Príncipe do humanismo

Erasmo de Roterdã foi um reformador que não quis ser um reformador. Apesar de ter se alinhado mais com a filosofia do que com a teologia, ele deu uma contribuição especial ao movimento que mudou o mundo

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Entre seus contemporâneos, possivelmente ninguém tenha contribuído mais do que Erasmo de Roterdã para lançar as bases do movimento da Reforma Protestante. Ao mesmo tempo em que deu significativo impulso para o estudo da Bíblia, principalmente por seu interesse pelas línguas originais, também expôs o fanatismo e a ignorância monásticos, bem como os abusos eclesiásticos. Apesar disso, ele jamais se declarou reformador no sentido protestante do termo. De fato, ele chegou a anunciar “guerra” contra Lutero, embora continuasse discordando de Roma em muitos aspectos, porém sem se dissociar dela. Seu desejo era uma reforma dentro da igreja e do papado.

Erasmo acabou adquirindo inimigos de ambos os lados, o que lhe trouxe amarguras em diversos pontos de sua vida. Porém, nada disso impediu que ele se tornasse muito respeitado em toda a Europa. Sua vida, obras e opiniões teológicas são objetos de estudo necessários a qualquer pessoa que desejar conhecer mais profundamente as origens da Reforma Protestante.

Biografia

Desidério Erasmo de Roterdã (1466-1536) foi um famoso e admirado humanista e filósofo holandês. A popularidade que adquiriu ao longo de sua vida se reflete na própria composição de seu nome. As palavras desiderius e erasmus (ou erasmius) significam amado, respectivamente, em latim e grego.

Filho ilegítimo de um sacerdote holandês, desde os primeiros anos de vida ele demonstrou intenso interesse pelos estudos. Certa vez, Erasmo comentou: “Quando recebo um pouco de dinheiro, compro livros. Se me sobra um pouco, compro comida e roupas” (131 Christians Everyone Should Know, p.342).

Depois da morte de sua mãe, seus guardiões roubaram sua herança. Como era pobre, teve que viver em monastérios durante aproximadamente cinco anos mesmo contra sua vontade. Durante esse período, mergulhou no estudo dos clássicos, a fim de encontrar algum alívio do desprezo que sentia pelo mosteiro e a vida de monge.

Em 1492, foi ordenado ao sacerdócio, mas jamais assumiu uma paróquia. Entretanto, no mesmo ano se tornou secretário do bispo de Cambraia, na França, que o enviou a Paris para estudar teologia. Ao que parece, embora tivesse apreciado os estudos, ele odiava o monastério em Paris. “Os aposentos fediam a urina, a comida era horrível, os estudos eram mecânicos e a disciplina era brutal”, ele afirmou anos mais tarde. Na capital francesa, ele se aprofundou em autores como Cícero, Públio Terêncio, Plutarco, entre outros. Foi também nesse período que iniciou uma carreira como escritor, a qual o levou a diversos países da Europa.

Mais tarde, em visitas à Inglaterra, Erasmo conheceu figuras importantes como o arcebispo Warham, o cardeal Wolsey, o bispo Fisher, Thomas More e Dean Colet, com quem compartilhava pensamentos em comum. Este último exerceu grande influência sobre ele, ensinando-lhe que “a teologia devia se voltar do escolasticismo para as Escrituras, e dos frios dogmas para a sabedoria prática” (History of the Christian Church, v. 7, p.406). O pensamento de que a teologia devia se voltar para as Escrituras fez com que Erasmo alimentasse maior interesse pela língua grega, e o levou a publicar a primeira edição do Novo Testamento em grego, em 1510.

Entre sua primeira (em 1498) e última visita à Inglaterra (em 1510), Erasmo viveu três anos na Itália, onde obteve um doutorado em Divindade. Depois desse período, passou a visitar com frequência a cidade de Basileia, na Suíça, e em 1521 a tornou seu lar definitivo. Ele amava o clima da cidade, porém o que mais provavelmente lhe prendia ali era o fato de desfrutar de elevado prestígio diante do bispo local bem como dos magistrados. Além disso, ele apreciava a universidade e os professores que ali ensinavam, e apreciava mais ainda o fato de que todos eles sabiam grego e latim e a maioria, hebraico.

Os escritos de Erasmo o tornaram famoso em toda a Europa. Suas obras tiveram ampla circulação, de modo que a pobreza dos primeiros anos deu lugar a muitos privilégios. “Acadêmicos, bispos, cardeais, reis e papas lhe prestavam homenagem, enviavam-lhe presentes e lhe pagavam pensões […]. Receber uma carta dele era considerado boa sorte, e ter uma entrevista pessoal com ele era visto como um grande evento” (History of the Christian Church, v. 7, p.407).

Apesar de sua popularidade, Erasmo se tornou um homem descontente na velhice. Dois fatos principalmente contribuíram para isso. Primeiro, a morte do seu amigo mais querido, John Froben, em 1527. Segundo, o triunfo do Protestantismo na Basileia por meio do trabalho de Ecolampádio, um antigo amigo e associado. Embora tenha contribuído para a Reforma, Erasmo não se afastou formalmente da Igreja Católica. O que ele defendia era a necessidade de uma reforma interna na igreja, não uma separação.   

Ideias teológicas

Seguramente, a maior contribuição teológica de Erasmo foi a publicação de sua edição do Novo Testamento em grego, em 1516. Embora seja considerada a primeira edição moderna do NT nesse idioma, ela foi precedida por uma edição bilíngue (grego e latim) de toda a Bíblia, a qual foi impressa dois anos antes e se tornou conhecida como a Poliglota Complutense. Apesar disso, a edição de Erasmo foi comercializada por Johann Froben, seu editor, como a primeira edição grega publicada. Como Erasmo expressou no prefácio da obra, seu desejo era de que cada pessoa tivesse a chance de ler a Bíblia.

Seu esforço em publicar o Novo Testamento na língua original surgiu em decorrência das influências humanistas que existiam na época. Esse movimento renascentista que começou na Itália alimentava o interesse pelo estudo da arte clássica. Por esse motivo, havia um interesse peculiar em “voltar às fontes”, priorizando obras literárias em sua língua original. Os humanistas também depreciavam o escolasticismo medieval tão disseminado em sua época. Eles preferiam assuntos práticos, relacionados à sociedade e à vida cívica, do que as discussões filosóficas e racionaistas que haviam tomado conta das universidades europeias. Devido às suas contribuições ao pensamento e à produção literária humanista, Erasmo foi referido por alguns como o “príncipe do humanismo”.

Sua contribuição abriu o caminho para que Lutero e Tyndale fizessem suas traduções, respectivamente ao alemão e inglês, e, desse modo, levassem as pessoas à Palavra de Deus. Deve-se mencionar ainda que também devemos a Erasmo as primeiras edições de escritos cristãos dos primeiros séculos da era cristã, bem como diversas obras teológicas. “Seus escritos e erudição iniciaram um terremoto teológico que não parou até que o cristianismo europeu ocidental estivesse dividido” (131 Christians Everyone Should Know, p. 342).

O texto de Erasmo se tornou conhecido como “Texto Recebido”, ou “Textus Receptus” (em latim). Isso se deve ao fato de que no prefácio de uma edição do Novo Testamento Grego impressa em 1633 pelos irmãos Elzevir, menciona-se que o texto de Erasmo foi recebido por todos. Embora a edição tenha sido considerada a melhor representação do texto do Novo Testamento por vários séculos, estudos posteriores, bem como a descoberta de antigos manuscritos da Bíblia, demonstraram a necessidade de edições que contassem com manuscritos mais antigos do que aqueles usados por ele. Apesar disso, conforme foi mencionado, sua edição foi a base para a tradução de Lutero ao alemão, e a de Tyndale ao inglês, permitindo que a Bíblia chegasse ao povo em sua própria língua.

Erasmo acreditava piamente na Bíblia e a reverenciava como revelação divina. Para ele, a Escritura era a verdadeira fonte de teologia e devoção. Contudo, faltou-lhe uma compreensão mais profunda acerca do pecado e da graça. Essas doutrinas ocuparam mais detidamente o pensamento de Lutero. De fato, Erasmo e Lutero divergiram em vários aspectos. “Erasmo era dezoito anos mais velho que Lutero, e estava no auge da sua fama quando o reformador iniciou sua obra. Ele diferia de Lutero como Jerônimo diferia de Agostinho […]. Erasmo era essencialmente um erudito, Lutero, um reformador; o primeiro estava absorvido na literatura, o outro, na religião. Erasmo visava à iluminação, Lutero, à reconstrução. O primeiro desenvolveu o intelecto de uma pessoa educada; o segundo tocava o coração do povo. Erasmo lutava pela liberdade de pensamento; Lutero, pela liberdade de consciência” (History of the Christian Church, v. 7, p. 412).

Ao que tudo indica, Erasmo duvidou da doutrina católica da transubstanciação e possivelmente tivesse ideias arianas acerca da Trindade, uma vez que algumas de suas declarações deixavam transparecer que ele não cria na plena divindade do Filho e do Espírito Santo. Ao mesmo tempo em que ele tinha a Bíblia como verdadeira fonte de revelação, também considerava que poetas e escritores antigos como Sócrates, Cícero e Plutarco de alguma forma tenham sido divinamente movidos.

Como os demais humanistas de sua época, Erasmo cria que o avanço moral da humanidade era possível por meio da educação. Para ele, a conduta moral devia ser uma espécie de teste da verdade em questões de doutrina. Por essa razão, ele é visto mais como um reformador moral do que doutrinário. Em sua opinião, uma reforma religiosa era necessária porque uma cegueira moral havia pairado sobre a Europa de seus dias. Tal cegueira podia ser explicada pelo fato de que os cristãos se concentraram nos dogmas em vez de se deter nos ensinos éticos de Cristo nos evangelhos e nos efeitos práticos desses ensinos na vida das pessoas. Desse modo, ele se preocupou em “enfatizar não as doutrinas peculiares ao cristianismo, mas os ensinos universais da paz e do amor” (Richard L. DeMolen, Erasmus of Rotterdam, p. 40).

Embora muitos estudiosos não considerem Erasmo um reformador no sentido mais estrito do termo, não se pode negar sua influência sobre vários reformadores, incluindo Lutero, Melâncton e Zuínglio. Seu interesse pelas artes e as línguas clássicas, bem como sua ênfase na educação como meio de superar a baixa moralidade de sua época influenciaram de maneira marcante a teologia dos reformadores e sua mensagem de que cada pessoa devia conhecer a Bíblia por si mesma. Como humanista, Erasmo defendia que cada indivíduo devia pensar por si só. Como tal, ele foi um crítico tenaz da igreja. Não é de estranhar que, com seu Cristocentrismo, ele tenha subvertido “o sistema sacramental-sacerdotal. Lutero, aos olhos de muitos oponentes ortodoxos de Erasmo, apenas deu o segundo passo de adotar uma Cristologia Paulina”. Conforme um famoso refrão daquela época, “Lutero chocou o ovo que Erasmo tinha posto”. Para usar as palavras de Lewiz Spitz, “sua influência como reformador humanista permaneceu na corrente do pensamento de Reforma” (Richard L. DeMolen, Erasmus of Rotterdam, p. 51, 62).

Erasmo morreu sem chegar ao entendimento de muitas verdades que seriam restauradas durante os séculos seguintes. Conforme a Bíblia menciona em Provérbios 4:18, “a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito”. Apesar de ter sido um grande estudioso e se tornado a grande expressão do humanismo cristão da época, ele também teve suas limitações. Porém, não é possível mensurar o valor de sua contribuição, sobretudo o de sua publicação do Novo Testamento Grego. Deus, em Sua infinita sabedoria, sabe usar os talentos de cada pessoa.

Além de sua intelectualidade, algo notável na vida de Erasmo foi seu amor pelos pobres, crianças e idosos. Em um testamento escrito cinco meses antes de sua morte, ele deixou parte da herança para alguns amigos e a outra parte para os idosos, os pobres e para a educação de jovens promissores. No leito de morte, ele recebeu a visita de três amigos, o que lhe fez relembrar a experiência de Jó. Erasmo morreu em 12 de julho de 1536, e encontra-se sepultado na Catedral de Basileia.

NILTON AGUIAR, mestre em Ciências da Religião, é professor de grego e Novo Testamento na Faculdade Adventista da Bahia e está cursando o doutorado em Novo Testamento na Universidade Andrews (EUA)