Da Europa para o mundo

As lições que podemos aprender com Calvino, reformador cujas ideias foram além do Velho Continente

Crédito: Fotolia / Eduardo Olszewski

Quando falamos sobre a Reforma Protestante, rapidamente nos lembramos do primeiro ato público, ocorrido em 31 de outubro de 1517. Nesse dia, Martinho Lutero pregou suas famosas 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, na Alemanha. Quinhentos anos depois, lembramos esse grande movimento que mudou o mundo Ocidental (e acredite, isso não é um exagero).

Mas não se engane, a Reforma Protestante foi muito maior do que o ato realizado por Lutero. Esse reformador foi e continua sendo muito importante. Contudo, para muitos autores e estudiosos do tema, como Hermisten Maia Pereira da Costa, a influência de Lutero ficou muito restrita à Alemanha. Assim, Deus precisou levantar outros grandes pregadores, homens e mulheres de várias partes da Europa, a fim de que a Reforma alcançasse a magnitude que alcançou.

Por isso, a Reforma não foi um ato isolado ocorrido apenas na Alemanha. Lá existiu um grande homem, mas outros vieram e continuam a vir, pois a reforma da igreja deve ser algo contínuo e generalizado.

Muitos teóricos, a exemplo de Carter Lindberg no livro História da Reforma, consideram que Calvino possivelmente tenha sido um dos maiores construtores do que hoje chamamos de tradição reformada. E uma das coisas que podemos aprender com todos os reformadores, e de maneira especial com Calvino, é que é possível entrar para a história devido ao que acreditamos. Sim, teologia importa e a Reforma nos ensina que ela, inclusive, pode mudar o mundo. Mas, para isso, é necessário que nossas crenças mudem primeiramente a nós mesmos. Isso ocorreu na vida de Calvino e de tantos outros reformadores.

Nascido no dia 10 de julho de 1509 em uma família francesa, sendo o segundo de cinco irmãos, Calvino sofreu grande baque aos seis anos, quando perdeu a mãe. Ela, uma mulher piedosa, possivelmente de uma família de posses. O pai, por outro lado, vinha de origem humilde, mas sabia que a educação era um importante meio para que os filhos tivessem um futuro e uma vida melhor, embora também soubesse que ela era privilégio dos ricos. Foi com bastante esforço que ele conseguiu que seus filhos estudassem nas melhores escolas possíveis. Uma bolsa de estudos possibilitou que Calvino estudasse com crianças de famílias nobres. Devido a essa base, com 11 anos Calvino estava apto a ir para Paris estudar para ser sacerdote.

Aos 23, se viu transformado pelos pensamentos protestantes. Não é possível saber exatamente quando e o que levou a conversão de Calvino aos ideais que estavam sendo pregados desde 1517 por Lutero. Muito se especula que foi após receber uma Bíblia de presente, de um parente próximo, que Calvino encontrou esses novos ideais de que podemos conhecer a vontade de Deus apenas através das Escrituras. Isso deve ter ocorrido, provavelmente, entre 1532 e 1534, ou seja, na época em que ele esteve em Orléans ou Paris, estudando e se capacitando.

Claro que a aceitação de uma nova verdade, nesse caso a pregação protestante, não foi fácil. Quem viveu um processo de conversão, mudando de religião, sabe o que isso significa. Sair de uma crença que há tanto tempo acreditávamos para uma que vai ao oposto dela, não é algo que se faz da noite para o dia. As palavras a seguir mostram como Calvino enfrentou essa situação: “Contrariado com a novidade, eu ouvia com muita má vontade e, no início, confesso, resisti com energia e irritação; porque (tal é a firmeza ou descaramento com que é natural aos homens resistir no caminho que outrora tomaram) foi com a maior dificuldade que fui induzido a confessar que, por toda minha vida, eu estivera na ignorância e no erro” (João Calvino: Uma Coletânea de Escritos, versão kindle). Mas, assim como ele, devemos estar abertos para a revelação de Deus para nossa vida, mesmo que para isso seja preciso deixar muitas crenças para trás.

Mas, a pergunta que temos que fazer sempre é: como saber qual é a verdade revelada de Deus para cada um de nós? Para responder a essa questão, é interessante relembrar uma das críticas mais ácidas levantadas pelos que se opuseram ao movimento iniciado por Lutero, Calvino e tantos outros homens e mulheres que abraçaram o princípio da sola Scriptura (somente a Bíblia). Muitos diziam que os reformadores haviam rejeitado um papa vivo para seguir um “papa de papel”, numa alusão àquilo que eles chamavam de bibliolatria. Em outras palavras, os que estavam rompendo com a igreja de Roma eram acusados de colocar a Bíblia acima da sua própria relação individual com Deus. Uma relação que até ali tinha sido mediada pela igreja medieval, centrada na tradição eclesiástica e personificada na figura do pontífice como representante de Deus na Terra.

Contudo, os reformadores foram enfáticos em sua resposta: a autoridade não estava no texto em si, mas naquele que o escreveu. Se Deus quis Se relacionar com a humanidade por meio do texto, é especialmente por meio da Palavra que devemos nos aproximar Dele e ouvir Sua voz. Portanto, não caberia ao ser humano mudar ou rejeitar esse canal de comunicação, mas obedecer e se beneficiar da escolha soberana de Deus. Na visão dos reformadores, o Senhor havia preparado a Bíblia para que ela fosse o instrumento adequado para nutrir o crescimento na fé. E o próprio Deus é quem nos torna “famintos” por sua Palavra, ou seja, por conhecê-Lo por meio do texto Sagrado.

É nesse sentido que podemos dizer que a Bíblia não era, para Calvino, apenas um simples livro. Ela não podia, de maneira alguma, ser comparada a outro livro. Também não poderia ser considerada em pé de igualdade com a tradição. Ela estava acima de tudo, pois era a Palavra de Deus. Devido a isso, Calvino, a cada semana, abria sua Bíblia e pregava sermões centrados nela. Para ele, era preciso que cada um de nós entendesse “que Jesus Cristo deseja governar Sua igreja mediante a pregação de Sua Palavra, à qual nós devemos dar toda a devida reverência” (João Calvino: Uma Coletânea de Escritos, versão kindle). Que lição simples e maravilhosa! Não precisamos de firulas e grandes efeitos pirotécnicos. Precisamos apenas daquilo que Deus diz que precisamos: conhecer Jesus Cristo através de Sua Palavra.

Muitos foram os livros escritos e publicados por Calvino, dos quais muitos são lidos ainda hoje. Entre sua extensa bibliografia, vemos livros históricos, teologias sistemáticas e diversas cartas que trazem conselhos para a igreja continuar seu processo de Reforma. Entretanto, o que mais se destaca é a enorme quantidade de comentários bíblicos escritos por ele, passando por praticamente todos os livros da Bíblia, sempre com a preocupação de ensinar a igreja a depender exclusivamente da Palavra de Deus e a ela se voltar. Interpretar o texto bíblico foi, sem dúvida, a principal missão que Calvino tomou para si e relegou para toda a igreja cristã.

No entanto, é preciso levar em conta que, apesar de ter enfatizado o conceito de sola Scriptura e contribuído para uma grande reforma no mundo religioso, Calvino teve uma compreensão limitada das verdades bíblicas. Alguns de seus conceitos derivam da visão de Deus como um ser tirano e caprichoso, pronto a condenar implacavelmente Seus seguidores (algo bem próximo da tradição Católica medieval, embora com algumas melhoras). Isso pode ser visto nos conceitos de predestinação (Calvino cria que Deus determinou, no princípio de tudo, algumas pessoas para a condenação eterna e outras para a salvação) e graça irresistível (o reformador pregava que, quando Deus decide salvar alguém, esse indivíduo não tem como resistir). Ao contrário do que ele entendia, Deus não rouba nosso livre-arbítrio, mas nos permite decidir, embora nunca desista de cada um de nós. Cristo ainda faz o mesmo que fez no Jardim do Éden: corre atrás de Seus filhos, todos eles, gritando para que se arrependam e voltem para casa (Gn 3:8-10).

Em resumo, Calvino nos ensina que a Bíblia pode mudar as pessoas e o mundo. Aliás, só a Bíblia tem esse poder. Vemos isso na própria existência e fruto da Reforma. Mesmo com alguns erros, esses grandes homens e mulheres fizeram muito pelo mundo. Devido a exemplo deles, é possível nos questionar hoje: será que nossas pregações têm sido bíblicas? Elas têm mudado o mundo? Precisamos de uma pregação que não fique apenas no mero conhecimento técnico de uma doutrina. A Bíblia é um livro vivo e, devido a isso, deve trazer vida.

Por isso, para concluir, cabe uma excelente frase desse importante reformador: “Aquele que não tenta ensinar com o intuito de beneficiar não pode ensinar corretamente; por mais que faça boa apresentação, a doutrinação não será sã, a menos que se cuide para que seja proveitosa a seus ouvintes” (João Calvino: Uma Coletânea de Escritos, versão kindle). Que esta ideia seja, ainda hoje, o norte da reforma que precisamos em nossa vida e em nosso mundo!

RODRIGO FOLLIS, doutor em Ciências da Religião, atua como diretor da Unaspress e professor de Teologia e Comunicação no Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP)

SAIBA +

Barrett, M. (Org.). Teologia da Reforma. Thomas Nelson Brasil, 2017.

Calvino, J. João Calvino: Uma Coletânea de Escritos. São Paulo: Vida Nova, 2017. (Série clássicos da reforma) (versão kindle).

Costa, H. Introdução ao Pensamento de João Calvino. In: Calvino, J. João Calvino: Uma Coletânea de Escritos. São Paulo: Vida Nova, 2017 (Série clássicos da reforma) (versão kindle).

Lindberg, C. História da Reforma. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.