Do outro lado do mundo

60% das igrejas de Sidney são étnicas, o que dificulta o evangelismo da amizade numa sociedade altamente secular

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Créditos da imagem: adventist.org.au

O trabalho em outro pais é sempre desafiador e gratificante ao mesmo tempo. O desafio é natural pelo fato de se tratar de terras estrangeiras. A cultura, a língua local e o significado da religião na dinâmica dessa outra sociedade formam, sem dúvida, um cenário que exige preparo e adaptação do missionário.

Na Austrália, não é diferente. Especialmente em Sydney, a maior cidade do país, multicultural e com 4,2 milhões de habitantes. Lá, o hinduísmo, xintoísmo, islamismo e cristianismo convivem lado a lado na Austrália, um país historicamente novo (200 anos desde seu descobrimento pelos ingleses no fim do século 18), cuja população é formada, na maioria, por imigrantes da Europa, Índia, China, Japão, Oriente Médio e Leste Europeu.

Ali, portanto, religião é considerada assunto de fórum íntimo e nunca levado à esfera pública, a fim de que se mantenha um convívio pacífico. A pregação do evangelho encontra uma barreira muito grande, já que a distribuição pública de folhetos, livros ou outros materiais de cunho religioso é proibida e só pode ocorrer mediante a autorização da prefeitura.

Além do aspecto cultural-religioso, a condição socioeconômica também não favorece a evangelização. Sendo um país rico e desenvolvido, muitas pessoas têm boa qualidade e vivem um estilo de vida consumista, secularizado, materialista e existencialista. No entanto, o ser humano é ser humano em qualquer lugar do mundo. Suas necessidades mais profundas por uma vida com significado e transcendência, são universais.

E é no serviço desinteressado, por meio da amizade e na prática diária das virtudes cristãs, que temos encontrado muitas oportunidades para compartilhar Jesus. Sou pastor de uma igreja de fala portuguesa e outra de fala inglesa. A primeira tem uma dinâmica muito parecida com a do Brasil e de Portugal. Enquanto a segunda é mais desafiadora, porque acolhe 15 nacionalidades e falantes de dez idiomas. A ausência de uma cultura uniforme torna muito difícil o visitante se identificar incialmente com a igreja, prejudicando assim o evangelismo da amizade. O ponto é que 60% das igrejas de Sidney são étnicas.

Porém, Deus tem abençoado ricamente nosso trabalho nesses anos no Sul do Pacífico. Seguimos humildemente na confiança de que ele ainda tem muitas bênçãos e oportunidades para a igreja nessa região.

André Vieira é pastor em Sidney, Austrália.

Novos desafios no velho continente

Pastor explica o que significa liderar igrejas multiétnicas na Europa, onde diferentes culturas e gerações convivem sob o mesmo teto

rickson1Nunca havia pensado em trabalhar no exterior. Na verdade, nem gostava da ideia. Porém, Deus tinha outros planos para mim. Fui tocado para viver essa experiência quando um amigo de quarto no internato me disse que estava indo para a África como missionário. Isso foi em 1997 e nunca mais voltei. Encontrei minha outra metade no campo missionário. Cláudia e eu fomos então tocados por Deus para seguirmos no campo missionário, só não sabíamos onde.

Chegamos à Suíça e pouco a pouco Deus nos mostrou que tinha planos para nós na Europa. Ambos terminamos nossos estudos em Teologia em Collonges-sous-Salève, na França, e trabalhamos sete anos em Paris, onde plantamos duas igrejas. Já estamos há quatro anos servindo na Suíça. Nossos filhos nasceram aqui e em todo esse período fomos apenas três vezes ao Brasil. Mesmo morando em um país desenvolvido, com grande qualidade de vida, somos missionários aqui. Foi por isso que somente em 2014 eu pude, finalmente, apresentar minha esposa e filhos para minha família, depois de 13 anos de casamento. Além do desafio financeiro, criar os filhos na Europa com os valores adventistas é muito mais complicado do que na África ou no Brasil.

Quanto ao evangelismo aqui com brasileiros, a questão não é simples. Primeiramente, porque nenhuma das 28 igrejas de fala portuguesa da Europa é exclusivamente brasileira. Em Genebra, por exemplo, existem muitos portugueses. Em Paris, por sua vez, há fortíssima presença de cabo-verdianos, enquanto em Zurique predominam os latino-americanos. Por isso, essas igrejas étnicas são chamadas de luso-brasileiras ou latinas. É o caso da minha congregação. Além de ter funções administrativas, lidero a Igreja Luso-Hispânica de Neuchâtel. Trata-se de uma pequena comunidade formada por sete nacionalidades (brasileiros, portugueses, colombianos, franceses, cubanos, suíços e venezuelanos) e onde o programa é realizado em três línguas.

rickson3Além da diversidade idiomática e cultural, o segundo desafio é o da tradição eclesiástica. Apesar de acreditarem nas mesmas doutrinas, os membros da minha congregação possuem vivências diferentes de igreja. Nesse contexto, coisas pequenas podem tornar-se debates teológicos acalorados. Soma-se a isso os hábitos eclesiásticos do adventismo europeu que, se for mais ao norte do continente, tende a ser mais “liberal”; enquanto no sul, a tendência é mais “conservadora” ou “tradicionalista”. Acredite, isso pode render uma boa dor de cabeça para um pastor!

A terceira peça na compreensão desse quebra-cabeça é o fator geracional. Os que chegaram adultos na Europa, a primeira geração, e ensinaram a língua portuguesa em casa para os filhos, vão esperar que o programa da igreja seja em português. Enquanto os que educaram os filhos apenas na língua local, vão ter outra expectativa. Mas esse não é o maior desafio quanto à idade. Muitos filhos da segunda geração de migrantes costumam não se identificar com o país de origem dos pais e, às vezes, o que é pior, nem com a igreja e os valores religiosos dos pais. Na melhor das hipóteses, eles participam de uma igreja nativa e, na pior delas, abandonam a fé.

A Igreja Adventista na Europa tem buscado alternativas para essa situação. Um culto na língua local dirigido pelos jovens ou em horário simultâneo ao dos adultos tem sido o caminho mais utilizado. Na verdade, estamos caminhando para ter igrejas de etnia brasileira, mas de fala francesa, alemã ou inglesa. Essa experiência tem sido realizada em Paris com jovens romenos. Se for positiva, poderá servir de modelo para outras congregações do continente.

O quarto e último desafio que percebo é quanto ao futuro do fluxo migratório. Se uma igreja étnica está recebendo constante número de imigrantes, a primeira geração, é provável que ela mantenha características muito semelhantes às da igreja do país do qual essas pessoas migraram. Porém, a situação no país de origem se torna mais vantajosa do que na Europa. A tendência é essa comunidade enfraquecer ou fechar. Essa foi a experiência de uma igreja de imigrantes iugoslavos em Paris. Sem novas pessoas migrando para a região, uma congregação étnica tende a envelhecer e a perder sua segunda e terceira gerações para as igrejas nativas. Por isso, o desafio é a transmissão de valores de uma geração para outra, de modo que, ainda que o estilo da igreja mude, a fé seja mantida.

Concluo dizendo que não é fácil sair do Brasil para viver o adventismo no exterior. Muitas vezes, as pessoas não pensam nas consequências dessa decisão em longo prazo. É claro que a riqueza cultural e a estabilidade político-financeira que os países europeus podem oferecer são muito boas, porém, tem que se pesar os prós e contras. E é nesse contexto que os pastores brasileiros, como missionários, procuram fazer a diferença. Nossas famílias sofrem muito, o trabalho é desgastante e mesmo que você esteja no primeiro mundo, financeiramente você acaba vivendo à margem de uma sociedade nada espiritual.

Por isso, quem trabalha aqui ou deseja vir para cá, precisa ter claro na mente o amor pela missão. Se isso está bem resolvido para o pastor e sua família, os desafios podem ser vencidos, porque eles sabem a quem servem e por que servem. Por favor, ore pelo ministério adventista com imigrantes no lindo continente europeu!

Rickson Nobre é secretário-executivo, diretor do departamento de comunicação e pastor de igreja na Associação Suíça de língua francesa e italiana.


 

Para saber+

Entrevista do pastor Rickson Nobre para a Revista Adventista de novembro de 2009

Conselho Europeu de Língua Portuguesa