Do outro lado do mundo

60% das igrejas de Sidney são étnicas, o que dificulta o evangelismo da amizade numa sociedade altamente secular

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Créditos da imagem: adventist.org.au

O trabalho em outro pais é sempre desafiador e gratificante ao mesmo tempo. O desafio é natural pelo fato de se tratar de terras estrangeiras. A cultura, a língua local e o significado da religião na dinâmica dessa outra sociedade formam, sem dúvida, um cenário que exige preparo e adaptação do missionário.

Na Austrália, não é diferente. Especialmente em Sydney, a maior cidade do país, multicultural e com 4,2 milhões de habitantes. Lá, o hinduísmo, xintoísmo, islamismo e cristianismo convivem lado a lado na Austrália, um país historicamente novo (200 anos desde seu descobrimento pelos ingleses no fim do século 18), cuja população é formada, na maioria, por imigrantes da Europa, Índia, China, Japão, Oriente Médio e Leste Europeu.

Ali, portanto, religião é considerada assunto de fórum íntimo e nunca levado à esfera pública, a fim de que se mantenha um convívio pacífico. A pregação do evangelho encontra uma barreira muito grande, já que a distribuição pública de folhetos, livros ou outros materiais de cunho religioso é proibida e só pode ocorrer mediante a autorização da prefeitura.

Além do aspecto cultural-religioso, a condição socioeconômica também não favorece a evangelização. Sendo um país rico e desenvolvido, muitas pessoas têm boa qualidade e vivem um estilo de vida consumista, secularizado, materialista e existencialista. No entanto, o ser humano é ser humano em qualquer lugar do mundo. Suas necessidades mais profundas por uma vida com significado e transcendência, são universais.

E é no serviço desinteressado, por meio da amizade e na prática diária das virtudes cristãs, que temos encontrado muitas oportunidades para compartilhar Jesus. Sou pastor de uma igreja de fala portuguesa e outra de fala inglesa. A primeira tem uma dinâmica muito parecida com a do Brasil e de Portugal. Enquanto a segunda é mais desafiadora, porque acolhe 15 nacionalidades e falantes de dez idiomas. A ausência de uma cultura uniforme torna muito difícil o visitante se identificar incialmente com a igreja, prejudicando assim o evangelismo da amizade. O ponto é que 60% das igrejas de Sidney são étnicas.

Porém, Deus tem abençoado ricamente nosso trabalho nesses anos no Sul do Pacífico. Seguimos humildemente na confiança de que ele ainda tem muitas bênçãos e oportunidades para a igreja nessa região.

André Vieira é pastor em Sidney, Austrália.

A missão em primeiro lugar no campo mais desafiador

Relatório apresentado por Jairyong Lee, presidente reeleito da Divisão do Pacífico Norte-Asiático, no dia 7, ressaltou os movimentos de plantio de igreja e as iniciativas de missão urbana

Dedicados e prontos: na Coreia do Sul, missionários do Movimento de Missão Pioneira são dedicados para o serviço. Crédito: NSD

Dedicados e prontos: na Coreia do Sul, missionários do Movimento de Missão Pioneira são dedicados para o serviço. Crédito: NSD

A Divisão do Pacífico Norte-Asiático (Nothern Asia-Pacific Division — NSD) atende a China, o Japão, a Coreia do Sul, a Coreia do Norte, a Mongólia e Taiwan, países com uma vasta história e rica herança cultural. Uma vez que quase um quarto da população mundial vive no território da NSD, os desafios missionários são enormes.

Os cristãos constituem apenas 4% da população total de 1,6 bilhão de habitantes. O budismo, o xintoísmo e o confucionismo, bem como outras religiões tradicionais, são profundamente enraizadas na região, ao mesmo tempo em que o secularismo e o materialismo bloqueiam o coração de muitos.

Apesar dessas circunstâncias desafiadoras, ao longo dos últimos cinco anos, o Senhor abençoou sua missão nessa Divisão de muitas maneiras notáveis. Mas somente com o poder do Espírito Santo seremos capazes de cumprir a comissão evangélica no futuro próximo.

Colocando em prática o lema “Missão em primeiro lugar”, funcionários e membros da igreja na Divisão têm dedicado a vida a Deus a fim de avançar a pregação do evangelho por meio da participação em atividades de alcance missionário na própria terra natal e no exterior. Desde a assembleia da Associação Geral de 2010, 77.693 pessoas aceitaram a Jesus Cristo e se uniram à família adventista, totalizando 688.106 membros no território da Divisão em 31 de dezembro de 2014.

Batismo no Japão: novos fiéis entregam a vida a Cristo. Crédito: NSD

Batismo no Japão: novos fiéis entregam a vida a Cristo. Crédito: NSD

Reavivamento espiritual

Ted Wilson, presidente da Associação Geral, visitou a Coreia e o Japão em outubro de 2011 e a China em abril de 2012. Ele pregou mensagens sobre reavivamento e reforma, que trouxeram grandes bênçãos e encorajamento. Durante sua visita, os membros entenderam melhor a importância do reavivamento espiritual e reconsagraram a própria vida à missão de contar aos outros sobre Deus. Os membros da igreja de todo o território da Divisão continuam a se concentrar na necessidade de experimentar reavivamento espiritual pessoal e reforma por meio da Palavra de Deus e da oração fervorosa.

Quando nossos líderes visitaram a China, os líderes da igreja chinesa pediram auxílio por meio de treinamento espiritual de maneira sistemática. A China tem 1,35 bilhão de habitantes, dos quais menos de 4% são cristãos. As igrejas lutam por reavivamento e reforma, e suplicam por capacitação espiritual. A fim de atender essa necessidade urgente, a comissão diretiva da Divisão votou, em maio de 2012, a criação de um centro de treinamento de liderança espiritual na ilha de Jeju, na Coreia. Em 1o de setembro de 2013, a cerimônia de inauguração ocorreu com a presença de Wilson, dos presidentes das Uniões e de cerca de cem membros da igreja.

Em nove meses, foram construídos dois dormitórios, um refeitório, salas de aula e uma casa para o diretor do centro. Desde junho de 2014, grupos de diferentes países, inclusive da China, do Japão, de Taiwan e da Mongólia já receberam uma semana de treinamento espiritual. A partir de 2016, nosso alvo é proporcionar capacitação para um total de 700 a 800 pessoas por ano.

Missão: nossa principal prioridade

A missão é a principal prioridade da Divisão do Pacífico Norte-Asiático. Ela é fortemente enfatizada em todas as atividades da igreja. A fim de inspirar os membros da igreja com o espírito missionário, foi realizado o Congresso Internacional de Missões no centro de convenções internacionais em Jeju, Coreia, em agosto de 2013. Cerca de 4 mil pessoas de todo o território da Divisão participaram com entusiasmo. Muitos líderes proeminentes da igreja, inclusive Ted Wilson e G. T. Ng, secretário-executivo, estavam presentes e inspiraram as pessoas com mensagens poderosas da Palavra de Deus. Com o coração unido, os participantes conversaram, ouviram e refletiram sobre a missão da igreja. Dedicaram tempo orando juntos para pedir o derramamento do Espírito Santo e a união na missão.

Vibração por todos os lados: dedicação da igreja de Nanjing, na China.

Vibração por todos os lados: dedicação da igreja de Nanjing, na China.

Hoje mais de 500 cidades no mundo têm uma população superior a 1 milhão de habitantes. Cento e cinco dessas cidades fazem parte do território da nossa Divisão. Séries evangelísticas do projeto de “Missão Urbana” foram realizadas nas principais cidades da Divisão, começando com “Tóquio 13” no Japão. Tóquio é uma das cidades mais populosas do mundo e foram feitas 42 séries evangelísticas em várias igrejas de lá. A maioria desses pontos de pregação ficaram lotados de gente.

Além de Tóquio, outras 16 grandes cidades foram selecionadas no território da Divisão para a iniciativa de missão urbana. Partilhar a mensagem do breve retorno de Cristo com milhões de pessoas que vivem nas grandes cidades corresponde à maior parte de nosso foco missionário.

Na Mongólia, as reuniões evangelísticas do projeto “Missão Urbana” foram realizadas em 13 lugares da cidade de Ulan Bator, nos dias 5 a 13 de setembro de 2014. No sábado, 13, todos se reuniram em um ponto de encontro central com cerca de 700 pessoas presentes para adorar a Deus. Graças a “UB14”, 130 pessoas foram colhidas para o reino dos céus. A Divisão dará continuidade à ênfase na missão urbana até que todos os habitantes das cidades sejam alcançados com as três mensagens angélicas.

Projetos missionários

No que se refere às atividades missionárias, a Divisão deu início a vários projetos envolvendo pastores e leigos, tanto em países estrangeiros quanto na própria terra.

O Movimento de Missão Pioneira (MMP) é o projeto de plantio de igrejas em territórios de Missão Global da Divisão desde 2002. Ao longo dos últimos 13 anos, 102 pastores e suas famílias deixaram sua terra natal a fim de servir por seis anos como missionários plantadores de igrejas que atravessam barreiras culturais. Alguns voltaram para casa depois de atuar com êxito durante o período de seis anos. Atualmente, 48 missionários MMP plantam igrejas em 16 países, à saber: Japão, Taiwan, Hong Kong, China, Coreia, Mongólia, Congo, Uganda, Tanzânia, Quirguistão, Indonésia, Rússia, Índia, Turquia, Kosovo e Filipinas. Por meio de seu serviço dedicado, foram fundadas 148 congregações, resultando no batismo de 13.935 pessoas.

No projeto “Anjos Dourados”, por sua vez, oito jovens talentosos se voluntariam como cantores missionários por um ano, com o propósito de dar apoio às atividades evangelísticas no território da Divisão. Além de cantar nas séries de pregação, eles visitam as pessoas de porta em porta, fazem amigos e ministram estudos bíblicos. Desde 2004, milhares de pessoas foram tocadas pelo ministério deles e um grande número foi levado para a igreja por intermédio de seu serviço dedicado.

O “Movimento Missionário 1000” (MM1000) continua a treinar e enviar centenas de jovens adventistas todos os anos para muitas partes do mundo. Depois de receber treinamento intensivo por cinco semanas, os jovens dedicam um ano no campo missionário como voluntários. Há 6.588 jovens de 59 países que já participaram do Movimento Missionário 1000 desde 1993. Os frutos de seus esforços incluem 66.099 batismos, 763 igrejas construídas e 1.366 igrejas e grupos fundados em 39 países.

Nem todos são chamados para servir em terras estrangeiras, por isso, o movimento “Suas Mãos em Missão” mobiliza nossos membros a cumprir a missão na própria terra. Desde maio de 2007, 3.771 indivíduos da Coreia, da Mongólia, do Japão, de Taiwan e da China se uniram a esse movimento.

Indo de dois em dois, eles batem nas portas, entregam literatura, cultivam relacionamentos e compartilham o amor de Deus, dedicando dez horas por semana durante três anos para essa missão. Para muitas igrejas, esse método evangelístico tem se mostrado eficaz para ganhar pessoas.

Em 1º de julho de 2011, o Hope Channel começou a ser transmitido. É o 13º canal adventista da China, sendo veiculado pelo satélite Telstar 18. A Hope TV tem mais de 5 mil programas com meia hora de duração sobre saúde, família, culinária, educação, música, bem como sermões e assuntos religiosos. Por meio desses programas de televisão, disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, agora podemos nos aproximar de 1,4 bilhão de pessoas de língua chinesa com a mensagem evangélica. Na Coreia, o Hope Channel começou a ser veiculado pela internet e, em julho, o mesmo aconteceu no Japão.

Centros de influência

O evangelismo nas grandes cidades não é tarefa fácil, porque muitos moradores dos centros urbanos são extremamente influenciados pelo materialismo e o secularismo. A despeito desses desafios, os centros de influência têm desempenhado um papel significativo ao alcançar e mostrar o amor de Cristo às pessoas que habitam nas cidades. Existem centenas de centros de influência no território da Divisão, que estão a serviço de mais de 5 milhões de pessoas por ano. Convidamos muitos a irem a nossos centros de influência e partilhamos com eles o valor de nossos ensinos e do estilo de vida cristão.

A Divisão fundou um Centro Multicultural de Serviços à Família (CMSF) na cidade de Ansan, Coreia, na qual 20% dos 760 mil habitantes são estrangeiros. O CMSF oferece vários serviços, que incluem assistência social, educação e atendimento médico, jurídico e cultural, a fim de ajudar as famílias multiculturais a se ambientarem com maior facilidade à vida na Coreia. Por meio do amor sincero e do compartilhamento da mensagem evangélica, 136 trabalhadores migrantes e membros de famílias multiculturais aceitaram a Jesus Cristo e foram batizados nos últimos cinco anos

Batismo à luz de velas: iluminação suave durante um batismo numa igreja na Mongólia. Crédito: NSD

Batismo à luz de velas: iluminação suave durante um batismo numa igreja na Mongólia. Crédito: NSD

Crescimento institucional

Na Divisão, há 117 organizações e instituições, incluindo universidades e faculdades, escolas de ensino fundamental, hospitais, clínicas, editoras e indústrias alimentícias. Essas instituições cresceram consideravelmente neste quinquênio. Há 1.700 funcionários e 21.510 alunos em nossas instituições de ensino, que abrangem duas universidades, três faculdades, 25 escolas de ensino médio e 22 de ensino fundamental. Todos os anos, vemos a influência da educação cristã por meio do batismo de estudantes que aceitam a Jesus Cristo como seu Salvador pessoal.

Deus também está na direção de nossas instituições médicas, atuando de maneira maravilhosa em 11 hospitais e 20 asilos e clínicas. Mais de 1,9 milhão de pessoas recebem os cuidados médicos dessas instituições todos os anos. Por meio dos esforços dedicados de nossa equipe médica e pela graça de Deus, alguns de nossos hospitais superaram suas dificuldades financeiras. Nossas indústrias alimentícias na Coreia e no Japão fabricam produtos à base de leite de soja e alimentos saudáveis. Os produtos da Sahmyook, na Coreia, e da Saniku, no Japão, têm obtido sucesso cada vez maior e são bem aceitos tanto no mercado local quanto global.

O Senhor tem abençoado graciosamente e enriquecido nossos humildes esforços para que pudéssemos ceifar uma colheita maravilhosa. Ele conduziu nosso povo de maneira poderosa na União-Missão Chinesa, União Japonesa, União Coreana e nos dois campos anexos à Divisão, a Missão da Mongólia e a Associação de Taiwan, a fim de espalharmos as três mensagens angélicas para milhões de pessoas do território de nossa Divisão.

Pelo poder do Espírito Santo

A Divisão atua para cumprir a comissão evangélica em seu vasto território. Os desafios missionários são enormes e parece quase impossível concluir a obra do evangelho com as limitações financeiras e pessoais que enfrentamos. Entendemos, porém, que o trabalho será realizado “não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito”, como disse o Senhor Todo-Poderoso (Zc 4:6).

A despeito de todos os desafios, o Senhor abençoou a Divisão do Pacífico Norte-Asiático de forma extraordinária durante o último quinquênio e nos alegramos ao ver milhares de pessoas preciosas se unindo à igreja todos os anos. Louvado seja Deus! Até Jesus voltar, continuaremos a fazer nosso melhor na disseminação das três mensagens angélicas ao mundo. Ellen White escreveu o conselho inspirado: “Nada temos a recear no futuro, a não ser que nos esqueçamos do caminho pelo qual Deus nos tem conduzido” (Vida e Ensinos, p. 204).

Que o Senhor continue a abençoar sua obra na Divisão do Pacífico Norte-Asiático e ao redor do mundo! Maranata! [Fonte: Adventist ReviewTradução: Cecília Eller Nascimento]

O futuro da missão

Igreja brasileira deve atentar para a diversidade de métodos e para os novos fluxos migratórios

o-futuro-da-missaoEm 2014, pelo décimo ano consecutivo, mais de 1 milhão de pessoas se tornaram adventistas no intervalo de um ano. Esse crescimento fez a denominação atingir a marca de 18,5 milhões de fiéis e ser considerada a quinta maior denominação cristã do mundo, segundo a revista Christianity Today. Diante desses números, a possibilidade de evangelizar as nações e ver o retorno de Cristo em nossos dias parece estar mais próximo hoje do que nunca antes na história.

No entanto, o cenário das missões está sendo afetado por vários fatores que devem influenciar nossas estratégias e métodos de trabalho. São variáveis demográficas, econômicas, políticas, tecnológicas, culturais e religiosas. Esse panorama em mutação inclui as mudanças que têm ocorrido na compreensão e prática do evangelismo nos últimos cinco anos no Brasil. Estamos diante de desafios e oportunidades únicas para a missão.

Visão ampliada

Na medida em que a possibilidade de completar a grande comissão (Mt 28:18-20) se torna uma realidade, os estrategistas de missões estão aprendendo a ver o mundo com outros olhos. Com isso, o paradigma do simples alcance de países e geografias tem sido substituído pelo da evangelização de grupos etno-linguísticos. Textos como o chamado de Deus a Abraão para que ele fosse uma bênção para todas as nações (Gn 12:3) e a visão de João sobre a diversidade cultural da grande multidão de salvos (Ap 7:9) têm ajudado a igreja a enxergar o globo como Deus enxerga: dividido em grupos étnicos, em grego, panta ta ethn?.

Perceber essas nuances da evangelização e colocar o foco nesses grupos têm sido a tendência mais notável e significativa da estratégia missionária da Igreja Adventista na América do Sul nos últimos anos. Ao investir na evangelização de cegos, surdos, ciganos, tribos urbanas, grupos étnicos e segmentos específicos da população, a igreja reconhece a necessidade de diversificar suas abordagens a fim de que o evangelho eterno circunde o globo. O despertamento para esse cenário vem em hora oportuna, porque a missão adventista se vê desafiada a responder a três tendências mundiais que se verificam também no Brasil: urbanização, migração e internacionalização.

Urbanização

Se o adventismo começou na zona rural nos Estados Unidos do século 19, hoje ele é desafiado a comunicar o evangelho eterno para uma audiência do século 21 que majoritariamente vive nas cidades. Se em 1950, havia 83 cidades no mundo com uma população de mais de 1 milhão, hoje são 280, e 14 que excedem 10 milhões.

Ao mesmo tempo em que o contexto urbano exige dos seus habitantes um ritmo acelerado de vida com o foco na sobrevivência e no consumo, as metrópoles são ambientes propícios para novas experiências, inclusive religiosas. São nas grandes cidades também que muitas pessoas podem ser alcançadas de uma só vez. Apesar da aglomeração urbana, as metrópoles não são monolíticas, mas sim um labirinto de comunidades etnicamente distintas e com estratos sociais e econômicos diversificados que desafiam qualquer abordagem tamanho único. Assim, para que o mundo seja evangelizado, as cidades devem ser alcançadas.

Migração

Estima-se que 125 milhões de pessoas vivem fora dos seus países de origem, de forma permanente, e outros como uma força de trabalho temporário. Nos séculos 18 e 19, a migração fluiu de países mais ricos para os mais pobres; agora, o fluxo é de regiões menos desenvolvidas para as mais desenvolvidas. Segundo o jornal El Pais, Quase 57.300 imigrantes ilegais chegaram à Europa só no primeiro trimestre de 2015.

O Brasil também está na rota dos fluxos migratórios. Temos recebido novos trabalhadores de Bangladesh, Gana, Senegal, Haiti e Bolívia, em uma das maiores ondas migratórias já registradas no país. As ruas das principais cidades do Brasil estão cheias de cores, sons e cheiros de dezenas de diferentes culturas asiáticas, andinas, africanas e árabes.

Com isso, já não podemos mais falar em alcançar outras culturas, se negligenciarmos os estrangeiros descrentes que estão do outro lado da rua. Será que estamos atentos à essa nova realidade? Temos recebido os refugiados e imigrantes de braços abertos ou os enxergamos como invasores de nossas igrejas e bairros? Em alguns casos, grupos que são altamente resistentes ao evangelho em seus países de origem, podem ser muito receptivos num ambiente urbano longe de suas raízes. Além disso, o contato intencional com essas comunidades poderia servir de treino para missionários que desejam atravessar o mar e servir em contextos mais desafiadores.

Globalização

Se no passado a rota das missões saia do mundo desenvolvido para o subdesenvolvido, do ocidente para o oriente e do norte para o sul, hoje é de qualquer lugar para qualquer lugar. De acordo com Todd Johnson, professor do Gordon-Conwell Theological Seminary (EUA), dos 400 mil missionários enviados em 2010, 34 mil partiram do Brasil, o segundo país no ranking liderado pelos Estados Unidos com 127 mil missionários enviados.

Uma das portas que se abrem com a globalização é para a participação de escolas, igrejas e agências missionárias em missões de curta duração. Congregações paulistanas como a de Moema e o Unasp, campus São Paulo, têm feito isso por meio de seus estudantes e profissionais voluntários. Apesar dos cuidados que devem ser tomados com esses projetos para que não se tornem meras viagens de turismo ou de intercâmbio cultural, o envolvimento de pessoas nesse tipo de iniciativa só tem aumentado. As vantagens são que as missões de curta duração podem envolver pessoas até então sem treino e experiência ministerial no trabalho de Deus, liberando assim os missionários mais experientes para trabalhos mais específicos. Ao que parece, somente uma grave crise financeira inibiria esse fluxo.

Futuro

Hoje, essas três tendências representam grandes desafios e oportunidades para a Igreja Adventista que não podem ser ignorados. A primeira lição a ser aprendida é que não existe só um método para a evangelização. Com a globalização, precisamos desenvolver abordagens que não ofendam, mas que atraiam diversos povos ao evangelho. Isso significa que atendimento de saúde, aulas de inglês, séries públicas de evangelismo e pequenos grupos que enfatizam o discipulado podem ser métodos úteis para contextos distintos, e não necessariamente para todos os contextos.

Em segundo lugar, o sucesso da empreitada missionária não pode ser medida apenas pelo número de batismos. Numa reunião realizada em 2013, líderes revelaram que a igreja perdeu um em cada três membros ao longo dos últimos 50 anos. Além disso, para cada 100 pessoas que a Igreja Adventista batiza ao redor do mundo, ela perde 43 membros antigos. http://www.christianitytoday.com/gleanings/2013/december/seventh-day-adventists-assess-why-1-in-3-members-leave-sda.html Portanto, o evangelismo bem-sucedido deve deixar de ser mensurado apenas em termos de “números de batismos” ou de quantos “vieram à frente”, mas em crescimento real que se traduz na multiplicação de discípulos.

Felizmente, a missão é a prioridade de Deus, e assim permanecerá até a volta de Cristo. Os desafios que a Igreja Adventista enfrenta podem tornar-se cada vez mais difíceis, mas Deus transcende a todas eles. É nossa crença de que Deus proverá as habilidades e dons necessários para o desafio de alcançar os povos do mundo. Essa é a agenda de Deus; e pode tornar-se cada vez mais a nossa também. A missão é obra de Deus. O mundo é a esfera de sua missão. E a igreja é sua parceira no reino vindouro.

Emílio Abdala é doutor em Ministério pela Universidade Andrews (EUA) e diretor de Missão Global na sede paulista da Igreja Adventista


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Relatório da Divisão Sul-Americana apresentado na assembleia mundial da igreja nesta terça-feira, 7 de julho

 

Luz para o Oriente

As portas que estão se abrindo para o evangelho num país em que a igreja foi clandestina por várias décadas

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Relatório da Divisão do Pacífico Norte-Asiático apresentado na assembleia mundial em San Antonio, nesta terça-feira, 8 de julho, mostrou os avanços e desafios da igreja nesta parte do globo. Foto: Leônidas Guedes

Há alguns meses, minha esposa e eu desembarcamos do outro lado do globo. Levamos alguns dias para superar os efeitos do fuso-horário de mais de dez horas de diferença à frente do Brasil e algumas semanas para iniciar o processo de adaptação gradual às diferenças culturais. Hoje, estamos focados no aprendizado e domínio da língua local, na compreensão da cultura e em desenvolver um planejamento estratégico sustentável de longo prazo. Para tanto, como lição de casa, estudei o histórico da igreja nesse país, as necessidades da sociedade local e como podemos cooperar para a missão de Deus nesse lugar.

Igreja clandestina

A história do adventismo nesse país pode ser dividida em três fases:

1886 a 1949: os primeiros adventistas chegam ao país, encontrando campo fértil e uma grande colheita é testemunhada. Milhares de pessoas receberam estudos bíblicos, inúmeras séries de evangelismo foram organizadas, erigidos hospitais, casa publicadora, centro de formação teológica além de uma sede administrativa com status de Divisão, que coordenava o trabalho no país. Havia também muitos líderes capacitados, estrutura organizacional praticamente consolidada e adventistas maduros e comprometidos.

1950 a 1990: uma dramática série de mudanças políticas fechou as portas do país para a liberdade religiosa: missionários estrangeiros foram expulsos, o evangelismo foi proibido, as propriedades da igreja foram confiscadas e diversos pastores e lideres presos ou executados. A religião passou a ser controlada pelo Estado através de uma entidade secular e a sede da denominação foi realocada fora do país e sem permissão para intervenções diretas, atuando apenas como um órgão consultivo da igreja mundial.

1990 até o presente: através da globalização, o país tem experimentado acentuado crescimento econômico, abertura para valores ocidentais como a cultura de consumo e certa tolerância religiosa, ainda que lenta e progressiva. O fato é que, desde a década de 1990, um novo “despertamento” religioso tem sido testemunhado por aqui. Deus, de alguma forma, não somente preservou os adventistas locais como os multiplicou de 20 mil para 400 mil fiéis. Diversos missionários estrangeiros têm trabalhado cautelosamente no país e existe agora um cenário mais favorável para isso.

Barreiras que se erguem

Os desafios para a missão aqui são muitos, mas destaco os maiores. (1) estruturais, a repressão religiosa liderada pelo Estado impediu a ação organizacional da igreja. Consequentemente, desde 1949 a igreja no país opera no modelo “congregacionalista”, pastores (em grande maioria leigos) têm total autonomia sobre dízimos, espaços de culto, formas litúrgicas e o ensino das crenças; (2) teológico e doutrinário: o “congregacionalismo” contribuiu para a formação de “versões do adventismo”, cada qual com seu pacote doutrinário e liberdade para realizar a ordenação sem quaisquer critérios bíblicos. Há também poucos pastores com formação teológica (estima-se menos de 250) o que faz com que as igrejas existentes sejam em geral superficiais em sua apresentação da verdade bíblica e até pouco atrativas para os visitantes.

(3) resistência cultural às mudanças. O país possui uma história milenar de guerras, fome, caos e conflitos por poder, que mataram, somente no último século, mais de 90 milhões de habitantes. Portanto, quaisquer tentativas de mudanças bruscas na cultura ou na igreja ascendem a luz de alerta geral na mente dos nativos; e (4) domínio da língua local. Muito distinta das línguas ocidentais, aprendê-la é um desafio. Porém, apesar do pouco tempo de conivência no país, minha esposa e eu já conseguimos compreender o que as pessoas falam e expressar ideias básicas.

Portas que se abrem

Vejo que as oportunidades são maiores do que os desafios. A principal porta que se abre aqui é a percepção dos adventistas locais de que eles precisam de ajuda estrangeira. Meio caminho andado para um missionário! Muitos membros são realmente sedentos pela verdade e extremamente comprometidos com a missão. Talvez falte orientação.

Como áreas de atuação, penso que o tripé – educação, saúde e pregação – utilizado por Jesus e valorizado pela Igreja Adventista pode responder às necessidades imediatas deste lugar. O ensino superior é avançado no país, mas a educação fundamental é precária e muitas crianças não possuem acesso às escolas. Em função dessa demanda, instituições particulares dirigidas por adventistas locais têm permissão de funcionamento e chegam até a empregar missionários estrangeiros como professores. Com o apoio da igreja mundial, o seminário teológico foi reaberto no país. Ainda que em fase embrionária, essa escola é a esperança de formação de novos líderes.

A área da saúde também é bem desenvolvida no país, porém, pouca atenção é dada à orientação preventiva. Por isso, padrões de higiene e de alimentação são até mesmo precários. Existem muitos casos de malária, DSTs e cárie. Há, portanto, um grande campo a ser explorado nesse sentido. Finalmente, o plantio de igrejas a partir de discípulos locais capacitados tem sido uma das molas propulsoras da missão no país. Além de congregações, diversos centros de influência têm sido estabelecidos para atender com eficiência as necessidades da população e atraí-las para Jesus.

Primeiros passos

Temos atuado aqui junto ao seminário, procurando dar suporte organizacional e disciplinas como Inglês. Um centro de influência foi aberto em parceria com os estudantes do seminário, oferecendo atividades educacionais para crianças e jovens: aulas de música, idiomas e tutoria em atividades escolares. Tudo isso para facilitar a construção de relacionamentos significativos e promover a formação de pequenos grupos em que a Bíblia possa ser aberta e estudada com segurança.

A principal e mais urgente atividade está no discipulado de líderes locais, procurando suprir as demandas deles por conhecimento bíblico e teológico básico, capacitação e promovendo a integração da igreja local com as orientações da denominação em nível mundial. Não sem razão, o trabalho tem sido mais fácil com as novas gerações de adventistas, porque estão mais abertos ao ensino e não carregam consigo tantos temores do passado como os mais velhos. Prova disso, é que recentemente um grupo nos procurou e pediu que os treinássemos para que plantassem igrejas. Ficamos profundamente tocados com isso, pois oramos nessa direção por algum tempo.

Nossas perspectivas aqui são bastante animadoras. A cada dia Deus tem nos ensinado a depender dele para as mais simples decisões e nos dado a alegria de participar do plano missionário que ele tem para a humanidade perdida. Da mesma forma, o companheirismo sincero desses queridos filhos de Deus que temos conhecido aqui têm nos feito ansiar mais pelo grande encontro da família dos redimidos.

Enquanto procuramos cumprir esses propósitos do Senhor por aqui, oramos para que mais ceifeiros decidam deixar o celeiro e vir para os campos, pois eles já estão brancos para a ceifa (Jo 4:35, ACF). Por favor ore pelo trabalho aqui, auxilie o campo mundial com suas ofertas específicas e, se você sentir seu coração ardendo enquanto lê esse relato, considere sinceramente a possibilidade de Deus o estar chamando para se engajar na missão transcultural. Se você tomar essa decisão, avance com fé e Deus se encarregará do restante.

G. é graduado em Administração, pós-graduado em Missiologia e tem um mestrado em Ciências Sociais.

A igreja diante do espelho

No segundo dia da assembleia mundial que acontece em San Antonio, no Texas (EUA), a igreja faz uma autoanálise

Na sexta-feira, dia 3 de julho, a assembleia de delegados e demais participantes da igreja mundial se voltou para o espelho. Ela olhou para seu corpo, percebeu o quanto ele aumentou nos últimos anos, mas também o quanto ele poderia estar mais saudável. Nos relatórios apresentados por G. T. Ng, secretário da Associação Geral, e David Trim, diretor do departamento de Arquivos, Estatísticas e Pesquisa da Associação Geral, a assembleia de delegados teve a oportunidade de enxergar o adventismo mais globalmente. Identificaram-se tendências que desenham nosso futuro. Na agenda, a apresentação do relatório da Secretaria foi seguido pelas perguntas e final aprovação dos delegados.

Missão nas entrelinhas

assembleia-San-Antonio-2015-02.07-creditos-leonidas-guedes-13Para se afastar da frieza dos números, o pastor G. T. Ng  fez uma apresentação das estatísticas “no contexto da igreja”, segundo destacou. Introduziu o relatório, relembrando William Spicer (1865–1952), que teve uma relação forte com a missão. Após voltar de seu serviço missionário na Inglaterra, ele foi eleito como diretor do Conselho das Missões Estrangeiras, órgão criado em 1889.  Três anos depois, Spicer foi enviado à Índia como o único pastor ordenado numa das regiões mais populosas do planeta. Retornando aos Estados Unidos, foi eleito secretário e, mais tarde, presidente da Associação Geral.

T. Ng descreveu Spicer como um entusiasta da missão. Na Conferência Geral de 1913, já como presidente da sede mundial, Spicer se referiu ao fato de que aquela era a primeira reunião da Igreja Adventista com a presença de delegados de outras partes do mundo. Em discurso visionário, Spicer afirmou: “O que o profeta contemplou em visão na ilha de Patmos vemos com nossos olhos hoje, a última mensagem do evangelho eterno voando para toda terra e nação, trazendo a (colheita) predita num povo que guarda “os mandamentos de Deus e que tem a fé em Jesus” (The General Conference Bulletin, 38a Sessão, 16 de maio de 1913, vol. 7, n. 1).

Na época de Spicer, o crescimento e a internacionalização do adventismo já era um processo irreversível. Nesse período, a América do Norte contava com 50 mil membros, segundo Ng; hoje a denominação-movimento conta com 18,5 milhões de membros. Se alguns países e continentes foram representados na Assembleia de 1913, neste ano, representantes de 168 países se encontraram no Alamodome.

O pastor Ng destacou que o ano de 2014 estabeleceu um marco no crescimento numérico da igreja. Nele, acresceram à igreja mais de 1,16 milhão de membros, considerando-se que, no início do último quinquênio (2010), a igreja tinha cerca de 16,9 milhões de membros. Nos últimos 10 anos, a igreja recebeu 6,6 milhões de membros. Para completar o quadro, a denominação contava, em 2014, com 78.810 igrejas e 69.213 grupos. Somente em 2014, foram organizadas 2.446 igrejas, o que representa uma média de 6,7 igrejas fundadas por dia, ou uma igreja sendo plantada a cada 3 horas e 58 minutos.

O ano de 2014, segundo Ng, foi o maior em número de batismos, de congregações plantadas, o 10° ano consecutivo em que foi registrado um acréscimo de mais de um milhão de fiéis e o 12° ano consecutivo em que mais de 2 mil igrejas foram estabelecidas.

Norte e Sul

Porém, o quadro mais revelador da Igreja Adventista está em sua representatividade socioeconômica, que tem profundas implicações. Considerando-se a classificação Norte-Sul global, que separa os países desenvolvidos dos países pobres ou em desenvolvimento, é importante localizar a presença da maior parte dos membros da igreja. A resposta, segundo G. T. Ng, é que esmagadores 92% estão no Sul global, anúncio que foi seguido por uma salva de palmas no auditório. O que impressiona nesse número não é que o Sul global seja a grande maioria na igreja, mas que ele já é a maioria absoluta.

Se a Igreja Adventista fosse uma vila de 100 pessoas, em 1960, ela seria composta por 27 pessoas da América do Norte, 20 da América Latina, 19 da África, 16 da Europa, 14 da Ásia e 4 da Oceania, de acordo com Ng. Em 2014, a vila tem outra configuração: 38 pessoas da África, 32 da América Latina, 19 da Ásia, 7 da América do Norte, 2 da Europa e 2 da Oceania. A implicação direta dessa diferença representativa indica uma forte tendência de que os irmãos africanos e latino-americanos tenham uma participação cada vez maior na determinação dos rumos da igreja. Esse fenômeno já é perceptível, basta observar quantos africanos têm se dirigido ao microfone nas reuniões administrativas (business sessions). O mesmo se percebe na presença de oficiais do Sul socioeconômico na liderança da igreja mundial.

Se a Igreja Adventista fosse uma vila, essa seria a proporção de membros por região do mundo.

Se a Igreja Adventista fosse uma vila, essa seria a proporção de membros por região do mundo.

O quadro objetivo nos faz refletir sobre elementos subjetivos. A igreja do mundo desenvolvido mostra tendências mais inovadoras, progressistas, enquanto a igreja do Sul se mostra mais apegada aos “marcos antigos” (Pv 22:8), mais conservadora? Seria isso apenas uma diferença cultural? Essa diferença precisa implicar uma polarização, uma contraposição? Será que o adventismo do mundo desenvolvido se conformaria com as resoluções aprovadas pelos adventistas do mundo em desenvolvimento? Será que desenvolvimento cultural e material é sinônimo de desenvolvimento espiritual-eclesiástico? Será que a própria Bíblia foi culturalmente condicionada?

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A igreja está presente em 215 países dos 237 reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Essas são questões sobre as quais a igreja tem refletido. Por isso, a tônica desta assembleia mundial é a unidade num sentido mais abrangente – não apenas uma unidade oficial, mas a unidade de fé e de práticas, a unidade no Espírito Santo e no amor de Deus. Delegados de todas as partes do mundo demonstram uma preocupação com essa questão. Mark Finley, em seu sermão feito na noite de sexta-feira, apelou com lágrimas e voz embargada, mas com muita energia, que a igreja esteja unida em missão. Finley lembrou que os discípulos “eram diferentes, mas Deus os uniu”.

Perdas dolorosas

T. Ng alegrou a delegação mundial com sua apresentação criativa e espirituosa das estatísticas da igreja, mas não deixou de mencionar o número que sempre nos entristece: o dos que deixaram a Igreja. Então, foi projetada no telão a imagem de um balde cheio de água, mas que estava cheio de furos, representando a “síndrome do balde que vaza” (The Leaky Bucket Syndrome). Para se ter uma ideia, entre 2010 e 2014, houve uma perda de 60% dos membros na igreja mundial; enquanto que, de 2000 a 2014, a perda foi de 48%. Após algumas palavras de reflexão e encorajamento, o secretário executivo concluiu sua fala apelando à igreja para que algo seja feito para confrontar essa realidade.

Foi inevitável que o sabor doce dos números do crescimento da igreja tenha, em parte, se tornado amargo pelas notícias sobre os milhões que deixaram a denominação nos últimos anos. Momentos mais tarde, filas de delegados se formariam diante dos microfones para expor dúvidas, preocupações e sugestões sobre as perdas na igreja. A mais significativa delas, de que o crescimento está diminuindo com o passar dos anos. Hoje a igreja cresce cerca de 1,8% ao ano, menos da metade do crescimento verificado anos atrás.

O relatório de G. T. Ng foi oportunamente complementado por David Trim. Ele destacou que, no último quinquênio, a igreja mundial realizou uma série de auditorias minuciosas da contagem de membros, constatando que, “em muitos casos, o número de membros foi superestimado”. Segundo ele, os processos de auditoria da igreja são essenciais, acima de tudo, por uma questão moral, de apego à veracidade dos fatos.

Uma evidência da necessidade de ajustes na Secretaria está no número de mortes entre os adventistas, segundo Trim. Enquanto estudos indicam que a média mundial de mortes entre os adventistas é de 3,39 para cada mil membros (contra 8,55 entre não adventistas), os relatórios indicam que a  Secretaria felizmente tem se tornado cada vez mais precisa no controle do número de membros (de uma mortalidade de 2,67/1.000, passou para um número mais realista de 3/1.000). Um dos fatores para essa precisão, segundo Trim, foi a adoção, em 2012, do software da Secretaria da Igreja, o qual tinha sido desenvolvido e aplicado na Divisão Sul-Americana.

Os processos eletrônicos permitem um registro e uma atualização mais fidedigna do número de membros da igreja. “Estatísticas acuradas não são um fim em si mesmo. Elas devem servir para a missão”, afirma Trim. Registros fidedignos permitem saber que ovelhas estão dentro e fora do aprisco e desenvolver projetos para ir em busca delas.

Na tarde da sexta-feira, a igreja analisou suas finanças apresentadas pelo tesoureiro da Associação Geral, Robert Lemon, e as aprovou. Lemon ressaltou que, à medida que a igreja se fortalece em várias partes do mundo, os recursos da Associação Geral vão priorizar os países da missão global, da chamada janela 10/40. Esta talvez seja mais uma evidência da nova realidade da Igreja no Sul global: ela está mais forte e menos dependente, mesmo no aspecto financeiro.

Como um organismo, a igreja está em transformação. Isso, por um lado, nos preocupa, mas, por outro, nos anima. A unidade na diversidade não deve ser apenas uma frase bonita, mas um exercício constante em todos os níveis da igreja. Os paradoxos devem servir como estímulo à cooperação e ao crescimento espiritual de todos, individualmente, e da igreja como corpo de Cristo. Essa tem sido a principal mensagem da assembleia de San Antonio. [Diogo Cavalcanti, equipe RA]


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Missão incompleta

Igreja Adventista já é a quinta maior congregação cristã do mundo 

Nas terras de Aladim

Saiba por que a perda do vínculo familiar é o maior desafio e a secularização é a maior oportunidade para a missão no Oriente Médio

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O Oriente Médio é um grande emaranhado de culturas milenares, onde nasceram as três principais religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Várias civilizações dominaram a região que é palco de conflitos quase eternos. Mais recentemente, a região foi tomada por impérios coloniais europeus e o termo Oriente Médio só foi cunhado após a Segunda Guerra Mundial, quando divisas territoriais foram estabelecidas sem levar em conta o histórico dos povos que ali habitam. Resultado: desde então, a região tem vivido em constante tensão entre o modelo de estado e o étnico tribal. Soma-se a tudo isso, as disputas religiosas e políticas.

mapa-da-MENAO que chamamos Oriente Médio é a junção de três grandes áreas geográficas definidas de maneira imprecisa. A primeira região é o Norte da África, formada por nações com grandes desafios sócio econômicos, como a Líbia, Tunísia e Argélia. Por sua vez, o Egito, Jordânia, Israel, Síria, Líbano e Turquia formam a segunda região, chamada de Levante. Marcada por conflitos, essa geografia convive com o constante enfrentamento entre palestinos e israelenses, xiitas e sunitas, além do terror imposto por grupos como Hezbollah e Estado Islâmico.

A terceira região é a do Golfo Árabe ou Pérsico. Aqui ficam as nações mais ricas e algumas das mais secularizadas do Oriente Médio, destino certo para os jovens árabes que buscam trabalho e prosperidade. É nesta região que está, por exemplo, a famosa cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos; a Arábia Saudita, que concentra 20% das reservas de petróleo do planeta; e o Irã, que produz 16% de todo gás natural do mundo.

Apesar de possuir 60% das reservas de petróleo do planeta, as disparidades no Oriente Médio são tremendas. O desemprego entre os jovens, por exemplo, varia entre 48,7% na Líbia e 1,1% no Qatar. As diferenças se espalham por áreas como educação, expectativa de vida e direitos femininos. Porém, o que une a região mesmo, apesar de sua diversidade étnica, é a religião islâmica e língua árabe.

Talvez no imaginário brasileiro, o Oriente Médio ainda seja a terra encantada de Ali Babá, o Gênio da Lâmpada, das Mil e Uma Noites e do Aladim. De fato, essa é a terra dos camelos, desertos, majestosas montanhas rochosas, tapetes, castelos e vilas milenares com seus sheiks, sultões e emirs. O que os contos das arábias não revelam são as condições extremas como temperaturas acima dos 50 graus, escassez de água, alimento limitado, tempestades de areia e constantes guerras ao longo dos milênios. É nessa terra de contrastes que o cristianismo em geral, e o adventismo em particular, encontra um de seus maiores desafios

Desafios

Diversidade étnica. Os maiores grupos são os árabes, berberes, iranianos, turcos, curdos e israelenses. A Igreja Adventista não possui membros em todos esses grupos étnicos e os conflitos constantes forçam a migração dos poucos adventistas nativos. O ódio racial é uma constante tentação aos irmãos desta região marcada por atrocidades. Missionários estrangeiros também enfrentam grandes dificuldades para serem aceitos entre as comunidades nativas, o que dificulta a aprendizagem da língua, costumes e o desenvolvimento de relacionamentos significativos. O estrangeiro é alvo de suspeita, quando não é visto apenas como uma “ponte” para facilitar a migração para a Europa e América do Norte. Em lugares com visão de mundo tribal os relacionamentos são fechados dentro do circulo familiar, que pode facilmente conter milhares de pessoas. Embora o islamismo seja a religião predominante, vivem ali cristãos como os coptas e assírios, além dos judeus em Israel.

Sistema islâmico. Diferentemente do Ocidente, em que a religião é uma área da vida, no Oriente Médio, a influência do islamismo ultrapassa as mesquitas, é um sistema social completo e complexo. Ou seja, em muitos países a religião é indissociável do governo, da política, das leis e das regras sociais. Nesse caso, ser cidadão é ser islâmico. Embora em alguns países o cristianismo seja tolerado por conta da grande quantidade de migrantes, ainda sim a fé cristã não pode ser pregada a muçulmanos e a presença de nativos em cultos de outras religiões é proibida. O proselitismo também é vetado por lei a apostasia da fé islâmica pode ser punida com pena de morte. Porém, ao contrário do que pareça, essas leis rígidas não são a maior barreira para a conversão de muçulmanos, e sim a perda do vínculo famíliar, da identidade étnica e do senso de pertencimento.

Oportunidades

População jovem urbana. Eles são maioria nas metrópoles emergentes da região, ambiente que dificulta a fiscalização religiosa e possibilita a formação de pequenos núcleos de influência cristã. Nesse contexto, os encontros casuais permitem que relacionamentos sejam desenvolvidos de maneira mais natural. Esses jovens urbanos vivem um momento de profunda desilusão, seja com a falta de perspectiva de dias melhores ou pelo tédio da prosperidade excessiva. Enquanto os que conseguem migram para outros países, a maioria permanece e parece aberta a explorar outras narrativas para sua fé.

Crenças adventistas. Islamismo e o adventismo possuem semelhanças quanto à modéstia, alimentação, abstinência de álcool e substâncias tóxicas.

Secularização. Tão combatida no discurso cristão ocidental, no Oriente Médio ela é uma oportunidade para a missão adventista. No contexto urbano, muitos são muçulmanos nominais. Estão insatisfeitos com os desdobramentos políticos, outros são pluralistas e por isso abertos ao diálogo religioso existencial, e ainda alguns notam hipocrisia e incoerência em sua religião. Esse fenômeno deve ser acentuado nos próximos anos com a entrada de muitas cidades da região no circuito mundial de negócios e turismo. Com essa abertura, mais cristãos devem migrar para os países, levando na bagagem o testemunho sobre a fé em Cristo.

Embora os desafios nesta região sejam humanamente intransponíveis e o perigo de conflitos regionais iminente, é claro que Deus está ativo ali, conduzindo a história do Oriente Médio. Contra todas as adversidades, multiplicam-se os relatos de nativos convertidos ao cristianismo, que mantêm sua fé em secreto, e afirmam terem recebido sonhos e visões do próprio Jesus.

Apesar dos desafios e além das possibilidades, está a promessa divina para Isaque – “Aliança eterna para os seus futuros descendentes” – e para Ismael – “Também o abençoarei; eu o farei prolífero e multiplicarei muito a sua descendência” (Gn 17:19, 20). De muitas formas, os olhos de Deus repousam sobre a terra de Aladim, e o Espirito Santo está ativo em missão “reconciliando consigo mesmo mundo” em Cristo Jesus (2Co 5:19).

PAULO CÂNDIDO é doutor em Ministério e missionário no Oriente Médio