Água e óleo

O evolucionismo teísta tenta misturar o que é impossível conciliar: Bíblia e evolução

origens

Mudanças editoriais na crença da criação foi um dos itens da agenda da assembleia mundial da igreja nesta segunda-feira, 6 de julho.

Num diálogo, é sempre mais cômodo concordar com o interlocutor. Às vezes, para evitar a discussão, há até quem “concorde” com aquilo de que discorda. Infelizmente, há muitos cristãos – e, mais infelizmente ainda, até mesmo adventistas do sétimo dia – optando por essa via fácil. A fim de evitar o debate, tentam misturar óleo e água, criando um simbionte aberrante; uma teoria que se compõe de péssima ciência com péssima teologia. E ela se chama evolucionismo teísta.

Mas, afinal de contas, por que não seria possível misturar a crença num Deus criador com a teoria da evolução? Por que não admitir que Deus possa ter criado a matéria por meio do Big Bang e dado início ao processo evolutivo? Simples, não? Na verdade, parece simples, mas não é.

Se partirmos da premissa de que Deus é o Criador, mas se utilizou de processos evolutivos para trazer a vida como a conhecemos à existência, a primeira a ser atingida por esse raciocínio “conciliatório” é a Bíblia. Vejamos por quê.

A Palavra de Deus deixa clara nossa responsabilidade diante do Criador. Mas se a espécie humana é o resultado final do acaso e da evolução através das eras cronológicas, temos nós qualquer responsabilidade diante de um poder mais elevado? De acordo com o Dr. Siegfried Schwantes (Colunas do Caráter, p. 205), “que estímulo há para se forjarem caracteres nobres e se praticarem atos heroicos numa filosofia que não reconhece outra lei que não a da selva, nem outra sanção que não a sobrevivência do mais forte?”

Se a espécie humana evoluiu, teria significado o importante conceito “todos são criados iguais”? E como a regra áurea “fazei aos outros o que quereis que vos façam” encontra significado na sociedade, se a “sobrevivência dos mais aptos” tem sido responsável por trazer a humanidade ao seu presente estado de inteligência superior? As duas ideias não parecem ser compatíveis.

Como se pode ver, a teologia bíblica é atingida bem no centro se rejeitarmos o relato da Criação. Importantíssimas doutrinas da Bíblia dependem desse relato. Por exemplo: a Bíblia afirma que a morte ocorreu como resultado do pecado (Gn 2). E na carta de Paulo aos Romanos, lemos que “por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte” (5:12). Mas a evolução ensina que a morte existiu desde o princípio, muito antes que houvesse um ser humano. Em outras palavras: a morte não é resultado do pecado.

Nesse caso, qual é o significado teológico da vida e da morte de Jesus? Paulo diz: “Como pela desobediência de um só homem [Adão] muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência de um só muitos se tornarão justos” (Rm 5:19). Por que precisamos de redenção e libertação? Se não houve um Jardim do Éden, com sua árvore da vida, qual é o futuro que Apocalipse 22 descreve para os remidos? Se as rochas da crosta terrestre já estivessem cheias de restos fossilizados de bilhões de animais, e mesmo de formas hominídeas que pareciam homens, então o próprio Deus é diretamente responsável por ter criado o sofrimento e a morte, não como julgamento pela rebelião, mas como fator integral da sua obra de criação e governo soberano. E isso significa caos teológico!

O quarto mandamento da lei de Deus diz: “Lembra-te do dia do sábado para o santificar, seis dias trabalharás e farás toda a tua obra, mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus […] porque em seis dias fez o Senhor os Céus e a Terra e o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado e o santificou” (Êx 20:8-11). Além de ser um mandamento e um sinal distintivo entre o Senhor e seu povo (Ez 20:20), o sábado comemora a obra criadora de Deus, em seis dias literais. Cristo confirmou esse mandamento guardando-o (Lc 4:16). A Bíblia assegura que na Nova Terra (Ap 21) também será observado o sábado (Is 66:23). Pela teoria evolucionista teríamos que ignorar também esse importante conceito bíblico que é uma evidência de nosso amor ao Criador (Jo 14:15), memorial da criação e selo de obediência e fidelidade a Deus.

Como se pode ver, evolução e criação é uma mistura impossível. A tentativa de conciliação (talvez para se evitar maiores discussões) acaba originando uma teoria amorfa e ilógica. A criação não pode ser provada em laboratório, é verdade. Mas a evolução biológica (especialmente a abiogênese) também não. No fundo, tudo é uma questão de fé. De minha parte, prefiro crer no Deus Criador Todo-poderoso, a crer no acaso e no tempo como fatores “desencadeadores” da vida.

Michelson Borges é jornalista, mestre em Teologia e editor da revista Vida e Saúde na CPB


Saiba +

Entenda o histórico da redação acerca da crença sobre a criação e por que os ajustes editoriais propostos reafirmam a rejeição da igreja ao evolucionismo teísta

O debate por trás de uma declaração

Entenda o histórico da redação acerca da crença sobre a criação e por que os ajustes editoriais propostos reafirmam a rejeição da igreja ao evolucionismo teísta

assembleia-San-Antonio-2015-02.07-creditos-leonidas-guedes-16A assembleia mundial da igreja tem grandes tarefas à sua frente. Além de nomear a liderança da denominação para os próximos cinco anos, os delegados terão que debater uma proposta que muda um pouco a redação da declaração de crença número 6, relacionada à doutrina da criação. A razão para o ajuste é que a linguagem atual do texto é muito abrangente, dando margem para que o evolucionismo teísta seja considerado um dos possíveis métodos usados por Deus para criar a vida na Terra (clique aqui e leia o artigo “Água e óleo”).

Apesar de a Igreja Adventista do Sétimo Dia, desde sua fundação em 1863, acreditar no relato bíblico das origens (Gn 1-11) – história da criação, dia de descanso, e dilúvio – e de valorizar as contribuições positivas do pensamento iluminista, a igreja jamais referendou o evolucionismo teísta. E isso é algo que precisa ficar claro na redação de nossas crenças.

Nesse contexto, uma pergunta que ouço com frequência é: Por que a igreja teria aprovado o texto atual em 1980, na assembleia de Dallas, sendo que essa redação não representa com precisão aquilo em que os adventistas acreditam? A resposta passa pela compreensão do que levou a igreja a preparar uma declaração de crença sobre criação e qual foi o processo usado para isso (clique aqui e leia o artigo “Quem mexeu em nossas doutrinas?”).

Contexto histórico

A igreja surgiu num período histórico (meados do século 19) de grande turbulência epistemológica, ou seja, época em que estava em debate qual fonte de conhecimento (Bíblia ou ciência) deveria ser considerada a autoridade máxima sobre a questão das origens. Após a publicação do livro Origem das Espécies, por Charles Darwin (em 1859), essa busca por uma base segura de conhecimento se intensificou. Isso fez com que muitos cristãos renunciassem à crença de que a Bíblia é uma fonte confiável sobre a criação do Universo, da Terra e da vida. Ainda que Igreja Adventista tenha mantido sua confiança na revelação divina através desses anos, o fato é que a denominação percebeu a necessidade de formular uma lista de crenças fundamentais. O objetivo principal era (e ainda é) informar agências governamentais e outras entidades sobre aquilo em que igreja acredita e o que ensina.

No entanto, entre os anos 1859 e 1980, as listas de crenças fundamentais da igreja não incluíam uma declaração explícita sobre a criação. Isso mudou na manhã de 25 de abril de 1980, quando a assembleia mundial reunida em Dallas, também no Texas, aprovou a atual redação publicada no livro Nisto Cremos.

Oficialmente, a formulação da declaração dessa crença sobre a criação começou no dia 8 de junho de 1978, quando a sede mundial da igreja aprovou uma comissão para coordenar o processo (X-1535). Logo a X-1535 apresentou o primeiro rascunho de uma declaração sobre criação para os líderes da sede mundial. Essa declaração continha algumas das frases essenciais para a teologia cristã em geral, e particularmente para a teologia adventista. Constavam nela expressões como “crônica confiável da criação do mundo”, “em seis dias literais e consecutivos, Deus criou o mundo” e “dilúvio nos dias de Noé.” Nessa fase, e conforme sugerido por W. J. Hackett, a declaração sobre a criação preparada pela X-1535 estava preservando os pontos cruciais do relato bíblico (Review and Herald, 26 de maio de 1977, p. 2).

O trabalho progrediu e, no dia 4 de março de 1979, Bernard Seton trouxe uma nova versão da declaração para a comissão responsável. Satisfeita com o progresso dos trabalhos do grupo da X-1535, a sede mundial sugeriu que W. Duncan Eva enviasse uma cópia da nova lista de crenças fundamentais para a Universidade Andrews, onde os teólogos daquela época poderiam aperfeiçoar as declarações antes de que a lista fosse publicada na Adventist Review (Revista Adventista dos Estados Unidos).

No documento enviado para análise da Universidade Andrews, na primeira coluna estava a lista com as 22 crenças fundamentais usadas entre 1931 e 1980; na segunda coluna, estava a lista das crenças mostrando algumas revisões e os acréscimos; e, na terceira coluna, apareciam as 22 crenças revisadas. Segundo W. Duncan Eva, nesse documento com três colunas, a declaração sobre a criação aparece como a sétima declaração (saiba mais aqui) A diferença entre a declaração que foi para a universidade e a que voltou é bem visível quando comparadas lado a lado:

Tabela 1 – Comparação

X-1535 Proposta enviada para a Universidade Andrews Declaração que retornou da Universidade Andrews
Que o livro de Genesis contém a única crônica inspirada e confiável da criação do mundo; e que Deus, juntamente com Cristo e o Espírito Santo, é o Criador de todas as coisas. Em seis dias literais o Senhor fez o céu e a terra e todos os seres viventes sobre eles, juntamente com seu meio ambiente. O Senhor então estabeleceu o sétimo dia como o sábado, um memorial perpétuo da sua criação completada. O homem foi criado originalmente à imagem de Deus, mas sua queda em pecado por causa da tentação de Satanás no jardim do Éden resultou na deformação progressiva daquela imagem. Isso também levou à desfiguração do trabalho artesanal na criação e ao dilúvio universal nos dias de Noé. Através de Cristo, Deus irá erradicar o pecado e seus resultados do Universo, e no fechamento da História da humanidade, Ele irá restaurar a perfeição da sua criação em um novo Céu e uma Nova Terra (Gn 1:1-26; Sl 33:6-9; Gn 3:1-24; Êx 20:8-11; Gn 6-8; Ap 21:1-7). Deus e? o Criador de todas as coisas e revelou nas Escrituras o relato autêntico de sua atividade criadora. “Em seis dias, fez o Senhor os Céus e a Terra” e tudo que tem vida sobre a Terra, e descansou no sétimo dia dessa primeira semana (Êx 20:11). Assim, ele estabeleceu o sábado como perpétuo monumento comemorativo de sua esmerada obra criadora. O primeiro homem e a primeira mulher foram formados a? imagem de Deus como obra-prima da Criação, foi-lhes dado domínio sobre o mundo e atribuiu-se lhes a responsabilidade de cuidar dele. Quando o mundo foi concluído, ele era “muito bom”, proclamando a glória de Deus. (Gn 1 e 2; Êx 20:8-11; Sl 19:1-6; 33:6 e 9; 104; Hb 11:3).

De acordo com Fritz Guy, a declaração atual (que foi redigida pelo teólogo Larry Geraty) foi deliberadamente preparada sob a premissa de que a igreja têm vários pontos de vista “sobre a história da vida na Terra. Adventistas, cientistas, teólogos, pastores e outros, têm pontos de vista muito diferentes em relação à idade do Universo, do planeta Terra e da vida na Terra” (leia mais sobre o assunto aqui).

Na assembleia mundial, Larry Geraty explicou que a razão que o levou a usar aquela linguagem foi que, em sua opinião, “criação é muito mais extensa do que apenas origens”. Para enfatizar seu ponto, ele argumentou: “Em um parágrafo sobre a Criação, eu gostaria de testemunhar ao mundo que Deus não meramente dá início às coisas para logo em seguida deixá-las prosseguir sozinhas, como os deístas acreditam. Eu gostaria de incluir atividade criativa, o que inclui não só as origens, mas muito mais” (Review and Herald, 24 de abril de 1980, p. 24). Assim, no dia 25 de abril de 1980, e ainda que vários delegados tenham expressado objeções à linguagem usada para descrever a crença da igreja acerca da criação, a declaração foi aprovada. Como resultado, uma iniciativa positiva como a de formular uma crença sobre criação acabou abrindo portas para controvérsias internas sobre as origens.

Preservando o futuro

Felizmente, depois de 35 anos de controvérsias, e com um compromisso reavivado para reafirmar a interpretação literal dos primeiros capítulos de Gênesis, a assembleia mundial da igreja votou, em 2010, na cidade de Atlanta, reformular essa declaração de crença. Os ajustes editoriais que estão sendo propostos em San Antonio deixam claro que os adventistas rejeitam o evolucionismo teísta; que os dias da semana da criação foram literais, com aproximadamente 24 horas cada; que apenas a vida na Terra, e não o Universo, foi especialmente criada recentemente; e que os primeiros capítulos de Gênesis contêm relatos históricos e não mitologia hebraica. Se aprovada, essa nova declaração irá cumprir com o propósito de expressar aquilo que a igreja como organização mantém com respeito aos ensinos da Bíblia.

Sérgio Silva é aluno do programa de PhD em Teologia na Universidade Andrews (EUA)