A Reforma Protestante em terras brasileiras

O Brasil recebeu a visita de protestantes enquanto os principais reformadores ainda viviam

Fernando Dias

Monumento em frente à Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro representa aquela que é considerada a primeira Santa Ceia protestante das Américas, celebrada em 21 de março de 1557, foi celebrada a primeira Santa Ceia protestante das Américas. Crédito: Christian Bitencourt/Wikimedia

As comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante levam o pensamento a discussões e conflitos em igrejas, cortes e universidades europeias. Afinal, quando Martinho Lutero (1483-1546) iniciou seu protesto contra as práticas e doutrinas não bíblicas que a igreja adotava, o cristianismo praticamente se restringia à Europa. No século 16, as Américas eram ainda uma terra recentemente descoberta para onde se dirigiam aventureiros que pensavam muito mais nos tesouros naturais que nela havia do que nos debates sobre fé, graça e salvação eterna.

A impressão que fica da leitura de muitos livros sobre a história da igreja cristã é que os protestantes só “descobriram” a América em 11 de novembro de 1620, quando o navio Mayflower, com os 102 pais peregrinos, aportou na costa do que hoje é o estado norte-americano de Massachusetts. Muitos podem ser tentados a concluir que o Brasil, hoje o país com mais católicos no mundo, só foi receber a presença de evangélicos em um período tardio de sua história. Poucos sabem que reformadores do século 16 sabiam da existência das terras descobertas por Pedro Álvares Cabral, e que o Brasil foi o primeiro território do Novo Mundo a ter presença protestante.

Hans Staden, o primeiro cristão evangélico que chegou ao Brasil

Possivelmente o primeiro cristão evangélico a pisar em solo brasileiro foi o luterano Hans Staden (1525-1576). Nascido em Homberg, no estado de Hesse, Staden queria se aventurar na Índia. Com 22 anos de idade, chegou a Lisboa, Portugal, para descobrir que a expedição para a Índia já havia partido. Acabou se empregando como artilheiro de uma caravela com destino ao Brasil.

Em 28 de janeiro de 1548, Hans Staden chegou ao cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Nessa primeira viagem ao Nordeste, Staden arriscou a vida para salvar colonos portugueses de ataques de índios e enfrentou piratas no Rio Grande do Norte. Voltou à Europa no mesmo ano, mas para retornar no ano seguinte ao Brasil numa viagem mais longa e ainda mais perigosa.

Staden sobreviveu a um naufrágio na ilha de Santa Catarina e outro em Itanhaém. Foi contratado como artilheiro no forte de Bertioga. Em 1854, encontrou Heliodoro Eobano Hesse, outro luterano alemão, que estava trabalhando como contabilista nos engenhos de açúcar em São Vicente. Ao voltar de uma visita ao conterrâneo, foi capturado pelos índios tupinambás, que eram canibais, tendo ficado prisioneiro deles por nove meses. Ao longo desse tempo, valeu-se dos salmos que sabia de cor e dos hinos luteranos para manter viva em si a confiança de que Deus o salvaria da morte. Também compartilhou sua crença em Deus e a esperança de salvação eterna com outros prisioneiros dos canibais. Finalmente, foi resgatado por um navio francês e voltou para a Alemanha, onde publicou em 1557 o livro Viagem ao Brasil, no qual testemunhou de como Deus o livrou de ser devorado pelos tupinambás.

Heliodoro Eobano Hesse (1529-1585), que era conhecido de Staden já na Alemanha, veio ao Brasil para ficar. Nascido em Nurembergue, era filho do sábio Hélio Eobano Hesse, contemporâneo de Martinho Lutero na Universidade de Erfurt e seu amigo pessoal, com quem trocou cartas durante toda a vida e que foi um dos primeiros a defender juntamente com ele a reforma da igreja. Tendo herdado muito da inteligência do pai, um cientista e poeta, Heliodoro começou a estudar na Universidade de Marburgo com apenas 13 anos de idade.

Em 1554, veio para o Brasil e se estabeleceu em São Vicente, no litoral paulista, e participou de explorações do então selvagem litoral brasileiro. Segundo o pesquisador Helmut Andrä (“Heliodor Eoban Hesse, o Cofundador do Rio de Janeiro”. Revista Humboldt, v. 13, p. 59-67, 1966), Heliodoro Eobano ajudou posteriormente a comandar os esforços para recuperar a baía da Guanabara, que estava sob domínio dos franceses. Em 1565, fundou, junto com Estácio de Sá, a cidade do Rio de Janeiro, da qual foi vereador, juiz e tesoureiro municipal, além de explorador de pau-brasil. Apesar de sua fé protestante e das ligações de seu pai com Lutero, não se sabe se influenciou ou tentou influenciar algum outro habitante do Brasil colonial a adotar o cristianismo evangélico. É provável que as autoridades católicas portuguesas, com quem tinha bom relacionamento, o tivessem poupado de ser atormentado por causa de sua fé protestante. Afinal, não podiam dispensar suas habilidades financeiras numa colônia em que era rara a mão de obra qualificada.

Um francês, o vice-almirante Nicolas Durand de Villegaignon (1510-1571), ambicionava conquistar o Brasil para a França. Em 1555, ele recrutou nas prisões francesas pessoas de diferentes profissões para a empreitada. Instalou-se na baía de Guanabara que, na época, tinha uma geografia diferente de hoje. Sem a área dos aterros do Aeroporto Santos Dumont, da Glória e do Flamengo, a ilha em que se instalou, onde hoje está a Escola Naval, estava a mais de um quilômetro de distância do continente. Ali ele ergueu o Forte Cologny, nome dado em homenagem ao almirante Gaspar de Cologny (1519-1572), que mais tarde se converteu ao protestantismo e foi martirizado no Massacre de São Bartolomeu.

Villegaignon teve muitos problemas com a má índole dos primeiros colonos. Apesar de ser católico, ele escreveu em fevereiro de 1556 uma carta ao seu antigo colega de estudos, o reformador João Calvino (1509-1564), para que enviasse de Genebra cristãos reformados com o fim de estabelecer uma igreja entre os franceses e evangelizar os índios no Brasil. O pedido foi atendido com o envio de 14 protestantes, que deixaram suas famílias na Europa para levar a mensagem da cruz ao Novo Mundo, juntando-se a uma leva de 290 colonos franceses. Entre eles estavam dois ministros ordenados, Pierre Richier (1506-1580), doutor em teologia e ex-frade carmelita, e Guillaume Chartier (1525-1572). Ao chegar, em 10 de março de 1557, eles apresentaram a Villegaignon suas credenciais ministeriais assinadas pelo próprio Calvino. Nesse mesmo dia, foi realizado um culto em que se cantou o salmo 5 do Saltério Huguenote, o hinário de Calvino, e Richier pregou sobre o Salmo 27:4. No dia 21 de março de 1557, foi celebrada a primeira Santa Ceia protestante das Américas. Em frente à Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro há um monumento representando o acontecimento. Depois de fazer uma profissão de fé reformada, Villegaignon foi o primeiro a participar da ceia.

Os huguenotes reproduziram o modelo de culto da igreja de Genebra. Os dois pastores se revezavam na direção de um culto diário durante a semana e dois aos domingos, além de uma Santa Ceia por mês. No entanto, o vice-almirante foi influenciado por um dos imigrantes, um ex-seminarista dominicano, a questionar a doutrina protestante, e interrompeu publicamente um sermão de Richier para atacá-la.

Villegaignon parou de assistir aos cultos, e passou a tratar mal os evangélicos. Fingindo querer resolver a disputa, ele solicitou que um dos pastores fosse consultar Calvino em Genebra a respeito dos pontos em controvérsia. Na verdade, foi apenas um estratagema para se ver livre de pelo menos um deles. Chartier partiu da baía de Guanabara em 4 de junho de 1557. Segundo o pesquisador do protestantismo no Brasil colonial Francisco Leonardo Schalkwijk (“O Brasil na Correspondência de Calvino”. Fides Reformata, v. 9, n. 1, p. 101-128, 2004), ao chegar à Europa, Calvino identificou que o jovem pastor voltara do campo missionário abalado psicologicamente. Mas a intolerância do vice-almirante com os huguenotes aumentou ainda mais, a ponto de, em outubro, eles serem expulsos da segurança do Forte Coligny, na ilha, para ficarem no continente, vulneráveis ao ataque dos índios e comendo raízes e frutas silvestres.

Em 4 de janeiro de 1558, os protestantes, então em número de 16, tomaram um navio de carga para voltar à França, pagando um valor exorbitante pela passagem. Villegaignon subornou alguns marinheiros, já insatisfeitos com a presença dos passageiros extras, para denunciar os protestantes por heresia assim que chegassem à Europa. Mas, nos primeiros dias de viagem, começou a entrar água na embarcação, e, para aliviar a carga, cinco deles tomaram um bote e voltaram para a Guanabara. Os demais passaram muitas dificuldades e provações, chegando a comer os próprios sapatos, mas chegaram vivos à França e escaparam de ser presos. Um deles, Jean de Léry, depois estudou teologia em Genebra e foi aluno de Calvino. Ele escreveu o livro Viagem à Terra do Brasil (tradução de Sérgio Milliet, Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1961).

Dos que voltaram, Villegaignon prendeu quatro e lhes exigiu que apresentassem suas crenças. Com apenas uma única Bíblia à mão, eles escreveram os 17 artigos da Confissão de Fé da Guanabara, a primeira declaração doutrinária redigida nas Américas. Como o documento negava as doutrinas católicas, o almirante os condenou à morte acusando-os como hereges. Na sexta-feira, 9 de fevereiro de 1558, Jean du Boudel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon foram amarrados com as mãos e os pés em algemas e pesos de ferro de mais de 20 quilos e atirados no mar. André la Fon não foi morto por que era o único alfaiate da colônia, mas permaneceu prisioneiro. Jacques Le Balleur, o outro evangélico que voltou ao Brasil, escapou de ser preso e fugiu rumo a São Vicente. Livrou-se miraculosamente de ser devorado pelos canibais, pregou o evangelho entre os índios e foi preso em 1559 quando tentava evangelizar os portugueses. Ficou nove anos encarcerado pela Inquisição, até que foi enforcado pelas próprias mãos do padre jesuíta José de Anchieta, conforme a pesquisa feita pelo teólogo Álvaro Reis, registrada em seu livro O Mártir Le Balleur (Rio de Janeiro, 1917), e recontada pelo ex-padre católico Aníbal Pereira dos Reis em seu livro O Santo Que Anchieta Matou (São Paulo: Caminho de Damasco, 1981).

Apesar do interesse de alguns dos principais reformadores, já no século 16, pela evangelização do Brasil, a intolerância religiosa foi o principal impedimento para que os primeiros missionários tivessem êxito. A triste história das perseguições e do martírio dos primeiros evangélicos do Brasil deve servir de exemplo de intransigência com as verdades bíblicas e estímulo para a defesa da liberdade religiosa no país. Na comemoração dos 500 anos da Reforma, os evangélicos brasileiros devem ser gratos a Deus por viverem em tempos mais favoráveis à pregação do evangelho. Devem também aproveitar a oportunidade para proclamar a todos a mesma mensagem pela qual os primeiros protestantes no Brasil entregaram a vida, sem fazer concessões às crenças e práticas contrárias à Palavra de Deus, infelizmente ainda tão comuns hoje como a cinco séculos.

FERNANDO DIAS é pastor e editor da Casa Publicadora Brasileira

SAIBA +

Crespin, Jean. A Tragédia da Guanabara. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2007.

Staden, Hans. Viagem ao Brasil. São Paulo: Martin Claret, 2006.