A missão em primeiro lugar no campo mais desafiador

Relatório apresentado por Jairyong Lee, presidente reeleito da Divisão do Pacífico Norte-Asiático, no dia 7, ressaltou os movimentos de plantio de igreja e as iniciativas de missão urbana

Dedicados e prontos: na Coreia do Sul, missionários do Movimento de Missão Pioneira são dedicados para o serviço. Crédito: NSD

Dedicados e prontos: na Coreia do Sul, missionários do Movimento de Missão Pioneira são dedicados para o serviço. Crédito: NSD

A Divisão do Pacífico Norte-Asiático (Nothern Asia-Pacific Division — NSD) atende a China, o Japão, a Coreia do Sul, a Coreia do Norte, a Mongólia e Taiwan, países com uma vasta história e rica herança cultural. Uma vez que quase um quarto da população mundial vive no território da NSD, os desafios missionários são enormes.

Os cristãos constituem apenas 4% da população total de 1,6 bilhão de habitantes. O budismo, o xintoísmo e o confucionismo, bem como outras religiões tradicionais, são profundamente enraizadas na região, ao mesmo tempo em que o secularismo e o materialismo bloqueiam o coração de muitos.

Apesar dessas circunstâncias desafiadoras, ao longo dos últimos cinco anos, o Senhor abençoou sua missão nessa Divisão de muitas maneiras notáveis. Mas somente com o poder do Espírito Santo seremos capazes de cumprir a comissão evangélica no futuro próximo.

Colocando em prática o lema “Missão em primeiro lugar”, funcionários e membros da igreja na Divisão têm dedicado a vida a Deus a fim de avançar a pregação do evangelho por meio da participação em atividades de alcance missionário na própria terra natal e no exterior. Desde a assembleia da Associação Geral de 2010, 77.693 pessoas aceitaram a Jesus Cristo e se uniram à família adventista, totalizando 688.106 membros no território da Divisão em 31 de dezembro de 2014.

Batismo no Japão: novos fiéis entregam a vida a Cristo. Crédito: NSD

Batismo no Japão: novos fiéis entregam a vida a Cristo. Crédito: NSD

Reavivamento espiritual

Ted Wilson, presidente da Associação Geral, visitou a Coreia e o Japão em outubro de 2011 e a China em abril de 2012. Ele pregou mensagens sobre reavivamento e reforma, que trouxeram grandes bênçãos e encorajamento. Durante sua visita, os membros entenderam melhor a importância do reavivamento espiritual e reconsagraram a própria vida à missão de contar aos outros sobre Deus. Os membros da igreja de todo o território da Divisão continuam a se concentrar na necessidade de experimentar reavivamento espiritual pessoal e reforma por meio da Palavra de Deus e da oração fervorosa.

Quando nossos líderes visitaram a China, os líderes da igreja chinesa pediram auxílio por meio de treinamento espiritual de maneira sistemática. A China tem 1,35 bilhão de habitantes, dos quais menos de 4% são cristãos. As igrejas lutam por reavivamento e reforma, e suplicam por capacitação espiritual. A fim de atender essa necessidade urgente, a comissão diretiva da Divisão votou, em maio de 2012, a criação de um centro de treinamento de liderança espiritual na ilha de Jeju, na Coreia. Em 1o de setembro de 2013, a cerimônia de inauguração ocorreu com a presença de Wilson, dos presidentes das Uniões e de cerca de cem membros da igreja.

Em nove meses, foram construídos dois dormitórios, um refeitório, salas de aula e uma casa para o diretor do centro. Desde junho de 2014, grupos de diferentes países, inclusive da China, do Japão, de Taiwan e da Mongólia já receberam uma semana de treinamento espiritual. A partir de 2016, nosso alvo é proporcionar capacitação para um total de 700 a 800 pessoas por ano.

Missão: nossa principal prioridade

A missão é a principal prioridade da Divisão do Pacífico Norte-Asiático. Ela é fortemente enfatizada em todas as atividades da igreja. A fim de inspirar os membros da igreja com o espírito missionário, foi realizado o Congresso Internacional de Missões no centro de convenções internacionais em Jeju, Coreia, em agosto de 2013. Cerca de 4 mil pessoas de todo o território da Divisão participaram com entusiasmo. Muitos líderes proeminentes da igreja, inclusive Ted Wilson e G. T. Ng, secretário-executivo, estavam presentes e inspiraram as pessoas com mensagens poderosas da Palavra de Deus. Com o coração unido, os participantes conversaram, ouviram e refletiram sobre a missão da igreja. Dedicaram tempo orando juntos para pedir o derramamento do Espírito Santo e a união na missão.

Vibração por todos os lados: dedicação da igreja de Nanjing, na China.

Vibração por todos os lados: dedicação da igreja de Nanjing, na China.

Hoje mais de 500 cidades no mundo têm uma população superior a 1 milhão de habitantes. Cento e cinco dessas cidades fazem parte do território da nossa Divisão. Séries evangelísticas do projeto de “Missão Urbana” foram realizadas nas principais cidades da Divisão, começando com “Tóquio 13” no Japão. Tóquio é uma das cidades mais populosas do mundo e foram feitas 42 séries evangelísticas em várias igrejas de lá. A maioria desses pontos de pregação ficaram lotados de gente.

Além de Tóquio, outras 16 grandes cidades foram selecionadas no território da Divisão para a iniciativa de missão urbana. Partilhar a mensagem do breve retorno de Cristo com milhões de pessoas que vivem nas grandes cidades corresponde à maior parte de nosso foco missionário.

Na Mongólia, as reuniões evangelísticas do projeto “Missão Urbana” foram realizadas em 13 lugares da cidade de Ulan Bator, nos dias 5 a 13 de setembro de 2014. No sábado, 13, todos se reuniram em um ponto de encontro central com cerca de 700 pessoas presentes para adorar a Deus. Graças a “UB14”, 130 pessoas foram colhidas para o reino dos céus. A Divisão dará continuidade à ênfase na missão urbana até que todos os habitantes das cidades sejam alcançados com as três mensagens angélicas.

Projetos missionários

No que se refere às atividades missionárias, a Divisão deu início a vários projetos envolvendo pastores e leigos, tanto em países estrangeiros quanto na própria terra.

O Movimento de Missão Pioneira (MMP) é o projeto de plantio de igrejas em territórios de Missão Global da Divisão desde 2002. Ao longo dos últimos 13 anos, 102 pastores e suas famílias deixaram sua terra natal a fim de servir por seis anos como missionários plantadores de igrejas que atravessam barreiras culturais. Alguns voltaram para casa depois de atuar com êxito durante o período de seis anos. Atualmente, 48 missionários MMP plantam igrejas em 16 países, à saber: Japão, Taiwan, Hong Kong, China, Coreia, Mongólia, Congo, Uganda, Tanzânia, Quirguistão, Indonésia, Rússia, Índia, Turquia, Kosovo e Filipinas. Por meio de seu serviço dedicado, foram fundadas 148 congregações, resultando no batismo de 13.935 pessoas.

No projeto “Anjos Dourados”, por sua vez, oito jovens talentosos se voluntariam como cantores missionários por um ano, com o propósito de dar apoio às atividades evangelísticas no território da Divisão. Além de cantar nas séries de pregação, eles visitam as pessoas de porta em porta, fazem amigos e ministram estudos bíblicos. Desde 2004, milhares de pessoas foram tocadas pelo ministério deles e um grande número foi levado para a igreja por intermédio de seu serviço dedicado.

O “Movimento Missionário 1000” (MM1000) continua a treinar e enviar centenas de jovens adventistas todos os anos para muitas partes do mundo. Depois de receber treinamento intensivo por cinco semanas, os jovens dedicam um ano no campo missionário como voluntários. Há 6.588 jovens de 59 países que já participaram do Movimento Missionário 1000 desde 1993. Os frutos de seus esforços incluem 66.099 batismos, 763 igrejas construídas e 1.366 igrejas e grupos fundados em 39 países.

Nem todos são chamados para servir em terras estrangeiras, por isso, o movimento “Suas Mãos em Missão” mobiliza nossos membros a cumprir a missão na própria terra. Desde maio de 2007, 3.771 indivíduos da Coreia, da Mongólia, do Japão, de Taiwan e da China se uniram a esse movimento.

Indo de dois em dois, eles batem nas portas, entregam literatura, cultivam relacionamentos e compartilham o amor de Deus, dedicando dez horas por semana durante três anos para essa missão. Para muitas igrejas, esse método evangelístico tem se mostrado eficaz para ganhar pessoas.

Em 1º de julho de 2011, o Hope Channel começou a ser transmitido. É o 13º canal adventista da China, sendo veiculado pelo satélite Telstar 18. A Hope TV tem mais de 5 mil programas com meia hora de duração sobre saúde, família, culinária, educação, música, bem como sermões e assuntos religiosos. Por meio desses programas de televisão, disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, agora podemos nos aproximar de 1,4 bilhão de pessoas de língua chinesa com a mensagem evangélica. Na Coreia, o Hope Channel começou a ser veiculado pela internet e, em julho, o mesmo aconteceu no Japão.

Centros de influência

O evangelismo nas grandes cidades não é tarefa fácil, porque muitos moradores dos centros urbanos são extremamente influenciados pelo materialismo e o secularismo. A despeito desses desafios, os centros de influência têm desempenhado um papel significativo ao alcançar e mostrar o amor de Cristo às pessoas que habitam nas cidades. Existem centenas de centros de influência no território da Divisão, que estão a serviço de mais de 5 milhões de pessoas por ano. Convidamos muitos a irem a nossos centros de influência e partilhamos com eles o valor de nossos ensinos e do estilo de vida cristão.

A Divisão fundou um Centro Multicultural de Serviços à Família (CMSF) na cidade de Ansan, Coreia, na qual 20% dos 760 mil habitantes são estrangeiros. O CMSF oferece vários serviços, que incluem assistência social, educação e atendimento médico, jurídico e cultural, a fim de ajudar as famílias multiculturais a se ambientarem com maior facilidade à vida na Coreia. Por meio do amor sincero e do compartilhamento da mensagem evangélica, 136 trabalhadores migrantes e membros de famílias multiculturais aceitaram a Jesus Cristo e foram batizados nos últimos cinco anos

Batismo à luz de velas: iluminação suave durante um batismo numa igreja na Mongólia. Crédito: NSD

Batismo à luz de velas: iluminação suave durante um batismo numa igreja na Mongólia. Crédito: NSD

Crescimento institucional

Na Divisão, há 117 organizações e instituições, incluindo universidades e faculdades, escolas de ensino fundamental, hospitais, clínicas, editoras e indústrias alimentícias. Essas instituições cresceram consideravelmente neste quinquênio. Há 1.700 funcionários e 21.510 alunos em nossas instituições de ensino, que abrangem duas universidades, três faculdades, 25 escolas de ensino médio e 22 de ensino fundamental. Todos os anos, vemos a influência da educação cristã por meio do batismo de estudantes que aceitam a Jesus Cristo como seu Salvador pessoal.

Deus também está na direção de nossas instituições médicas, atuando de maneira maravilhosa em 11 hospitais e 20 asilos e clínicas. Mais de 1,9 milhão de pessoas recebem os cuidados médicos dessas instituições todos os anos. Por meio dos esforços dedicados de nossa equipe médica e pela graça de Deus, alguns de nossos hospitais superaram suas dificuldades financeiras. Nossas indústrias alimentícias na Coreia e no Japão fabricam produtos à base de leite de soja e alimentos saudáveis. Os produtos da Sahmyook, na Coreia, e da Saniku, no Japão, têm obtido sucesso cada vez maior e são bem aceitos tanto no mercado local quanto global.

O Senhor tem abençoado graciosamente e enriquecido nossos humildes esforços para que pudéssemos ceifar uma colheita maravilhosa. Ele conduziu nosso povo de maneira poderosa na União-Missão Chinesa, União Japonesa, União Coreana e nos dois campos anexos à Divisão, a Missão da Mongólia e a Associação de Taiwan, a fim de espalharmos as três mensagens angélicas para milhões de pessoas do território de nossa Divisão.

Pelo poder do Espírito Santo

A Divisão atua para cumprir a comissão evangélica em seu vasto território. Os desafios missionários são enormes e parece quase impossível concluir a obra do evangelho com as limitações financeiras e pessoais que enfrentamos. Entendemos, porém, que o trabalho será realizado “não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito”, como disse o Senhor Todo-Poderoso (Zc 4:6).

A despeito de todos os desafios, o Senhor abençoou a Divisão do Pacífico Norte-Asiático de forma extraordinária durante o último quinquênio e nos alegramos ao ver milhares de pessoas preciosas se unindo à igreja todos os anos. Louvado seja Deus! Até Jesus voltar, continuaremos a fazer nosso melhor na disseminação das três mensagens angélicas ao mundo. Ellen White escreveu o conselho inspirado: “Nada temos a recear no futuro, a não ser que nos esqueçamos do caminho pelo qual Deus nos tem conduzido” (Vida e Ensinos, p. 204).

Que o Senhor continue a abençoar sua obra na Divisão do Pacífico Norte-Asiático e ao redor do mundo! Maranata! [Fonte: Adventist ReviewTradução: Cecília Eller Nascimento]

Celebrando a missão

Assembleia é marcada por sermões e testemunhos sobre a razão de ser da igreja

sermao de sabado foi proferido pelo pastor GT Ng

Em grande parte, foi o amor pela missão que nos tornou quem somos, uma igreja global e unida. Essa mesma paixão é nossa razão de ser e nossa segurança para o futuro. Num dos dias mais festivos da cultura norte-americana, 4 de julho, Dia da Independência, as delegações festejaram a missão no primeiro sábado da assembleia mundial. Começando por um devocional sobre cristianismo prático, passando pela primeira lição do trimestre que tem como tema os missionários da Bíblia, até os primeiros relatórios das divisões, os olhares se voltaram para a missão.

pastor mark finley na assembleiaA celebração da missão já havia começado na sexta-feira à noite, com o pastor Mark Finley. Em sua mensagem “Por que evangelismo?” analisou a necessidade de a igreja manter acesa a chama da missão, refletindo sobre o interesse de Deus pelo mundo. Falou sobre a vontade divina de que “todos cheguem ao arrependimento e ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2:4). Ele não quer que ninguém pereça (2Pe 3:9). “Você se preocupa com sua salvação?”, Finley perguntou ao auditório. Reafirmou em seguida que “Deus está muito mais interessado em nossa salvação do que nós mesmos”. Ele também se interessa pelos que estão longe do Pai, pois também os ama e quer salvá-los por nosso intermédio. Não podemos ficar indiferentes, não podemos nos acomodar, insistia o pastor Finley.

Numa sequência de frases eletrizantes e cheias de apelo, Finley abriu seu coração para a igreja mundial reunida ali. Falou de seu pai. “Nos últimos anos passei por momentos muito difíceis na família. Perdi meus pais. Quando fazia minhas séries evangelísticas pelo mundo, sempre ligava para meu pai e dizia: ‘Pai, estou em Copenhague, pai, estou em Tóquio, pai, estou em Moscou. E sempre meu pai me respondia: ‘Estou orando por você, filho’. Meu pai tinha um amor tão desinteressado que se esquecia de si mesmo e orava por mim. É possível que, mesmo ao fechar os olhos na morte, seu último pensamento tenha se concentrado no filho.” Então, afirmou que, se seu pai o amava assim, Deus nos ama muito mais. “Somos compelidos pela graça de Cristo. Não podemos ficar em igrejas confortáveis, não podemos nos entreter uns aos outros. Temos que agir pela salvação das pessoas ao nosso redor.”

Embora sentíssemos sua dor ao falar da perda de seus pais, foi o amor à igreja que fez seus sentimentos virem à tona. Com voz embargada e olhos marejados, fez um tocante apelo à assembleia da igreja mundial para que se unisse pela missão e para a missão. A ideia é que precisamos de unidade para termos missão e, sem o foco na missão, perdemos a unidade.

Transformação e ação

As demais mensagens e encontros só falaram de ação. No devocional de abertura, Sikhu Hlatshwayo, natural do Zimbábue e residente nos Estados Unidos há dez anos, falou sobre a importância de não nos contentarmos com um conhecimento teórico. “Não basta saber que, na Bíblia, o casamento é uma união por toda a vida, sem saber se a Palavra ensina a ter um casamento feliz.” “No evangelismo”, Sikhu disse, “podemos nos distrair com a busca por melhores métodos, enquanto Deus está buscando pessoas melhores.” Mais à frente, comentou: “Não estamos esperando a segunda vinda, mas Jesus”. O foco não está no pensamento abstrato, mas num relacionamento verdadeiro com Deus. Seu apelo foi: descubra como seu conhecimento pode mudar quem você é.

Na Escola Sabatina, dirigida por três apresentadores, com a participação ocasional de professores e crianças, acompanhados de testemunhos em vídeos, discutiu-se o significado e a importância dos missionários – algo mais do que oportuno. O pastor Ted Wilson fez um apelo ao fortalecimento da frequência à Escola Sabatina, dizendo que “quando adultos não vão para a Escola Sabatina, os filhos também não vão. Ele conclamou os líderes de todos os níveis da igreja a reavivar esse ministério”.

Larry Evans apela para que se dê mais atenção à comunidade surda.

Larry Evans apela para que se dê mais atenção à comunidade surda.

O pastor Larry R. Evans, coordenador do Ministério Internacional aos Surdos, falou do trabalho por esse grupo específico, que representa aproximadamente 70 milhões de pessoas ao redor do mundo. Evans contou a história de uma surda que lhe confidenciou em lágrimas que, pessoas de outras denominações haviam dito para ela que os surdos são pessoas endemoniadas cujos espíritos malignos precisam ser expelidos. Ela ficou feliz quando o pastor Evans pregou para ela e outros surdos, que eles que tinham sido criados à imagem de Deus. Aquela mensagem inclusiva trouxe alegria para o coração dela: “Não sou a minha deficiência, tenho uma identidade pessoal, também tenho dons!”

Outro belo testemunho foi sobre o pastor Norman Ferris e sua esposa Ruby, que serviram como missionários nos anos 1940, nas Ilhas Salomão. Entre muitas de suas histórias de amor altruísta, certa vez, Ruby se deparou com duas crianças com malária. Então, as carregou por 10 km para que recebessem atendimento médico. De volta à ilha, décadas depois, em 1999, encontrou uma igreja estabelecida com mais de 1.800 adventistas em dezenas de igrejas.

Também foi relatado o tocante ministério aos leprosos na ilha chinesa de Dongguan, uma colônia de vítimas de hanseníase. Voluntários como a brasileira Sabrina Quadros, vão à ilha para limpar ferimentos e cuidar dos moradores, muitos deles abandonados pela família.

Sem perder o foco

Foi então que o sermão do secretário reeleito da Associação Geral, o cingapuriano G.T. Ng, trouxe uma reflexão sobre a relação entre identidade e missão. “Pensem como grupo, como igreja. Quem vocês são?” – perguntou Ng. Ele pregou que a identidade da igreja só pode ser definida a partir da identidade de Deus. A partir de então, fez um estudo de Daniel 10, em paralelo com Apocalipse 10, 12 e 14, capítulos em que encontrou a identidade da igreja, seu passado e sua mensagem, e concluiu: ”Quero fazer um apelo especial a todos nós. O tempo em que vivemos é um tempo extraordinário. Não temos muitos anos, possivelmente. Um amigo disse outro dia: ‘Se você nunca foi a uma assembleia mundial não deixe de ir a essa, pois não sabemos se será a última’. O mundo está ecologicamente, politicamente e socialmente falido. Não há esperança. Estamos em tempo emprestado”, avaliou.

“Nesta manhã, Deus está nos chamando a um compromisso maior com a missão”, apelou Ng. Sou responsável por mim e por minha esposa, para revolucionar nossas vidas. Precisamos orar pelas pessoas que estão nos blocos religiosos que não conhecemos. Você está disposto a dedicar uma parte importante de suas economias para ajudar a missão, para enviar missionários? Logo não teremos oportunidade de fazer isso, pois o dinheiro desaparecerá. Temos que nos entregar à missão”, enfatizou. Ele também expôs sua preocupação de que “ao discutir coisas que não são importantes, podemos perder de vista a missão da igreja”.

Novidades

Nas reuniões da tarde, com foco na missão, foram apresentadas as novidades nas missões mundiais, destacando ações e centros de influência nas áreas urbanas. Nos prédios de Manila, capital das Filipinas, existem quiosques onde são feitas avaliações de saúde; em Copenhague, capital da Dinamarca, existe uma loja de produtos de segunda mão que funciona como um centro de influência. Berit Elkjaher, uma das líderes do centro, diz que o projeto uniu a igreja, com pessoas de todas as idades, e foi além, atraindo voluntários da comunidade: “Um terço dos voluntários não é adventista. Eles vêm e perguntam se podem ajudar. Ficamos amigos de muitas pessoas e fazemos um trabalho que o pastor não poderia fazer, devido a suas ocupações.”

Outro projeto simples e inovador, o The Sabbath Sofa (“O Sofá do Sábado”), iniciado em Londres, dá a oportunidade de se falar sobre o sábado. Jovens colocam um grande e confortável sofá branco numa passagem de pedestres, com a placa: “Está cansado? Sente-se.” Ao se sentarem, um jovem num estilo cool as cumprimenta e pergunta: “Do que você está cansado(a)?”, e as pessoas abrem seu coração. O jovem então comenta: “Vamos supor que se você pudesse tomar 24 horas de sua vida, do por do sol de sexta ao por do sol de sábado, como seria a sua vida? Vários respondem naturalmente: “Seria incrível!” A partir de então, inicia-se um contato que pode levar pessoas a conhecer a mensagem do descanso sabático. O projeto tem forte presença na internet, especialmente, nas redes sociais e foi realizado na cidade de San Antonio, durante a assembleia mundial.

Há também mensageiros no mundo islâmico. Em países onde é proibido e criminalizado o ato de falar de Cristo ou ler a Bíblia, jovens têm sido encorajados a partir para esses países a fim de estudarem ali. Eles vão para universidades e fazem amizade com os colegas. Quando surge uma oportunidade de compartilhar sua fé, o fazem, como os antigos valdenses faziam. Perguntada sobre qual era sua maior prioridade na faculdade (os estudos ou a missão), uma jovem não identificada por motivo de segurança, disse que sua prioridade era ser missionária. O interlocutor, então, lhe disse, sorrindo: “Então você é como uma agente secreta?”

Histórias fecharam a programação, entre elas, a de um pastor chinês que escreveu sua própria Bíblia por memória, na prisão, e a de um jovem piloto de avião missionário, que assumiu o posto deixado por seu pai, que morreu no cumprimento do dever.

Muitos adventistas hoje demonstram ter o mesmo compromisso pela missão que os pioneiros das missões, mas é preciso que esse espírito contagie ainda mais a igreja global. Missão não é uma tarefa, mera obrigação, mas uma razão de viver, um estilo de vida, que não faz parte da vida cristã, mas é ela própria. Num momento em que as sociedades urbanas em todo o mundo passam por um rápido processo de secularização, a igreja é desafiada a reafirmar sua identidade e cumprir sua missão de todas as formas possíveis. Seu maior tempo e suas melhores energias devem ser canalizadas e dedicadas a isso. Unidos a Cristo e sua missão, estaremos unidos uns aos outros.

Diogo Cavalcanti, enviado especial da Revista Adventista para San Antonio, é pastor, jornalista e editor de livros na CPB

O futuro da missão

Igreja brasileira deve atentar para a diversidade de métodos e para os novos fluxos migratórios

o-futuro-da-missaoEm 2014, pelo décimo ano consecutivo, mais de 1 milhão de pessoas se tornaram adventistas no intervalo de um ano. Esse crescimento fez a denominação atingir a marca de 18,5 milhões de fiéis e ser considerada a quinta maior denominação cristã do mundo, segundo a revista Christianity Today. Diante desses números, a possibilidade de evangelizar as nações e ver o retorno de Cristo em nossos dias parece estar mais próximo hoje do que nunca antes na história.

No entanto, o cenário das missões está sendo afetado por vários fatores que devem influenciar nossas estratégias e métodos de trabalho. São variáveis demográficas, econômicas, políticas, tecnológicas, culturais e religiosas. Esse panorama em mutação inclui as mudanças que têm ocorrido na compreensão e prática do evangelismo nos últimos cinco anos no Brasil. Estamos diante de desafios e oportunidades únicas para a missão.

Visão ampliada

Na medida em que a possibilidade de completar a grande comissão (Mt 28:18-20) se torna uma realidade, os estrategistas de missões estão aprendendo a ver o mundo com outros olhos. Com isso, o paradigma do simples alcance de países e geografias tem sido substituído pelo da evangelização de grupos etno-linguísticos. Textos como o chamado de Deus a Abraão para que ele fosse uma bênção para todas as nações (Gn 12:3) e a visão de João sobre a diversidade cultural da grande multidão de salvos (Ap 7:9) têm ajudado a igreja a enxergar o globo como Deus enxerga: dividido em grupos étnicos, em grego, panta ta ethn?.

Perceber essas nuances da evangelização e colocar o foco nesses grupos têm sido a tendência mais notável e significativa da estratégia missionária da Igreja Adventista na América do Sul nos últimos anos. Ao investir na evangelização de cegos, surdos, ciganos, tribos urbanas, grupos étnicos e segmentos específicos da população, a igreja reconhece a necessidade de diversificar suas abordagens a fim de que o evangelho eterno circunde o globo. O despertamento para esse cenário vem em hora oportuna, porque a missão adventista se vê desafiada a responder a três tendências mundiais que se verificam também no Brasil: urbanização, migração e internacionalização.

Urbanização

Se o adventismo começou na zona rural nos Estados Unidos do século 19, hoje ele é desafiado a comunicar o evangelho eterno para uma audiência do século 21 que majoritariamente vive nas cidades. Se em 1950, havia 83 cidades no mundo com uma população de mais de 1 milhão, hoje são 280, e 14 que excedem 10 milhões.

Ao mesmo tempo em que o contexto urbano exige dos seus habitantes um ritmo acelerado de vida com o foco na sobrevivência e no consumo, as metrópoles são ambientes propícios para novas experiências, inclusive religiosas. São nas grandes cidades também que muitas pessoas podem ser alcançadas de uma só vez. Apesar da aglomeração urbana, as metrópoles não são monolíticas, mas sim um labirinto de comunidades etnicamente distintas e com estratos sociais e econômicos diversificados que desafiam qualquer abordagem tamanho único. Assim, para que o mundo seja evangelizado, as cidades devem ser alcançadas.

Migração

Estima-se que 125 milhões de pessoas vivem fora dos seus países de origem, de forma permanente, e outros como uma força de trabalho temporário. Nos séculos 18 e 19, a migração fluiu de países mais ricos para os mais pobres; agora, o fluxo é de regiões menos desenvolvidas para as mais desenvolvidas. Segundo o jornal El Pais, Quase 57.300 imigrantes ilegais chegaram à Europa só no primeiro trimestre de 2015.

O Brasil também está na rota dos fluxos migratórios. Temos recebido novos trabalhadores de Bangladesh, Gana, Senegal, Haiti e Bolívia, em uma das maiores ondas migratórias já registradas no país. As ruas das principais cidades do Brasil estão cheias de cores, sons e cheiros de dezenas de diferentes culturas asiáticas, andinas, africanas e árabes.

Com isso, já não podemos mais falar em alcançar outras culturas, se negligenciarmos os estrangeiros descrentes que estão do outro lado da rua. Será que estamos atentos à essa nova realidade? Temos recebido os refugiados e imigrantes de braços abertos ou os enxergamos como invasores de nossas igrejas e bairros? Em alguns casos, grupos que são altamente resistentes ao evangelho em seus países de origem, podem ser muito receptivos num ambiente urbano longe de suas raízes. Além disso, o contato intencional com essas comunidades poderia servir de treino para missionários que desejam atravessar o mar e servir em contextos mais desafiadores.

Globalização

Se no passado a rota das missões saia do mundo desenvolvido para o subdesenvolvido, do ocidente para o oriente e do norte para o sul, hoje é de qualquer lugar para qualquer lugar. De acordo com Todd Johnson, professor do Gordon-Conwell Theological Seminary (EUA), dos 400 mil missionários enviados em 2010, 34 mil partiram do Brasil, o segundo país no ranking liderado pelos Estados Unidos com 127 mil missionários enviados.

Uma das portas que se abrem com a globalização é para a participação de escolas, igrejas e agências missionárias em missões de curta duração. Congregações paulistanas como a de Moema e o Unasp, campus São Paulo, têm feito isso por meio de seus estudantes e profissionais voluntários. Apesar dos cuidados que devem ser tomados com esses projetos para que não se tornem meras viagens de turismo ou de intercâmbio cultural, o envolvimento de pessoas nesse tipo de iniciativa só tem aumentado. As vantagens são que as missões de curta duração podem envolver pessoas até então sem treino e experiência ministerial no trabalho de Deus, liberando assim os missionários mais experientes para trabalhos mais específicos. Ao que parece, somente uma grave crise financeira inibiria esse fluxo.

Futuro

Hoje, essas três tendências representam grandes desafios e oportunidades para a Igreja Adventista que não podem ser ignorados. A primeira lição a ser aprendida é que não existe só um método para a evangelização. Com a globalização, precisamos desenvolver abordagens que não ofendam, mas que atraiam diversos povos ao evangelho. Isso significa que atendimento de saúde, aulas de inglês, séries públicas de evangelismo e pequenos grupos que enfatizam o discipulado podem ser métodos úteis para contextos distintos, e não necessariamente para todos os contextos.

Em segundo lugar, o sucesso da empreitada missionária não pode ser medida apenas pelo número de batismos. Numa reunião realizada em 2013, líderes revelaram que a igreja perdeu um em cada três membros ao longo dos últimos 50 anos. Além disso, para cada 100 pessoas que a Igreja Adventista batiza ao redor do mundo, ela perde 43 membros antigos. http://www.christianitytoday.com/gleanings/2013/december/seventh-day-adventists-assess-why-1-in-3-members-leave-sda.html Portanto, o evangelismo bem-sucedido deve deixar de ser mensurado apenas em termos de “números de batismos” ou de quantos “vieram à frente”, mas em crescimento real que se traduz na multiplicação de discípulos.

Felizmente, a missão é a prioridade de Deus, e assim permanecerá até a volta de Cristo. Os desafios que a Igreja Adventista enfrenta podem tornar-se cada vez mais difíceis, mas Deus transcende a todas eles. É nossa crença de que Deus proverá as habilidades e dons necessários para o desafio de alcançar os povos do mundo. Essa é a agenda de Deus; e pode tornar-se cada vez mais a nossa também. A missão é obra de Deus. O mundo é a esfera de sua missão. E a igreja é sua parceira no reino vindouro.

Emílio Abdala é doutor em Ministério pela Universidade Andrews (EUA) e diretor de Missão Global na sede paulista da Igreja Adventista


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Relatório da Divisão Sul-Americana apresentado na assembleia mundial da igreja nesta terça-feira, 7 de julho

 

Luz para o Oriente

As portas que estão se abrindo para o evangelho num país em que a igreja foi clandestina por várias décadas

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Relatório da Divisão do Pacífico Norte-Asiático apresentado na assembleia mundial em San Antonio, nesta terça-feira, 8 de julho, mostrou os avanços e desafios da igreja nesta parte do globo. Foto: Leônidas Guedes

Há alguns meses, minha esposa e eu desembarcamos do outro lado do globo. Levamos alguns dias para superar os efeitos do fuso-horário de mais de dez horas de diferença à frente do Brasil e algumas semanas para iniciar o processo de adaptação gradual às diferenças culturais. Hoje, estamos focados no aprendizado e domínio da língua local, na compreensão da cultura e em desenvolver um planejamento estratégico sustentável de longo prazo. Para tanto, como lição de casa, estudei o histórico da igreja nesse país, as necessidades da sociedade local e como podemos cooperar para a missão de Deus nesse lugar.

Igreja clandestina

A história do adventismo nesse país pode ser dividida em três fases:

1886 a 1949: os primeiros adventistas chegam ao país, encontrando campo fértil e uma grande colheita é testemunhada. Milhares de pessoas receberam estudos bíblicos, inúmeras séries de evangelismo foram organizadas, erigidos hospitais, casa publicadora, centro de formação teológica além de uma sede administrativa com status de Divisão, que coordenava o trabalho no país. Havia também muitos líderes capacitados, estrutura organizacional praticamente consolidada e adventistas maduros e comprometidos.

1950 a 1990: uma dramática série de mudanças políticas fechou as portas do país para a liberdade religiosa: missionários estrangeiros foram expulsos, o evangelismo foi proibido, as propriedades da igreja foram confiscadas e diversos pastores e lideres presos ou executados. A religião passou a ser controlada pelo Estado através de uma entidade secular e a sede da denominação foi realocada fora do país e sem permissão para intervenções diretas, atuando apenas como um órgão consultivo da igreja mundial.

1990 até o presente: através da globalização, o país tem experimentado acentuado crescimento econômico, abertura para valores ocidentais como a cultura de consumo e certa tolerância religiosa, ainda que lenta e progressiva. O fato é que, desde a década de 1990, um novo “despertamento” religioso tem sido testemunhado por aqui. Deus, de alguma forma, não somente preservou os adventistas locais como os multiplicou de 20 mil para 400 mil fiéis. Diversos missionários estrangeiros têm trabalhado cautelosamente no país e existe agora um cenário mais favorável para isso.

Barreiras que se erguem

Os desafios para a missão aqui são muitos, mas destaco os maiores. (1) estruturais, a repressão religiosa liderada pelo Estado impediu a ação organizacional da igreja. Consequentemente, desde 1949 a igreja no país opera no modelo “congregacionalista”, pastores (em grande maioria leigos) têm total autonomia sobre dízimos, espaços de culto, formas litúrgicas e o ensino das crenças; (2) teológico e doutrinário: o “congregacionalismo” contribuiu para a formação de “versões do adventismo”, cada qual com seu pacote doutrinário e liberdade para realizar a ordenação sem quaisquer critérios bíblicos. Há também poucos pastores com formação teológica (estima-se menos de 250) o que faz com que as igrejas existentes sejam em geral superficiais em sua apresentação da verdade bíblica e até pouco atrativas para os visitantes.

(3) resistência cultural às mudanças. O país possui uma história milenar de guerras, fome, caos e conflitos por poder, que mataram, somente no último século, mais de 90 milhões de habitantes. Portanto, quaisquer tentativas de mudanças bruscas na cultura ou na igreja ascendem a luz de alerta geral na mente dos nativos; e (4) domínio da língua local. Muito distinta das línguas ocidentais, aprendê-la é um desafio. Porém, apesar do pouco tempo de conivência no país, minha esposa e eu já conseguimos compreender o que as pessoas falam e expressar ideias básicas.

Portas que se abrem

Vejo que as oportunidades são maiores do que os desafios. A principal porta que se abre aqui é a percepção dos adventistas locais de que eles precisam de ajuda estrangeira. Meio caminho andado para um missionário! Muitos membros são realmente sedentos pela verdade e extremamente comprometidos com a missão. Talvez falte orientação.

Como áreas de atuação, penso que o tripé – educação, saúde e pregação – utilizado por Jesus e valorizado pela Igreja Adventista pode responder às necessidades imediatas deste lugar. O ensino superior é avançado no país, mas a educação fundamental é precária e muitas crianças não possuem acesso às escolas. Em função dessa demanda, instituições particulares dirigidas por adventistas locais têm permissão de funcionamento e chegam até a empregar missionários estrangeiros como professores. Com o apoio da igreja mundial, o seminário teológico foi reaberto no país. Ainda que em fase embrionária, essa escola é a esperança de formação de novos líderes.

A área da saúde também é bem desenvolvida no país, porém, pouca atenção é dada à orientação preventiva. Por isso, padrões de higiene e de alimentação são até mesmo precários. Existem muitos casos de malária, DSTs e cárie. Há, portanto, um grande campo a ser explorado nesse sentido. Finalmente, o plantio de igrejas a partir de discípulos locais capacitados tem sido uma das molas propulsoras da missão no país. Além de congregações, diversos centros de influência têm sido estabelecidos para atender com eficiência as necessidades da população e atraí-las para Jesus.

Primeiros passos

Temos atuado aqui junto ao seminário, procurando dar suporte organizacional e disciplinas como Inglês. Um centro de influência foi aberto em parceria com os estudantes do seminário, oferecendo atividades educacionais para crianças e jovens: aulas de música, idiomas e tutoria em atividades escolares. Tudo isso para facilitar a construção de relacionamentos significativos e promover a formação de pequenos grupos em que a Bíblia possa ser aberta e estudada com segurança.

A principal e mais urgente atividade está no discipulado de líderes locais, procurando suprir as demandas deles por conhecimento bíblico e teológico básico, capacitação e promovendo a integração da igreja local com as orientações da denominação em nível mundial. Não sem razão, o trabalho tem sido mais fácil com as novas gerações de adventistas, porque estão mais abertos ao ensino e não carregam consigo tantos temores do passado como os mais velhos. Prova disso, é que recentemente um grupo nos procurou e pediu que os treinássemos para que plantassem igrejas. Ficamos profundamente tocados com isso, pois oramos nessa direção por algum tempo.

Nossas perspectivas aqui são bastante animadoras. A cada dia Deus tem nos ensinado a depender dele para as mais simples decisões e nos dado a alegria de participar do plano missionário que ele tem para a humanidade perdida. Da mesma forma, o companheirismo sincero desses queridos filhos de Deus que temos conhecido aqui têm nos feito ansiar mais pelo grande encontro da família dos redimidos.

Enquanto procuramos cumprir esses propósitos do Senhor por aqui, oramos para que mais ceifeiros decidam deixar o celeiro e vir para os campos, pois eles já estão brancos para a ceifa (Jo 4:35, ACF). Por favor ore pelo trabalho aqui, auxilie o campo mundial com suas ofertas específicas e, se você sentir seu coração ardendo enquanto lê esse relato, considere sinceramente a possibilidade de Deus o estar chamando para se engajar na missão transcultural. Se você tomar essa decisão, avance com fé e Deus se encarregará do restante.

G. é graduado em Administração, pós-graduado em Missiologia e tem um mestrado em Ciências Sociais.

Avanço na África

O crescimento e as dificuldades da igreja no continente que concentra 38% dos adventistas

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Continente tem 7 milhões de adventistas. Foto: Leônidas Guedes

Como ilustrou o secretário-executivo da sede mundial da igreja, G. T. Ng, se o povo adventista ao redor do mundo formasse uma vila com cem pessoas, 38 delas seriam da África. A força do continente no contexto do adventismo pode ser verificada em outro dado recente. Há poucos meses, a Zâmbia entrou para o seleto grupo de países com mais de um milhão de adventistas (para saber mais sobre o assunto, clique aqui). Com 14,5 milhões de habitantes, a nação do sudeste africano só fica atrás do Brasil, Índia e Estados Unidos.

A comemoração pelo crescimento da igreja na Zâmbia, felizmente não se restringe ao país, é uma tendência em todo o continente, abaixo do deserto do Saara. Em maio, por exemplo, 30 mil pessoas foram batizadas numa grande campanha evangelística no Zimbábue (leia mais aqui), que integrou pregação pública com atendimento gratuito de saúde. O país é vizinho da Zâmbia e já caminha a passos largos para chegar a um milhão de adventistas.

Dividida em três grandes áreas administrativas (divisões), a igreja hoje na África tem 7 milhões de adventistas. E conforme afirmou o pastor Paul Ratsara, presidente da Divisão Sul-Africana Oceano Índico, os líderes têm trabalhado para que na África evangelismo não seja apenas um evento, mas um estilo de vida.

No entanto, pregar o evangelho por lá não é tão fácil quanto possa parecer. Embora os números sejam animadores, a igreja tem enfrentado grandes dificuldades em alguns lugares. Segundo o pastor Osni Fernandes, missionário por seis anos nas ilhas de Cabo Verde, a liderança local muitas vezes é carente de treinamento e material para realizar o trabalho. São muitos os casos em que faltam Bíblias, lições, livros de Ellen White, hinários e folhetos. A igreja africana também reflete a pobreza do continente. De acordo com a revista Global Finance, dos 50 países mais pobres do mundo, 42 estão na África.

Além do mais, o continente africano é um dos mais culturalmente diversos do planeta. Conforme informa o pastor Gilberto Araújo, vice-presidente da Divisão Sul-Africana Oceano Índico e missionário há 28 anos, existem mais de 600 culturas apenas no território dessa divisão que é formada por 20 países. Em regiões como essas, “crescer de forma harmoniosa, mantendo a unidade na fé e na doutrina” é particularmente desafiador.

Mas nem sempre o missionário é chamado para trabalhar diretamente com evangelismo na África, alguns, como pastor brasileiro Matson Santana e sua família, vão para lá a fim de atuar em ministérios de promoção do bem-estar integral. No caso da família Santana, ao trabalharem no Egito com pessoas que possuem deficiências físicas, sensoriais e mentais, eles conseguiram transpor barreiras religiosas, políticas e socioculturais para compartilhar a fé.

Outra realidade do trabalho da África e de qualquer campo missionário transcultural, é que a missão ocorre em mão dupla. Ou seja, ao mesmo tempo em que o missionário procura transformar pessoas e culturas, ele também é impactado. “Conviver com eles e ver de perto o entusiasmo das pessoas, apesar dos muitos problemas que enfrentam”, confessa o pastor Osni, “tem sido uma experiência marcante e positiva em meu ministério”. Aprendizado semelhante tem experimentado o pastor Gilberto Araújo: “posso dizer que esse trabalho me ajudou a manter meu primeiro amor, conservou minha paixão pela salvação de pessoas, ampliou a visão sobre meu campo missionário e tem me ensinado a conviver com pessoas de outras culturas e a desejar estar pronto para o breve retorno de Cristo.”

Glauber Araújo é filho de missionários, cresceu na África e trabalha como editor de livros na CPB. É pastor e mestre em Ciências da Religião


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De todas as promessas de Jesus, a expressa em João 14:1-3 é a mais pessoal, consoladora e segura. “Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes lugar. E se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver”.[i]

O que Jesus está dizendo aqui? Basicamente o seguinte: “Eu sei que vocês confiam em Deus; sei que também confiam em Mim. Mas quando pararem de me ver, deixarão de confiar? Continuo conduzindo-os até o destino final. Levem Minha Palavra a sério. Eu virei mais uma vez e nós ficaremos juntos”.

Um Senhor digno de confiança

Será que confiamos nas palavras de Jesus, mesmo quando Ele não está fisicamente conosco? Ou temos um pouco de Tomé dentro de nós? No relato da ressurreição de Jesus, Tomé buscou uma base mais racional para uma história tão extraordinária: “Eu estou bem, meu coração está bem, minha fé está bem, está tudo bem. Mas estou com um problema: a menos que eu sinta Suas feridas com minhas mãos, simplesmente não consigo crer”. Uma semana depois, Jesus lhe deu essa oportunidade. O Cristo ressurreto desafiou o discípulo duvidoso: “Toque-me e veja”. E foi isso que Tomé fez. Sentiu as feridas de Jesus e se rendeu: “Senhor meu e Deus meu” (João 20:28).

A resposta de Jesus tem relevância eterna para a jornada da fé: “Porque você me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram” (versículo 29). As palavras de Jesus são tão boas quanto Sua presença. Mesmo enquanto esperamos, Suas palavras “virei outra vez” falam com uma certeza que não admite nem dúvida, nem zombaria.

O evangelho de João relata um episódio emocionante no capítulo 4. Em Cafarnaum, o filho de um nobre estava doente. O oficial ouvira que Jesus estava novamente em Caná, onde havia realizado Seu primeiro milagre em um casamento.

Mas Jesus não se limita apenas a Caná. Ele é universal, uma pessoa para todas as pessoas. É o Salvador do mundo. Sua palavra ordena a vida. Por isso, o nobre de Cafarnaum se apressou para viajar cerca de 36 quilômetros na direção sudoeste até Caná, a fim de encontrar Jesus e lhe dizer que seu filho estava “à beira da morte” (João 4:47). “Vem até minha casa, Jesus”, ele suplicou. “Resgata meu filho das garras da morte. Tu podes curá-lo. Confio em Ti”.


Todo pensamento e toda atividade de nossa vida devem ser definidos por esse clímax da história humana que está prestes a acontecer


A resposta do Salvador é surpreendente: “Pode ir. O seu filho continuará vivo” (versículo 50). Jesus parece dizer: “Eu não preciso ir com você. Você tem Minha Palavra. Confie em Mim. Minha palavra é tão boa quanto Minha presença”.

O nobre confiou nas palavras de Jesus e só voltou para casa no dia seguinte. Quando finalmente chegou, “seus servos vieram ao seu encontro com notícias de que o menino estava vivo” (versículo 51). O homem descobriu que a cura havia ocorrido justamente no momento em que Jesus falara. A palavra de Cristo nunca falha — seja em Caná, Cafarnaum, Betesda, Jerusalém, San Antonio ou Londres — Sua palavra é tão boa quanto Sua presença.

E foi esse Jesus quem disse: “Voltarei” (João 14:3).

Suas promessas são dignas de confiança

Confiar em Jesus é se apoiar em algo real e concreto. “Na casa de meu Pai”, esse é o lar! Ele estava indo para casa e se ofereceu para partilhar esse lar com aqueles que depositam fé e confiança nEle. Seu retorno deve nos mover da fé e do acreditar a uma experiência real e concreta. Quando Ele voltar, não dirá “Toque-me e veja”, mas, sim, “Entre na alegria de Seu Senhor. Habite comigo na casa de Meu Pai. Essa é sua herança preparada desde a fundação do mundo” (cf. Mateus 25:21, 34). A promessa de viver na casa de Deus é tão real quanto a experiência de Tomé de tocar o lado ferido de Jesus.

Quando Cristo falou sobre uma casa no céu, não estava se referindo a sua beleza, amplidão ou caráter desejável. Ele falou sobre a casa de Seu Pai. Essa casa é diferente de todas as outras. Trata-se de um local construído pelo amor. É o lugar onde podemos ser as pessoas que Deus nos criou para ser, onde podemos voltar para o lar, tirar os sapatos e relaxar.

Essa é a casa que Jesus prometeu. Somos aceitos e amados ali; e pertencemos a esse lugar. Jesus diz: A casa de Meu Pai é a sua casa também. O seio eterno de Deus se torna nosso lugar de descanso eterno, onde podemos nos apoiar, celebrar nossa alegria duradoura e bradar em triunfo: “Nunca mais haverá separação entre Ele e nós”. Estamos no lar afinal!

Jesus usou imagens familiares de Sua época para ilustrar Seu retorno, a saber, viagens e um casamento. Quando as autoridades viajavam, as pessoas eram enviadas à frente para fazer todos os preparativos para o restante do grupo. Jesus faz isso por nós. Ele vai à frente a fim de preparar um lugar para podermos viajar até nossa casa. Enquanto aguardamos Seu retorno, ele pede que preparemos um lugar para Jesus no coração das pessoas ao nosso redor, a fim de que elas também possam fazer a viagem.

Em Israel, quando um jovem queria se casar, ele pedia aprovação a seu pai. Somente quando era construída uma extensão na casa, o pai concordava que o casamento prosseguisse e a noiva fosse levada para casa. Nosso Pai celeste quer que Jesus Cristo, Seu Filho, nos leve para o lar.

Como chegar lá?

Mas como chegaremos lá? A resposta é a mesma: confiança em Jesus. Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). Ninguém chega até o Pai, ou a Sua casa, a não ser por meio dEle. Não importa quem somos — homens ou mulheres, negros ou brancos, jovens ou velhos, ricos ou pobres, saudáveis ou doentes. O que importa de fato é que vamos para a Casa do Pai por intermédio de Jesus e há lugar para todos ali.

Enquanto a Guerra do Vietnã assolava a região, um soldado voltou para casa. Assim que pousou nos Estados Unidos, ele ligou para os pais. Sua mãe atendeu o telefone e ficou muito feliz por ouvir a voz do filho. Empolgada, exclamou:

— Estou feliz porque você conseguiu, filho. Esse é o melhor presente de Natal que poderíamos receber! Venha logo. Seu quarto estará preparado.

A voz do outro lado da linha assumiu um tom hesitante, que mal passava de um sussurro:

— Mas mãe…

— Sim?

Mais uma vez, a voz se encheu de cautela:

— Trouxe um amigo comigo. Posso levá-lo para a festa de Natal?

— Claro que pode! Seu amigo é nosso amigo também.

O filho continuou a explicar:

— Mas mãe, esse meu amigo está muito ferido. O rosto se encontra totalmente desfigurado. Na guerra, ele perdeu um olho, um braço e as duas pernas. A aparência dele é esquisita. Não é algo belo de se ver e ele pode precisar de um pouco de ajuda.

O silêncio pairou do outro lado da linha. Depois daquilo que pareceu uma eternidade, a mãe finalmente disse:

— Filho, por que você não o deixa em um hotel e simplesmente vem para casa? Não há lugar para ele na festa.

O filho nunca chegou à celebração. A mãe foi sozinha para as festividades da véspera de Natal. Por volta das quatro da manhã, quando chegou em casa, o telefone tocou. Ela atendeu rapidamente e ouviu a voz de um policial:

— Senhora, encontramos o corpo de um veterano do Vietnã em um quarto de hotel; ao que tudo indica, suicidou-se. Ele tinha o rosto desfigurado; havia perdido um olho, um braço e as duas pernas. Pelos documentos, acreditamos ser seu filho.

A casa de nosso Pai é radicalmente diferente. A chegada ao lar que Jesus foi preparar será um acontecimento alegre. Ninguém notará as cicatrizes no rosto de uma pessoa, nem as deficiências no corpo de outra. O mortal se revestirá de imortalidade. O próprio Cristo será nossa perfeição e Ele nos conduzirá à casa de Seu Pai.

O que podemos fazer?

O que podemos fazer em antecipação a esse momento que logo chegará?

Somos desafiados a viver na expectativa da vinda de Jesus. Cada pensamento e atividade de nossa vida devem ser definidos por esse clímax iminente da história humana. É Jesus quem voltará como o Senhor da glória. O mesmo Jesus que venceu a batalha contra o pecado logo descerá nas nuvens do céu para nos levar para casa. É por isso que Paulo aconselha: “Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas” (Colossenses 3:2). Nosso lar está no alto.

Com esse foco, somos chamados a conduzir a vida em vigilante expectativa e testemunho. O conselho apostólico é: “O fim de todas as coisas está próximo”. “Portanto, sejam criteriosos e estejam alertas; dediquem-se à oração” (1Pedro 4:7). A espera pelo lar do alto pode ser desacreditada como se fosse um sonho utópico, mas para aqueles que creem nas palavras de Jesus, o evento de Sua segunda vinda é tão histórico quanto o primeiro. Jesus voltará na história, no tempo e no espaço.

Tal acontecimento demanda confiança sem reservas nAquele que fez a promessa. “Confie em Mim”, podemos ouvi-lo dizer. “Eu voltarei para levar você à casa de Meu Pai”.

Viver com tal confiança é nosso desafio hoje. “Comportemo-nos com decência”, Paulo nos conclama, considerando a aproximação da aurora (Romanos 13:13). Podemos viver em meio à escuridão, mas, pelos olhos da fé, devemos manter em vista a aurora que se aproxima e viver de modo que não sejamos pegos desprevenidos. A segunda vinda deve nos deixar despertos e sóbrios (1Tessalonicenses 5:6) e precisa nos levar a um autoexame, a fim de fazermos a seguinte reflexão: “que tipo de pessoa é necessário que você seja? Viva de maneira santa e piedosa, esperando o dia de Deus e apressando a sua vinda” (2Pedro 3:11, 12).

No fim das contas, é isso que importa. Enquanto esperamos, enquanto aguardamos, estamos vivendo de maneira responsável e amorosa, refletindo prontamente o caráter e a missão do Senhor que logo vem? O conselho de Ellen White é oportuno: “Vigiem pelo Senhor com mais fervor do que eles vigiam pela alvorada. Esperem no Senhor. Andem em Seus caminhos. Declarem Sua verdade. Ele muito se agrada quando Seus servos falam da fé… Ele trabalha por vocês e com vocês” (Carta 66, 1901, em Manuscript Releases, vol. 10, p. 388). [Tradução: Cecília Eller Nascimento]

Janos Kovacs-Biro é natural da Hungria e atua como diretor da Associação Ministerial e dos departamentos de Evangelismo e Ministério Pessoal da Divisão Transeuropeia em Saint Albans, Inglaterra.

Mensagem apresentada na quinta-feira, 2 de julho de 2015, na 60ª assembleia da Associação Geral, em San Antonio, Texas (EUA)

[i] Todas as citações bíblicas foram extraídas da Nova Versão Internacional.

ASSISTA TAMBÉM AO VÍDEO DA PREGAÇÃO

Um lar para quem está longe de casa

Igrejas étnicas querem alcançar 1 milhão de pessoas que falam português e vivem na América do Norte

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Denison Moura é pastor em Nova York e foi recentemente eleito coordenador das igrejas adventistas de fala portuguesa da América do Norte. Foto: arquivo pessoal

Apesar de se concentrar basicamente em dois grandes países, Estados Unidos e Canadá, a Igreja Adventista na América do Norte tem muita diversidade cultural. Por isso, há alguns anos, um ministério multiétnico foi oficializado pela sede da denominação, tendo as igrejas de fala portuguesa como uma das áreas de atuação.

A iniciativa tem justificativa: estima-se que mais de 1 milhão de pessoas falam português por aqui. No contexto adventista, são 5.139 membros em 51 congregações distribuídas por 16 regiões administrativas (associações). Atendidas por 30 pastores, essas igrejas levaram 1.866 pessoas ao batismo nos últimos cinco anos.

Esses números representam um desafio que exige intenso esforço e dependência do poder do Espírito Santo. Da década de 1970 até o início dos anos 2000, as igrejas de língua portuguesa registraram um amplo crescimento. A imigração para os Estados Unidos favoreceu o acolhimento desses migrantes que se uniram no propósito de partilhar a fé com seus compatriotas. Porém, nos anos 2007 a 2009, a crise financeira americana e o rigor das leis de imigração atingiram fortemente a comunidade de língua portuguesa, fazendo com que muitos retornassem para sua terra natal. As igrejas de migrantes perderam de 30 a 50% dos membros e o crescimento só voltou a ser retomado em 2013.

O evangelismo é a mola propulsora do avanço desse ministério, e as formas convencionais e inovadoras de evangelização devem continuar convivendo por aqui. Nessa tendência, o modelo de discipulado e a proposta de pequenos grupos ganham espaço, e localizar pessoas que falam português, sejam concentradas em comunidades ou vivendo isoladamente delas, passa a ser prioridade. Para tanto, o contato pessoal e o uso da mídia são recursos eficazes.

Imersos numa comunidade secular e influenciados pelo pós-modernismo, os imigrantes tendem a ter uma postura diferente em relação à religião do que teriam em seu país de origem. Logo, é preciso mostrar a relevância da fé nesse novo contexto, o que, via de regra, se traduz em fortes vínculos comunitários.

Um desafio que tem se tornado mais forte neste tempo é a integração das novas gerações no ambiente das igrejas de língua portuguesa. Isso envolve eficácia na comunicação em dois idiomas, inglês e português, e o uso de tecnologia e de uma linguagem cultural que faça sentido aos jovens, adolescentes e crianças.

Entendemos que não existe um único modelo que atenda todas as necessidades, mas o objetivo é encontrar todos os caminhos possíveis para que as próximas gerações estejam integradas e envolvidas no ambiente da igreja e no cumprimento da missão. Para tanto, temos organizado cultos específicos para essa audiência, além de pequenos grupos de relacionamento, atividades sociais e comunitárias. Porém, por vivermos numa sociedade em constante transformação, estamos atentos ao que tem efeito no coração das pessoas.

Oferecer suporte para essas igrejas por meio de materiais para o trabalho missionário também é um dos desafios do nosso ministério. Muito do que utilizamos aqui vem da igreja sul-americana, mas temos buscado produzir materiais que retratem melhor nossa realidade. O site, que está sendo reformulado, visa a favorecer o acesso e a distribuição desses recursos.

Os desafios se transformam e o empenho se intensifica. Priorizando o crescimento espiritual e o comprometimento com Jesus e sua missão, acreditamos que seremos movidos ao cumprimento do nosso papel como discípulos de Cristo, dia após dia, até o tempo em que ouviremos dele: “Bem está servo bom e fiel (…) entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25:23).

Denison Moura é pastor em Nova York e foi recentemente eleito coordenador das igrejas adventistas de fala portuguesa da América do Norte

A igreja diante do espelho

No segundo dia da assembleia mundial que acontece em San Antonio, no Texas (EUA), a igreja faz uma autoanálise

Na sexta-feira, dia 3 de julho, a assembleia de delegados e demais participantes da igreja mundial se voltou para o espelho. Ela olhou para seu corpo, percebeu o quanto ele aumentou nos últimos anos, mas também o quanto ele poderia estar mais saudável. Nos relatórios apresentados por G. T. Ng, secretário da Associação Geral, e David Trim, diretor do departamento de Arquivos, Estatísticas e Pesquisa da Associação Geral, a assembleia de delegados teve a oportunidade de enxergar o adventismo mais globalmente. Identificaram-se tendências que desenham nosso futuro. Na agenda, a apresentação do relatório da Secretaria foi seguido pelas perguntas e final aprovação dos delegados.

Missão nas entrelinhas

assembleia-San-Antonio-2015-02.07-creditos-leonidas-guedes-13Para se afastar da frieza dos números, o pastor G. T. Ng  fez uma apresentação das estatísticas “no contexto da igreja”, segundo destacou. Introduziu o relatório, relembrando William Spicer (1865–1952), que teve uma relação forte com a missão. Após voltar de seu serviço missionário na Inglaterra, ele foi eleito como diretor do Conselho das Missões Estrangeiras, órgão criado em 1889.  Três anos depois, Spicer foi enviado à Índia como o único pastor ordenado numa das regiões mais populosas do planeta. Retornando aos Estados Unidos, foi eleito secretário e, mais tarde, presidente da Associação Geral.

T. Ng descreveu Spicer como um entusiasta da missão. Na Conferência Geral de 1913, já como presidente da sede mundial, Spicer se referiu ao fato de que aquela era a primeira reunião da Igreja Adventista com a presença de delegados de outras partes do mundo. Em discurso visionário, Spicer afirmou: “O que o profeta contemplou em visão na ilha de Patmos vemos com nossos olhos hoje, a última mensagem do evangelho eterno voando para toda terra e nação, trazendo a (colheita) predita num povo que guarda “os mandamentos de Deus e que tem a fé em Jesus” (The General Conference Bulletin, 38a Sessão, 16 de maio de 1913, vol. 7, n. 1).

Na época de Spicer, o crescimento e a internacionalização do adventismo já era um processo irreversível. Nesse período, a América do Norte contava com 50 mil membros, segundo Ng; hoje a denominação-movimento conta com 18,5 milhões de membros. Se alguns países e continentes foram representados na Assembleia de 1913, neste ano, representantes de 168 países se encontraram no Alamodome.

O pastor Ng destacou que o ano de 2014 estabeleceu um marco no crescimento numérico da igreja. Nele, acresceram à igreja mais de 1,16 milhão de membros, considerando-se que, no início do último quinquênio (2010), a igreja tinha cerca de 16,9 milhões de membros. Nos últimos 10 anos, a igreja recebeu 6,6 milhões de membros. Para completar o quadro, a denominação contava, em 2014, com 78.810 igrejas e 69.213 grupos. Somente em 2014, foram organizadas 2.446 igrejas, o que representa uma média de 6,7 igrejas fundadas por dia, ou uma igreja sendo plantada a cada 3 horas e 58 minutos.

O ano de 2014, segundo Ng, foi o maior em número de batismos, de congregações plantadas, o 10° ano consecutivo em que foi registrado um acréscimo de mais de um milhão de fiéis e o 12° ano consecutivo em que mais de 2 mil igrejas foram estabelecidas.

Norte e Sul

Porém, o quadro mais revelador da Igreja Adventista está em sua representatividade socioeconômica, que tem profundas implicações. Considerando-se a classificação Norte-Sul global, que separa os países desenvolvidos dos países pobres ou em desenvolvimento, é importante localizar a presença da maior parte dos membros da igreja. A resposta, segundo G. T. Ng, é que esmagadores 92% estão no Sul global, anúncio que foi seguido por uma salva de palmas no auditório. O que impressiona nesse número não é que o Sul global seja a grande maioria na igreja, mas que ele já é a maioria absoluta.

Se a Igreja Adventista fosse uma vila de 100 pessoas, em 1960, ela seria composta por 27 pessoas da América do Norte, 20 da América Latina, 19 da África, 16 da Europa, 14 da Ásia e 4 da Oceania, de acordo com Ng. Em 2014, a vila tem outra configuração: 38 pessoas da África, 32 da América Latina, 19 da Ásia, 7 da América do Norte, 2 da Europa e 2 da Oceania. A implicação direta dessa diferença representativa indica uma forte tendência de que os irmãos africanos e latino-americanos tenham uma participação cada vez maior na determinação dos rumos da igreja. Esse fenômeno já é perceptível, basta observar quantos africanos têm se dirigido ao microfone nas reuniões administrativas (business sessions). O mesmo se percebe na presença de oficiais do Sul socioeconômico na liderança da igreja mundial.

Se a Igreja Adventista fosse uma vila, essa seria a proporção de membros por região do mundo.

Se a Igreja Adventista fosse uma vila, essa seria a proporção de membros por região do mundo.

O quadro objetivo nos faz refletir sobre elementos subjetivos. A igreja do mundo desenvolvido mostra tendências mais inovadoras, progressistas, enquanto a igreja do Sul se mostra mais apegada aos “marcos antigos” (Pv 22:8), mais conservadora? Seria isso apenas uma diferença cultural? Essa diferença precisa implicar uma polarização, uma contraposição? Será que o adventismo do mundo desenvolvido se conformaria com as resoluções aprovadas pelos adventistas do mundo em desenvolvimento? Será que desenvolvimento cultural e material é sinônimo de desenvolvimento espiritual-eclesiástico? Será que a própria Bíblia foi culturalmente condicionada?

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A igreja está presente em 215 países dos 237 reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Essas são questões sobre as quais a igreja tem refletido. Por isso, a tônica desta assembleia mundial é a unidade num sentido mais abrangente – não apenas uma unidade oficial, mas a unidade de fé e de práticas, a unidade no Espírito Santo e no amor de Deus. Delegados de todas as partes do mundo demonstram uma preocupação com essa questão. Mark Finley, em seu sermão feito na noite de sexta-feira, apelou com lágrimas e voz embargada, mas com muita energia, que a igreja esteja unida em missão. Finley lembrou que os discípulos “eram diferentes, mas Deus os uniu”.

Perdas dolorosas

T. Ng alegrou a delegação mundial com sua apresentação criativa e espirituosa das estatísticas da igreja, mas não deixou de mencionar o número que sempre nos entristece: o dos que deixaram a Igreja. Então, foi projetada no telão a imagem de um balde cheio de água, mas que estava cheio de furos, representando a “síndrome do balde que vaza” (The Leaky Bucket Syndrome). Para se ter uma ideia, entre 2010 e 2014, houve uma perda de 60% dos membros na igreja mundial; enquanto que, de 2000 a 2014, a perda foi de 48%. Após algumas palavras de reflexão e encorajamento, o secretário executivo concluiu sua fala apelando à igreja para que algo seja feito para confrontar essa realidade.

Foi inevitável que o sabor doce dos números do crescimento da igreja tenha, em parte, se tornado amargo pelas notícias sobre os milhões que deixaram a denominação nos últimos anos. Momentos mais tarde, filas de delegados se formariam diante dos microfones para expor dúvidas, preocupações e sugestões sobre as perdas na igreja. A mais significativa delas, de que o crescimento está diminuindo com o passar dos anos. Hoje a igreja cresce cerca de 1,8% ao ano, menos da metade do crescimento verificado anos atrás.

O relatório de G. T. Ng foi oportunamente complementado por David Trim. Ele destacou que, no último quinquênio, a igreja mundial realizou uma série de auditorias minuciosas da contagem de membros, constatando que, “em muitos casos, o número de membros foi superestimado”. Segundo ele, os processos de auditoria da igreja são essenciais, acima de tudo, por uma questão moral, de apego à veracidade dos fatos.

Uma evidência da necessidade de ajustes na Secretaria está no número de mortes entre os adventistas, segundo Trim. Enquanto estudos indicam que a média mundial de mortes entre os adventistas é de 3,39 para cada mil membros (contra 8,55 entre não adventistas), os relatórios indicam que a  Secretaria felizmente tem se tornado cada vez mais precisa no controle do número de membros (de uma mortalidade de 2,67/1.000, passou para um número mais realista de 3/1.000). Um dos fatores para essa precisão, segundo Trim, foi a adoção, em 2012, do software da Secretaria da Igreja, o qual tinha sido desenvolvido e aplicado na Divisão Sul-Americana.

Os processos eletrônicos permitem um registro e uma atualização mais fidedigna do número de membros da igreja. “Estatísticas acuradas não são um fim em si mesmo. Elas devem servir para a missão”, afirma Trim. Registros fidedignos permitem saber que ovelhas estão dentro e fora do aprisco e desenvolver projetos para ir em busca delas.

Na tarde da sexta-feira, a igreja analisou suas finanças apresentadas pelo tesoureiro da Associação Geral, Robert Lemon, e as aprovou. Lemon ressaltou que, à medida que a igreja se fortalece em várias partes do mundo, os recursos da Associação Geral vão priorizar os países da missão global, da chamada janela 10/40. Esta talvez seja mais uma evidência da nova realidade da Igreja no Sul global: ela está mais forte e menos dependente, mesmo no aspecto financeiro.

Como um organismo, a igreja está em transformação. Isso, por um lado, nos preocupa, mas, por outro, nos anima. A unidade na diversidade não deve ser apenas uma frase bonita, mas um exercício constante em todos os níveis da igreja. Os paradoxos devem servir como estímulo à cooperação e ao crescimento espiritual de todos, individualmente, e da igreja como corpo de Cristo. Essa tem sido a principal mensagem da assembleia de San Antonio. [Diogo Cavalcanti, equipe RA]


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guntherA União Norte-Africana Oriente Médio é uma das maiores regiões administrativas da Igreja Adventista em termos de território, área maior do que os Estados Unidos ou a Europa. É formada por 20 países e se estende do Marrocos, no extremo oeste da África, até o Qatar, no Golfo Pérsico. Esse vasta geografia, onde vivem mais de 500 milhões de pessoas, é o berço do cristianismo, mas atualmente a religião predominante ali é o islamismo. A região tem 55 centros urbanos com mais de 1 milhão de habitantes, e na maioria deles não há presença adventista.

É interessante viver numa região muito diferente da nossa realidade na América do Sul. As diferenças religiosas e de costumes são oportunidades para conhecer, compreender, apreciar e adaptar-se. Porém, os desafios são imensos. Alguns países de maioria muçulmana toleram a presença de cristãos, enquanto outros são mais fechados e dificultam a presença deles. Sendo assim, a igreja trabalha levando em consideração a situação de cada nação, encontrando meios para cumprir a grande comissão deixada por Jesus, uma motivação forte e urgente para levar a mensagem de esperança para todos.

Embora o número de adventistas na região seja ínfimo comparado com o de habitantes (1 adventista para cada 170 mil), a denominação considera que o testemunho pessoal é uma forma para cumprir a missão e apressar a volta de Jesus. Se não podemos plantar igrejas, podemos “plantar” missionários. Nessa região, também utilizamos os meios de comunicação como a internet, rádio e televisão para alcançar milhões de pessoas.

Alguns países como o Líbano, cuja população é praticamente dividida entre muçulmanos e cristãos, existe liberdade religiosa. Por essa razão, entre outras, em Beirute está a sede da igreja para a região. É onde também está situada a Universidade Adventista do Oriente Médio, que atende as necessidades de formação profissional em áreas de interesse da igreja e da comunidade em geral. Ali fica também a TV Al Waad, canal adventista cujo nome em árabe significa “promessa”.

No Egito, a denominação está presente há décadas, com uma sede de associação, uma fábrica de alimentos, um centro de influência na área de saúde e um internato que oferece o Ensino Médio, o Nile Union Academy. Por sua vez, outros países são mais restritivos, não permitindo que denominações religiosas preguem para a população local. É possível ministrar para os membros da própria igreja, mas distribuir literatura, dar estudos bíblicos ou realizar reuniões de pequenos grupos é considerado uma contravenção. Nesses contextos, uma das melhores maneiras de testemunhar é por meio de feiras de saúde.

Talvez você se pergunte: “o que posso fazer, mesmo à distância, pelas milhões de pessoas que vivem no Oriente Médio e Norte da África, que pouco ou nada sabem sobre a vida, ministério, morte, ressurreição e breve volta de Jesus?” Sugiro algumas atitudes: ore pela igreja, seus servidores e por sua missão na região; diariamente entregue sua vida a Jesus e testemunhe de seu amor; e se coloque à disposição de Deus para, talvez, servi-lo nesta região do mundo.

Günther Wallauer é coordenador de projetos na União Norte-Africana e Oriente Médio e vive em Beirute, no Líbano