A lógica da modernidade

Saiba como a ética protestante e o espírito do capitalismo moldaram o mundo de hoje

Thadeu de Jesus Silva e Filho

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Existem livros que movem multidões por causa de seu conteúdo, como a Bíblia. Outros têm um título que traduz de modo simples e direto sua mensagem, como Caminho a Cristo, de Ellen White. A obra clássica A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo tem essas duas características: causou forte impressão entre os cientistas da área de humanas por sua capacidade analítica e sintetizou bem seu conteúdo num título preciso.

Trata-se de um estudo que associa dois elementos que inicialmente foram convergentes na Europa do século 16: (1) a ética protestante, ou seja, a condução disciplinada, metódica e racional da vida; e (2) o espírito do capitalismo, que é a disposição mental de ganhar dinheiro de modo sistemático por meio do trabalho ininterrupto, com vistas a acumular o máximo de dinheiro possível. A união dessas duas ideias moldou uma visão de mundo e um tipo de ser humano sem precedente na história, cujo modo de vida nos afeta até hoje.

O segredo do Ocidente

Contudo, não foi bem compreendida a tese central do livro de Max Weber, um dos pais da sociologia. Além das críticas aos argumentos dele, o que é natural em relação a qualquer obra, a leitura apressada e a reprodução de opiniões equivocadas sobre o livro levaram muitos a conclusões erradas. Uma delas é que o capitalismo teria nascido do protestantismo e que, sem esse sistema econômico, a desigualdade social hoje não seria tão escandalosa. Embora o texto de Weber seja denso e de leitura exigente, essas afirmações nunca foram feitas por seu autor.

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo é o primeiro ensaio de uma obra maior, chamada Escritos Reunidos de Sociologia das Religiões, considerado por muitos estudiosos como o trabalho mais importante de Max Weber, mais até do que Economia e Sociedade. Na obra, lançada há pouco mais de 110 anos, o autor se dedicou a descrever aspectos de grandes religiões mundiais; e de confissões protestantes a fim de responder uma única
e simples questão: por que somente no Ocidente as criações culturais são dotadas de valor
e significado universais? Em outras palavras, por que no Ocidente existe uma ciência cujo estágio de desenvolvimento faz com que ela seja reconhecida como confiável ao redor do globo, se existem conhecimentos sofisticados em outras sociedades?

Essa mesma pergunta se estende a outros campos da vida social como as artes, os sistemas de ensino, organizações políticas, os ordenamentos administrativos e jurídicos e, sobretudo, a economia. Como explicar que o capitalismo, sistema econômico que já existia antes da modernidade, encontrou na Europa de poucos séculos atrás o terreno ideal para frutificar e se tornar a força mais significativa da vida contemporânea?

A racionalização da vida

A resposta de Weber é que, no Ocidente, todas as áreas da vida foram tomadas pela ação racional, a qual emprega os meios mais eficazes para alcançar a finalidade desejada.
Essa ação racional exige planejamento, ponderação e conhecimento sobre quais caminhos são mais eficientes para executá-la.

Existem várias evidências dessa racionalização da cultura ocidental moderna: no esporte tem sido empregado o treinamento exaustivo para superar limites; na música, o aprimoramento para se chegar à perfeição da execução e produzir efeitos sonoros controláveis e reproduzíveis; na literatura e comunicação, o desenvolvimento de máquinas capazes de imprimir na quantidade desejada, além da aplicação de cálculos de estimativas da demanda de livros, jornais e revistas. O que fez com que as criações do Ocidente fossem dotadas de valor e significado universais foi a racionalização dos processos para alcançar os objetivos de maneira cada vez mais rápida, barata e confiável.

A percepção de Weber foi que, no fim da Idade Média, havia ocorrido um fato histórico único e singular: a afinidade entre um conjunto de valores de duas linhagens do protestantismo e o espírito do capitalismo. Dessa afinidade nasceu a racionalização da vida que moldaria o pensamento e o cotidiano modernos.

Ideias convergentes

O sociólogo alemão enxergou duas crenças protestantes que convergiam com o espírito do capitalismo. De Lutero, primeiramente, veio a ideia de vocação. Weber escreveu que, se no catolicismo apenas algumas poucas pessoas viviam para Deus (os monges), na teologia de Lutero todos recebiam um chamado para viver para Ele cotidianamente. Nessa perspectiva, tão disciplinados como os monges viviam nos mosteiros para as questões religiosas, os protestantes deviam viver trabalhando para Deus (vocação) nas coisas comuns da vida.

Em segundo lugar, Weber enxergou no protestantismo de Calvino a crença que mobilizou as pessoas a trabalhar e acumular bens ininterruptamente: a ideia da predestinação. Segundo Calvino, Deus havia escolhido uns para a salvação eterna e outros para a perdição eterna, de acordo com Seus insondáveis e irrevogáveis desígnios. Como essa “eleição” levava os crentes a uma angústia insuportável de não saber se seriam salvos, a solução foi estabelecer um sinal visível e reconhecível deste mundo e neste mundo que confirmasse a salvação: o acúmulo de dinheiro por meio do trabalho vocacionado.

Dessa maneira, movidos inicialmente por uma questão religiosa, os crentes se puseram a trabalhar duro com a habilidade concedida por Deus, rejeitando o luxo, gastos desnecessários e ostentação; e vivendo de modo disciplinado e racional, para, ao fim da vida, ter a certeza de que haviam sido eleitos para a salvação. Assim, pela primeira vez na história, os seres humanos tinham uma razão para trabalhar mais do que o necessário para viver.

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O espírito do capitalismo

O elemento “secular” que convergiu com as crenças protestantes foi o espírito do capitalismo, a disposição mental de ganhar cada vez mais dinheiro racionalmente e de maneira renovável. Capitalismo sempre existiu em várias partes do planeta como impulso para o ganho ou ânsia do lucro, mas não como uma forma de organização permanente, com base na condução racional da vida, do trabalho livre e da renovação das fontes de lucro e de rentabilidade. Essa disposição mental é uma novidade histórica, ocorreu no Ocidente moderno e está em franca oposição ao modo de vida da pré-modernidade: trabalhar somente o suficiente para viver.

Foi a soma da educação religiosa significativa e permanente, transmitida de pais para filhos a cada geração, e as implicações presentes e futuras desse novo jeito de ver o mundo que moveu os indivíduos a agir racionalmente em cada área da vida para ganhar dinheiro. Afinal, era a salvação eterna que estava em jogo.

Capital sem espírito

Se a racionalidade foi o ponto de convergência entre o espírito do capitalismo e a ética protestante, no que eles divergem? Nos primeiros anos, o que se viu foi a racionalização da vida motivada por propósito religioso, gerando acúmulo de capital por meio de trabalho vocacionado como confirmação da salvação. Porém, com o passar do tempo, os resultados financeiros dessa vida disciplinada e sistemática, típica dos puritanos, mostraram-se tão lucrativos que atraíram as pessoas a adotar o mesmo estilo de vida para enriquecer, mas apenas como um fim em si mesmo.

Essa única diferença foi decisiva na configuração da vida moderna. Quando o interesse de ganhar e poupar perdeu seu vínculo com a religião protestante e passou a ser direcionado para se obter sucesso neste mundo, duas coisas ocorreram. Primeiro, a vida sistemática e disciplinada começou a modelar a dinâmica de outras sociedades e culturas ao redor do planeta, e a ganância pelos bens materiais passou a ser tão forte que a vida para a maioria das pessoas se tornou numa corrida de acúmulo de capital. Logo, a preocupação com a conquista dos bens materiais, que deveria ser apenas um leve manto do qual os religiosos poderiam se despir a qualquer momento, transformou-se numa jaula pesada de ferro.

Em segundo lugar, dessa configuração histórica surgiu um tipo de indivíduo que, de acordo com Weber, é um especialista sem espírito, alguém que acredita ter alcançado o clímax da civilização e que desenvolveu habilidades para conquistar bens materiais com o fim de apenas desfrutar prazer.

Do surgimento desse novo tipo de sociedade e indivíduo aprende-se uma lição valiosa, que Weber chamou de “paradoxo das consequências”: é impossível controlar o resultado das ações humanas, pois as implicações delas podem ser muito diferentes do que inicialmente foi planejado. No caso do protestantismo disciplinado, o intuito era ser uma religião que ficasse longe dos prêmios e atrações do mundo, concentrando-se exclusivamente na salvação. Porém, o que se vê são resultados completamente opostos à ideia original.

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo não é um livro de religião, nem de teologia e espiritualidade. É um livro de ciências sociais cujo propósito é apresentar a afinidade entre a ética protestante e o espírito do capitalismo e os resultados dessa associação. Os mais de cem anos que nos separam da primeira publicação da obra-prima de Weber estimularam a discussão sobre o livro, seja para confirmar, negar ou ampliar sua tese. O fato é que, para quem se interessa em conhecer uma das mais contundentes explicações de como nosso mundo contemporâneo funciona, vale a leitura atenta desse material.

THADEU DE JESUS SILVA E FILHO é doutor em Sociologia e diretor do departamento de Arquivo, Estatística e Pesquisa da sede sul-americana da Igreja Adventista

(Artigo publicado originalmente na edição de outubro de 2017 da Revista Adventista)