Prova de fogo

O discípulo de Hus que, à semelhança do mestre, se tornou mártir, apesar de ter sido forçado a negar a fé num momento de fragilidade

Crédito: Fotolia / Eduardo Olszewski

Na década de 1970, a Revista Adventista publicou uma coluna intitulada “Teste Conflito dos Séculos”, que desafiava os leitores a responder perguntas feitas com base no livro O Grande Conflito, de Ellen White. Na edição de janeiro de 1978, 4 das 10 questões eram referentes a Jerônimo de Praga:

  • O que Jerônimo trouxe consigo ao voltar da Inglaterra?
  • Jerônimo, companheiro de Hus, foi preso. Meses depois, por causa das crueldades de que foi vítima, ficou gravemente enfermo. Então, diante das primeiras investidas dos inimigos da fé, o que fez ele?
  • Retratando-se, mais tarde, da própria abjuração, Jerônimo foi também condenado à fogueira. Que palavras disse ao carrasco?
  • Qual foi a acusação que condenou Jerônimo no Concílio?

Você sabe responder a essas perguntas? A seguir conheceremos as respostas a essas e outras questões sobre a vida desse importante reformador da fé cristã.

Em 1378, quando Carlos IV faleceu, a Boêmia era um dos estados mais promissores e poderosos da Europa. Séculos antes, havia sido o refúgio para os cristãos que, por denunciarem os desmandos da igreja, foram expulsos da Itália e da França.

Nesse contexto, em 1379, numa família rica de Praga, nasceu Jerônimo. No entanto, aos 19 anos, quando ele se tornou bacharel pela Universidade de Praga, o cenário religioso era extremamente conturbado. A disputa pelo poder havia tomado proporções tão grandes que culminou no Cisma do Ocidente (período em que dois papas, o de Avignon e o de Roma, entraram em conflito). Quatro anos depois de deixar a Universidade de Praga, Jerônimo visitou a Universidade de Oxford, na Inglaterra, onde copiou obras de John Wycliffe. Em 1403, esteve em Jerusalém e, dois anos depois, foi para a França. Depois de obter o título de mestre, Jerônimo esteve em outras duas universidades da Alemanha (Universidade de Colônia e Universidade de Heidelberg).

O reformador viajou muito e se tornou um homem respeitado por sua sabedoria. Por onde passava, Jerônimo costumava impressionar as pessoas não apenas pelo grande conhecimento que havia acumulado, mas por sua determinação e eloquência.

Discípulo de Hus e Wycliffe

O pensamento de Jerônimo foi moldado pelas ideias de João Hus, seu professor, que, por sua vez, havia sido grandemente influenciado pelo pensamento de Wycliffe, opositor ferrenho do papa que fazia distinção lexical entre os verdadeiros seguidores de Cristo (aos quais chamava “cristãos”) e os que serviam cegamente ao pontífice (“papistas”). Ele também passou a defender os cultos na língua do povo, e não em um idioma desconhecido (no caso, o latim), pois entendia que essa questão era essencial para restabelecer as verdades bíblicas e a vontade divina. Semelhantemente, acreditava que cabe somente a Deus o perdão de pecados. Para ele, a venda de indulgências diminuía a divindade e aumentava o poder dos sacerdotes.

Por outro lado, Jerônimo criticou a transubstanciação. A igreja afirmava que a hóstia consagrada teria poderes milagrosos, por ser o corpo real de Cristo, e esses poderes seriam exclusivos da igreja romana. No entanto, para Wycliffe e seus seguidores, a hóstia era apenas uma representação simbólica do corpo de Cristo. Aparentemente, a transubstanciação pode parecer uma questão banal; mas, na prática, a perspectiva dos seguidores de Wycliffe retirava a autoridade e o poder da igreja. Além disso, condenou o acúmulo de riquezas nas mãos do clero e o pagamento de impostos à igreja. Jerônimo disseminou essas ideias na Boêmia, Polônia e Lituânia. Em 1410, com a publicação da bula que condenava os escritos de Wycliffe, Jerônimo foi preso em Viena, mas conseguiu fugir. No entanto, não escapou da excomunhão pelo bispo de Cracóvia.

O legado

Entre as lições que Jerônimo nos deixou, podemos destacar ao menos três:

1. O uso dos recursos e dons. Por ter uma condição financeira que o permitia viajar muito, ele pôde visitar a Universidade de Oxford e copiar os escritos de Wycliffe. Não apenas por ter se dedicado aos estudos, mas por ter firme convicção pelo que é certo, Jerônimo divulgou a verdade sem medo. Isso nos leva a concluir que nossos recursos e dons devem ser usados sempre para divulgar a verdade revelada pela Palavra de Deus.

2. O valor da amizade. Ao se despedir de João Hus, Jerônimo encorajou o amigo a seguir para o Concílio, dizendo que, se fosse necessário, iria até lá para ajudá-lo. Jerônimo cumpriu a promessa, mas colocou a própria vida em risco. Em 1415, apesar dos conselhos de seus seguidores, ele seguiu para Constança sem salvo-conduto.

Ellen White destacou que a amizade entre Hus e Jerônimo foi importante para disseminar a verdade porque a tranquilidade de Hus trazia equilíbrio a Jerônimo que, apesar de ser mais audacioso, cedia com humildade aos conselhos do mestre e amigo. Enquanto Jerônimo era dotado de maior eloquência e conhecimento, a força de caráter de Hus era maior. Mais tarde, a lembrança da coragem e fidelidade do amigo ajudou Jerônimo a tomar a decisão mais difícil de sua vida.

3. Arrependimento. Ao chegar ao Concílio, Jerônimo percebeu que não poderia fazer nada e fugiu, mas foi preso e passou um ano no calabouço. Nesse período de angústia, recebeu alimentação pobre e escassa e foi acorrentado em posição que lhe causava muito sofrimento. Depois de alguns meses, as crueldades da prisão lhe enfraqueceram o corpo, e uma enfermidade colocou sua vida em risco. Diante de tanto sofrimento e desanimado pela morte do amigo, Jerônimo cedeu à pressão das autoridades e abjurou diante do Concílio:

“Eu Jerônimo de Praga, mestre das artes, reconhecendo a igreja católica e a fé apostólica, aconselhei e renunciei a todas as heresias, e especialmente aquilo de que até agora fui infamado e o que, no passado, João Hus e John Wycliffe sustentaram e ensinaram em suas obras, tratados e sermões, feitos para o povo e o clero, pois os ditos Wycliffe e Hus, assim como as ditas doutrinas e erros, são condenados por este sínodo de Constança como hereges” (The Acts and Monuments of the Christian Church).

Entretanto, de volta à solidão do calabouço, sua consciência lhe mostrou o erro que havia cometido ao ceder à assembleia. Ele lembrou que, durante os longos meses em que havia passado na prisão, apesar dos sofrimentos, sentia paz ao refletir nas promessas divinas. Depois de ter cedido às autoridades, percebeu que estava a caminho da apostasia.

Jerônimo então passou pela grande decisão: obedecer a Deus ou aos homens, decisão que permeia a existência humana. Todos nós, em algum momento da vida, temos que tomar um posicionamento em relação à fé em Deus. É a prova de sermos “praticantes da Palavra e não somente ouvintes” (Tg 1:22). A pressão pode não vir de um tribunal como no caso de Jerônimo, mas da família, do trabalho ou até mesmo de algo que faça papel de ídolo em nossa vida: status, conhecimento, bajulação alheia, pressa em se casar, amor ao dinheiro, desejo de estar sempre com a razão, aparência, etc.

O discípulo decidiu seguir os passos do mestre e amigo mártir. Jerônimo cedeu ao trabalho do Espírito Santo e, ao comparecer mais uma vez diante da assembleia, que não estava totalmente convencida de sua abjuração, ele, reprovando a si mesmo por sua negação à verdade na audiência anterior, disse: “Declaro com horror que desgraçadamente fraquejei quando, por medo da morte, condenei suas [de Wycliffe e Hus] doutrinas”.

Depois de um ano encarcerado, temendo não poder contar mais com a misericórdia divina, o mesmo homem que havia se deixado levar pelo temor na primeira audiência, estava lúcido, decidido e cheio de coragem: “Ora! Supondes que receio morrer? […] São as tradições dos homens mais dignas de fé do que o evangelho de nosso Salvador?”

Jerônimo perdeu a vida no mesmo lugar em que seu amigo havia sido executado um ano antes. Mesmo assim, fez todo o percurso cantando. Estava feliz por sentir o perdão divino, havia reencontrado a verdadeira paz. Ao ser executado, o carrasco passou por trás do mártir que, convicto de que sua morte não era uma vergonha, disse: “Venha com ousadia pela frente; ponha fogo à minha vista”.

Além da paz, que somente uma consciência limpa pode usufruir, a paz que nasce no coração quando o discurso está alinhado às atitudes, em seu momento final, Jerônimo revelou toda a coragem que Deus pode nos conceder em momentos de crise. O discípulo de Hus, o defensor da verdade, tinha sido completamente transformado pelo Senhor.

ADRIANA SERATTO é revisora na Casa Publicadora Brasileira

SAIBA +

White, Ellen G. O Grande Conflito.

Azevedo, Leandro Villela. As Obras Inglesas de Wycliffe Inseridas no Contexto Religioso da Época: Da suma teológica de Aquino ao Concílio de Constança, dos espirituais franciscanos a Guilherme de Okham (USP, 2010).

Foxe, John. The Acts and Monuments of the Christian Church (1851). Disponível em: <http://www.exclassics.com/foxe/foxe108.htm>.

Revista Adventista (CPB, 1978), p. 41.