deus, como acontece em todos os dias da sessão da Associação Geral.

Apesar de o auditório em que ocorreu a assembleia de Utrecht, na Holanda, ser limitado e todos os dias termos que lutar para achar lugar para sentar em família, nada nos tirou a alegria de estar lá! As músicas, as roupas, as línguas, tudo tão internacional e colorido! A emoção de saber quem são os novos oficiais no momento em que são escolhidos, o encontro com “celebridades” adventistas de todo o mundo e, é claro, os inúmeros brindes que você ganha nos estandes de ministérios e instituições, num universo à parte da assembleia e sem fim. Tudo é impressionante!

Para uma menina que cresceu amando a igreja de seus pais, viver dez dias intensos de adventismo internacional foi um privilégio. Depois dessa experiência, passei a ter mais respeito e carinho pelo movimento adventista mundial.

Hoje, 20 anos depois, louvo a Deus pela forma maravilhosa como ele tem dirigido essa igreja desde sua organização. Sei que ele a guiará pela fase mais escura da História, até vermos no Céu nosso Senhor Jesus, não com uma grande faixa de boas-vindas, mas com seus grandes braços abertos para nos levar para casa!

Marisa Ferreira é jornalista, designer gráfico e natural de Portugal. Depois de trabalhar na CPB, ela está se preparando para servir como missionária na Turquia

Avanço na África

O crescimento e as dificuldades da igreja no continente que concentra 38% dos adventistas

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Continente tem 7 milhões de adventistas. Foto: Leônidas Guedes

Como ilustrou o secretário-executivo da sede mundial da igreja, G. T. Ng, se o povo adventista ao redor do mundo formasse uma vila com cem pessoas, 38 delas seriam da África. A força do continente no contexto do adventismo pode ser verificada em outro dado recente. Há poucos meses, a Zâmbia entrou para o seleto grupo de países com mais de um milhão de adventistas (para saber mais sobre o assunto, clique aqui). Com 14,5 milhões de habitantes, a nação do sudeste africano só fica atrás do Brasil, Índia e Estados Unidos.

A comemoração pelo crescimento da igreja na Zâmbia, felizmente não se restringe ao país, é uma tendência em todo o continente, abaixo do deserto do Saara. Em maio, por exemplo, 30 mil pessoas foram batizadas numa grande campanha evangelística no Zimbábue (leia mais aqui), que integrou pregação pública com atendimento gratuito de saúde. O país é vizinho da Zâmbia e já caminha a passos largos para chegar a um milhão de adventistas.

Dividida em três grandes áreas administrativas (divisões), a igreja hoje na África tem 7 milhões de adventistas. E conforme afirmou o pastor Paul Ratsara, presidente da Divisão Sul-Africana Oceano Índico, os líderes têm trabalhado para que na África evangelismo não seja apenas um evento, mas um estilo de vida.

No entanto, pregar o evangelho por lá não é tão fácil quanto possa parecer. Embora os números sejam animadores, a igreja tem enfrentado grandes dificuldades em alguns lugares. Segundo o pastor Osni Fernandes, missionário por seis anos nas ilhas de Cabo Verde, a liderança local muitas vezes é carente de treinamento e material para realizar o trabalho. São muitos os casos em que faltam Bíblias, lições, livros de Ellen White, hinários e folhetos. A igreja africana também reflete a pobreza do continente. De acordo com a revista Global Finance, dos 50 países mais pobres do mundo, 42 estão na África.

Além do mais, o continente africano é um dos mais culturalmente diversos do planeta. Conforme informa o pastor Gilberto Araújo, vice-presidente da Divisão Sul-Africana Oceano Índico e missionário há 28 anos, existem mais de 600 culturas apenas no território dessa divisão que é formada por 20 países. Em regiões como essas, “crescer de forma harmoniosa, mantendo a unidade na fé e na doutrina” é particularmente desafiador.

Mas nem sempre o missionário é chamado para trabalhar diretamente com evangelismo na África, alguns, como pastor brasileiro Matson Santana e sua família, vão para lá a fim de atuar em ministérios de promoção do bem-estar integral. No caso da família Santana, ao trabalharem no Egito com pessoas que possuem deficiências físicas, sensoriais e mentais, eles conseguiram transpor barreiras religiosas, políticas e socioculturais para compartilhar a fé.

Outra realidade do trabalho da África e de qualquer campo missionário transcultural, é que a missão ocorre em mão dupla. Ou seja, ao mesmo tempo em que o missionário procura transformar pessoas e culturas, ele também é impactado. “Conviver com eles e ver de perto o entusiasmo das pessoas, apesar dos muitos problemas que enfrentam”, confessa o pastor Osni, “tem sido uma experiência marcante e positiva em meu ministério”. Aprendizado semelhante tem experimentado o pastor Gilberto Araújo: “posso dizer que esse trabalho me ajudou a manter meu primeiro amor, conservou minha paixão pela salvação de pessoas, ampliou a visão sobre meu campo missionário e tem me ensinado a conviver com pessoas de outras culturas e a desejar estar pronto para o breve retorno de Cristo.”

Glauber Araújo é filho de missionários, cresceu na África e trabalha como editor de livros na CPB. É pastor e mestre em Ciências da Religião


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Pastor conta como é liderar uma igreja multiétnica e centenária no centro de Orlando, na Flórida

Servir a Deus como pastor é um privilégio em qualquer lugar do mundo. Porém, trabalhar em outra cultura é sempre desafiador. Depois dos ajustes da mudança e do estresse que isso traz para a família pastoral, é hora de conhecer a liderança da igreja e ajudá-la a ser funcional. O passo seguinte é tomar conhecimento das necessidades da cultura local e verificar como a Palavra de Deus pode impactar essa realidade. Creio que todos esses são medidas importantes para um ministério pastoral relevante.

cleber-machado-3Em 2012, Deus me chamou para cuidar de uma igreja multiétnica no coração de Orlando, na Flórida (EUA). A Igreja Central de Orlando foi organizada no dia 17 de março de 1890 e, portanto, tem 125 anos de existência. Ao descobrir a história dessa congregação e conhecer os grandes pastores que já passaram por ali, senti-me pequeno diante de tamanha responsabilidade. Foi nesse contexto que entendi melhor o conflito pelo qual Josué passou ao receber o chamado de Deus para liderar o povo e suceder a Moisés (Js 1).

O meu primeiro desafio foi entender as barreiras linguísticas. A igreja está no centro dessa cidade turística e a cada sábado tenho que pregar em duas línguas: inglês e espanhol. Por sua vez, nossa Escola Sabatina opera nesses dois idiomas e em francês. Eu sabia falar inglês antes de assumir a igreja, mas não expressões culturais que apenas são aprendidas com o tempo.

Lembro-me, por exemplo, de uma situação em que, ao pregar, usei uma palavra que poderia ser traduzida como “caipira”. Foi quando todos me olharam com certa apreensão. Ao perceber a reação deles, perguntei se o que estava falando era inadequado e todos balançaram a cabeça positivamente, dando muitas risadas da minha trapalhada cultural. Depois do culto, alguns vieram me explicar que aquela expressão não é negativa em outras regiões dos Estados Unidos, mas soa pejorativa no sudeste do país.

O desafio cultural é grande. A Igreja Central de Orlando é formada por pessoas de 20 países. Cada uma dessas nacionalidades e suas subculturas possuem compreensão e perspectiva de vida diferente, o que acaba resultando em diferentes maneiras de ser igreja. Não é raro membros da igreja falarem para mim: “lá no meu país a gente faz de outro jeito”. Confesso que tenho a mesma tentação, e que muitas vezes já caí nela! Contudo, com o amadurecimento entendi que não se trata de como fazemos aqui ou ali, mas em como podemos encontrar o “assim diz o Senhor” para a realidade local, o que requer muita oração e estudo da Bíblia. Aprender a viver em uma realidade de exílio não é particularidade de nossos dias, mas encontra precedentes no povo de Deus (Jr 29:4-8).

Nesses últimos três anos, trabalhando como missionário e agente de transformação, a grande lição que tenho aprendido é confiar mais em Deus e nos princípios eternos de sua Palavra. Percebi que Deus tem feito muito mais em mim e por mim a partir do momento em que as mudanças me fizeram reconhecer minhas limitações pessoais e culturais. Isso tem sido um grande exercício de fé e humildade, bem como uma ótima oportunidade para aprender a depender mais do Pai (2Cr 7:14).

A grande verdade é que para gerar impacto para o reino de Deus, o fruto do Espírito (Gl 5:22, 23) tem que deixar as páginas do livro sagrado e se tornar a forma como vivemos: amor pelo evangelho a ponto de estar disposto a ser mártir por essa causa; paz em meio ao turbilhão de ideias e complexidade cultural; paciência para ouvir e entender que Deus trabalha em todos de forma diferente; bondade ao responder sensivelmente a quem é diferente de mim; fidelidade para com a Palavra de Deus e; domínio próprio para não oprimir qualquer que seja a cultura– afinal de contas, o chamado de Deus para a igreja é fazer discípulos de todas as nações (Mt 28:18).

Cleber Machado é pastor na Igreja Central de Orlando, na Flórida