Teólogo demolidor

O reformador eloquente que influenciou cidades inteiras, mas que, ao mesmo tempo, causou divisão e atraiu perseguição por tentar impor suas crenças

Crédito: Fotolia / Eduardo Olszewski

Toda obra de reforma começa com algum tipo de destruição. A obra reformadora de Guilherme Farel foi mais a de um demolidor do que a de um construtor. Ele era um conquistador impetuoso, mas incapaz de organizar suas conquistas. Um homem de ação, não um erudito. Nas palavras do historiador Schaff, “[Farel] sentia por suas falhas, e entregou seu trabalho para o poderoso talento de seu jovem amigo Calvino. Em espírito de verdadeira humildade e renúncia, ele estava disposto a diminuir para que Calvino pudesse crescer. Esse foi o melhor traço de seu caráter” (History of the Christian Church, v. 8, p. 143).

Nascido na província francesa de Gap, em 1489, Farel era um ruivo carismático, pregador eloquente, jovem valente e ousado, de modos rudes, apesar de ser membro de uma família aristocrática. Influenciado por Jacques LeFèvre, precursor da Reforma Protestante na França, Farel abraçou as ideias luteranas e passou a promovê-las com fervor. Começou a pregar em 1521, sob a proteção do bispo de Meaux, o que indica que, a princípio, ele não queria abandonar o catolicismo. Mas pouco tempo depois Farel foi acusado de divulgar o protestantismo e suas ideias foram condenadas. Proibido de pregar, ele finalmente foi expulso da França.

Foi para a Basileia, mas seus escritos contra o uso de imagens na liturgia alimentaram a perseguição ali também, provocando sua expulsão em 1524. Seu destino seguinte foi a região suíça de fala francesa, onde, junto com os seguidores de Zuínglio, ajudou a espalhar o protestantismo para diversas partes do país.

A fé reformada de Farel se concentrava na justificação pela fé e na autoridade total da Bíblia acima da tradição. Ele acreditava que, em vez de ser precedida pelas boas obras, a salvação humana se dava pela fé em Cristo, e que a fé é um princípio ativo que produz boas obras na vida de quem foi salvo. Sua pregação impetuosa provocou tumultos em Genebra em 1532, e ele também teve que sair dali. No entanto, voltou posteriormente, venceu a polêmica com os inimigos da Reforma e viu a cidade ser declarada oficialmente protestante em 1536. Farel tentou reorganizar a vida religiosa de Genebra, pois acreditava que a “conversão” da cidade havia ocorrido mais por motivos políticos que teológicos.

Guilherme Farel tinha consciência de que ele não se destacava pela organização nem pelas habilidades de planejar e liderar. Ele percebeu que a reforma em Genebra precisaria de alguém administrativamente mais capacitado. Por isso, aproveitou a passagem de João Calvino pela região para transformá-lo no líder religioso que a cidade precisava.

Encontro com Calvino

Aos 27 anos, Calvino já era um erudito relativamente famoso, embora levasse uma vida isolada, dedicada aos estudos. Por isso, mesmo tendo chegado sem aviso prévio em Genebra, por razões circunstanciais (a mudança de rota por causa de um bloqueio no caminho direto de Paris para Estrasburgo), logo foi reconhecido. A notícia de sua presença se espalhou rapidamente pela cidade.

O encontro com Farel marcou a vida de Calvino para sempre. Embora inicialmente tivesse rejeitado o pedido de ajuda de Guilherme, ele acabou sendo convencido da necessidade de permanecer em Genebra. O próprio Calvino relatou: “[Farel] ardia com um inusitado zelo pelo avanço do evangelho, e imediatamente pôs em ação toda a sua energia a fim de me deter. E, ao descobrir que meu coração estava completamente devotado aos meus próprios estudos pessoais, para os quais desejava conservar-me livre de quaisquer outras ocupações, e percebendo ele que não lucraria nada com seus rogos, então lançou sobre mim sua imprecação, dizendo que Deus haveria de amaldiçoar meu isolamento e a tranquilidade dos estudos que eu tanto buscava, caso me esquivasse e me recusasse a dar minha assistência, quando a necessidade era em extremo premente” (Prefácio do Commentary on the Book of Psalms). O impacto dessas palavras persuadiu Calvino, e ele desistiu de continuar a viagem.

Expulso de Genebra

A reforma espiritual na cidade suíça já havia começado sob a liderança de Farel e Pierre Viret, um colega de ministério. A missa havia sido suspensa em 1535, e várias leis proibindo a prática do catolicismo foram estabelecidas. Tentando produzir uma reforma espiritual por imposição legal, os magistrados exigiram que todos os cidadãos de Genebra participassem dos cultos e ouvissem os sermões. Essa reforma por imposição legal não deu o resultado esperado, e a cidade ficou dividida em várias facções.

Em 1537, Calvino e Farel conseguiram a aprovação de um decreto que estabelecia a celebração da Ceia do Senhor em ocasiões preestabelecidas, um catecismo para crianças e a excomunhão de pessoas sob disciplina severa. Eles propuseram também que o cântico congregacional fosse autorizado nos cultos em Genebra a fim de combater a frieza devocional, e para que “os corações fossem comovidos e motivados”. Houve grande discussão por causa da atitude de Farel e Calvino de negarem a Ceia do Senhor a alguns.

Após várias divergências com os reformadores, o concílio da cidade ordenou que eles parassem de pregar. A oposição à obra de Farel e Calvino em Genebra resultou na expulsão de ambos em 1538. Calvino foi para Estrasburgo (embora tenha voltado posteriormente para Genebra) e Farel viajou para Neuchatel, cidade que ele mesmo havia alcançado com o evangelho, onde permaneceu até morrer, aos 76 anos de idade, em 1565. Farel era um orador eloquente, e tal foi o poder da sua pregação que em algumas cidades (como Neuchatel) quase todos os moradores abraçaram a fé protestante. Contudo, isso lhe custou um alto preço: foi alvo de tentativas de assassinato, apedrejamento, espancamento, envenenamento, e quase foi afogado no rio Reno. Mas nada conseguiu parar o ímpeto desse reformador.

Apesar de não ter sido uma pessoa de fácil relacionamento, Farel revelou humildade ao reconhecer suas limitações, e não teve nenhum receio de buscar ajuda. Também não teve problema com o fato de Calvino assumir o lugar de destaque. Para ele, o evangelho estava acima de qualquer disputa de ego, e viver na sombra de Calvino não foi um problema. Após a morte de Calvino, Farel escreveu: “Oh, por que não fui eu levado em seu lugar? Ele poderia ter sido poupado por muitos anos de saúde para o serviço da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo!”

No entanto, alguns aspectos de sua personalidade também marcaram negativamente sua história. Na definição de Alister McGrath, Farel foi um debatedor agressivo, que, em vez de persuadir seus oponentes, preferia bani-los (Christianity’s Dangerous Idea, p. 88). A tentativa de moldar o governo de Genebra quase ao ponto de um estado teocrático levou à perseguição dos não protestantes. A cidade que havia se libertado do poder do papado não se submeteu à arbitrariedade de Farel. Por não ser um reformador politicamente astuto, Farel fez surgir rapidamente grupos de oposição à sua obra. O resultado foi a controvérsia e a divisão da comunidade.

Nem mesmo as melhores intenções justificam substituir uma tirania por outra, especialmente se isso for em nome do evangelho. O reino de Deus não se estabelece pela força política. O próprio Jesus disse: “O Meu reino não é deste mundo. Se o Meu reino fosse deste mundo, os Meus ministros se empenhariam por Mim” (Jo 18:36). Isso significa que nem o Estado nem a igreja têm o direito de obrigar alguém a entrar no reino de Deus. Como Ellen White escreveu, “cada lei civil tem o poder da espada por trás de si. Se é correto fazer a lei, é correto fazer com que ela seja cumprida. Ao negar à igreja o poder da espada, Jesus então proibiu a igreja de pedir ao Estado leis que obriguem crenças religiosas e observâncias” (Ellen G. White, “Religious Liberty”, Liberty, 2:4, 1907, p. 4).

A história de Guilherme Farel evidencia que o reavivamento genuíno e a reforma espiritual verdadeira não podem vir pela imposição legal nem ser produzidos artificialmente. Eles resultam unicamente da atuação do Espírito Santo (Mensagens escolhidas, v. 1, p. 127, 128).

ISAAC MALHEIROS, mestre em Teologia, é professor do seminário teológico do Instituto Adventista Paranaense (IAP)

SAIBA +

SCHAFF, Philip. History of the Christian Church. v. 8. Grand Rapids: Christian Classics Ethereal Library, 2002. p. 142-148.

McGRATH, Alister. Christianity’s Dangerous Idea. New York: Harper One, 2008. p. 83-104.

CALVINO, John. Commentary on the Book of Psalms. Baker Book House, 1979. p. xiii.