Desafio no país da Disney

Pastor conta como é liderar uma igreja multiétnica e centenária no centro de Orlando, na Flórida

Servir a Deus como pastor é um privilégio em qualquer lugar do mundo. Porém, trabalhar em outra cultura é sempre desafiador. Depois dos ajustes da mudança e do estresse que isso traz para a família pastoral, é hora de conhecer a liderança da igreja e ajudá-la a ser funcional. O passo seguinte é tomar conhecimento das necessidades da cultura local e verificar como a Palavra de Deus pode impactar essa realidade. Creio que todos esses são medidas importantes para um ministério pastoral relevante.

cleber-machado-3Em 2012, Deus me chamou para cuidar de uma igreja multiétnica no coração de Orlando, na Flórida (EUA). A Igreja Central de Orlando foi organizada no dia 17 de março de 1890 e, portanto, tem 125 anos de existência. Ao descobrir a história dessa congregação e conhecer os grandes pastores que já passaram por ali, senti-me pequeno diante de tamanha responsabilidade. Foi nesse contexto que entendi melhor o conflito pelo qual Josué passou ao receber o chamado de Deus para liderar o povo e suceder a Moisés (Js 1).

O meu primeiro desafio foi entender as barreiras linguísticas. A igreja está no centro dessa cidade turística e a cada sábado tenho que pregar em duas línguas: inglês e espanhol. Por sua vez, nossa Escola Sabatina opera nesses dois idiomas e em francês. Eu sabia falar inglês antes de assumir a igreja, mas não expressões culturais que apenas são aprendidas com o tempo.

Lembro-me, por exemplo, de uma situação em que, ao pregar, usei uma palavra que poderia ser traduzida como “caipira”. Foi quando todos me olharam com certa apreensão. Ao perceber a reação deles, perguntei se o que estava falando era inadequado e todos balançaram a cabeça positivamente, dando muitas risadas da minha trapalhada cultural. Depois do culto, alguns vieram me explicar que aquela expressão não é negativa em outras regiões dos Estados Unidos, mas soa pejorativa no sudeste do país.

O desafio cultural é grande. A Igreja Central de Orlando é formada por pessoas de 20 países. Cada uma dessas nacionalidades e suas subculturas possuem compreensão e perspectiva de vida diferente, o que acaba resultando em diferentes maneiras de ser igreja. Não é raro membros da igreja falarem para mim: “lá no meu país a gente faz de outro jeito”. Confesso que tenho a mesma tentação, e que muitas vezes já caí nela! Contudo, com o amadurecimento entendi que não se trata de como fazemos aqui ou ali, mas em como podemos encontrar o “assim diz o Senhor” para a realidade local, o que requer muita oração e estudo da Bíblia. Aprender a viver em uma realidade de exílio não é particularidade de nossos dias, mas encontra precedentes no povo de Deus (Jr 29:4-8).

Nesses últimos três anos, trabalhando como missionário e agente de transformação, a grande lição que tenho aprendido é confiar mais em Deus e nos princípios eternos de sua Palavra. Percebi que Deus tem feito muito mais em mim e por mim a partir do momento em que as mudanças me fizeram reconhecer minhas limitações pessoais e culturais. Isso tem sido um grande exercício de fé e humildade, bem como uma ótima oportunidade para aprender a depender mais do Pai (2Cr 7:14).

A grande verdade é que para gerar impacto para o reino de Deus, o fruto do Espírito (Gl 5:22, 23) tem que deixar as páginas do livro sagrado e se tornar a forma como vivemos: amor pelo evangelho a ponto de estar disposto a ser mártir por essa causa; paz em meio ao turbilhão de ideias e complexidade cultural; paciência para ouvir e entender que Deus trabalha em todos de forma diferente; bondade ao responder sensivelmente a quem é diferente de mim; fidelidade para com a Palavra de Deus e; domínio próprio para não oprimir qualquer que seja a cultura– afinal de contas, o chamado de Deus para a igreja é fazer discípulos de todas as nações (Mt 28:18).

Cleber Machado é pastor na Igreja Central de Orlando, na Flórida

Nas terras de Aladim

Saiba por que a perda do vínculo familiar é o maior desafio e a secularização é a maior oportunidade para a missão no Oriente Médio

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O Oriente Médio é um grande emaranhado de culturas milenares, onde nasceram as três principais religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Várias civilizações dominaram a região que é palco de conflitos quase eternos. Mais recentemente, a região foi tomada por impérios coloniais europeus e o termo Oriente Médio só foi cunhado após a Segunda Guerra Mundial, quando divisas territoriais foram estabelecidas sem levar em conta o histórico dos povos que ali habitam. Resultado: desde então, a região tem vivido em constante tensão entre o modelo de estado e o étnico tribal. Soma-se a tudo isso, as disputas religiosas e políticas.

mapa-da-MENAO que chamamos Oriente Médio é a junção de três grandes áreas geográficas definidas de maneira imprecisa. A primeira região é o Norte da África, formada por nações com grandes desafios sócio econômicos, como a Líbia, Tunísia e Argélia. Por sua vez, o Egito, Jordânia, Israel, Síria, Líbano e Turquia formam a segunda região, chamada de Levante. Marcada por conflitos, essa geografia convive com o constante enfrentamento entre palestinos e israelenses, xiitas e sunitas, além do terror imposto por grupos como Hezbollah e Estado Islâmico.

A terceira região é a do Golfo Árabe ou Pérsico. Aqui ficam as nações mais ricas e algumas das mais secularizadas do Oriente Médio, destino certo para os jovens árabes que buscam trabalho e prosperidade. É nesta região que está, por exemplo, a famosa cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos; a Arábia Saudita, que concentra 20% das reservas de petróleo do planeta; e o Irã, que produz 16% de todo gás natural do mundo.

Apesar de possuir 60% das reservas de petróleo do planeta, as disparidades no Oriente Médio são tremendas. O desemprego entre os jovens, por exemplo, varia entre 48,7% na Líbia e 1,1% no Qatar. As diferenças se espalham por áreas como educação, expectativa de vida e direitos femininos. Porém, o que une a região mesmo, apesar de sua diversidade étnica, é a religião islâmica e língua árabe.

Talvez no imaginário brasileiro, o Oriente Médio ainda seja a terra encantada de Ali Babá, o Gênio da Lâmpada, das Mil e Uma Noites e do Aladim. De fato, essa é a terra dos camelos, desertos, majestosas montanhas rochosas, tapetes, castelos e vilas milenares com seus sheiks, sultões e emirs. O que os contos das arábias não revelam são as condições extremas como temperaturas acima dos 50 graus, escassez de água, alimento limitado, tempestades de areia e constantes guerras ao longo dos milênios. É nessa terra de contrastes que o cristianismo em geral, e o adventismo em particular, encontra um de seus maiores desafios

Desafios

Diversidade étnica. Os maiores grupos são os árabes, berberes, iranianos, turcos, curdos e israelenses. A Igreja Adventista não possui membros em todos esses grupos étnicos e os conflitos constantes forçam a migração dos poucos adventistas nativos. O ódio racial é uma constante tentação aos irmãos desta região marcada por atrocidades. Missionários estrangeiros também enfrentam grandes dificuldades para serem aceitos entre as comunidades nativas, o que dificulta a aprendizagem da língua, costumes e o desenvolvimento de relacionamentos significativos. O estrangeiro é alvo de suspeita, quando não é visto apenas como uma “ponte” para facilitar a migração para a Europa e América do Norte. Em lugares com visão de mundo tribal os relacionamentos são fechados dentro do circulo familiar, que pode facilmente conter milhares de pessoas. Embora o islamismo seja a religião predominante, vivem ali cristãos como os coptas e assírios, além dos judeus em Israel.

Sistema islâmico. Diferentemente do Ocidente, em que a religião é uma área da vida, no Oriente Médio, a influência do islamismo ultrapassa as mesquitas, é um sistema social completo e complexo. Ou seja, em muitos países a religião é indissociável do governo, da política, das leis e das regras sociais. Nesse caso, ser cidadão é ser islâmico. Embora em alguns países o cristianismo seja tolerado por conta da grande quantidade de migrantes, ainda sim a fé cristã não pode ser pregada a muçulmanos e a presença de nativos em cultos de outras religiões é proibida. O proselitismo também é vetado por lei a apostasia da fé islâmica pode ser punida com pena de morte. Porém, ao contrário do que pareça, essas leis rígidas não são a maior barreira para a conversão de muçulmanos, e sim a perda do vínculo famíliar, da identidade étnica e do senso de pertencimento.

Oportunidades

População jovem urbana. Eles são maioria nas metrópoles emergentes da região, ambiente que dificulta a fiscalização religiosa e possibilita a formação de pequenos núcleos de influência cristã. Nesse contexto, os encontros casuais permitem que relacionamentos sejam desenvolvidos de maneira mais natural. Esses jovens urbanos vivem um momento de profunda desilusão, seja com a falta de perspectiva de dias melhores ou pelo tédio da prosperidade excessiva. Enquanto os que conseguem migram para outros países, a maioria permanece e parece aberta a explorar outras narrativas para sua fé.

Crenças adventistas. Islamismo e o adventismo possuem semelhanças quanto à modéstia, alimentação, abstinência de álcool e substâncias tóxicas.

Secularização. Tão combatida no discurso cristão ocidental, no Oriente Médio ela é uma oportunidade para a missão adventista. No contexto urbano, muitos são muçulmanos nominais. Estão insatisfeitos com os desdobramentos políticos, outros são pluralistas e por isso abertos ao diálogo religioso existencial, e ainda alguns notam hipocrisia e incoerência em sua religião. Esse fenômeno deve ser acentuado nos próximos anos com a entrada de muitas cidades da região no circuito mundial de negócios e turismo. Com essa abertura, mais cristãos devem migrar para os países, levando na bagagem o testemunho sobre a fé em Cristo.

Embora os desafios nesta região sejam humanamente intransponíveis e o perigo de conflitos regionais iminente, é claro que Deus está ativo ali, conduzindo a história do Oriente Médio. Contra todas as adversidades, multiplicam-se os relatos de nativos convertidos ao cristianismo, que mantêm sua fé em secreto, e afirmam terem recebido sonhos e visões do próprio Jesus.

Apesar dos desafios e além das possibilidades, está a promessa divina para Isaque – “Aliança eterna para os seus futuros descendentes” – e para Ismael – “Também o abençoarei; eu o farei prolífero e multiplicarei muito a sua descendência” (Gn 17:19, 20). De muitas formas, os olhos de Deus repousam sobre a terra de Aladim, e o Espirito Santo está ativo em missão “reconciliando consigo mesmo mundo” em Cristo Jesus (2Co 5:19).

PAULO CÂNDIDO é doutor em Ministério e missionário no Oriente Médio