Luz para o Oriente

As portas que estão se abrindo para o evangelho num país em que a igreja foi clandestina por várias décadas

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Relatório da Divisão do Pacífico Norte-Asiático apresentado na assembleia mundial em San Antonio, nesta terça-feira, 8 de julho, mostrou os avanços e desafios da igreja nesta parte do globo. Foto: Leônidas Guedes

Há alguns meses, minha esposa e eu desembarcamos do outro lado do globo. Levamos alguns dias para superar os efeitos do fuso-horário de mais de dez horas de diferença à frente do Brasil e algumas semanas para iniciar o processo de adaptação gradual às diferenças culturais. Hoje, estamos focados no aprendizado e domínio da língua local, na compreensão da cultura e em desenvolver um planejamento estratégico sustentável de longo prazo. Para tanto, como lição de casa, estudei o histórico da igreja nesse país, as necessidades da sociedade local e como podemos cooperar para a missão de Deus nesse lugar.

Igreja clandestina

A história do adventismo nesse país pode ser dividida em três fases:

1886 a 1949: os primeiros adventistas chegam ao país, encontrando campo fértil e uma grande colheita é testemunhada. Milhares de pessoas receberam estudos bíblicos, inúmeras séries de evangelismo foram organizadas, erigidos hospitais, casa publicadora, centro de formação teológica além de uma sede administrativa com status de Divisão, que coordenava o trabalho no país. Havia também muitos líderes capacitados, estrutura organizacional praticamente consolidada e adventistas maduros e comprometidos.

1950 a 1990: uma dramática série de mudanças políticas fechou as portas do país para a liberdade religiosa: missionários estrangeiros foram expulsos, o evangelismo foi proibido, as propriedades da igreja foram confiscadas e diversos pastores e lideres presos ou executados. A religião passou a ser controlada pelo Estado através de uma entidade secular e a sede da denominação foi realocada fora do país e sem permissão para intervenções diretas, atuando apenas como um órgão consultivo da igreja mundial.

1990 até o presente: através da globalização, o país tem experimentado acentuado crescimento econômico, abertura para valores ocidentais como a cultura de consumo e certa tolerância religiosa, ainda que lenta e progressiva. O fato é que, desde a década de 1990, um novo “despertamento” religioso tem sido testemunhado por aqui. Deus, de alguma forma, não somente preservou os adventistas locais como os multiplicou de 20 mil para 400 mil fiéis. Diversos missionários estrangeiros têm trabalhado cautelosamente no país e existe agora um cenário mais favorável para isso.

Barreiras que se erguem

Os desafios para a missão aqui são muitos, mas destaco os maiores. (1) estruturais, a repressão religiosa liderada pelo Estado impediu a ação organizacional da igreja. Consequentemente, desde 1949 a igreja no país opera no modelo “congregacionalista”, pastores (em grande maioria leigos) têm total autonomia sobre dízimos, espaços de culto, formas litúrgicas e o ensino das crenças; (2) teológico e doutrinário: o “congregacionalismo” contribuiu para a formação de “versões do adventismo”, cada qual com seu pacote doutrinário e liberdade para realizar a ordenação sem quaisquer critérios bíblicos. Há também poucos pastores com formação teológica (estima-se menos de 250) o que faz com que as igrejas existentes sejam em geral superficiais em sua apresentação da verdade bíblica e até pouco atrativas para os visitantes.

(3) resistência cultural às mudanças. O país possui uma história milenar de guerras, fome, caos e conflitos por poder, que mataram, somente no último século, mais de 90 milhões de habitantes. Portanto, quaisquer tentativas de mudanças bruscas na cultura ou na igreja ascendem a luz de alerta geral na mente dos nativos; e (4) domínio da língua local. Muito distinta das línguas ocidentais, aprendê-la é um desafio. Porém, apesar do pouco tempo de conivência no país, minha esposa e eu já conseguimos compreender o que as pessoas falam e expressar ideias básicas.

Portas que se abrem

Vejo que as oportunidades são maiores do que os desafios. A principal porta que se abre aqui é a percepção dos adventistas locais de que eles precisam de ajuda estrangeira. Meio caminho andado para um missionário! Muitos membros são realmente sedentos pela verdade e extremamente comprometidos com a missão. Talvez falte orientação.

Como áreas de atuação, penso que o tripé – educação, saúde e pregação – utilizado por Jesus e valorizado pela Igreja Adventista pode responder às necessidades imediatas deste lugar. O ensino superior é avançado no país, mas a educação fundamental é precária e muitas crianças não possuem acesso às escolas. Em função dessa demanda, instituições particulares dirigidas por adventistas locais têm permissão de funcionamento e chegam até a empregar missionários estrangeiros como professores. Com o apoio da igreja mundial, o seminário teológico foi reaberto no país. Ainda que em fase embrionária, essa escola é a esperança de formação de novos líderes.

A área da saúde também é bem desenvolvida no país, porém, pouca atenção é dada à orientação preventiva. Por isso, padrões de higiene e de alimentação são até mesmo precários. Existem muitos casos de malária, DSTs e cárie. Há, portanto, um grande campo a ser explorado nesse sentido. Finalmente, o plantio de igrejas a partir de discípulos locais capacitados tem sido uma das molas propulsoras da missão no país. Além de congregações, diversos centros de influência têm sido estabelecidos para atender com eficiência as necessidades da população e atraí-las para Jesus.

Primeiros passos

Temos atuado aqui junto ao seminário, procurando dar suporte organizacional e disciplinas como Inglês. Um centro de influência foi aberto em parceria com os estudantes do seminário, oferecendo atividades educacionais para crianças e jovens: aulas de música, idiomas e tutoria em atividades escolares. Tudo isso para facilitar a construção de relacionamentos significativos e promover a formação de pequenos grupos em que a Bíblia possa ser aberta e estudada com segurança.

A principal e mais urgente atividade está no discipulado de líderes locais, procurando suprir as demandas deles por conhecimento bíblico e teológico básico, capacitação e promovendo a integração da igreja local com as orientações da denominação em nível mundial. Não sem razão, o trabalho tem sido mais fácil com as novas gerações de adventistas, porque estão mais abertos ao ensino e não carregam consigo tantos temores do passado como os mais velhos. Prova disso, é que recentemente um grupo nos procurou e pediu que os treinássemos para que plantassem igrejas. Ficamos profundamente tocados com isso, pois oramos nessa direção por algum tempo.

Nossas perspectivas aqui são bastante animadoras. A cada dia Deus tem nos ensinado a depender dele para as mais simples decisões e nos dado a alegria de participar do plano missionário que ele tem para a humanidade perdida. Da mesma forma, o companheirismo sincero desses queridos filhos de Deus que temos conhecido aqui têm nos feito ansiar mais pelo grande encontro da família dos redimidos.

Enquanto procuramos cumprir esses propósitos do Senhor por aqui, oramos para que mais ceifeiros decidam deixar o celeiro e vir para os campos, pois eles já estão brancos para a ceifa (Jo 4:35, ACF). Por favor ore pelo trabalho aqui, auxilie o campo mundial com suas ofertas específicas e, se você sentir seu coração ardendo enquanto lê esse relato, considere sinceramente a possibilidade de Deus o estar chamando para se engajar na missão transcultural. Se você tomar essa decisão, avance com fé e Deus se encarregará do restante.

G. é graduado em Administração, pós-graduado em Missiologia e tem um mestrado em Ciências Sociais.

Direto do Líbano

Pastor brasileiro dá um panorama do trabalho da igreja no Oriente Médio

guntherA União Norte-Africana Oriente Médio é uma das maiores regiões administrativas da Igreja Adventista em termos de território, área maior do que os Estados Unidos ou a Europa. É formada por 20 países e se estende do Marrocos, no extremo oeste da África, até o Qatar, no Golfo Pérsico. Esse vasta geografia, onde vivem mais de 500 milhões de pessoas, é o berço do cristianismo, mas atualmente a religião predominante ali é o islamismo. A região tem 55 centros urbanos com mais de 1 milhão de habitantes, e na maioria deles não há presença adventista.

É interessante viver numa região muito diferente da nossa realidade na América do Sul. As diferenças religiosas e de costumes são oportunidades para conhecer, compreender, apreciar e adaptar-se. Porém, os desafios são imensos. Alguns países de maioria muçulmana toleram a presença de cristãos, enquanto outros são mais fechados e dificultam a presença deles. Sendo assim, a igreja trabalha levando em consideração a situação de cada nação, encontrando meios para cumprir a grande comissão deixada por Jesus, uma motivação forte e urgente para levar a mensagem de esperança para todos.

Embora o número de adventistas na região seja ínfimo comparado com o de habitantes (1 adventista para cada 170 mil), a denominação considera que o testemunho pessoal é uma forma para cumprir a missão e apressar a volta de Jesus. Se não podemos plantar igrejas, podemos “plantar” missionários. Nessa região, também utilizamos os meios de comunicação como a internet, rádio e televisão para alcançar milhões de pessoas.

Alguns países como o Líbano, cuja população é praticamente dividida entre muçulmanos e cristãos, existe liberdade religiosa. Por essa razão, entre outras, em Beirute está a sede da igreja para a região. É onde também está situada a Universidade Adventista do Oriente Médio, que atende as necessidades de formação profissional em áreas de interesse da igreja e da comunidade em geral. Ali fica também a TV Al Waad, canal adventista cujo nome em árabe significa “promessa”.

No Egito, a denominação está presente há décadas, com uma sede de associação, uma fábrica de alimentos, um centro de influência na área de saúde e um internato que oferece o Ensino Médio, o Nile Union Academy. Por sua vez, outros países são mais restritivos, não permitindo que denominações religiosas preguem para a população local. É possível ministrar para os membros da própria igreja, mas distribuir literatura, dar estudos bíblicos ou realizar reuniões de pequenos grupos é considerado uma contravenção. Nesses contextos, uma das melhores maneiras de testemunhar é por meio de feiras de saúde.

Talvez você se pergunte: “o que posso fazer, mesmo à distância, pelas milhões de pessoas que vivem no Oriente Médio e Norte da África, que pouco ou nada sabem sobre a vida, ministério, morte, ressurreição e breve volta de Jesus?” Sugiro algumas atitudes: ore pela igreja, seus servidores e por sua missão na região; diariamente entregue sua vida a Jesus e testemunhe de seu amor; e se coloque à disposição de Deus para, talvez, servi-lo nesta região do mundo.

Günther Wallauer é coordenador de projetos na União Norte-Africana e Oriente Médio e vive em Beirute, no Líbano

Desafio no país da Disney

Pastor conta como é liderar uma igreja multiétnica e centenária no centro de Orlando, na Flórida

Servir a Deus como pastor é um privilégio em qualquer lugar do mundo. Porém, trabalhar em outra cultura é sempre desafiador. Depois dos ajustes da mudança e do estresse que isso traz para a família pastoral, é hora de conhecer a liderança da igreja e ajudá-la a ser funcional. O passo seguinte é tomar conhecimento das necessidades da cultura local e verificar como a Palavra de Deus pode impactar essa realidade. Creio que todos esses são medidas importantes para um ministério pastoral relevante.

cleber-machado-3Em 2012, Deus me chamou para cuidar de uma igreja multiétnica no coração de Orlando, na Flórida (EUA). A Igreja Central de Orlando foi organizada no dia 17 de março de 1890 e, portanto, tem 125 anos de existência. Ao descobrir a história dessa congregação e conhecer os grandes pastores que já passaram por ali, senti-me pequeno diante de tamanha responsabilidade. Foi nesse contexto que entendi melhor o conflito pelo qual Josué passou ao receber o chamado de Deus para liderar o povo e suceder a Moisés (Js 1).

O meu primeiro desafio foi entender as barreiras linguísticas. A igreja está no centro dessa cidade turística e a cada sábado tenho que pregar em duas línguas: inglês e espanhol. Por sua vez, nossa Escola Sabatina opera nesses dois idiomas e em francês. Eu sabia falar inglês antes de assumir a igreja, mas não expressões culturais que apenas são aprendidas com o tempo.

Lembro-me, por exemplo, de uma situação em que, ao pregar, usei uma palavra que poderia ser traduzida como “caipira”. Foi quando todos me olharam com certa apreensão. Ao perceber a reação deles, perguntei se o que estava falando era inadequado e todos balançaram a cabeça positivamente, dando muitas risadas da minha trapalhada cultural. Depois do culto, alguns vieram me explicar que aquela expressão não é negativa em outras regiões dos Estados Unidos, mas soa pejorativa no sudeste do país.

O desafio cultural é grande. A Igreja Central de Orlando é formada por pessoas de 20 países. Cada uma dessas nacionalidades e suas subculturas possuem compreensão e perspectiva de vida diferente, o que acaba resultando em diferentes maneiras de ser igreja. Não é raro membros da igreja falarem para mim: “lá no meu país a gente faz de outro jeito”. Confesso que tenho a mesma tentação, e que muitas vezes já caí nela! Contudo, com o amadurecimento entendi que não se trata de como fazemos aqui ou ali, mas em como podemos encontrar o “assim diz o Senhor” para a realidade local, o que requer muita oração e estudo da Bíblia. Aprender a viver em uma realidade de exílio não é particularidade de nossos dias, mas encontra precedentes no povo de Deus (Jr 29:4-8).

Nesses últimos três anos, trabalhando como missionário e agente de transformação, a grande lição que tenho aprendido é confiar mais em Deus e nos princípios eternos de sua Palavra. Percebi que Deus tem feito muito mais em mim e por mim a partir do momento em que as mudanças me fizeram reconhecer minhas limitações pessoais e culturais. Isso tem sido um grande exercício de fé e humildade, bem como uma ótima oportunidade para aprender a depender mais do Pai (2Cr 7:14).

A grande verdade é que para gerar impacto para o reino de Deus, o fruto do Espírito (Gl 5:22, 23) tem que deixar as páginas do livro sagrado e se tornar a forma como vivemos: amor pelo evangelho a ponto de estar disposto a ser mártir por essa causa; paz em meio ao turbilhão de ideias e complexidade cultural; paciência para ouvir e entender que Deus trabalha em todos de forma diferente; bondade ao responder sensivelmente a quem é diferente de mim; fidelidade para com a Palavra de Deus e; domínio próprio para não oprimir qualquer que seja a cultura– afinal de contas, o chamado de Deus para a igreja é fazer discípulos de todas as nações (Mt 28:18).

Cleber Machado é pastor na Igreja Central de Orlando, na Flórida

Nas terras de Aladim

Saiba por que a perda do vínculo familiar é o maior desafio e a secularização é a maior oportunidade para a missão no Oriente Médio

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O Oriente Médio é um grande emaranhado de culturas milenares, onde nasceram as três principais religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Várias civilizações dominaram a região que é palco de conflitos quase eternos. Mais recentemente, a região foi tomada por impérios coloniais europeus e o termo Oriente Médio só foi cunhado após a Segunda Guerra Mundial, quando divisas territoriais foram estabelecidas sem levar em conta o histórico dos povos que ali habitam. Resultado: desde então, a região tem vivido em constante tensão entre o modelo de estado e o étnico tribal. Soma-se a tudo isso, as disputas religiosas e políticas.

mapa-da-MENAO que chamamos Oriente Médio é a junção de três grandes áreas geográficas definidas de maneira imprecisa. A primeira região é o Norte da África, formada por nações com grandes desafios sócio econômicos, como a Líbia, Tunísia e Argélia. Por sua vez, o Egito, Jordânia, Israel, Síria, Líbano e Turquia formam a segunda região, chamada de Levante. Marcada por conflitos, essa geografia convive com o constante enfrentamento entre palestinos e israelenses, xiitas e sunitas, além do terror imposto por grupos como Hezbollah e Estado Islâmico.

A terceira região é a do Golfo Árabe ou Pérsico. Aqui ficam as nações mais ricas e algumas das mais secularizadas do Oriente Médio, destino certo para os jovens árabes que buscam trabalho e prosperidade. É nesta região que está, por exemplo, a famosa cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos; a Arábia Saudita, que concentra 20% das reservas de petróleo do planeta; e o Irã, que produz 16% de todo gás natural do mundo.

Apesar de possuir 60% das reservas de petróleo do planeta, as disparidades no Oriente Médio são tremendas. O desemprego entre os jovens, por exemplo, varia entre 48,7% na Líbia e 1,1% no Qatar. As diferenças se espalham por áreas como educação, expectativa de vida e direitos femininos. Porém, o que une a região mesmo, apesar de sua diversidade étnica, é a religião islâmica e língua árabe.

Talvez no imaginário brasileiro, o Oriente Médio ainda seja a terra encantada de Ali Babá, o Gênio da Lâmpada, das Mil e Uma Noites e do Aladim. De fato, essa é a terra dos camelos, desertos, majestosas montanhas rochosas, tapetes, castelos e vilas milenares com seus sheiks, sultões e emirs. O que os contos das arábias não revelam são as condições extremas como temperaturas acima dos 50 graus, escassez de água, alimento limitado, tempestades de areia e constantes guerras ao longo dos milênios. É nessa terra de contrastes que o cristianismo em geral, e o adventismo em particular, encontra um de seus maiores desafios

Desafios

Diversidade étnica. Os maiores grupos são os árabes, berberes, iranianos, turcos, curdos e israelenses. A Igreja Adventista não possui membros em todos esses grupos étnicos e os conflitos constantes forçam a migração dos poucos adventistas nativos. O ódio racial é uma constante tentação aos irmãos desta região marcada por atrocidades. Missionários estrangeiros também enfrentam grandes dificuldades para serem aceitos entre as comunidades nativas, o que dificulta a aprendizagem da língua, costumes e o desenvolvimento de relacionamentos significativos. O estrangeiro é alvo de suspeita, quando não é visto apenas como uma “ponte” para facilitar a migração para a Europa e América do Norte. Em lugares com visão de mundo tribal os relacionamentos são fechados dentro do circulo familiar, que pode facilmente conter milhares de pessoas. Embora o islamismo seja a religião predominante, vivem ali cristãos como os coptas e assírios, além dos judeus em Israel.

Sistema islâmico. Diferentemente do Ocidente, em que a religião é uma área da vida, no Oriente Médio, a influência do islamismo ultrapassa as mesquitas, é um sistema social completo e complexo. Ou seja, em muitos países a religião é indissociável do governo, da política, das leis e das regras sociais. Nesse caso, ser cidadão é ser islâmico. Embora em alguns países o cristianismo seja tolerado por conta da grande quantidade de migrantes, ainda sim a fé cristã não pode ser pregada a muçulmanos e a presença de nativos em cultos de outras religiões é proibida. O proselitismo também é vetado por lei a apostasia da fé islâmica pode ser punida com pena de morte. Porém, ao contrário do que pareça, essas leis rígidas não são a maior barreira para a conversão de muçulmanos, e sim a perda do vínculo famíliar, da identidade étnica e do senso de pertencimento.

Oportunidades

População jovem urbana. Eles são maioria nas metrópoles emergentes da região, ambiente que dificulta a fiscalização religiosa e possibilita a formação de pequenos núcleos de influência cristã. Nesse contexto, os encontros casuais permitem que relacionamentos sejam desenvolvidos de maneira mais natural. Esses jovens urbanos vivem um momento de profunda desilusão, seja com a falta de perspectiva de dias melhores ou pelo tédio da prosperidade excessiva. Enquanto os que conseguem migram para outros países, a maioria permanece e parece aberta a explorar outras narrativas para sua fé.

Crenças adventistas. Islamismo e o adventismo possuem semelhanças quanto à modéstia, alimentação, abstinência de álcool e substâncias tóxicas.

Secularização. Tão combatida no discurso cristão ocidental, no Oriente Médio ela é uma oportunidade para a missão adventista. No contexto urbano, muitos são muçulmanos nominais. Estão insatisfeitos com os desdobramentos políticos, outros são pluralistas e por isso abertos ao diálogo religioso existencial, e ainda alguns notam hipocrisia e incoerência em sua religião. Esse fenômeno deve ser acentuado nos próximos anos com a entrada de muitas cidades da região no circuito mundial de negócios e turismo. Com essa abertura, mais cristãos devem migrar para os países, levando na bagagem o testemunho sobre a fé em Cristo.

Embora os desafios nesta região sejam humanamente intransponíveis e o perigo de conflitos regionais iminente, é claro que Deus está ativo ali, conduzindo a história do Oriente Médio. Contra todas as adversidades, multiplicam-se os relatos de nativos convertidos ao cristianismo, que mantêm sua fé em secreto, e afirmam terem recebido sonhos e visões do próprio Jesus.

Apesar dos desafios e além das possibilidades, está a promessa divina para Isaque – “Aliança eterna para os seus futuros descendentes” – e para Ismael – “Também o abençoarei; eu o farei prolífero e multiplicarei muito a sua descendência” (Gn 17:19, 20). De muitas formas, os olhos de Deus repousam sobre a terra de Aladim, e o Espirito Santo está ativo em missão “reconciliando consigo mesmo mundo” em Cristo Jesus (2Co 5:19).

PAULO CÂNDIDO é doutor em Ministério e missionário no Oriente Médio