No país das vuvuzelas

Pastor explica os desafios da missão na África do Sul, país marcado pela segregação racial e culturalmente semelhante ao Brasil

vuvuzelas-creditos-da-imagem-DundasEntre os continentes, a África é o segundo maior em território e em população. É lá que vivem mais de um bilhão de pessoas e cerca de 7 milhões de adventistas, ou 38% dos membros da igreja ao redor do mundo. Adventistas africanos são encontrados em megacidades, povoados e aldeias das três regiões administrativas (Divisões) africanas: com sedes no sul, leste e oeste do continente.

A diversidade da região é impressionante: 2 mil línguas são faladas por 3 mil grupos étnicos. Esse mosaico cultural é uma poderosa influência sobre a forma como os princípios bíblicos são compreendidos e praticados. Como consequência, a proclamação da mensagem adventista de forma clara, significativa e contextualmente relevante para cada grupo étnico torna-se um enorme desafio para missionários, pastores, professores, teólogos e servidores da igreja.

O contexto do país

0707missao-dioi-homeHá quase cinco anos sou missionário na África do Sul. Um país lindíssimo situado no extremo sul do continente e conhecido por sua diversidade de culturas, idiomas e crenças religiosas. A constituição sul-africana reconhece onze línguas como oficiais. Duas delas são de origem europeia: o africâner, um idioma que se originou principalmente a partir do neerlandês (holandês), que é falado pela maioria dos brancos e mestiços sul-africanos; e o inglês, que é a língua mais falada na vida pública e comercial.

Lá, as pessoas são calorosas e se orgulham de sua história, resultado das relações multiétnicas frequentemente conflituosas, mas também da riqueza resultante da mistura entre as culturas europeia, indiana e africana.

Quando se fala em missionários na África do Sul, sabe-se que o primeiro a pisar no cabo da Boa Esperança foi George Schmidt, em 1737; seguido por centenas de outros corajosos, como os aclamados Robert Moffat, em 1820, e David Livingstone, em 1841. Mas as atividades missionárias nesse país começaram bem antes. Em 1486, o rei de Portugal, D. João II, passou o comando de uma expedição marítima a Bartolomeu Dias. A missão era estabelecer relações pacíficas com um lendário rei cristão africano, conhecido como Prester John. Ele tinha ordens também de explorar o litoral da África e encontrar uma rota para as Índias.

O contexto da igreja

O adventismo chegou à África do Sul em julho de 1887, por meio de duas famílias missionárias: C. L. Boyd e D. A. Robinson. Alguns anos antes, William Hunt, um mineiro norte-americano adventista, distribuiu alguns folhetos para Pieter Wessels e George Van Druten, que se impressionaram com a verdade sobre o sábado. A primeira igreja adventista foi organizada por Boyd, em Beaconsfield, Kimberley.

Infelizmente, o apartheid ou o segregacionismo racial e sua influência sobre a Igreja Adventista ainda é e talvez será uma realidade na África do Sul por alguns anos. O apartheid é uma palavra do idioma africâner que significa separação. Foi o nome dado ao sistema político que vigorou no país de 1948 a 1990. Assim como a santificação não é obra de um momento, de uma hora, de um dia, mas de toda a vida, a igualdade racial na África do Sul é um processo que pode durar certo tempo. Afinal, pessoas traumatizadas não são curadas de um dia para outro. Apesar da forte influência segregacionista, a igreja tem crescido e conta com 160 mil membros.

O contexto do meu ministério

Fui com minha família para a África do Sul a fim de servir como pastor em um distrito multicultural de fala portuguesa e inglesa em Johanesburgo, formado por grupos étnicos de Portugal, Angola, Moçambique, Zimbábue, Malaui e Congo. Um dos desafios do ministério em um distrito multicultural é proclamar o evangelho de maneira adequada ao cotidiano do imigrante e, ao mesmo tempo, permanecer fiel aos fundamentos bíblicos e eternos de Deus. Isso ocorre porque as formas tomam significados distintos em cada contexto cultural e o missionário deve estar atento a essas diferenças e ser criterioso para não se deixar influenciar por tradições contrárias à vontade divina.

Um outro desafio é a comunicação verbal e corporal. Nas primeiras semanas de trabalho, cometi uma gafe cultural ao cumprimentar os irmãos à porta da igreja. As mulheres portuguesas são cumprimentadas sempre com dois beijos na face, enquanto que os zimbabuanos apertam as mãos girando-as e deslizando-as até soltá-las lentamente. Em certo sábado, ao me despedir dos membros à porta, tentei dar dois beijinhos nas irmãs zimbabuanas, que se sentiram incomodas; e, em outra ocasião, apertei as mãos das irmãs portuguesas à maneira dos zimbabuanos. Isso causou desconforto para alguns e foi motivo de chacota para outros. Desde então, faço o meu melhor para respeitar essas formas de saudação.

Por sua vez, temos recebidos muitas bênçãos. Uma delas foi o modo como essa congregação adventista de zimbabuanos foi formada. Boa parte desses irmãos eram pentecostais e liderados pelo pastor John Jabulani. Porém, ao Jabulani ouvir sobre a mensagem do advento, espontaneamente trocou a placa da antiga igreja e convidou os fiéis a abraçar a nova fé. Hoje, a congregação tem 250 pessoas e continua crescendo. Amparado por doações, em dezembro, o pastor Jabulani deve concluir seus estudos em Teologia no seminário adventista do Zimbábue.

Como brasileiro, sinto-me feliz e realizado nesse ministério multiétnico. Nossa cultura tem muita influência africana, o que facilita a adaptação dos missionários brasileiros no continente. Por causa das semelhanças culturais, entendo as necessidades, temores e alegrias dos nossos irmãos africanos e também daqueles de formação mais ocidentalizada. Assim, posso servi-los da maneira mais apropriada.

Oro para que muitos jovens do nosso Brasil continuem sonhando e se preparando para servir a Deus por alguns meses ou anos na África. E para que novos missionários ofereçam um pouco de si para as pessoas queridas desse continente com tanta diversidade, que tem enormes desafios e que necessita urgentemente do amor de Jesus. [Créditos da imagem: Dundas]

Dioi Cruz é pastor há cinco anos em Johanesburgo, na África do Sul.

O grande coro no metrô

Editor testemunhou espírito de unidade e respeito pela opinião alheia em duas assembleias mundiais

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Cerca de 60 mil adventistas de 150 países marcaram presença na assembleia mundial de Toronto, no Canadá, em 2000. Imagem: acervo RA

Participar de uma assembleia mundial da igreja é, no mínimo, uma experiência memorável. Tive a oportunidade de estar em duas delas: Toronto (2000) e St. Louis (2005). No Canadá, participei como delegado. Cerca de 60 mil adventistas estiveram presentes. Sob o tema “Quase no lar”, a programação foi transmitida em 40 línguas, para mais de 150 países. Jan Paulsen foi reeleito como presidente mundial naquela ocasião.

Durante dez dias, os delegados se reuniram para discutir uma extensa pauta dos mais variados assuntos, nomear líderes e planejar os programas da igreja para o quinquênio seguinte. Como delegado, chamou-me a atenção o respeito pelas opiniões divergentes. Com esse espírito, tudo foi analisado e depois votado.

A apresentação dos relatórios igualmente me impressionou. Lembro-me do relatório do pastor Paulsen, presidente mundial reeleito, quando disse: “Levamos 100 anos para chegar ao primeiro milhão de membros. E só precisamos de um ano para adicionar o último milhão. Louvado seja Deus!” Ele fez referência ao ano de 1999, quando a igreja batizou 1.090.848 pessoas. Lembro-me também do pastor Ralph Thompson, destacando o fato que 91,6% dos adventistas viviam fora da América do Norte.

Em St. Louis, em 2005, na 58ª Assembleia da Associação Geral, 2 mil delegados e cerca de 30 mil participantes representaram 14 milhões de adventistas espalhados por 203 países. Foi impressionante observar a diversidade de vestimentas. Certa tarde, minha família e eu nos deparamos com um grupo de mães africanas. Minha filha correu ao encontro delas. Ela ficou encantada ao ver aquelas mulheres carregando seus bebês “presos às costas”, envoltos em pano, acomodados em sua capulana. Tivemos que tirar muitas fotos!

Entre as várias decisões tomadas, uma merece destaque: o acréscimo da crença fundamental número 11, sob o título “Crescimento em Cristo”, passando a igreja a ter 28 capítulos no livro Nisto Cremos. Houve ainda a escolha de Ella Simmons, primeira mulher eleita vice-presidente da Associação Geral.

O espírito de unidade, as mensagens devocionais e a qualidade da música são lembranças daquela assembleia. Após o culto da última sexta-feira, quando estávamos na estação do metrô, um adventista começou a cantar “Oh! Que Esperança”. De repente, numa espécie de “flash mob”, milhares de vozes se uniram a ele como um grande coral, expressando o mesmo sentimento. Aquele louvor ecoou pelas galerias da estação impressionando a população local. Jamais me esqueci daquele momento, quando então, unidos, expressamos nossa esperança no grande dia da redenção final.

Márcio Nastrini é pastor de longa experiência ministerial, editor associado das revistas Ancião e Ministério, além de editor da lição da Escola Sabatina dos Jovens

Do outro lado do mundo

60% das igrejas de Sidney são étnicas, o que dificulta o evangelismo da amizade numa sociedade altamente secular

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Créditos da imagem: adventist.org.au

O trabalho em outro pais é sempre desafiador e gratificante ao mesmo tempo. O desafio é natural pelo fato de se tratar de terras estrangeiras. A cultura, a língua local e o significado da religião na dinâmica dessa outra sociedade formam, sem dúvida, um cenário que exige preparo e adaptação do missionário.

Na Austrália, não é diferente. Especialmente em Sydney, a maior cidade do país, multicultural e com 4,2 milhões de habitantes. Lá, o hinduísmo, xintoísmo, islamismo e cristianismo convivem lado a lado na Austrália, um país historicamente novo (200 anos desde seu descobrimento pelos ingleses no fim do século 18), cuja população é formada, na maioria, por imigrantes da Europa, Índia, China, Japão, Oriente Médio e Leste Europeu.

Ali, portanto, religião é considerada assunto de fórum íntimo e nunca levado à esfera pública, a fim de que se mantenha um convívio pacífico. A pregação do evangelho encontra uma barreira muito grande, já que a distribuição pública de folhetos, livros ou outros materiais de cunho religioso é proibida e só pode ocorrer mediante a autorização da prefeitura.

Além do aspecto cultural-religioso, a condição socioeconômica também não favorece a evangelização. Sendo um país rico e desenvolvido, muitas pessoas têm boa qualidade e vivem um estilo de vida consumista, secularizado, materialista e existencialista. No entanto, o ser humano é ser humano em qualquer lugar do mundo. Suas necessidades mais profundas por uma vida com significado e transcendência, são universais.

E é no serviço desinteressado, por meio da amizade e na prática diária das virtudes cristãs, que temos encontrado muitas oportunidades para compartilhar Jesus. Sou pastor de uma igreja de fala portuguesa e outra de fala inglesa. A primeira tem uma dinâmica muito parecida com a do Brasil e de Portugal. Enquanto a segunda é mais desafiadora, porque acolhe 15 nacionalidades e falantes de dez idiomas. A ausência de uma cultura uniforme torna muito difícil o visitante se identificar incialmente com a igreja, prejudicando assim o evangelismo da amizade. O ponto é que 60% das igrejas de Sidney são étnicas.

Porém, Deus tem abençoado ricamente nosso trabalho nesses anos no Sul do Pacífico. Seguimos humildemente na confiança de que ele ainda tem muitas bênçãos e oportunidades para a igreja nessa região.

André Vieira é pastor em Sidney, Austrália.

Cenáculo moderno

Vinte anos depois, editor da CPB relembra cobertura que fez da assembleia de Utrecht, na Holanda

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Centro de Convenções Jaarbeurs, em Utrecht, na Holanda, onde foi realizada a assembleia mundial da igreja em 1995. Imagem: acervo RA

Em 1995, pela primeira vez, minha esposa e eu tivemos o privilégio de participar, como delegados (eu, também como repórter da Revista Adventista), da 56ª Sessão da Associação Geral, realizada em Utrecht, cidade conhecida como o “coração da Holanda”. Destacado centro comercial e turístico do país, nela se encontram as marcas de um rico passado histórico e de um presente dinâmico.

Participar de uma assembleia mundial da Igreja Adventista é, realmente, uma experiência inesquecível. O fato de nos encontrarmos em meio a uma riquíssima diversidade de culturas, etnias e idiomas, contudo identificados pelas mesmas crenças, os mesmos ideais espirituais e missionários, a mesma bendita esperança de ver Jesus face a face, contribui para que logo nos sintamos uma família – a família de Deus. Agora, tendo a oportunidade de assistir a mais um evento dessa natureza, emergem as lembranças de 20 anos atrás.

Que lembranças guardo de Utrecht? De início, foi inevitável a associação daquele encontro do povo remanescente, durante dez dias, com outro que também aconteceu reunindo os primeiros cristãos, durante dez dias, muito tempo atrás em Jerusalém. Acaso, a unidade característica do primeiro encontro em Jerusalém seria a marca do encontro em Utrecht? O lema da assembleia – “Unidos em Cristo” – era convidativo a esse ideal. Conforme disse o Dr. Benjamin Reaves, então diretor do Colégio Oakwood, em sua mensagem devocional de abertura, o lema era “um insistente imperativo missionário para a igreja. Ele deve ser o sinal pelo qual o mundo possa nos distinguir. Através de nossa união, devemos atrair pessoas a Cristo. Não é suficiente a união teológica, doutrinária e de crenças. Importa que estejamos unidos no amor”.

A pauta das discussões continha temas controvertidos, mas foram debatidos no espírito do lema da assembleia. Senti que o Espírito Santo a tudo dirigia. Ideias eram às vezes apresentadas com muita ênfase, defendidas com ampla liberdade para expressão, mas tudo sob uma atmosfera de respeito cristão. Havia a clara determinação de todos no sentido de que a igreja não fosse desviada de sua rota missionária. Vinte anos mais perto da vinda de Jesus Cristo, não podemos esperar nem desejar menos do que isso.

Ainda me lembro de Meropi Gijka, digno exemplo de fé mantida sob circunstâncias dificílimas. Ela foi alcançada na Albânia, onde floresceu o modelo comunista mais agressivo. Meropi se converteu no início dos anos 1940, graças ao trabalho do pastor Daniel Lewis, e viveu secretamente a fé durante 50 anos em que a religião organizada foi proibida naquele país. Descoberta em 1990 pelo pastor David Currie, entregou-lhe os dízimos guardados durante aquele tempo e, finalmente, pôde ser batizada. Aos 92 anos, ela estava em Utrecht numa cadeira de rodas.

Além de Meropi, estiveram na Holanda mais dois exemplos, entre outros, de que não há barreiras ideológicas nem geográficas para o evangelho de Cristo: Sovanna Puth, primeira adventista batizada no Camboja, depois de 30 anos, e Davaahuu Barbaatar, primeira adventista batizada na Mongólia.

Ouvi o voluntário Fitz Henry, ex-presidiário e, como ele mesmo se definia, “engenheiro profissional, mas pregador por vocação”. Havia levado ao batismo 15.100 pessoas em dez anos, realizando campanhas evangelísticas na América Central.

Testemunhei o vigoroso envolvimento missionário dos jovens, de todas as partes. Ações comunitárias, música, dramatizações e muito mais eram recursos utilizados já naquele tempo com objetivos evangelísticos. E com expressivos resultados.

Estou certo, porém, de que as conquistas relatadas em Utrecht foram nada mais que o prelúdio da grande sinfonia hoje apresentada. A igreja tem feito incomparavelmente mais. Porém, ainda estamos em um mundo cujas transformações acabam afetando a igreja. Por quanto tempo mais? De quantos “dez dias” necessitaremos para reviver a experiência daqueles primeiros “dez dias” do cenáculo em Jerusalém?

Zinaldo Santos é pastor, jornalista e editor da revista Ministério. Zinaldo está em San Antonio, Texas

Novos desafios no velho continente

Pastor explica o que significa liderar igrejas multiétnicas na Europa, onde diferentes culturas e gerações convivem sob o mesmo teto

rickson1Nunca havia pensado em trabalhar no exterior. Na verdade, nem gostava da ideia. Porém, Deus tinha outros planos para mim. Fui tocado para viver essa experiência quando um amigo de quarto no internato me disse que estava indo para a África como missionário. Isso foi em 1997 e nunca mais voltei. Encontrei minha outra metade no campo missionário. Cláudia e eu fomos então tocados por Deus para seguirmos no campo missionário, só não sabíamos onde.

Chegamos à Suíça e pouco a pouco Deus nos mostrou que tinha planos para nós na Europa. Ambos terminamos nossos estudos em Teologia em Collonges-sous-Salève, na França, e trabalhamos sete anos em Paris, onde plantamos duas igrejas. Já estamos há quatro anos servindo na Suíça. Nossos filhos nasceram aqui e em todo esse período fomos apenas três vezes ao Brasil. Mesmo morando em um país desenvolvido, com grande qualidade de vida, somos missionários aqui. Foi por isso que somente em 2014 eu pude, finalmente, apresentar minha esposa e filhos para minha família, depois de 13 anos de casamento. Além do desafio financeiro, criar os filhos na Europa com os valores adventistas é muito mais complicado do que na África ou no Brasil.

Quanto ao evangelismo aqui com brasileiros, a questão não é simples. Primeiramente, porque nenhuma das 28 igrejas de fala portuguesa da Europa é exclusivamente brasileira. Em Genebra, por exemplo, existem muitos portugueses. Em Paris, por sua vez, há fortíssima presença de cabo-verdianos, enquanto em Zurique predominam os latino-americanos. Por isso, essas igrejas étnicas são chamadas de luso-brasileiras ou latinas. É o caso da minha congregação. Além de ter funções administrativas, lidero a Igreja Luso-Hispânica de Neuchâtel. Trata-se de uma pequena comunidade formada por sete nacionalidades (brasileiros, portugueses, colombianos, franceses, cubanos, suíços e venezuelanos) e onde o programa é realizado em três línguas.

rickson3Além da diversidade idiomática e cultural, o segundo desafio é o da tradição eclesiástica. Apesar de acreditarem nas mesmas doutrinas, os membros da minha congregação possuem vivências diferentes de igreja. Nesse contexto, coisas pequenas podem tornar-se debates teológicos acalorados. Soma-se a isso os hábitos eclesiásticos do adventismo europeu que, se for mais ao norte do continente, tende a ser mais “liberal”; enquanto no sul, a tendência é mais “conservadora” ou “tradicionalista”. Acredite, isso pode render uma boa dor de cabeça para um pastor!

A terceira peça na compreensão desse quebra-cabeça é o fator geracional. Os que chegaram adultos na Europa, a primeira geração, e ensinaram a língua portuguesa em casa para os filhos, vão esperar que o programa da igreja seja em português. Enquanto os que educaram os filhos apenas na língua local, vão ter outra expectativa. Mas esse não é o maior desafio quanto à idade. Muitos filhos da segunda geração de migrantes costumam não se identificar com o país de origem dos pais e, às vezes, o que é pior, nem com a igreja e os valores religiosos dos pais. Na melhor das hipóteses, eles participam de uma igreja nativa e, na pior delas, abandonam a fé.

A Igreja Adventista na Europa tem buscado alternativas para essa situação. Um culto na língua local dirigido pelos jovens ou em horário simultâneo ao dos adultos tem sido o caminho mais utilizado. Na verdade, estamos caminhando para ter igrejas de etnia brasileira, mas de fala francesa, alemã ou inglesa. Essa experiência tem sido realizada em Paris com jovens romenos. Se for positiva, poderá servir de modelo para outras congregações do continente.

O quarto e último desafio que percebo é quanto ao futuro do fluxo migratório. Se uma igreja étnica está recebendo constante número de imigrantes, a primeira geração, é provável que ela mantenha características muito semelhantes às da igreja do país do qual essas pessoas migraram. Porém, a situação no país de origem se torna mais vantajosa do que na Europa. A tendência é essa comunidade enfraquecer ou fechar. Essa foi a experiência de uma igreja de imigrantes iugoslavos em Paris. Sem novas pessoas migrando para a região, uma congregação étnica tende a envelhecer e a perder sua segunda e terceira gerações para as igrejas nativas. Por isso, o desafio é a transmissão de valores de uma geração para outra, de modo que, ainda que o estilo da igreja mude, a fé seja mantida.

Concluo dizendo que não é fácil sair do Brasil para viver o adventismo no exterior. Muitas vezes, as pessoas não pensam nas consequências dessa decisão em longo prazo. É claro que a riqueza cultural e a estabilidade político-financeira que os países europeus podem oferecer são muito boas, porém, tem que se pesar os prós e contras. E é nesse contexto que os pastores brasileiros, como missionários, procuram fazer a diferença. Nossas famílias sofrem muito, o trabalho é desgastante e mesmo que você esteja no primeiro mundo, financeiramente você acaba vivendo à margem de uma sociedade nada espiritual.

Por isso, quem trabalha aqui ou deseja vir para cá, precisa ter claro na mente o amor pela missão. Se isso está bem resolvido para o pastor e sua família, os desafios podem ser vencidos, porque eles sabem a quem servem e por que servem. Por favor, ore pelo ministério adventista com imigrantes no lindo continente europeu!

Rickson Nobre é secretário-executivo, diretor do departamento de comunicação e pastor de igreja na Associação Suíça de língua francesa e italiana.


 

Para saber+

Entrevista do pastor Rickson Nobre para a Revista Adventista de novembro de 2009

Conselho Europeu de Língua Portuguesa

Cinco anos na Ucrânia

Nas terras geladas do leste europeu, pioneiro da TV adventista conta como Deus derreteu corações

jonatanEm 2008, fui surpreendido com um convite para trabalhar na Divisão Euro-Asiática da Igreja Adventista. Confesso que nunca havia pensado em trabalhar fora do Brasil. Foi por isso que nos reunimos em família e, depois de orarmos, disse para minha esposa: “se aceitarmos esse chamado, vamos ver e viver coisas que nunca imaginamos e ter uma experiência única.”

Aceitamos o desafio, e no dia 17 de novembro de 2009 chegamos em Kiev, capital da Ucrânia. Embora tenha procurado me informar sobre o país, não sabia muita coisa sobre a região. Assim que chegamos, passamos a trabalhar para transmitir ao vivo uma grande série evangelística a partir da Moldávia. Seria a primeira transmissão ao vivo de uma igreja evangélica naquele país.

Para começar, já foi uma aventura apenas levar os equipamentos da Ucrânia para a Moldávia. Em certa noite, debaixo de muita neve, chegamos à pequena cidade da fronteira, onde um grupo de irmãos nos esperava. Após orarmos juntos, colocamos cada equipamento em pequenas sacolas para que fossem transportados para o outro lado.

O pastor que me acompanhava e eu, só recebemos o carimbo em nossos passaportes quando já passava das 22 horas. Em território moldávio, continuamos nossa viagem debaixo de forte nevasca. O vidro do carro congelava e mesmo com o aquecimento interno do veículo, a temperatura era muito baixa.

Não havia nenhum carro transitando pela estrada, apenas o nosso. Foi por isso que passei a imaginar o que aconteceria se nosso veículo quebrasse e ficássemos ali no caminho, ao relento, com 18 graus negativos. Perto da meia-noite, paramos em um posto de gasolina, que estava fechado e totalmente às escuras. Logo chegou outro carro e parou à nossa frente. Eram nossos irmãos adventistas que haviam trazido todos os equipamentos.

Fizemos a transferência do material de um carro para outro, oramos novamente e seguimos viagem. Chegamos em Chisinau, capital do país, já depois das 2 horas da madrugada. Aquela seria a primeira vez que enfrentaria um frio tão intenso.

A cada noite da série evangelística, o pastor Peter Kulakov pregou com muito vigor e milhares de pessoas acompanharam suas mensagens na Moldávia e em países como a Ucrânia, Rússia, Bielorrússia, Geórgia, Armênia. Cerca de 3 mil pessoas foram batizadas como resultado desse esforço evangelístico.

jonatan2Confesso que não poderia imaginar como o canal adventista (Hope Channel) cresceria naquela região. Poucos anos depois, a igreja decidiu fazer um pedido oficial para ter uma emissora de TV na Ucrânia. Isso seria algo inédito no país. Nenhuma igreja, nem evangélica, pentecostal, protestante, católica ou ortodoxa tinha essa concessão.

O pastor Veiceslav Demyen foi escolhido para representar a denominação diante de 16 parlamentares. Ele precisava convencê-los de aprovar o pedido da igreja. Ele fez o seu melhor, mas parece que a desconfiança comunista em relação à religião iria prevalecer.

Até que um parlamentar disse: “assisti a um seminário, no passado, em um dos colégios adventistas e foi excelente. Na verdade, acho que eles deveriam fazer um desses seminários aqui no parlamento. Por esse motivo, eu voto favoravelmente ao canal.”

O depoimento dele providencialmente mudou a mente de alguns parlamentares e o grupo decidiu autorizar uma nova defesa para a instalação de um canal religioso no país. O fato é que Deus abençoou de tal forma que o funcionamento da emissora foi autorizado e hoje está no ar via satélite, internet e tevês a cabo, alcançando milhões de pessoas. No tempo em que trabalhei na Divisão Euro-Asiática ainda pude ver outro milagre: a autorização de um canal adventista na Rússia.

Sinto-me feliz e realizado por ver como Deus tem abençoado o trabalho missionário por meio da televisão nessa região. Muitas são as histórias de conversão através desse ministério. Uma delas foi o batismo de dois artistas de TV na Ucrânia: Kiril Andrev e Iuri Sossa. Eles se interessaram pela mensagem adventista e começaram a estudar a Bíblia. Andrev e Sossa deixaram o trabalho na emissora comercial para servir no canal adventista.

Depois de cinco anos trabalhando na Divisão Euro-Asiática, recebi o chamado para iniciar o mesmo ministério na Divisão Centro-Leste Africana, em Nairóbi, no Quênia. As três regiões administrativas da Igreja Adventista na África (divisões) estão trabalhando em conjunto para produzir programas em inglês, francês e outras línguas faladas no continente. O nome desse novo canal é Hope Channel Africa e já estamos trabalhando a todo vapor para que mais e mais pessoas tenham esperança na breve volta de Jesus.

Jonatan Conceição é pastor e foi missionário na Ucrânia até 2014. Desde o início do ano, ele está trabalhando na África

A voz dos bastidores

A contribuição de Ellen White foi mais consultiva do que prescritiva na assembleia de 1863

Local em que foi realizada a assembleia de 1863. Créditos da imagem: Adventist Review

Local em que foi realizada a primeira assembleia da Igreja Adventista, em 1863. Créditos da imagem: Adventist Review

Por vários motivos, 1863 foi um ano que entrou para a História. Em Londres, começou a funcionar a primeira estação de metrô do mundo, e o futebol foi oficialmente criado. Na Suíça, foi fundada a Cruz Vermelha e, nos Estados Unidos, nasceu o inventor e empreendedor Henry Ford. A guerra civil norte-americana já durava dois anos e chegaria a seu clímax na batalha de Gettysburg.

Mas aquele ano foi decisivo também para o movimento adventista. Em 1863, a Associação Geral foi organizada e Ellen White recebeu a visão sobre a reforma de saúde, duas semanas depois da assembleia. Outros eventos secundários também marcaram aquele período: a definição da postura adventista com relação ao serviço militar, a deserção do pastor Moses Hull (que se tornou espiritualista) e a morte de Henry, o filho mais velho do casal White.

No espaço, 2.200 km separam San Antonio (Texas) de Battle Creek (Michigan); e, no tempo, são 152 anos que distanciam a 60ª assembleia mundial da igreja, com seus 2.570 delegados, da reunião com 20 pessoas que lavrou a certidão de nascimento da denominação. Apesar das distâncias, é possível aprender com os erros, acertos e dificuldades do passado.

O custo da desorganização

Aquela época foi desafiadora para o adventismo. Nas décadas de 1840 e 1850, muitos guardadores do sábado eram resistentes à ideia de organizar uma denominação. Entendiam que as igrejas das quais haviam saído e que tinham rejeitado a mensagem milerita faziam o papel de Babilônia – cidade apóstata e opressora do povo de Deus nos tempos do Antigo Testamento.

Para eles, unir-se sob uma estrutura eclesiástica implicava participar desse sistema corrupto e perder a liberdade religiosa de que desfrutavam. Permanecer como um povo com uma mensagem específica, mas sem nome e sem uma instituição formal parecia ser o melhor caminho. Porém, não demorou muito para essa postura evidenciar suas fraquezas.

Sérias dificuldades resultaram da não organização. O campo de trabalho era muito grande para o número reduzido de pastores, não havia nenhum programa de apoio financeiro aos pregadores e muitos tinham que esgotar os recursos e a saúde numa dupla jornada de trabalho. A falta de uma estrutura organizacional também resultou no surgimento de autodenominados pastores, que pregavam o que bem entendiam, fomentando dissidências e dispersando o rebanho. Para completar a lista de problemas, as propriedades da igreja tinham que ser mantidas em nome de pessoas físicas, o que tornava vulnerável o patrimônio da denominação.

O caminho para a organização

1863-James_and_Ellen_WhiteDesde a década de 1850, Tiago e Ellen White, na contramão da opinião geral, apontavam a necessidade de organização. Em 1852, Ellen teve uma visão que a motivou a publicar, no ano seguinte, um artigo sobre a “ordem evangélica” (Primeiros Escritos, p. 97-100). Diante da insistência de Tiago, dos conselhos de Ellen White e dos grandes desafios enfrentados pelo movimento, aos poucos a consciência em favor da organização foi ganhando espaço, e o quadro de desordem começou a mudar.

Em 1853, os pastores passaram a receber uma espécie de credencial que atestava sua legitimidade. Em 1859, foi adotado um plano de ofertas sistemáticas que depois seria substituído pelo sistema de dízimos e ofertas. Em 1860, foi escolhido o nome da denominação. Em 1861, foi formada a primeira associação, em Michigan, e, no ano seguinte, outras seis associações estaduais seguiram o exemplo.

Porém, faltava ainda um órgão que unificasse as várias associações, estabelecendo ordem e sincronia. Foi o que ocorreu nos dias 20 a 23 de maio de 1863, com a criação da Associação Geral e a formulação de seu estatuto. Além dos delegados, o encontro reuniu membros da igreja local que participaram como observadores. A assembleia foi marcada por profundo espírito de unidade e cordialidade. Na oportunidade, foram eleitos John Byington (presidente), Uriah Smith (secretário) e Eli S. Walker (tesoureiro).

Tanto em 1860, quando o nome “adventista do sétimo dia” foi escolhido, quanto em 1863, na primeira reunião da Associação Geral, Ellen White permaneceu nos bastidores. Embora a influência da profetisa no processo de estruturação da igreja tenha sido significativa, ela não foi impositiva. Nesse contexto, o papel da pioneira foi mais consultivo do que prescritivo: ela nunca deu um nome ao movimento nem especificou qual modelo organizacional a igreja deveria adotar. Somente depois que esses passos haviam sido dados foi que ela se manifestou favoravelmente, aprovando as decisões.

Essa atitude nos ensina uma valiosa lição: nem sempre Deus especifica em detalhes, em sua Palavra ou nos escritos proféticos, o caminho que a igreja deve seguir. O que ele faz muitas vezes é apontar princípios gerais e nos dar autonomia para tomar as melhores decisões fundamentados nesses princípios e submissos a seu Espírito.

Eduardo Rueda e Lucas Diemer são editores dos livros de Ellen G. White na CPB


Para saber +

Arthur L. White, Ellen White: Mulher de Visão (CPB, 2015), p. 65-82;

Herbert E. Douglass, Mensageira do Senhor (CPB, 2009), p. 182-184;

Richard W. Schwarz e Floyd Greenleaf, Portadores de Luz (Unaspress, 2009), p. 83-99;

David Trim, “O espírito de 1863: a primeira assembleia da Associação Geral”, Adventist World, junho de 2015, p. 22-25;

Wendel Lima, “Lições da nossa história”, Revista Adventista, maio de 2003, p. 8-13;

Barry D. Oliver, “The Development of Organization and Leadership Paradigms in the Seventh-day Adventist Church”, Journal of Adventist Mission Studies, v. 3, no 1, 2007, p. 4-28.


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