O professor de Lutero

Conheça as ideias e a trajetória de Andreas Karlstadt, o mentor de Martinho Lutero que radicalizou a Reforma

Crédito: Fotolia / Eduardo Olszewski

O ano era 1517. Depois de ter visitado Roma e lido textos de Agostinho sobre a graça e a depravação humana, o professor de Bíblia da Universidade de Wittenberg publicou 151 teses denunciado a corrupção do sistema litúrgico cristão. Além de impactar o cristianismo na época, os reflexos de suas ideias são vistos até hoje, visto que elas enfatizam que o pecador pode obter a salvação sem a intervenção direta da instituição eclesiástica. Apesar das semelhanças, não estamos falando de Lutero e suas 95 teses, mas sim de Andreas Bodenstein von Karlstadt, seu professor de teologia.

Apesar de terem trabalhado juntos por um tempo (1515-1522) contra o que achavam ser erros propagados pelo papado, suas perspectivas teológicas e compreensões de como e quando mudanças litúrgicas deveriam ser implementadas fizeram com que eles tomassem rumos distintos.

Andreas Bodenstein (1486-1541) nasceu na cidadela de Karlstadt (o que explica seu último nome em alemão), situada a 25 km de Wartburg, onde Lutero se refugiou em 1519. De acordo com a tradição local, ela foi construída por Carlos Magno, o imperador do Sacro Império Romano que formou centros de ensino que padronizaram a educação teológica no norte da Europa. Foi desses núcleos que saíram os principais reformadores do século 16.

Andreas iniciou os estudos teológicos entre 1499 e 1502 na Universidade de Erfurt, onde primeiramente teve contato com leituras em latim de comentários sobre doutrinas cristãs sistematizados por Pedro Lombardo e Tomás de Aquino. Como outros reformadores, ele foi educado nos moldes do escolasticismo, método que tentava conciliar a fé cristã com um sistema de pensamento racional. Isso ajuda a explicar porque as teses, das quais as 95 de Lutero se tornaram as mais conhecidas, eram tão comuns naquela época.

Lutero também estudou em Erfurt, onde cursou o doutorado em Teologia. Embora, na época, Karlstadt atuasse como professor e reitor da Universidade de Wittenberg, ele foi o “orientador” daquele que se tornaria o grande ícone da Reforma. Em 1515, Karlstad, dotado com mente ávida pelo conhecimento, foi a Roma, onde estudou lei canônica e jurisprudência civil na universidade italiana Sapienza. Ao chegar lá, ele se deparou com um currículo transformado por Martinho Lutero que, em vez de enfatizar os comentaristas medievais e a importância dos rituais da igreja, defendia uma visão agostiniana. Para Lutero, a humanidade estava numa condição totalmente depravada pelo pecado e somente a graça divina poderia salvá-lo. Motivado por Lutero, Andreas leu as obras de Agostinho e se convenceu de que a salvação ocorre mediante a fé. Mas isso não significava pensamento uniforme, pois até o catolicismo romano afirmava tal premissa. Foi na implementação dos rituais da igreja que se tornaram evidentes as diferenças de pensamento sobre salvação. Karlstadt foi um dos articuladores desse debate.

Entre 1517 e 1520, os professores de Wittenberg debateram com João Eck, grande defensor do catolicismo, sobre a importância dos rituais mediados por líderes religiosos no processo da salvação e o papel das indulgências. Influenciado por Eck, Leão X emitiu uma bula papal ameaçando Lutero e Andreas Karlstadt de excomunhão. Porém, Frederico III, eleitor da Saxônia, protegeu ambos, escondendo Lutero no Castelo de Wartburg após a chamada Dieta de Worms e enviando Andreas para a Dinamarca a fim de propagar ideais reformadores na corte do rei Cristiano II. Meses depois, talvez por ter se precipitado em apresentar as mudanças à corte dinamarquesa, Andreas Karlstadt retornou decepcionado à Saxônia.

Em Wittenberg, sem Lutero, finalmente ele conseguiu implementar seu plano de reforma religiosa e social na cidade, a fim de torná-la um modelo na Europa. As mudanças incluíam a remoção de imagens e sua veneração nas igrejas. Na liturgia, ele propunha que tanto o pão quanto o vinho fossem oferecidos aos fiéis, haja vista que, nesse período, os emblemas costumavam ficar restritos aos sacerdotes (na maioria dos casos, somente o pão era oferecido aos fiéis). O rei Frederico foi contra as ideias de Karlstadt, mas os líderes locais aderiram à reforma. Além disso, em janeiro de 1522 ele quebrou o protocolo e se casou com Anna von Mochau, de 15 anos, filha de um camponês.

Essas mudanças acirraram o ânimo de muitos, que saíram quebrando imagens e os altares de igrejas na região. Ao ouvir sobre os acontecimentos, Lutero saiu de seu esconderijo e, em março, numa série de sermões, repreendeu os “rebeldes” sobre a rápida mudança nos costumes e sobre o significado da eucaristia ou presença de Deus nos rituais da igreja. Com o apoio de Frederico III, Lutero conseguiu expulsar Andreas, que fugiu para Orlamundo. Lá, Andreas instaurou uma comunidade fundamentada nos princípios de igualdade. Ele se tornou um camponês e rejeitou o título e salário de professor de teologia.

Enquanto isso, ao norte, em Allstedt, Thomaz Müntzer promovia uma rebelião contra as autoridades, movido por ideais de igualdade. Apesar de ter sido convidado para participar da insurreição, Andreas Karlstadt adotou uma posição pacifista. Precisamente em 22 de agosto de 1524, na cidade de Jena, Lutero se encontrou com Andreas a fim de esclarecer sua posição teológica acerca da eucaristia e de seu papel na revolta de Müntzer. Na taverna do Urso Preto, num momento bastante significativo para a Reforma, Lutero considerou Andreas culpado, e, ao fim de sua fala, tomou uma moeda de ouro e a entregou a Karlstadt dizendo: “Tome isso e me ataque firmemente agora. Ataque-me de uma forma convincente.” Andreas Karlstadt entendeu o recado e publicou um panfleto no qual sintetizava sua visão dos rituais cristãos e defendia que a reforma não deveria ser postergada. Disseminando-se rapidamente, suas publicações foram as mais difundidas na Europa, depois das de Lutero. É importante notar que foi justamente o desejo de publicar suas ideias que posteriormente levou Karlstadt a ir para a região de Zurique, onde se encontrou com Felix Manz, Conrad Grebel e Ulrich Zuínglio.

As mudanças que ele buscava no cristianismo europeu envolviam o abandono da prática de venerar ícones sagrados, o apego mais literal ao texto bíblico, a crença de que todos os cristãos podem participar dos rituais da santa ceia e batizar, entre outras ideias que levaram alguns reformadores, a exemplo de Lutero e Zuínglio, a considerar figuras como Andreas Karlstadt, Grebel e Manz como radicais. Daí a identificação desses ideais e personagens com a chamada Reforma Radical.

A rebelião dos camponeses, promovida por Müntzer, estourou em 1525. Andreas foi acusado pelas autoridades de ter participação na insurreição e buscou proteção pedindo asilo a Lutero. Seu amigo aceitou o pedido na condição de que ele se retratasse e não mais proclamasse suas ideias. Karlstadt ficou com Lutero em Wittenberg até 1529, quando este debateu sobre a Eucaristia com Zuínglio. Talvez enfadado pelo silêncio imposto por Lutero, Andreas decidiu sair de Wittenberg e se aliou a Zuínglio em Zurique. Ele também auxiliou o pregador Melchior Hoffman em debates sobre esse ponto teológico. Curiosamente, alguns anos antes, Hoffman e outros pregadores haviam tentado promover essas ideias em Zurique por meio de Zuínglio, que a princípio as aceitou, mas depois rejeitou as mudanças por causa da resistência do governo e da população local.

Assim como Lutero, Zuínglio pretendia implementar uma reforma à medida que a população e o governo aceitassem. Apesar das diferenças, Karlstadt se alinhou com Zuínglio e, com sua influência, se tornou professor de Bíblia em Basileia de 1534 a 1540, quando morreu ao ser contaminado por uma praga ao ministrar aos membros doentes de sua congregação.

RODRIGO GALIZA é graduado em Teologia e Jornalismo e cursa doutorado em História do Cristianismo na Universidade Andrews (EUA)

SAIBA +

Galiza, Rodrigo. “A Reforma Radical”, em: Araújo, Glauber. A Reforma Protestante: Uma Visão Adventista (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2017).