Sem papas na língua

Num dos países mais importantes para a Reforma Protestante, John Knox provocou mudanças não apenas na religião, mas na vida política e social. Saiba como

Crédito: Fotolia / Eduardo Olszewski

Ombros largos, altura abaixo da média, olhar brilhante e penetrante, temperamento impetuoso e disposição férrea. John Knox ficou conhecido como um homem corajoso, ríspido até, que a ninguém temia, exceto a Deus, mas que, ao mesmo tempo, tinha nos olhos algo que “punha o temor de Deus dentro das pessoas”. Assim o descreveram Waldyr Cruz, Martin Lloyd-Jones e Earl Cairns.

Porém são escassas as informações sobre os primeiros anos de vida do religioso escocês que liderou a Reforma no país e se destacou por suas ações públicas e posições radicais sobre a política. As evidências mostram que Knox tomou grande gosto pela linguística e, embora não tenha se graduado na área, aprendeu o rigor do estudo, especialmente a disciplina da leitura.

Em 1540 Knox já era um ministro ordenado ao sacerdócio católico quando se tornou notário papal. Sua conversão ocorreu justamente nessa época por influência da leitura dos evangelhos, especialmente de João 17 (a oração sacerdotal de Cristo). Ele chegou a afirmar que foi nessa passagem bíblica que definitivamente “lançou sua âncora”.

Knox se tornou discípulo do reformador George Wishart, que popularizou os ensinamentos de Calvino e Zuínglio por meio das suas pregações. Circunstâncias como o martírio de Wishart (queimado em uma estaca como herege) e, alguns anos antes, do jovem pastor Patrick Hamilton (que defendia ideias luteranas, como a justificação pela fé) exerceram grande impacto na vida de Knox e o levaram a se convencer do chamado para ser “restaurador do evangelho de Deus na Escócia”. Tendo ficado prisioneiro em um navio militar francês por 19 meses, ele mergulhou no estudo do tema da justificação pela fé, como relata James Stalker no livro John Knox: His Ideas and Ideals (p. 98).

De fato, seu ministério começou depois que ele foi solto, em março de 1549. Knox se tornou pároco na diocese de Durham, onde ministrava as Escrituras com autoridade e vigor, combatendo com notoriedade dogmas que considerava “blasfêmias abomináveis”. Seu trabalho foi reconhecido pelo rei Eduardo VI e o reformador e arcebispo Thomas Cranmer, de quem se tornou amigo e confidente.

Uma das peculiaridades da Reforma era a total dependência de apoio político aos anseios de mudança religiosa. Com a morte de Eduardo VI e a ascensão de Mary Tudor, católica fanática, ao trono em 1553, Knox se viu obrigado a fugir para a França. Posteriormente, passou por Genebra, onde recebeu o apoio de Calvino. Em julho de 1554 ele escreveu abertamente contra a rainha e seus aliados em A Faithful Admonition to the Professors of God’s Truth in England (Admoestação Fiel aos Adeptos da Verdade Divina na Inglaterra), obra que caracteriza o início do ativismo político de Knox. Mais uma vez, o período de adversidade foi empregado no fortalecimento e expansão de suas convicções. Knox passou um período com Bullinger em Zurique e depois foi a Frankfurt. Ao avaliar suas ações, é possível perceber que os ideais do reformador escocês foram muito mais impactados pelos ideais da Reforma na Suíça do que pela Reforma na Alemanha e na Inglaterra (John Knox: Portrait of a Calvinist, p. 91).

Quando ele retornou para a Escócia, em 1555, dedicou sua inteligência e vigor à pregação contra a missa, o que, para ele, era uma cerimônia de pura idolatria. Sua ousadia resultou na convocação para prestar esclarecimentos perante o Conselho do Clero Católico de Edimburg. Contudo, a essa altura as pregações combativas de Knox haviam causado tanto impacto entre os escoceses que o Conselho foi forçado a abandonar o caso. Então, com o apoio da nobreza, John Knox buscou a rainha Mary, da Escócia, a fim de tentar convencê-la a reformar a igreja escocesa.

A despeito de sua enérgica argumentação, a rainha permaneceu inflexível aos seus apelos, o que despertou uma relação aguerrida. Knox começou a demonstrar extrema repulsa pela rainha e sua igreja e passou a convocar seus amigos e ouvintes a se reunirem em suas casas em vez de frequentar as catedrais. Além disso, ele escreveu contra o proceder pervertido da religião escocesa em A Most Wholesome Counsel How To Behave Ourselves in the Midst of this Wicked Generation (Conselho Pleno Sobre Como se Portar em Meio a Uma Geração Ímpia).

Teólogos como Richard G. Kyle sugerem que a máxima do pupilo que é sempre mais aguerrido que o mestre se aplica a Knox. A santidade da igreja visível era uma das ênfases de Knox que apontava a expectativa da vida santificada. Ao exigir a completa purificação da adoração na igreja, Knox elevou a Reforma na Escócia a um patamar que nenhum outro reformador lutou para alcançar. Essa exigência colocou Knox em atrito com a monarquia escocesa.

O excesso de ímpeto em sua postura contra a rainha tornou a situação insustentável e Knox, mais uma vez, precisou fugir para preservar sua integridade física. Dessa vez, ele seguiu para a França e depois para a Suíça (Genebra). Na escalada contra os obstáculos para a Reforma na Escócia, Knox começou a expandir seus argumentos contra a rainha. Disposto a uma justificável “revolução” para estabelecer a vontade de Deus, ele publicou First Blast of the Trumpet Against the Monstrous Regiment of Women (Primeiro Toque da Trombeta Contra o Monstruoso Regimento Feminino), em 1558.

Depois, em seu retorno ao país de origem, Knox se associou a outros reformadores e nobres a fim de consolidar a reforma escocesa. Contudo, enquanto os demais tinham interesse em apenas “podar os galhos” do papado, Knox ansiava abater suas raízes, como comparou Stewart Lamont na obra The Swordbearer: John Knox and the European Reformation (p. 160).

Sem descansar de seu objetivo, Knox buscou em Elizabeth I o suporte necessário contra uma aliança entre Maria de Guise, regente da Escócia, e a França. Depois de muito esforço diplomático, Elizabeth apoiou os reformadores e assinou o Tratado de Berwick em fevereiro de 1560 (John Knox: A Biography, p. 237).

Enquanto continuava com suas preocupações pelos rumos da nação, Knox também se dedicou aos cuidados de sua congregação. Passou a enfatizar os frutos do Espírito e a consciência incomodada; ambos como evidências infalíveis da eleição divina. Sua avaliação da salvação de alguém centralizava-se mais nas questões objetivas do que nas subjetivas.

“Se o típico cristão é o mártir, e essa é a visão do Novo Testamento, poucos têm maior direito ao título. Ele teve a cruz em seus ombros diariamente, preparado a qualquer momento para morrer ao serviço de Cristo”, escreveu George David Henderson em The Scots Confession, 1560 (p. 24).

De fato, ele escreveu sobre o sofrimento de sua própria experiência, conhecendo o perigo pessoal e o livramento. Isso foi evidente até o fim. Em seu leito de morte, confortou-se em Isaías 53, na epístola aos Efésios e em João 17. “Então, sua última âncora é abaixada e mergulha, onde primeiro o fez, nas profundezas da graça, livre, soberano e divino”, expressou James McEwen no livro The Faith of John Knox.

Teologicamente, dadas as evidências encontradas em documentos históricos sobre a reforma religiosa na Escócia – como Scot’s Confession e Book of Discipline – e na própria teologia desenvolvida por Knox, devemos considerar até que ponto suas opiniões foram influenciadas pelo calvinismo. É digno de nota que Knox parece ter ido além de Calvino em pelo menos dois aspectos: (1) a disciplina da igreja e (2) a aliança nacional.

Para Knox, existiam três elementos-chave da igreja: Palavra, sacramentos e disciplina. Enquanto a grande parte dos reformadores enfatizou apenas os dois primeiros, a igreja escocesa também enfatizou uma visão positiva da “disciplina”, que a instava a assumir e líder com as próprias falhas. Embora Knox buscasse uma igreja purificada, isso não o tornava um fanático em acusação nem na aplicação de métodos; sua atuação o colocava mais para um “superintendente geral” do que propriamente um bispo.

No que se refere à aliança, vista como uma associação nacional, a nação se via obrigada a obedecê-la, proclamando a santidade e eliminando a idolatria. De acordo com Denney, Knox tinha um “rigor indiscriminado” na aplicação da Escritura, vendo os preceitos e exemplos do AT como autoritativos para seu tempo. Ele empregou essa visão puritana especialmente em sua posição contra a idolatria da missa. Por isso, Knox poderia argumentar que seus conflitos com o soberano e o catolicismo coincidem com os mesmos conflitos dos profetas contra os reis corruptos e suas formas de idolatria (John Knox: His Religious Life and Theological Position, 1993, p. 3).

Em fevereiro de 1638, em uma cerimônia eclesiástica em Edimburgo, nobres, aristocratas, clérigos e burgueses assinaram a Aliança Nacional, comprometendo-se a preservar a pureza da igreja na Escócia. Cópias do documento foram distribuídas por todo o território escocês, conquistando uma onda de apoio popular. O movimento se tornou a força política e religiosa dominante no país. Em maio de 1638, eram poucas as regiões em que a Aliança não havia sido amplamente aceita.

Foi a Aliança Nacional que colocou o presbiterianismo em evidência. Os signatários abriram mão de seus poderes diocesanos em pleno acordo com o sistema presbiteriano. Em suma, a Aliança Nacional estabeleceu que a “verdadeira religião” era o presbiterianismo.   

A despeito das influências calvinistas, John Knox foi o maior responsável pelas mudanças na igreja e na nação escocesa no período da Reforma. As repercussões da Reforma na Escócia trouxeram uma completa transformação na religião, nas práticas litúrgicas e na adoração, criando uma igreja que se tornou orgulho nacional. As mudanças também influenciaram a identidade da nação, bem como seus valores e tradições.

MÁRCIO COSTA, PhD em Teologia Histórica pela Universidade Andrews (EUA), é coordenador do curso de Teologia do Instituto Adventista Paranaense (IAP)

SAIBA +

Brown, Peter Hume. John Knox. A Biography. London: A. and C. Black, 1895.

Denney, James Baxter. John Knox: His Religious Life and Theological Position. Manhattan, KS: Sunflower University Press, 1993.

Lang, Andrew. John Knox and the Reformation. Port Washington, NY,: Kennikat Press, 1967.

McEwen, James S. The Faith of John Knox. Richmond: John Knox Press, 1961.