A exclusividade da Bíblia

No espírito dos reformadores, os adventistas também adotaram a Bíblia somente como regra de fé e doutrina. Saiba o que isso significa

Isaac Malheiros

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No dia 31 de outubro de 2017, boa parte dos cristãos comemorará os 500 anos da Reforma Protestante. Por ocasião da Reforma, a tradição da igreja havia já tomado o lugar da Bíblia como padrão determinante de doutrina e comportamento. Um dos pilares da Reforma foi o princípio sola Scriptura, expressão latina que significa “somente pelas Escrituras”. Os reformadores redescobriram e levantaram bem alto a Palavra de Deus como o padrão de fé e prática, e os adventistas, como continuadores da Reforma, receberam esse legado.

Um conceito radical

O princípio sola Scriptura não foi entendido nem aplicado de maneira uniforme entre os reformadores. A Reforma Magisterial (ramo que contou com algum apoio institucional, representado por Lutero, Calvino, Knox e outros) não defendia um conceito de sola Scriptura tão estrito como a Reforma Radical (ramo que se desenvolveu fora e em dissidência do estado, com nomes como Karlstadt, Müntzer e Meno Simons).

Por isso, alguns estudiosos sugerem que o lema “a Bíblia e a Bíblia somente” deveria ser aplicado apenas ao ramo radical da Reforma, especialmente os anabatistas. Segundo Alister McGrath, os únicos protestantes que aplicaram consistentemente o princípio sola Scriptura foram os reformadores radicais anabatistas (Reformation Thought, p. 101). Desse ponto de vista, o lema da ala não radical da Reforma seria mais bem representado pelo conceito prima Scriptura, no qual a Bíblia teria primazia, em vez de sola Scriptura, no qual a Bíblia teria exclusividade.

Apesar dessa discussão conceitual, é fato que os adventistas herdaram um conceito sobre as Escrituras mais ligado ao da Reforma Radical anabatista, especialmente por meio da influência do conceito “restauracionista” da Conexão Cristã, a denominação de alguns líderes pioneiros do adventismo, como Tiago White (George Knight, Em Busca de Identidade, p. 29, 30). Como explica Alberto Timm, os primeiros adventistas eram, em geral, mais radicais na aplicação do conceito sola Scriptura que os reformadores magisteriais, reduzindo muito a importância da tradição (Compreendendo as Escrituras, p. 7). Essa postura bíblica radical proporcionou a desconstrução e o recomeço doutrinário que marcaram o adventismo primitivo.

Sola Scriptura e Ellen White

Os adventistas são, por vezes, acusados de negar o princípio sola Scriptura em virtude de sua crença no dom profético de Ellen White. Mas a própria mensageira parece ser mais radical em seu conceito de sola Scriptura do que os que tentam elevar seus escritos ao mesmo nível das Escrituras. Ela reafirmou categoricamente o princípio sola Scriptura. Herbert Douglass explica que, para Ellen White, a expressão “a Bíblia e somente a Bíblia” significava que, como autoridade, a Bíblia era exclusiva (Mensageira do Senhor, p. 377).

Ellen White afirmou que o princípio vital da Reforma era o ensino de que “os cristãos não deveriam receber outras doutrinas senão as que se apoiam na autoridade das Sagradas Escrituras” (O Grande Conflito, p. 126). Ela sempre reconheceu a Bíblia como a “única regra de fé e doutrina” (Fundamentos da Educação Cristã, p. 126), a norma suprema, por meio da qual todas as coisas, incluindo suas próprias publicações, deveriam ser provadas (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 32).

Ela apelou para um retorno “ao grande princípio protestante – a Bíblia, e a Bíblia só, como regra de fé e prática” (O Grande Conflito, p. 204-205), e afirmou que “a Bíblia, e a Bíblia somente, deveria ser nosso credo” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 416). A revelação na Escritura é plenamente adequada e suficiente, contendo tudo que o homem precisa saber sobre Deus (Fundamentos da Educação Cristã, p. 415), o “conhecimento necessário para a salvação” (O Grande Conflito, p. 9).

Mesmo em meio a fortes controvérsias teológicas, como na questão sobre a lei em Gálatas, Ellen White não autorizou a utilização de seus escritos para servirem de árbitro, e enfatizou insistentemente o papel da Bíblia no estabelecimento de doutrinas. Ela admite que seus escritos “não são para dar nova luz”, e que neles “não é trazida nenhuma verdade adicional” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 665). Isso revela que, para ela, “a Bíblia, e a Bíblia só” era um princípio relacionado especialmente a questões doutrinárias e questões relacionadas à salvação, não excluindo o uso de outras fontes em questões não essenciais.

O documento “A Inspiração e autoridade dos escritos de Ellen G. White”, divulgado pelo White Estate (1982), reafirma a autoridade dos escritos dela, mas nega que eles funcionem como a “base e autoridade final da fé cristã como são as Escrituras” e que seus escritos possam ser usados como “base de doutrina”. Na mesma direção, Fernando Canale diz que “a nenhum outro livro sagrado, sejam histórias sacras, tradições antigas, declarações eclesiásticas ou credos, pode-se atribuir autoridade igual à da Bíblia” (Compreendendo as Escrituras, p. 49).

Dessa forma, fica patente que há uma diferença de função entre os escritos de Ellen White e a Bíblia. Ellen White não teve o propósito de estabelecer verdades doutrinárias, e sua autoridade não pode ser utilizada nesse sentido. Seus escritos tinham a intenção de levar os adventistas de volta à Bíblia (Mensagens Escolhidas, v. 3,
p. 30), a qual ensina que o “dom de profecia” continuaria até o fim do tempo (Rm 12:6; 1Co 12:10, 28; Ef 4:8, 11-16; Ap 10:11). Assim, em vez de estarem negando o princípio sola Scriptura, os adventistas aceitam o ministério de Ellen White exatamente por causa do princípio sola Scriptura. E, se o objetivo dela era exaltar a Bíblia, não honramos seu legado abandonando o estudo bíblico profundo.

O único credo dos adventistas

Como continuadores da Reforma Protestante, os adventistas foram mais radicais na reivindicação do princípio sola Scriptura, desenvolvendo-o “além dos reformadores com referência à restauração mais plena da verdade bíblica” (Alberto Timm, Compreendendo as Escrituras,
p. 7). Em matéria doutrinária, os adventistas herdaram o conceito radical de sola Scriptura, não prima Scriptura. Cremos na exclusividade da Bíblia como regra de fé e prática, não apenas em sua primazia. Ela é a única autoridade final, e não apenas a mais importante dentre outras fontes doutrinárias.

Desde seu início no século 19, os adventistas têm mantido o conceito de que a Bíblia é sua “única regra de fé e prática”, o “único credo” e o meio pelo qual “Deus transmitiu à humanidade o conhecimento necessário para a salvação” (Manual da Igreja,
p. 47, 49, 166).

O documento oficial Métodos de Estudo da Bíblia (1986) declara que a Bíblia é “o único padrão pelo qual todos os ensinos e experiências devem ser provados”. O livro Nisto Cremos afirma que “os adventistas possuem apenas um credo: ‘A Bíblia, e a Bíblia somente’” (p. 9). E acrescenta que “os adventistas do sétimo dia apoiam plenamente o princípio da Reforma, sola Scriptura, a Bíblia como seu próprio intérprete e a Bíblia, sozinha, como base de todas as doutrinas” (p. 289).

Essa tem sido a posição histórica dos adventistas com relação a sola Scriptura. Para George Knight, graves controvérsias teológicas surgiram em virtude do afastamento dessas “raízes radicais e bíblicas da sola Scriptura dos fundadores de sua mensagem” (Em Busca de Identidade, p. 95). Canale demonstra como, no fim do século 20, alguns setores da comunidade teológica adventista abandonaram o princípio sola Scriptura sobre o qual os pioneiros haviam construído seu sistema teológico (“From Vision to System, Part I”, Journal of the Adventist Theological Society, v. 15, 2004, p. 5-39). A exclusividade e a autoridade suprema das Escrituras passaram a ser ostensivamente atacadas ou sutilmente substituídas.

Consciente da necessidade de uma posição mais clara, a assembleia da Associação Geral de 2015 aprovou alterações na fraseologia da nossa declaração de crenças. Duas alterações estão relacionadas ao princípio sola Scriptura. A Crença Fundamental 1 dizia que “as Escrituras Sagradas são a infalível revelação” da vontade de Deus, e “o autorizado revelador de doutrinas”. O texto atual afirma sem ambiguidades que “as Escrituras Sagradas são a revelação infalível, suprema e repleta de autoridade” e o “revelador definitivo de doutrinas”.

A Crença Fundamental 18 afirmava que os escritos de Ellen White são “uma contínua e autorizada fonte de verdade”. Após a revisão, o texto agora diz que seus escritos “falam com autoridade profética”. Com essa mudança, removeu-se a impressão de que os escritos de Ellen White e a Bíblia estejam em pé de igualdade como fontes de verdades doutrinárias. Tais alterações explicitaram o princípio sola Scriptura.

Exclusividade ou primazia

A análise da literatura teológica adventista mostra que tanto sola Scriptura quanto prima Scriptura são aplicáveis, mas em sentidos diferentes. Porém, como a Bíblia pode ser, ao mesmo tempo, a “única” e “a mais importante dentre outras”?

A abordagem adventista pode ser assim resumida: a Bíblia tem a exclusividade (sola Scriptura) como fonte das doutrinas a ser cridas para a salvação e como fonte autorizada para dizer como um cristão deve viver. O conceito exclusivo caracteriza a Bíblia como o único fundamento para teorias teológicas e também como norma para sua própria interpretação. E a Bíblia tem a primazia (prima Scriptura) com relação aos recursos que possam auxiliar na sua própria interpretação e como autoridade aferidora de outras áreas do conhecimento.

A mensagem da Reforma sobre a suficiência e exclusividade das Escrituras continua sendo necessária. O adventismo traz de volta o brado de sola Scriptura, pois essa é uma mensagem que precisa ser anunciada com ousadia contra o subjetivismo do arrazoado humano.

É nosso dever examinar cuidadosamente as Escrituras, como os cristãos bereanos, “para ver se as coisas” são, “de fato, assim” (At 17:11). E, se continuar acreditando e afirmando radicalmente que “a Bíblia é a única regra de fé”, e que a Bíblia é sua própria intérprete, então, como afirma George Knight, a igreja “precisa lembrar-se constantemente de que qualquer coisa não ensinada claramente pela Bíblia não pode se tornar uma doutrina” (Em Busca de Identidade, p. 211). Sola Scriptura tem sido um princípio válido por 500 anos e precisa continuar sendo assim.

ISAAC MALHEIROS é mestre em Teologia e capelão do Colégio Adventista de Gravataí (RS)

(Artigo publicado originalmente na edição de abril de 2017 da Revista Adventista)