A primeira-dama da Reforma

De personalidade forte, ativa, ousada e excelente administradora, Katharina von Bora foi responsável por proporcionar estabilidade física, mental e financeira para Martinho Lutero levar adiante o seu protesto

Quando se pensa na Reforma Protestante, logo surgem os nomes de João Hus, John Wycliffe, Ulrich Zuínglio, Martinho Lutero e João Calvino, para citar alguns. No entanto, nada ou pouco se sabe sobre as mulheres que participaram desse movimento e como elas abriram caminho para mudanças na sociedade e na religião cristãs. Argula Stauffen von Grumbach, Katherine Schütz Zell, Marie Dentière, Elisabeth von Meseritz Cruciger, Joana III de Navarra e Katharina von Bora são representantes da ala feminina que também contribuíram com a Reforma, direta ou indiretamente.

Somente há alguns anos as “mulheres da Reforma” estão sendo estudadas e suas biografias, publicadas. A dificuldade em se escrever sobre elas está, muitas vezes, na escassez de documentos, que se restringem a cartas, diários e relatos.

A mensagem da salvação pela graça, da justificação pela fé e do sacerdócio de todos os crentes tocaram essas mulheres e transformaram sua vida e seus papéis. Algumas assumiram riscos altos por manifestar publicamente seu pensamento reformado.

Argula Stauffen von Grumbach (1492-1556/1557), filha de nobres empobrecidos, aprendeu a ler e escrever na casa de Alberto IV, regente da Baviera, que se ocupou de sua educação. Aos 10 anos, ganhou uma Bíblia de seu pai, um presente caro para a época. Casou-se com o nobre Friedrich von Grumbach. Quando conheceu os escritos de Lutero, começou a escrever cartas panfletárias em defesa dos ideais da Reforma, que eram lidas em locais públicos como o mercado e as igrejas. As cartas de Argula, sempre fundamentadas com versículos bíblicos, circularam por vários territórios, cidades e reinos. Como consequência de sua ousada manifestação, seu marido, que era católico, perdeu o posto de prefeito de Dietfurt, região da Baviera, e recebeu uma repreensão por não conseguir impedir que sua mulher escrevesse. Argula manteve correspondência com Lutero, que a considerava uma mulher notável e instrumento de Cristo (veja mais no artigo “A Atuação e a Participação das Mulheres na Reforma Protestante do Século 16”).

Marie Dentière nasceu na Bélgica, em 1495. Recebeu educação em um convento agostiniano. Chegou a ser abadessa, e com livre acesso à biblioteca encontrou alguns livros de Lutero. Ao se converter, fugiu para Estrasburgo, cidade protestante. Casou-se, em 1528, com Simon Robert, ex-monge agostiniano. Alguns anos depois ficou viúva e se casou, em segundas núpcias, com Antoine Froment, um diácono. Posteriormente se mudou para Genebra. Depois de fazer parte da delegação que se dirigiu ao convento das Clarissas para explicar as doutrinas reformadas, Dentière não se calou mais. Escreveu, com seu marido, um livro sobre a história da Reforma Protestante em Genebra, no qual mencionou a violência que as mulheres sofriam e criticou os líderes protestantes por proibi-las de pregar nas igrejas. Em outro livro, defendendo a causa feminina, pediu que as mulheres tivessem o mesmo acesso aos estudos que os homens. Crítica feroz, ela acabou perdendo o apoio dos reformadores João Calvino e William Farel (Reformadoras: o papel das mulheres na Reforma Protestante, edição para Kindle).

Katherine Schütz Zell nasceu em Estrasburgo (França) possivelmente entre 1497 e 1498. Era filha de um mestre carpinteiro. Aprendeu a ler e escrever em “casas-escolas”. Desde muito cedo lia a Bíblia. Casou-se, em 1523, com o padre Matheus Zell, excomungado pela Igreja Católica por isso. Katherine escreveu para o bispo em defesa do marido e do casamento dos clérigos. A carta demonstra um grande conhecimento bíblico, citando passagens como a de Joel 2:28 (as filhas profetizarão) e de Gálatas 3:28 (não há nem homem nem mulher, pois todos são um em Cristo). Seu marido sempre aceitou que a esposa escrevesse e a considerava sua assistente. Existia uma cumplicidade entre o casal em favor da Reforma Protestante. Com as perseguições sofridas por aqueles que aderiam ao movimento, a casa de Katherine se tornou um refúgio. Ela chegou a hospedar 80 pessoas. Trocou correspondência com Ulrich Zuínglio. Por pregar em público, Katherine quase foi condenada judicialmente.

Elisabeth von Meseritz Cruciger nasceu, em 1500, na Pomerânia, divisa entre a Alemanha e a Polônia. No convento, aprendeu a ler, escrever, calcular, cantar e fazer música. Casou-se, em 1524, com Caspar Cruciger, aluno de Lutero. As famílias Cruciger e Lutero estabeleceram uma forte amizade. Um hino composto por Elisabeth, selecionado por Lutero, entrou no cânon do primeiro hinário protestante. Elisabeth é considerada a primeira compositora do protestantismo. O hino declarava os princípios protestantes: somente Cristo, somente pela graça, somente as Escrituras e somente pela fé.

Joana III de Navarra, filha dos reis Henrique d’Albert e Margarida de Navarra, nasceu em uma cidade próxima a Paris. Foi educada na corte do rei francês Francisco I, seu tio. Cercada de tutores, teve acesso a uma educação completa. Joana se casou com Antônio de Bourbon, um dos herdeiros ao trono francês. Com a morte do pai, em 1555, Joana se tornou rainha de Navarra. Em 1560, ela convidou pregadores protestantes para expor a doutrina reformada em Navarra. Foi questionada pelo papa e respondeu que estava restaurando a antiga religião, destruindo os lugares altos. Em seu território, protestantes perseguidos pelas guerras de religião recebiam apoio. Em 1561, Joana III promulgou um decreto declarando a doutrina calvinista como a doutrina oficial no reino de Navarra, o que motivou a França a declarar guerra contra a rainha (Reformadoras: o papel das mulheres na Reforma Protestante, Kindle).

E Katharina von Bora? Escreveu cartas panfletárias, pregou em público, escreveu hinos? Não. Então, o que essas mulheres têm em comum? A ousadia, os escritos de Lutero, saber ler e escrever e, principalmente, o conhecimento bíblico.

Freira apóstata

Fazendo uma autobiografia, Lutero descreveu desta forma seu “protesto” e seu casamento com Katharina von Bora: “E então [ele, Lutero] puxou os cabelos do Papa e se casou com uma freira apóstata. Quem poderia ler isso nas estrelas?” (A Primeira-Dama da Reforma, Kindle).

Katharina von Bora nasceu em Lippendorf, um povoado perto de Leipzig, na Alemanha, em 29 de janeiro de 1499. Filha de Hans von Bora e Ana von Haubitz, nobres empobrecidos. Pouco depois da morte da mãe e do novo casamento do pai, Katharina, aos cinco anos, foi enviada ao convento beneditino de Brehna e transferida aos dez anos para o mosteiro cisterciense de Nimbschen. Nos conventos, ela aprendeu a ler e escrever, inclusive em latim, decorar salmos e recitá-los, fazer trabalhos manuais, cozinhar, cuidar de jardins e hortas, e adquiriu conhecimentos na área administrativa e no uso de ervas medicinais.

Leonard Koppe, comerciante que entrava no mosteiro regularmente, trouxe a notícia de que monges e freiras estavam abandonando os conventos depois de ler os textos de um tal Martinho Lutero. Em 1517, ano da publicação das 95 teses do monge agostiniano, Katharina tinha 18 anos. A leitura do livro Da Liberdade Cristã levou Katharina e outras freiras a não ver mais sentido na vida de clausura. Escreveram para suas famílias pedindo permissão para sair do convento. No entanto, não tiveram uma resposta favorável. Avisados do pedido das freiras para deixar o convento, Lutero e Koppe arquitetaram um plano para tirá-las de lá. Numa sexta-feira santa, em 5 de abril de 1523, Koppe escondeu 12 freiras entre barris de arenque e as levou até a cidade de Torgau, a 52 quilômetros do convento. Três das ex-freiras voltaram para suas casas, e nove seguiram para Wittenberg, uma viagem de mais 50 quilômetros. Katharina estava entre as nove (ver mais no artigo “Katharina von Bora: Uma Entre Tantas Mulheres Esquecidas na História da Reforma Protestante”).

Lutero e Filipe Melâncton receberam as fugitivas e procuraram famílias que pudessem abrigá-las. Katharina foi acolhida na casa de Lucas e Barbara Cranach, pertencentes a uma família nobre. Lucas Cranach era artista e pintou o retrato que hoje conhecemos de Katharina von Bora. Ela viveu com essa família por dois anos.

Depois desse período, Katharina era a única freira que ainda estava solteira. E Lutero se empenhou para encontrar um marido para ela. Katharina foi apaixonada por Jerônimo Baumgärtner, ex-aluno de Lutero e Melâncton na Universidade de Wittenberg. Mas a família do rapaz não viu com bons olhos o casamento do filho com uma ex-freira sem dinheiro. Afinal, era considerado pecado a quebra dos votos feitos quando se tomava ordens e um escândalo o casamento de padres, monges e freiras. Lutero até escreveu uma carta para o ex-aluno falando de Katharina. Mas tudo foi em vão (Reformadoras: o papel das mulheres na Reforma Protestante, Kindle).

Então, Lutero sugeriu que a ex-freira se casasse com o velho pastor Casper Glatz. Katharina falou que somente se casaria ou com Nicolau Amsdorf ou com o próprio Lutero. E o ex-monge aceitou o ousado pedido de casamento, para “agradar seu pai, irritar o papa, fazer os anjos rirem e os demônios chorarem, e selar seu testemunho”, nas palavras do próprio Lutero (A Primeira-Dama da Reforma, Kindle).

E assim, Katharina se tornou a hausfrau (dona de casa) do Mosteiro Negro, onde morava Lutero, em 13 de junho de 1525, aos 26 anos. Alguns amigos, como Filipe Melâncton, não viram com bons olhos o casamento de Lutero com von Bora, mas Katharina iria mostrar que era a mulher certa para colocar ordem na casa e na vida do reformador.

Logo nos primeiros meses de casada, Katharina percebeu que seu marido não era habilidoso com as finanças: não tinha salário como pregador, não cobrava pelas aulas que dava e ainda emprestava o dinheiro que não tinha para amigos e pessoas necessitadas. Ela resolveu tudo isso: como pregador passou a receber salário, as aulas eram pagas e as pessoas eram ajudadas dentro do orçamento doméstico.

Com seu talento administrativo, von Bora gerenciava uma horta, um tanque de peixes e uma cervejaria doméstica. O Mosteiro Negro era uma verdadeira pensão. Estudantes, professores, pastores, refugiados, órfãos, parentes, visitantes, os seis filhos da falecida irmã de Martinho, além de seus próprios filhos, lotavam os aposentos da casa dos Lutero

Para conseguir cumprir a agenda apertada, Katharina acordava às 4 horas da manhã. Por essa razão, Lutero carinhosamente a apelidou de a “Estrela da Manhã de Wittenberg”. Ela também participava das “conversas à mesa” com Lutero e seus alunos, quando discutiam assuntos relacionados com a reforma e com as Escrituras. A “Luterana”, outro apelido de Katharina, negociava com os editores dos livros escritos pelo marido. Era normal von Bora viajar a negócios por dias e até mesmo semanas. Nesses momentos, Lutero ficava em casa cuidando dos filhos e de toda a turma que morava no Mosteiro Negro.

O casal teve seis filhos: Hans, Elisabeth (que morreu aos dez meses de idade), Magdalena (que faleceu aos 13), Martinho, Paul e Margarethe. Katharina era uma mãe firme e protetora. Ela e Lutero disciplinavam e cuidavam dos filhos juntos. Os dois gostavam de brincar e cantar com eles, quando tinham tempo. Para Lutero, disciplina e brincadeira andavam juntos, e era dever dos pais sentar no chão para brincar com os filhos (A Primeira-Dama da Reforma, Kindle).

O improvável casal também tinha bom humor: anos depois de seu casamento com von Bora, Lutero escreveu para seu ex-aluno Jerônimo Baumgärtner. No fim da carta, ele disse que Katharina, sua antiga paixão, enviava saudações fraternais.

Lutero tinha altos e baixos em sua jornada. Alternava períodos de grande produtividade com períodos de depressão e apatia. Nesses momentos, Katharina entrava em cena consolando e lendo a Bíblia para o marido, fortalecendo sua fé. O reformador também tinha vários problemas de saúde, e Katharina usava seus conhecimentos de ervas medicinais para tratá-lo.

Katharina acabou por exercer grande influência sobre Lutero. Seu poder de persuasão era nítido. Lutero via sua Kathe com grande admiração e como uma mulher racional, cujos conselhos ele sempre ouvia.

A morte de Lutero em 1546, depois de 21 anos de casamento, fez essa ousada mulher estremecer. Em seu testamento, Lutero deixou tudo o que tinha para Katharina. Infelizmente, a lei não permitiu que ela recebesse a herança. Além do mais, os filhos de monges eram considerados ilegítimos. Katharina se viu obrigada a se mudar com os filhos. Ela faleceu em 1552.

Para Ruth Tucker, autora do livro A Primeira-Dama da Reforma, “Martinho era conhecido pelas suas palavras, Catarina, pelo seu trabalho.” 

Lutero, Eva e Katharina

Katharina von Bora reformou a vida e o pensamento do grande reformador, com o perdão do trocadilho. Na década de 1520, Lutero tinha uma visão negativa de Eva (e, consequentemente, das mulheres em geral): “faladeira e supersticiosa”, “simples, fraca e pequena”, deveria ter levado as perguntas do diabo para Adão responder. Porém, depois do casamento com Katharina, suas ideias sobre Eva começaram a se transformar, passando a vê-la como uma “mulher heroica”, “parceira no comando”, “em parte alguma, isto é, nem no corpo, nem na alma […] inferior ao seu marido, Adão” (A Primeira-Dama da Reforma, Kindle).

Sem Katharina, os ensinos de Lutero sobre casamento e família seriam apenas esboços. “E nenhuma outra mulher poderia ter moldado tão profundamente a mente e os hábitos diários dele” (A Primeira-Dama da Reforma, Kindle). O casamento de Lutero e von Bora era fundamentado no companheirismo. Ele brincava que era o homem da casa até que não interferisse nos planos dela. Chamava Katharina de Herr Käthe (Senhor Käthe). Seu respeito pelas mulheres foi adquirido graças a “Doutora Lutero” (mais um dos diversos apelidos que Lutero deu para Katharina) e fundamentado na Bíblia.

JESSICA MANFRIM DE OLIVEIRA é mestre em História Social pela USP e atua como revisora de textos na Casa Publicadora Brasileira (CPB)

SAIBA +

Gabriel, Ruan de Sousa. Madame Lutero. Época, n. 1008, p. 54-57, 16 out. 2017.

Semblano, Martinho Lutero. Reformadoras: O Papel das Mulheres na Reforma Protestante. Rio de Janeiro: Scriptura, 2012.

Silva, Elizete da. As Mulheres Protestantes: Educação e Sociabilidades. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano VII, n. 21, p. 161-190, jan./abr. 2015. Disponível em: <http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/RbhrAnpuh/article/view/26581/15658>.

Tucker, Ruth A. A Primeira-Dama da Reforma: A Extraordinária Vida de Katharina von Bora. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017