O mártir

A história do reformador que foi queimado por colocar a autoridade da Bíblia acima da tradição da igreja

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Era 6 de julho de 1415. A catedral de Constança, na Alemanha, estava completamente lotada. O tom do sermão proferido por Jacob Balardi Arrigoni, bispo de Lodi, que parafraseava Romanos 6:6 dizendo que o corpo do pecado fosse destruído, tornava o ar pesado. Os cardeais, ostentando suas mitras, se sentaram num semicírculo em torno de um homem acorrentado, cujo corpo havia sido consumido pela fome durante um ano de prisão. O sacro imperador romano, Sigismundo, ocupava o trono real. Na parte central do templo, uma variedade de roupas sacerdotais foi colocada sobre uma mesa. Ao prisioneiro restava uma decisão: renunciar ou ir para a fogueira.

João Hus nasceu em 1370 num lar de camponeses no sul da Boêmia (região que atualmente faz parte da República Tcheca). Seu pai morreu quando ele ainda era criança. Hus foi criado pela mãe, que incutiu nele piedade e o influenciou a entrar para o sacerdócio. Como estudante, certa vez usou as últimas moedas que tinha para comprar uma indulgência, espécie de certificado que “assegurava” o perdão dos pecados.

Seus primeiros anos não foram excepcionais, com exceção, quem sabe, de sua fome pela educação. Hus cursou o mestrado em 1396 na Universidade de Praga e se tornou conhecido quando, em 1402, foi nomeado pregador da Capela de Belém, em Praga, igreja fundada em 1391 com a missão de facilitar a pregação na língua do povo.

Dois acontecimentos importantes impactaram os cidadãos de Praga. Um deles foi o fato de missionários valdenses terem feito circular cópias das Escrituras na língua do povo. O outro teve que ver com os desenhos que contrastavam a humildade de Jesus, entrando em Jerusalém montado num jumento, e a pompa que cercava uma comitiva pontifical, como relatou Ellen G. White no livro O Grande Conflito (p. 100). Igualmente importantes foram as cópias dos escritos do reformador inglês John Wycliffe (ver mais no texto “To Build a Fire,” Christian History 68, n. 4, 2000, p. 10-18). Hus equilibrou sua pregação com uma carreira acadêmica distinta, mas a vida para os cidadãos em Praga logo seria polarizada.

O cisma

Os debates acerca de Wycliffe foram ofuscados pelo cisma papal (1378-1417), período em que papas rivais excomungavam uns aos outros. Embora Hus não tenha assumido papel direto no conflito, dois homens próximos a ele desempenharam um papel ativo, o que lhe afetou.

O primeiro foi o rei Venceslau IV, governante fraco e impopular com um temperamento detestável, cercado por conselheiros incompetentes. Seu reinado (1378-1419) foi uma espiral descendente. Venceslau esperava que, se apoiasse o papa certo, poderia recuperar o título de sacro imperador romano, título perdido em 1400. Em 1409, ele mudou seu apoio do papa romano, Gregório XII, para o papa Alexandre V, recém-eleito no Concílio de Pisa.

A segunda pessoa a influenciá-lo foi Zbynek, que em 1402, aos 25 anos, venceu outros concorrentes num leilão para o cargo de arcebispo de Praga. No entanto, como militar, ele ainda não tinha educação teológica e, portanto, era inapto para administrar a igreja. Os escritos de Wycliffe foram declarados heréticos antes de ele assumir o cargo. A tarefa de Zbynek era simples: eliminar a heresia e ajudar Venceslau a recuperar seu título. Porém, depois que o rei mudou sua fidelidade papal, Zbynek se recusou a reconhecer Alexandre V.

Hus foi um pregador poderoso e carismático, que se voltou para a Bíblia como base de todos os aspectos da doutrina e do estilo de vida cristãos. À medida que a luta de poder se desenrolava, ele condenou a corrupção papal. Em 1405, denunciou supostas aparições do sangue de Cristo durante a comunhão como uma série de fraudes elaboradas. Hus ridicularizou o poder que os sacerdotes reivindicavam por si mesmos. Não tinha medo de protestar contra os abusos. “Esses padres merecem ser enforcados no inferno”, afirmou ele certa vez, chamando-os de “fornicadores, parasitas, avarentos e porcos gordos”. “São bêbados com barrigas que roncam de tanta bebida. Glutões que enchem seus estômagos a ponto de suas papadas ficarem inchadas”, escreveu em uma de suas cartas (The Letters of John Hus, Manchester University Press, 1972, p. 5, 6). No entanto, para ele, a simonia (compra e venda de privilégios eclesiásticos) era a pior heresia, pois a considerava um pecado contra o Espírito Santo.

Essa denúncia inequívoca o colocou em desacordo com seu próprio bispo, Zbynek, que havia comprado o arcebispado. Hus também estava em desacordo com muitos de seus colegas do clero que cobravam taxas para administrar os sacramentos. Alguns chegaram a comprar cargos e ofícios da igreja sem nunca servir ao povo, além de substituírem a autoridade da Bíblia pela tradição.

Hus confrontou o arcebispo: “Como podem padres fornicadores, na verdade criminosos, caminhar livremente, enquanto padres humildes são presos como hereges e sofrem exílio por causa da própria proclamação do evangelho?”

O confronto direto fez de Zbynek seu inimigo confesso. Muitas vezes, Zbynek enviou espiões para escutar os sermões de Hus. Em determinada ocasião, Hus abordou um desses espiões do púlpito: “Ei, você de capuz, anote isso, sai de fininho e leva até lá”, disse ele ao intruso enquanto apontava para a residência do arcebispo. Posteriormente, ele foi intimado a comparecer em uma audiência, mas se defendeu com êxito, contando com o apoio do povo e da rainha Sofia, que havia assistido a alguns de seus sermões e passou a usar sua influência para avançar a reforma e proteger Hus.

Então, Zbynek reclamou ao papa Alexandre V, que emitiu uma bula papal solicitando uma investigação de heresia e exigindo que a pregação das Escrituras em capelas privadas cessasse imediatamente. Hus discursou publicamente contra a bula, o que provocou ainda mais hostilidade por parte de Zbynek. Como retaliação, em 16 de julho de 1410, mais de 200 obras da Wycliffe foram queimadas.

“Eu chamo isso de péssimo negócio. Tais fogueiras nunca removeram um pecado sequer dos corações dos homens. O fogo não consome a verdade. Isso é sempre a marca de uma mente pequena, descarregar sua ira em objetos inanimados. Os livros que foram queimados são uma perda para todo o povo”, respondeu Hus.

O rei e o arcebispo tornaram ainda mais rigorosa a bula anterior, que culminou numa ordem de excomunhão contra Hus em fevereiro de 1411. Por fim, Zbynek foi forçado a recuar e retirar todas as acusações contra Hus. No processo que deveria justificar Hus, o arcebispo estrategicamente transferiu a declaração pública final para a cidade de Bolonha. Porém, o rei, temendo uma armadilha, proibiu Hus de ir. “Se alguém quiser acusar Hus de qualquer transgressão, deixe-o fazê-lo aqui em nosso reino. Não parece certo entregar esse valioso pregador à discriminação de seus inimigos”, declarou. É provável que a rainha Sofia tenha motivado a medida de proteção tomada por Venceslau IV.

Indulgências

A política na Itália promoveu um novo impulso para as indulgências. Em 1412, João XXIII, um dos três papas que emergiram durante o cisma papal, proclamou uma cruzada contra o rei de Nápoles, que havia tomado Roma. Para financiar esse novo empreendimento, ele iniciou a venda generalizada de indulgências. As receitas obtidas na Boêmia seriam divididas com o rei. Assim, até mesmo Venceslau se levantou para lucrar com o empreendimento. Rapidamente, Praga se tornou um centro de comércio de indulgências.

Hus mais uma vez falou abertamente, usando as Escrituras para condenar tal prática. Ele não podia crer que uma guerra santa fosse planejada para garantir o poder do papado. Nessa ocasião, Hus foi convocado para comparecer perante o recém-eleito arcebispo de Praga, Albik. “Mesmo que o fogo para queimar meu corpo fosse aceso diante dos meus olhos, eu não obedeceria”, desafiou.

Até essa ocasião, Hus havia tentado reformar a igreja de dentro para fora. Porém, ele mudou de estratégia. “Em suma, a instituição papal está cheia de veneno, é o próprio anticristo, o homem do pecado, o líder do exército do Diabo, um membro de Lúcifer, o principal vigário do demônio, um simples idiota que poderia ser um demônio condenado no inferno, e ídolo mais horrível do que um poste-ídolo”, disse sem papas na língua.

Os protestos tornaram-se sangrentos em Praga. A pregação de Hus incendiou o povo. Três manifestantes foram decapitados, tornando-se os primeiros mártires hussitas. Todo esse tumulto gerou constrangimento para o rei Venceslau, que denunciou Hus como perturbador. Nem mesmo a rainha Sofia conseguiu aplacar a ira do rei. A condição para que houvesse reconciliação era concordar com a ideia de o papa ser a cabeça da igreja e obedecer-lhe. Contudo, Hus não se comprometeu e foi excomungado pela quarta vez. Praga foi colocada sob interdito (medida que estabelecia que nenhuma ordenança ou serviço da igreja poderia ocorrer) e, em 15 de outubro de 1412, Hus entrou num exílio voluntário. “Eu sou um fugitivo”, declarou a um amigo (The Letters of John Hus, p. 92).

O Concílio

No final de 1414, o papa João XXIII convocou um concílio em Constança com dois propósitos: acabar com o cisma papal e erradicar a heresia. Hus aceitou o convite para participar da reunião. Em 11 de outubro de 1414, ele rascunhou seu testamento e partiu montado em seu cavalo Rabstyn. Seus amigos o advertiram que isso se tratava de uma armadilha, mas o imperador Sigismundo, meio-irmão de Venceslau, prometeu-lhe um salvo-conduto. Em cada hospedaria em que permaneceu, deixou uma cópia impressa dos Dez Mandamentos.

De fato, uma semana depois ele foi preso. Enclausurado numa prisão escura e pútrida, Hus ficou doente. Em algumas de suas cartas, ele pediu roupas quentes e comida, pois começava a passar fome. Possivelmente tivesse morrido se não fosse transferido para um lugar melhor. Quando se recuperou, por várias vezes solicitou uma Bíblia a seus amigos. Seu coração desejava muito estudar as Escrituras. Foi algo extremamente doloroso para Hus ter sido privado da comunhão.

À medida que seu julgamento se aproximava, ele orou a Deus pedindo que lhe concedesse forças para permanecer fiel a Cristo e às Escrituras, a despeito de qual fosse a sentença.

Testemunho público

Durante o concílio em Constança, Hus deu uma de suas maiores contribuições teológicas e lançou os fundamentos da reforma que foi liderada por Lutero um século depois. Ele argumentou que era Cristo, não o papa, a verdadeira cabeça da igreja.

O profundo estudo da Bíblia finalmente o levou a condenar a igreja que, inicialmente, esperava reformar. Ele reconheceu que nem todo crente é, por padrão, um membro da Igreja Católica. Ao amadurecer em sua compreensão da igreja, desenvolveu, então, uma eclesiologia distinta de Roma e preparou o caminho para a Reforma Protestante (para um estudo mais profundo da eclesiologia de Hus, veja John Hus’ Concept of the Church, Princeton University Press, 1966).

Ao fazer a distinção entre a Igreja Romana e Cristo, Hus demonstrou que mortais, inclusive papas e concílios, podem errar. Assim, ele defendeu a autoridade bíblica. A Escritura deveria e deve reinar suprema sobre toda autoridade humana. “Por esta verdade [da fé] e devido à sua certeza, o homem deve arriscar sua vida. E, assim, o homem não é obrigado a acreditar nas palavras de santos que estejam longe das Escrituras; nem deve acreditar em bulas papais, exceto na medida em que o que disserem for fundamentado nas Escrituras simplesmente”, declarou.

Assim, a visão de Hus sobre a igreja e a autoridade suprema das Escrituras representava uma severa repreensão à Igreja Romana e sua hierarquia. Ele acreditava que toda autoridade deveria repousar sobre a Bíblia somente. Nesse sentido, “Hus não era um teólogo original”, como afirmou Jonathan Hill em The History of Christian Thought (p. 175). Dessa forma, ele inspirou outros reformadores protestantes que o sucederam, especialmente Martinho Lutero, que frequentemente citava Hus.

Sentença de morte

No Concílio de Constança, Hus tentou inicialmente refutar acusações e se defender, mas foi calado pelos prelados que o denunciaram como arrogante e teimoso. Uma dessas pessoas, um bispo polonês, gritou: “Não permita a ele renunciar; mesmo que renuncie, não manterá sua palavra”.

Na última sessão do julgamento, foram apresentadas trinta acusações contra Hus. Algumas eram simplesmente ultrajantes. Uma delas insinuava que ele acreditava que era o quarto membro da divindade. Hus, é claro, rejeitou tais acusações grotescas, mas não conseguiu se defender.

Por fim, Pierre d’Ailly, o cardeal presidente, concedeu a Hus uma última oportunidade. Hus pediu que provassem pela Bíblia que ele estava errado. Porém, os bispos alegaram que ele estava “obstinado em heresia”. Obrigado a ficar em silêncio, ele caiu de joelhos no chão de pedra e orou em voz alta pedindo que Cristo perdoasse seus juízes e acusadores.

Foi nesse momento que o bispo de Lodi apresentou seu sermão sobre a destruição do corpo do pecado, seguido de sete bispos que colocaram sobre Hus vestes sacerdotais. Foi excomungado. Cada bispo lhe rasgou as vestes sobre seu corpo, dizendo: “Ó maldito Judas, tiramos de você o cálice da redenção”. Eles finalmente concluíram com as seguintes palavras: “Agora votamos sua alma ao Diabo”.

Coroado com uma mitra de papel que trazia a inscrição “Este é um Arqui-herege”, Hus foi então levado pelas ruas de Constança até o lugar da execução. Atado ao poste por uma corrente escurecida pela ferrugem e com madeira empilhada até o pescoço, ele disse: “Deus é minha testemunha que […] a intenção principal da minha pregação e de todos os meus outros atos ou escritos foi somente poder livrar os homens do pecado. E na verdade do evangelho que escrevi, ensinei e preguei de acordo com as palavras e exposições de santos doutores, estou disposto, de bom grado, a morrer hoje”. Mesmo em meio às chamas, os espectadores puderam ouvi-lo cantar: “Jesus, Filho do Deus vivo, tem misericórdia de mim!”

No livro The Memory and Motivation of Jan Hus, Medieval Priest and Martyr, Thomas Fudge lembrou que “ele ligou sua consciência à verdade e recusou se desviar do caminho da verdade, independentemente do custo ou consequência, sem levar em conta sua própria segurança ou destino final”.

Ele considerava coisa pequena e um privilégio sofrer por Cristo. “Não temas morrer por Cristo, se quiseres viver com Cristo”, disse certa vez, admoestando um padre.

Nos últimos dias e semanas que antecederam sua morte, Hus foi atormentado por uma série de sonhos. Em alguns deles, foi assombrado por pensamentos sombrios e maus pressentimentos. Viu um grupo de pintores vir e destruir as paredes de sua amada Capela de Belém, onde havia cenas bíblicas pintadas. À medida que os vândalos destruíam as pinturas, viu outro grupo de pintores restaurando as cenas em cores ainda mais vivas.

Antes de ser queimado, Hus (que significa “ganso” em tcheco) teria dito: “Vocês podem cozinhar este ganso [Hus], mas dentro de um século surgirá um cisne que prevalecerá”. Um século depois, Martinho Lutero aplicou a profecia a si mesmo, considerando-se o “cisne” cujo canto não poderia ser silenciado.

Hus gerou um movimento. Rejeitou qualquer doutrina ou prática não encontrada na Bíblia. Igualmente, denunciou o abuso de poder dentro da igreja. Sua insistência obstinada sobre a supremacia das Escrituras fez com que um visitante do papa o rotulasse como o herege mais perigoso desde que Cristo veio a esta Terra! (The Letters of John Hus, p. 161). Hus colocou a autoridade da Bíblia acima da igreja. Assim, talvez o maior tributo a esse homem tenha sido a tradução da Bíblia para a língua tcheca, a Bíblia de Kralice, que é usada ainda hoje.

MICHAEL W. CAMPBELL, PhD, é professor assistente de estudos teológico-históricos do Instituto Internacional Adventista de Estudos Avançados, nas Filipinas

(Texto publicado originalmente na edição de novembro de 2015 da revista Ministry / tradução: Amarildo Souza)

SAIBA +

Allison, Gregg R. Historical Theology: An Introduction to Christian Doctrine. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2011.

Fudge, Thomas A. The Memory and Motivation of Jan Hus, Medieval Priest and Martyr. Turnhout, Belgium: Brepols Publishers, 2013.

___. The Trial of Jan Hus: Medieval Heresy and Criminal Procedure. New York: Oxford University Press, 2013.

___. Jan Hus: Religious Reform and Social Revolution in Bohemia. London: I. B. Tauris, 2010.

Hus, João. De Ecclesia, tr. David S. Schaff. New York: Scribner’s, 1915.

Hill, Jonathan. The History of Christian Thought: The Fascinating Story of the Great Christian Thinkers and How They Helped Shape the World as We Know It Today. Downers Grove, IL: IVP Academic, 2003.

The Letters of John Hus, tr. Matthew Spinka. Manchester: Manchester University Press, 1972.