Assembleia vota documento que reafirma a confiança dos adventistas nos escritos de Ellen White

Documento foi votado pela assembleia mundial da igreja em San Antonio, Texas (EUA).

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Alterações na redação das crenças fundamentais dos adventistas foram votadas no início da tarde desta terça-feira, 7 de julho. Foto: Leônidas Guedes

Há dez dias do centenário da morte de Ellen G. White, co-fundadora da Igreja Adventista, os 2.570 delegados que representam os 18,5 milhões de adventistas votaram um documento em que reafirmam a confiança da denominação nos escritos da mensageira do Senhor. A decisão foi tomada nesta tarde, dia 7, em San Antonio, no Texas (EUA).

Basicamente, a declaração trata de cinco pontos: (1) reconhecimento de que esse dom é um presente de Deus para seu povo; (2) alegria de ver esse material traduzido e divulgado ao redor do mundo; (3) convicção de que esses escritos foram divinamente inspirados e de que têm valor normativo para a igreja hoje; (4) compromisso de estudá-los e; (5) incentivo para que novas estratégias sejam elaboradas para ampliar o acesso a esse legado, dentro e fora da igreja.

Até o próximo sábado, dia 11, os delegados estarão envolvidos em outros debates e decisões administrativas, doutrinárias e de aplicação prática para a denominação. Leia a seguir a declaração na íntegra.

DECLARAÇÃO DE CONFIANÇA NOS ESCRITOS DE ELLEN G. WHITE

Nós, delegados da assembleia da Associação Geral de 2015 em San Antonio, Texas, expressamos profunda gratidão a Deus pela presença contínua dos diversos dons espirituais em meio a seu povo (1Co 12:4-11; Ef 4:11-14), sobretudo pela orientação profética que recebemos por meio da vida e do ministério de Ellen G. White (1827—1915).

No ano do centenário de sua morte, alegramo-nos porque seus escritos foram disponibilizados ao redor do planeta em muitos idiomas e em vários formatos impressos e eletrônicos.

Reafirmamos nossa convicção de que seus escritos são inspirados por Deus, verdadeiramente cristocêntricos e fundamentados na Bíblia. Em lugar de substituir as Escrituras, eles exaltam seu caráter normativo e corrigem interpretações imprecisas derivadas de tradições, da razão humana, de experiências pessoais e da cultura moderna.

Comprometemo-nos com o estudo dos escritos de Ellen G. White em atitude de oração e com o coração disposto a seguir os conselhos e as instruções ali encontrados. Seja em oração, em família, em pequenos grupos, em sala de aula ou na igreja, o estudo combinado da Bíblia e de seus escritos proporciona uma experiência transformadora e edificadora da fé.

Incentivamos o desenvolvimento continuado de estratégias tanto mundiais quanto locais para promover a circulação de seus escritos dentro e fora da igreja. O estudo de tais escritos consiste em um meio poderoso de fortalecimento e preparo do povo de Deus para a vinda gloriosa de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. [Reportagem: Wendel Lima, equipe RA / Tradução: Cecília Eller Nascimento]

É a Associação Geral a voz de Deus?

A autoridade das assembleias mundiais e a aparente contradição nos escritos de Ellen White

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Sede mundial da Igreja Adventista, localizada em Silver Spring, Maryland (EUA). Créditos da imagem: ANN

Os adventistas do sétimo dia creem que uma assembleia da Associação Geral tem autoridade sobre as principais demandas administrativas, doutrinárias e missionárias da igreja. Esse entendimento está diretamente relacionado à expressão “voz de Deus”, termo usado por Ellen White para se referir à função que as periódicas reuniões mundiais da igreja desempenham.

Umas das declarações mais enfáticas dela a esse respeito é a seguinte: “Quando numa Assembleia Geral é exercido o juízo dos irmãos reunidos de todas as partes do campo, independência e juízo particulares não devem obstinadamente ser mantidos, mas renunciados. […] Deus ordenou que os representantes de sua igreja de todas as partes da Terra, quando reunidos numa Assembleia Geral, devam ter autoridade” (Testemunhos Seletos, vol. 3, p. 408, itálico acrescentado).

A declaração acima é bem clara sobre o posicionamento de Ellen White a respeito da eclesiologia adventista. Segundo ela, o próprio Deus conferiu à assembleia da Associação Geral autoridade sobre os assuntos da igreja mundial e que esses jamais devem ser substituídos por posicionamentos particulares.

No entanto, essa declaração absoluta de Ellen White parece estar em contradição com outros posicionamentos dela. Por exemplo, em 1901, ao se referir à negligência da administração geral da igreja em relação ao trabalho no sul dos Estados Unidos, ela escreveu:

“O povo perdeu a confiança naqueles que administram a obra. Contudo, ouvimos que a voz da Associação [Geral] é a voz de Deus. Cada vez que ouço isso, penso que é quase uma blasfêmia. A voz da Associação [Geral] deve ser a voz de Deus; mas não é, porque alguns ligados a ela não são homens de fé e oração, não possuem princípios elevados. Não buscam a Deus de todo o coração” (Manuscrito 37, 1901, p. 8, [abril de 1901, palestra da Ellen White na capela da editora Review and Herald acerca do trabalho no sul dos Estados Unidos], itálico acrescentado).

A forte crítica acima foi dirigida a alguns líderes da Associação Geral que, segundo ela, não buscavam “a Deus de todo o coração” e centralizavam em si mesmos o poder de decisões, especialmente no que diz respeito ao envio de recursos para regiões a serem alcançadas. Em relação à obra que Edson White desenvolveu no sul dos Estados Unidos, Roos Winkle afirma que, embora a Associação Geral a reconhecesse como responsável pela evangelização dos afro-americanos, “foi em grande parte uma obra autossustentável, teve a aprovação dos líderes da igreja, mas com o apoio financeiro direto mínimo” (The Ellen G. White Encyclopedia, p. 1.181).

Essa negligência de parte do staff da Associação Geral levou Ellen White a criticar fortemente a administração da época e não permitir que houvesse confusão a respeito do que, de fato, deve ser considerado como a “voz de Deus”. Para ela, as decisões daqueles líderes autoritários e sem visão missionária não podiam representar a vontade de Deus (The Ellen G. White Encyclopedia, p. 1255).

Em nenhum momento, nessa passagem e em outras em que crítica semelhante é feita por ela, estão em pauta as decisões de uma assembleia geral, mas, sim, os posicionamentos arbitrários de líderes isolados. A maior parte das críticas contundentes de Ellen G. White à Associação Geral nas quais ela nega que esta seja a “voz de Deus” está relacionada ao modelo administrativo que perdurou na denominação até a reforma de 1901/1903. Seus posicionamentos agudos tinham como propósito encorajar importantes mudanças estruturais na igreja.

De acordo com Winkle, “essas avaliações negativas a respeito da Associação Geral […] não foram substancialmente retificadas até as assembleias gerais de 1901 e 1903. A centralização da autoridade e poder real, combinada com a má gestão financeira e a ausência da voz de Deus refletida em verdadeira espiritualidade na vida de alguns em posições elevadas, foram algumas das razões que ela deu para essas declarações afiadas” (The Ellen G. White Encyclopedia, p. 1255).

Entretanto, Winkle afirma que, no mesmo período em que Ellen White criticou de forma mais intensa a Associação Geral, ela se manteve submissa à administração da igreja. “No que diz respeito a sua mudança para a Austrália em 1891, ela escreveu que não tinha recebido nenhuma ‘clara luz’ se devia ir […], mas seguiu a ‘voz da Associação [Geral]’ (19MR 228). Em 1896, ela escreveu para seu filho Edson: ‘Não tive nenhum raio de luz de que ele [o Senhor] tenha me enviado a este país [Austrália]. Eu vim em submissão à voz da Associação Geral, à qual eu sempre tenho me mantido sob a autoridade’” [1MR 156]. Winkle acrescenta que, após a reforma administrativa de 1901/1903, Ellen White chegou a repreender seu filho Edson por usar seus testemunhos mais agudos, anteriores a 1901, contra a Associação Geral (The Ellen G. White Encyclopedia, p. 1255).

A postura crítica da mensageira de Deus era claramente dirigida contra certas atitudes de alguns líderes que, segundo sua visão, estavam em desarmonia com os princípios da Bíblia e atravancavam o crescimento da igreja. Seu desejo, no fim do século 19 e início do século 20, era de que ocorresse urgentemente uma reforma administrativa, para que o cumprimento da missão se tornasse possível.

Porém, embora sempre reafirmando sua visão contrária a posicionamentos estritamente particulares, ela em nenhum momento negou a autoridade das decisões tomadas em uma assembleia geral. Para deixar isso claro, afirmou:

“Por vezes, quando um pequeno grupo de homens, aos quais se acha confiada a direção geral da obra, tem procurado, em nome da Associação Geral, exercer planos imprudentes e restringir a obra de Deus, tenho dito que eu não poderia por mais tempo considerar a voz da Associação Geral, representada por esses poucos homens, como a voz de Deus. Mas isto não equivale a dizer que as decisões de uma Associação Geral composta de uma Assembleia de homens representativos e devidamente designados, de todas as partes do campo, não deva ser respeitada. Deus ordenou que os representantes de sua igreja de todas as partes da Terra, quando reunidos numa Associação Geral, devam ter autoridade” (Testemunhos Seletos, v.3, p. 408, itálico acrescentado).

Ellen White entendia que a manifestação da vontade de Deus não pode ser possível enquanto opiniões pessoais e apaixonadas têm supremacia na igreja. Suas declarações críticas iam contra posturas particularistas e autoritárias. Ela entendia que o crescimento impunha compartilhamento de responsabilidades e de poder de decisão. Para ela, a igreja é um organismo mundial e não está restrita a uma área do planeta. Em relação aos rumos da igreja, definidos em uma assembleia da Associação Geral, podemos dizer como Davi: “Por toda a terra se faz ouvir a [voz de Deus]” (Sl 19:4).

Vinícius Mendes é pastor, mestre em Literatura e editor de livros na CPB

A voz dos bastidores

A contribuição de Ellen White foi mais consultiva do que prescritiva na assembleia de 1863

Local em que foi realizada a assembleia de 1863. Créditos da imagem: Adventist Review

Local em que foi realizada a primeira assembleia da Igreja Adventista, em 1863. Créditos da imagem: Adventist Review

Por vários motivos, 1863 foi um ano que entrou para a História. Em Londres, começou a funcionar a primeira estação de metrô do mundo, e o futebol foi oficialmente criado. Na Suíça, foi fundada a Cruz Vermelha e, nos Estados Unidos, nasceu o inventor e empreendedor Henry Ford. A guerra civil norte-americana já durava dois anos e chegaria a seu clímax na batalha de Gettysburg.

Mas aquele ano foi decisivo também para o movimento adventista. Em 1863, a Associação Geral foi organizada e Ellen White recebeu a visão sobre a reforma de saúde, duas semanas depois da assembleia. Outros eventos secundários também marcaram aquele período: a definição da postura adventista com relação ao serviço militar, a deserção do pastor Moses Hull (que se tornou espiritualista) e a morte de Henry, o filho mais velho do casal White.

No espaço, 2.200 km separam San Antonio (Texas) de Battle Creek (Michigan); e, no tempo, são 152 anos que distanciam a 60ª assembleia mundial da igreja, com seus 2.570 delegados, da reunião com 20 pessoas que lavrou a certidão de nascimento da denominação. Apesar das distâncias, é possível aprender com os erros, acertos e dificuldades do passado.

O custo da desorganização

Aquela época foi desafiadora para o adventismo. Nas décadas de 1840 e 1850, muitos guardadores do sábado eram resistentes à ideia de organizar uma denominação. Entendiam que as igrejas das quais haviam saído e que tinham rejeitado a mensagem milerita faziam o papel de Babilônia – cidade apóstata e opressora do povo de Deus nos tempos do Antigo Testamento.

Para eles, unir-se sob uma estrutura eclesiástica implicava participar desse sistema corrupto e perder a liberdade religiosa de que desfrutavam. Permanecer como um povo com uma mensagem específica, mas sem nome e sem uma instituição formal parecia ser o melhor caminho. Porém, não demorou muito para essa postura evidenciar suas fraquezas.

Sérias dificuldades resultaram da não organização. O campo de trabalho era muito grande para o número reduzido de pastores, não havia nenhum programa de apoio financeiro aos pregadores e muitos tinham que esgotar os recursos e a saúde numa dupla jornada de trabalho. A falta de uma estrutura organizacional também resultou no surgimento de autodenominados pastores, que pregavam o que bem entendiam, fomentando dissidências e dispersando o rebanho. Para completar a lista de problemas, as propriedades da igreja tinham que ser mantidas em nome de pessoas físicas, o que tornava vulnerável o patrimônio da denominação.

O caminho para a organização

1863-James_and_Ellen_WhiteDesde a década de 1850, Tiago e Ellen White, na contramão da opinião geral, apontavam a necessidade de organização. Em 1852, Ellen teve uma visão que a motivou a publicar, no ano seguinte, um artigo sobre a “ordem evangélica” (Primeiros Escritos, p. 97-100). Diante da insistência de Tiago, dos conselhos de Ellen White e dos grandes desafios enfrentados pelo movimento, aos poucos a consciência em favor da organização foi ganhando espaço, e o quadro de desordem começou a mudar.

Em 1853, os pastores passaram a receber uma espécie de credencial que atestava sua legitimidade. Em 1859, foi adotado um plano de ofertas sistemáticas que depois seria substituído pelo sistema de dízimos e ofertas. Em 1860, foi escolhido o nome da denominação. Em 1861, foi formada a primeira associação, em Michigan, e, no ano seguinte, outras seis associações estaduais seguiram o exemplo.

Porém, faltava ainda um órgão que unificasse as várias associações, estabelecendo ordem e sincronia. Foi o que ocorreu nos dias 20 a 23 de maio de 1863, com a criação da Associação Geral e a formulação de seu estatuto. Além dos delegados, o encontro reuniu membros da igreja local que participaram como observadores. A assembleia foi marcada por profundo espírito de unidade e cordialidade. Na oportunidade, foram eleitos John Byington (presidente), Uriah Smith (secretário) e Eli S. Walker (tesoureiro).

Tanto em 1860, quando o nome “adventista do sétimo dia” foi escolhido, quanto em 1863, na primeira reunião da Associação Geral, Ellen White permaneceu nos bastidores. Embora a influência da profetisa no processo de estruturação da igreja tenha sido significativa, ela não foi impositiva. Nesse contexto, o papel da pioneira foi mais consultivo do que prescritivo: ela nunca deu um nome ao movimento nem especificou qual modelo organizacional a igreja deveria adotar. Somente depois que esses passos haviam sido dados foi que ela se manifestou favoravelmente, aprovando as decisões.

Essa atitude nos ensina uma valiosa lição: nem sempre Deus especifica em detalhes, em sua Palavra ou nos escritos proféticos, o caminho que a igreja deve seguir. O que ele faz muitas vezes é apontar princípios gerais e nos dar autonomia para tomar as melhores decisões fundamentados nesses princípios e submissos a seu Espírito.

Eduardo Rueda e Lucas Diemer são editores dos livros de Ellen G. White na CPB


Para saber +

Arthur L. White, Ellen White: Mulher de Visão (CPB, 2015), p. 65-82;

Herbert E. Douglass, Mensageira do Senhor (CPB, 2009), p. 182-184;

Richard W. Schwarz e Floyd Greenleaf, Portadores de Luz (Unaspress, 2009), p. 83-99;

David Trim, “O espírito de 1863: a primeira assembleia da Associação Geral”, Adventist World, junho de 2015, p. 22-25;

Wendel Lima, “Lições da nossa história”, Revista Adventista, maio de 2003, p. 8-13;

Barry D. Oliver, “The Development of Organization and Leadership Paradigms in the Seventh-day Adventist Church”, Journal of Adventist Mission Studies, v. 3, no 1, 2007, p. 4-28.


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