Terra Negra

Eloquente, erudito e diplomático, Melâncton despertou menos oposição que o monge agostiniano, abrindo portas para a teologia luterana

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O reformador que hoje conhecemos como Filipe Melâncton nasceu com o nome Phillipp Schwarzerdt em 16 de fevereiro de 1497, na cidade de Bretten, Alemanha. Recebeu sua educação em Heidelberg e em Tübingen. Nessas cidades, foi formado pelo melhor da erudição de sua época, tendo se tornado proficiente em latim, hebraico e grego. O sobrenome alemão Schwarzerdt significa “terra negra”. Johannes Reuchlin, importante erudito da língua hebraica e humanista alemão, tio de sua mãe e seu patrono, traduziu a expressão para o grego e, em 1509, deu a alcunha de Melâncton ao seu sobrinho-neto, uma prática comum nos círculos humanistas alemães da época. Seu pai, que foi armeiro na corte de Heidelberg, morreu nesse ano e Reuchlin, seu tio-avô, se responsabilizou por sua formação.

Um ano depois de Martinho Lutero ter afixado suas 95 teses na igreja do Castelo de Wittenberg, Melâncton foi chamado para ser professor de grego na Universidade de Wittenberg. A partir daí os dois iniciariam uma amizade cujo legado permanece até nossos dias. Nas palavras de Horst F. Rupp, essa amizade “se desenvolveu rapidamente entre os dois homens, diferentes como fossem em mais aspectos do que meramente a idade – o intransigente, algumas vezes grosseiro Lutero, sempre pronto para a briga, atormentado por seus próprios problemas existenciais, contrastando agudamente com o intelectual Melâncton, o acadêmico cuja vida fora devotada à erudição e que em quase toda ocasião procurou chegar a um meio-termo com seus oponentes” (Philipp Melanchthon (1497-1560), v. 26, n. 3, p. 610).

A avaliação de Ellen White confirma a influência mútua que Lutero e Melâncton tiveram entre si: “A providência de Deus enviou Melâncton a Wittenberg. Jovem, modesto e tímido nas maneiras, o são discernimento de Melâncton, seu extenso saber e convincente eloquência, combinados com a pureza e retidão de caráter, conquistaram admiração e estima gerais. O brilho de seus talentos não era mais assinalado do que a gentileza de suas maneiras. Logo se tornou um fervoroso discípulo do evangelho, o amigo de mais confiança e valioso apoio para Lutero, servindo sua brandura, prudência e exatidão de complemento à coragem e energia daquele. Sua cooperação na obra acrescentou força à Reforma, e foi uma fonte de grande ânimo para Lutero” (O Grande Conflito, p. 134).

Tendo grande interesse pessoal pelas línguas antigas, não só pela formação, Melâncton estudava os textos antigos sempre no original, não recorrendo a comentários posteriores. Isso é compreensível dado o pano de fundo humanista de seus dias com seu chamado para retornar às fontes. Essa característica de Melâncton foi importante para a Reforma. Uma vez que Lutero encontrou verdades importantes nos escritos paulinos, era necessário alguém que se aprofundasse nos originais gregos para resgatar o significado das cartas apostólicas. Para essa tarefa, Melâncton estava mais do que preparado em virtude de sua formação excepcional.

Ao longo do período em que esteve em Wittenberg, Melâncton produziu uma série de comentários bíblicos. Valendo-se das técnicas que aprendeu no estudo dos clássicos, aplicou-as ao estudo profundo dos escritos do Novo Testamento. Produziu os primeiros comentários exegéticos do movimento reformador, sendo os principais, nesse período, sobre Romanos, Colossenses, Mateus e João. Esses esforços eram o reflexo direto da ênfase dos reformadores no poder e suficiência das Escrituras. Além disso, seu conhecimento nas línguas bíblicas foi indispensável para que Lutero pudesse produzir sua famosa tradução do Novo e Antigo Testamentos para o alto alemão, respectivamente em 1522 e 1534.

A associação com Lutero levou Melâncton a tomar algumas decisões difíceis. Reuchlin não gostou do envolvimento do sobrinho-neto num movimento que desafiava Roma. Ele até mesmo tentou transferi-lo para a cidade de Ingolstadt, mas Melâncton recusou-se, rompendo definitivamente suas relações com o tio-avô.

A obra-prima de Melâncton nasceu como um modesto manual teológico intitulado Esboços Teológicos, lançado primeiramente em 1521. Posteriormente, em novas edições do livro, o título foi alterado para Loci Communes (Lugares Comuns). Essa obra era a sistematização dos ensinos teológicos da Reforma desde uma perspectiva centrada no evangelho. Contudo, ela não apelava a estruturas filosóficas comuns na escolástica medieval. Por anos esse livro foi usado em escolas e universidades luteranas para o ensino de teologia.

A partir de 1527, juntamente com outros teólogos de Wittenberg e alguns magistrados, Melâncton empreendeu uma excursão por vários territórios alemães. A função desse circuito foi cuidar de maneira pastoral das comunidades reformadas. O livro Lugares Comuns serviu para auxiliar nesse processo.

Uma das maiores contribuições de Melâncton não apenas para a Reforma, mas para a própria sociedade alemã, foi sua ênfase educacional, como observou Charlotte Methuen no artigo intitulado “The role of the heavens in the thought of Philip Melanchthon” (“The Role of the Heavens in the Thought of Philip Melanchthon”. Journal of the History of Ideas, Philadelphia, v. 57, n. 3, p. 385, 1996). De acordo com Ralph Keen, a obra de Melâncton como educador deu a ele “uma reputação de arquiteto da educação alemã e o rótulo de ‘Preceptor da Alemanha’” (Luther’s Lives: Two Contemporary Accounts of Martin Luther, 2002, p. 9).

Quando Lutero se refugiou em Wartburg, em 1521, Melâncton assumiu a liderança do movimento reformador em Wittenberg. Alguns se ressentiram desse fato e durante anos questionaram seu posicionamento à frente da Reforma. Contudo, quando, entre 1529 e 1530, chegou o tempo de colocar por escrito as crenças reformadas, não havia ninguém melhor para fazê-lo do que Melâncton (Dictionary of major biblical interpreters, 2007, p. 717).

A Dieta de Augsburgo, em 1530, foi um ponto central na história da Reforma. Melâncton apresentou uma confissão, uma declaração dos pontos teológicos do movimento sediado em Wittenberg, que desafiou tanto o Império Alemão quanto o catolicismo romano. Em vez de suprimir o movimento reformador, a Dieta o consolidou, e a confissão elaborada por Melâncton era cada vez mais aceita pelos nobres alemães.

Conforme a Reforma crescia, especialmente na Alemanha, as autoridades convocaram colóquios para que as posições católica e reformada fossem discutidas, na tentativa de que houvesse algum tipo de unificação ou, pelo menos, o esclarecimento dos pontos defendidos. Melâncton foi o representante mais proeminente de Wittenberg e participou de vários desses encontros. Sendo eloquente, erudito e lógico, na maior parte das vezes mantendo uma postura amigável para com seus oponentes, ele era a escolha ideal para a tarefa. Além disso, uma vez que nunca foi ordenado como sacerdote católico, ele passava ileso por muitas acusações feitas a Lutero; ao mesmo tempo, sendo considerado um leigo, às vezes suas contribuições não eram levadas em conta pelos oponentes.

Uma característica da teologia de Melâncton foi sua ênfase sobre o livre-arbítrio, o que desenvolveu um posicionamento teológico chamado de sinergismo. Para ele, a salvação requeria um ato da vontade humana, a aceitação pessoal da graça divina. Além disso, os cristãos estavam ligados à lei de Deus. Tendo sido justificados unicamente pela graça, as boas obras eram o fruto necessário, a consequência óbvia da salvação. Negava a predestinação, insistindo que os que foram salvos deveriam agir de maneira justa.

Depois da morte de Lutero, em 1546, Melâncton enfrentou várias discordâncias internas dentro do movimento da Reforma. Sua grande preocupação era o bem-estar da igreja, para que ela se mantivesse unida em torno da Bíblia e de Cristo. Após uma viagem a Leipzig, em março de 1560, Melâncton contraiu uma forte gripe que o deixou prostrado por vários dias até que, em 19 de abril de 1560, ele faleceu. Seu genro, Caspar Peucer, registrou que, pouco antes de falecer, perguntou a Melâncton se ele queria alguma coisa, ao que o reformador respondeu: “Nada, apenas o Céu”.

J. R. Schneider resume assim a vida e a contribuição de Melâncton: “Ele inventou a dogmática protestante e escreveu a primeira confissão luterana; foi o líder de um exército de educadores protestantes que trouxeram nova visão e reforma para escolas e universidades por toda a Europa; ele trabalhou ao lado de Lutero para remodelar as igrejas da Saxônia no novo jeito da Reforma; e ele, mais do que Lutero, navegou o navio de estado luterano através das perigosas e mortais águas da negociação entre as facções doutrinárias católico-romanas e protestantes durante as três primeiras fatídicas décadas da Reforma” (Dictionary of Major Biblical Interpreters, 2007, p. 716).

LEONARDO GODINHO NUNES é professor de Novo Testamento e diretor do seminário de Teologia da Faculdade Adventista da Bahia (Fadba); CLACIR VIRMES JÚNIOR é professor de Novo Testamento e coordenador da área de extensão do seminário de Teologia da Faculdade Adventista da Bahia (Fadba)

SAIBA +

Brady, Thomas A. Emergence and Consolidation of Protestantism in the Holy Roman Empire to 1600. In: HSIA, R. Po-Chia (Ed.). Reform and Expansion 1500-1660. Cambridge: Cambridge University Press, 2008, p. 20-36. (The Cambridge History of Christianity).

Cross, F. L.; LIVINGSTONE, Elizabeth A. (Eds.). The Oxford Dictionary of the Christian Church. Oxford; New York: Oxford University Press, 2005.

Rupp, Horst F. Philipp Melanchthon (1497-1560). Prospects, Geneva, v. 26, n. 3, p. 610-621, 1996.

White, Ellen G. O Grande Conflito. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004, p. 42