Entre o Céu e a Terra

Teólogo da nova geração explica como o ministério celestial de Cristo impacta a vida da igreja

Por Wendel Lima

Adriani Milli Rodrigues é um dos promissores talentos da nova safra de teólogos adventistas brasileiros. Sua tese doutoral com 524 páginas, defendida recentemente na Universidade Andrews (EUA), trata do sacerdócio de Cristo no santuário celestial, tema fundamental para a fé adventista. Mas a grande contribuição da pesquisa dele não está numa novidade teológica, e sim na articulação de pressupostos e ideias que dão mais sustentação para nossa doutrina.

Outro mérito do seu trabalho foi não se limitar a tratar de um tema distintivo adventista no contexto denominacional. Por isso, Adriani foi pesquisador visitante em duas das mais importantes universidades do mundo: Notre Dame e Princeton, ambas nos Estados Unidos. Lá ele teve acesso às fontes do pensamento católico e protestante, a fim de compará-los com a visão adventista.

Nesta entrevista, Adriani expõe como a teologia medieval tentou anular a obra de Cristo, o que o livro de Hebreus revela sobre o ministério sacerdotal de Jesus e o impacto dos eventos do Céu no cotidiano da Terra.

Como a teologia medieval distorceu o ministério de Cristo no santuário celestial?

Propondo uma visão sacramental da realidade. O sacramento era visto como um instrumento de mediação entre o Céu e a Terra, um canal, via igreja, pelo qual a graça de Deus era comunicada ao crente. No pensamento católico, o sacramento é a manifestação histórica de algo mais profundo, é a “embalagem” de algo místico mais significativo. Essa visão se justifica pelo pressuposto de que Deus habita numa realidade diferente da nossa, fora do tempo e do espaço, num mundo espiritual que, para entrar em contato conosco, precisa de uma instrumentalização: os sacramentos. Dos sete sacramentos católicos, dois têm que ver com o sacerdócio de Cristo: a eucaristia (Santa Ceia) e a ordenação. Na missa, acredita-se que o sacrifício de Cristo seja repetido e os símbolos se tornem o corpo e o sangue Dele. Quanto à ordenação sacerdotal, por ser um sacramento, a interpretação católica é de que o sacerdote atua no lugar de Jesus. Isso tudo parte da ideia de que a igreja é uma extensão da encarnação de Cristo e que, por isso, ela é infalível. Entender essa lógica explica por que a igreja medieval se apropriou de termos do Antigo Testamento, como templo, altar, sacerdote e sacrifício (missa), substituindo assim na Terra, e via instituição religiosa, o ministério de Cristo no santuário celestial. Portanto, a contrafação teológica do poder identificado em Daniel 7 e 8 como o chifre pequeno foi articulada filosoficamente.

De que maneira a Reforma Protestante começou a romper com essa visão?

O protestantismo começou a fazer uma leitura mais histórica do ministério sacerdotal de Cristo. Lutero criticou a crença nos sacramentos e manteve apenas dois: a Santa Ceia e o batismo. Eles ainda acreditavam na presença de Cristo no pão e no vinho, mas sem a ideia de um novo sacrifício. Rompeu-se também com a visão “mágica” de sacerdócio, resgatando o conceito de que todos os crentes são chamados a compartilhar o sacerdócio de Cristo. A cruz passou a ser vista como um sacrifício histórico, e Calvino chegou a escrever que Jesus estava no Céu intercedendo pela humanidade.

Mas o protestantismo clássico manteve algumas incoerências?

Sim, porque os protestantes não rearticularam a doutrina de Deus. Prova disso foi a forte ênfase na predestinação, doutrina que pressupõe Deus fora do tempo. O problema é que a conta não fecha quando pensamos num Cristo histórico mediando diante de um Deus atemporal. O protestantismo moderno identificou essa incoerência, mas também não chegou a uma solução razoável. Os teólogos protestantes interpretam a cruz como concentrando a obra completa da salvação e veem a ênfase na intercessão posterior de Cristo uma diminuição de Seu sacrifício no Calvário. Para eles, o sacerdócio celestial de Jesus tem função apenas litúrgica ou simbólica, e não salvífica em si mesma. Na sala de aula, porém, costumo dizer que a obra da salvação não terminou na cruz. Cristo continua trabalhando em nosso favor.

Então, como o modelo histórico proposto em sua tese oferece uma alternativa?

Minha ideia não é nova, apenas procuro sistematizar o tema e mostrar suas relações com outras crenças, como a doutrina de Deus. O cerne do modelo histórico é que existe uma sequencialidade nas ações de Deus na Terra e no Céu. Esse foi o pressuposto dos pioneiros adventistas e foi desse paradigma bíblico que intuitivamente eles partiram para entender a passagem de Cristo de um lugar para outro no santuário celestial em 22 de outubro de 1844.

Por que o conceito sobre o tempo é tão importante para nossa compreensão acerca de Deus e da realidade?

Essa é uma discussão bem árida, mas fundamental. Na filosofia clássica grega, tudo que é perfeito não pode estar atrelado ao tempo e movimento, porque isso envolve algum tipo de mudança e dá a impressão de que está incompleto. Na tentativa de “proteger” Deus e defender filosoficamente o cristianismo, o teísmo clássico assimilou esse conceito grego e estabeleceu que existem duas realidades: uma terrestre, histórica, e outra celestial, que não tem passado, presente nem futuro. Em vez de pressupor o tempo como um contêiner em que seres terrestres vivem, e a atemporalidade como outro contêiner no qual habitam os seres celestiais, na visão bíblica, o tempo é apenas uma medida de passagem, e a temporalidade é uma característica nossa, da realidade que nos cerca e do próprio Deus. Ao discutir isso, não estamos tentando decifrar o mistério da transcendência de Deus, mas apenas procurando entender aquilo que Ele mesmo revelou.

A crença na temporalidade de Deus reforça nossa confiança no cumprimento das profecias de tempo definido?

Certamente, pois o ano de 1844 marcou o início de um juízo no Céu (Dn 8:14), com reflexos na Terra: o surgimento de um movimento missionário (Ap 14:6-12). A relação cronológica dos eventos no Céu e na Terra também fica clara, por exemplo, na descida do Espírito Santo no Pentecostes, acontecimento que Pedro atribuiu à inauguração do reinado e sacerdócio celestial de Cristo (At 2:33).

O que o livro de Hebreus ensina sobre o ministério sacerdotal de Jesus?

De forma bela e complexa, o livro de Hebreus discute o ministério de Cristo a partir de uma articulação sistemática dos conceitos de sacerdócio, santuário e aliança. Essa articulação ocorre numa progressão histórica: inauguração por ocasião da ascensão de Cristo, mediação contínua e, finalmente, a projeção de um julgamento final.

Por que precisamos de um mediador entre nós e Deus?

De forma sintética, Deus não precisa ser apenas justificador, mas também justo ao lidar de modo responsável com a eliminação do mal (Rm 3:26). É por meio da mediação de Cristo que Deus pode reunir essas duas características. Hebreus 5:4-6 mostra que foi Deus o Pai quem constituiu Cristo como mediador, indicando que não é a mediação de ninguém, inclusive do Filho, que convence o Pai a agir em nosso favor. Deus sempre nos amou.

Como o sacerdócio celestial de Cristo impacta a vida do crente?

Hebreus é uma carta em que a exposição doutrinária e a exortação pastoral estão mescladas, e na qual os conselhos práticos partem da explicação teológica sobre o sacerdócio de Cristo. Em Hebreus, a ideia é que a oração na Terra, em conexão com a mediação de Cristo no Céu, é o caminho para nos aproximarmos do trono de Deus. E devemos fazer isso com confiança (Hb 4:14-16), pois o trabalho de Cristo nos oferece salvação e perdão e nos aperfeiçoa para cumprirmos a vontade Dele, o que inclui a prática do bem e a cooperação mútua (Hb 13:15,16). Vale destacar que, à medida que o ministério de Cristo no Céu se aproxima do fim, Sua igreja na Terra precisa viver como um povo sacerdotal, em sua dimensão comunitária e missiológica.

SAIBA +

Casados com os livros

Na casa da família Milli, a máxima é estudar. Adriani, um capixaba de Colatina (ES) com 34 anos, é graduado em Teologia e Administração pelo Unasp, mestre em Ciências da Religião pela Umesp e PhD em Teologia pela Universidade Andrews (EUA). Ellen, sua esposa, tem um mestrado em Língua Inglesa e um doutorado em Educação também pela Universidade Andrews. Ambos são professores no Unasp, campus Engenheiro Coelho: ele no seminário teológico e ela nos cursos de Letras e Tradutor e Intérprete. Nos quase seis anos que passaram estudando em Michigan (EUA), nasceu a filha Sarah, hoje com dois anos.

(Entrevista publicada originalmente na edição de agosto de 2017 da Revista Adventista)