A Estrela da Manhã

Respeitado pelos inimigos e admirado pelos seguidores, John Wycliffe fez a verdade brilhar na Inglaterra e iluminou o caminho para a Reforma Protestante que viria dois séculos depois

Crédito: Fotolia / Eduardo Olszewski

Wycliffe é um reformador quase desconhecido, mas não menos brilhante do que aqueles que o sucederam. Ele pavimentou o caminho da reforma que sacudiria a Inglaterra dois séculos depois. O teólogo protestante John Foxe e a escritora norte-americana Ellen White o definiram como “a estrela da manhã da Reforma”.

Wycliffe foi o precursor de um tempo de grandes e profundas mudanças no entendimento religioso que se estendeu para a política, a ciência e a vida cotidiana. Apesar de sua importância, há grandes lacunas em sua biografia. Não existem registros claros acerca do ano do seu nascimento. Segundo Lahey, ele foi o filho mais novo de uma família da nobreza, tendo nascido em algum momento na década de 1320. Quanto ao local de origem, os autores oscilam entre Hipswell e Wycliff-on-Tees, cidades de Yorkshire, região de Richmond.

Mesmo sua aparência é reconstruída a partir de pinturas póstumas. Pouco se sabe a respeito de sua infância e juventude, bem como sobre seus primeiros anos de educação. Parece que Wycliffe estava mais interessado em apresentar Cristo e as Escrituras aos seus contemporâneos do que assegurar o conhecimento acerca de sua própria história.

Dono de um gênio forte e de vasto conhecimento no campo da filosofia e da teologia, além da grande eloquência, ele impunha respeito aos inimigos e atraía a admiração dos seus seguidores. Como afirmou Ian Christopher Levy no livro A Companion to John Wyclif: Late Medieval Theologian, nenhum teólogo medieval experimentou o fluxo e o contrafluxo das afeições como John Wycliffe. Foi aclamado e injuriado em vida. Após a morte, foi tratado como mártir e herege, sendo lembrado e ignorado intermitentemente ao longo dos séculos.

A Inglaterra de Wycliffe

A presença da igreja dominava a vida cotidiana. Toda vila, por menor que fosse, tinha um templo, e o chamado para seus serviços era algo essencial na vida comunitária.

A Guerra dos Cem Anos e a peste negra trouxeram sobre a Inglaterra uma profunda crise, cujo efeito foi o empobrecimento da nação e a necessidade de mais recursos para sustentar o Estado, o que não era compatível com o enriquecimento contínuo dos monastérios.

A Bíblia, publicada apenas em latim, considerada língua litúrgica, permanecia distante e indisponível ao povo, sendo que somente um seleto grupo de eruditos podia estudá-la. A teologia medieval, de cunho filosófico e especulativo, conhecida como escolástica, era distante e confusa para o leigo.

A educação era oferecida a poucos e controlada pela igreja, o que torna mais significativa e inesperada a ruptura de Wycliffe, assim como de outros reformadores que vieram depois dele.

O reformador

Wycliffe criticava o desenvolvimento teológico da igreja durante a Idade Média. Embora preconizasse o retorno à Bíblia, sua teologia era antes de tudo um retorno a Agostinho, que, como ele, defendia a predestinação e a consubstanciação, assim como Lutero e Calvino fizeram posteriormente.

Foi considerado por seus contemporâneos o doctor evangelicus (doutor do evangelho), o que pode dar uma dimensão da importância da sua obra naquele tempo. Wycliffe antecipou muitas das questões que se tornaram as grandes bandeiras da reforma do século 16:

  • Ênfase na autoridade das Escrituras. Ele considerava que “a Sagrada Escritura é a autoridade preeminente para todo cristão, e a regra da fé e de toda a perfeição humana”.
  • Escrituras na língua vernácula. Enfatizava que o estudo e interpretação das Escrituras não deveria se limitar ao clero, mas que a Bíblia tinha que ser traduzida para a língua comum.
  • Rejeição à infalibilidade papal. Segundo Spinka, a partir de 1378, Wycliffe radicalizou sua opinião quanto ao papado. Ele reconhecia a corrupção que permeava a igreja, da qual seu regente máximo não estava imune. Dizia que “o papa corrupto é anticristão e maligno”.
  • Rejeição ao comércio de indulgências e obras meritórias, a exemplo das peregrinações e penitências como formas de obter o favor divino.
  • Rejeição da vida monástica. Se, inicialmente, as intenções originais dos monges e dos padres sustentavam princípios nobres de pureza e consagração (como rezar, praticar a pobreza e a castidade, buscar o bem-estar espiritual, viver de forma simples, pedir esmolas para ajudar os pobres e ensinar), no tempo de Wycliffe essas boas intenções foram manchadas. Os monastérios, cada vez mais ricos e extravagantes, se tornaram instituições que sugavam os recursos da Inglaterra e retiravam da sociedade seus jovens. Wycliffe passou a condenar esses erros com grande veemência.
  • Rejeição da doutrina da transubstanciação, algo que, de maneira particular, despertou a fúria de Roma e o desejo de condená-lo como herege.

Pela estreita relação entre Igreja e Estado na época, suas ideias também trouxeram reflexos na política. Assim como Agostinho e, mais tarde, Calvino, Wycliffe falava da igreja invisível composta pelos eleitos de Deus. Ele separava a igreja do poder temporal e, por isso, sua mensagem foi bem quista na corte, o que lhe rendeu proteção real e acentuada participação política. Isso lhe permitiu que continuasse a propagar suas convicções religiosas com certa segurança, apesar das tentativas do Vaticano de fazer cessar sua voz.

Entre 1374 e 1376, ele desenvolveu o conceito de dominium. Wycliffe defendia o domínio natural de todo ser humano. Sua concepção de poder estava associada ao domínio natural que o homem recebeu de Deus na criação (dominium). Segundo Lahey, ele acreditava que o domínio natural poderia ser reconquistado através da pobreza apostólica, e que o dominium civil era menos puro do que o domínio espiritual, o que aponta para um certo desprezo pelos modelos hierárquicos, inclusive eclesiásticos. Além disso, Wycliffe acusava o papa de corrupção e afirmava que o governo da igreja deveria ser do povo de Deus. Semelhantemente, acreditava que o rei estava apenas no topo de uma autoridade temporal. Para ele, o domínio de Deus não precisa de intermediários, ressaltando Sua soberania. Esse tipo de afirmação lhe tirou parte da proteção política da qual usufruía.

Ainda na compreensão de Wycliffe, o principal ofício do ministro era a pregação do evangelho, algo realmente diferente da prática da igreja decadente dos seus dias. Por isso, ele treinou um grupo de pregadores em Oxford e em Lutterworth para expor a Palavra de Deus, munindo-os com a Bíblia na língua vernácula completa ou porções da mesma, o que tornou o solo inglês um campo fértil para a reforma que sacudiria toda a Europa dois séculos depois. Esses pregadores foram conhecidos como lolardos.

Obras

Wycliffe produziu uma obra muito extensa, tanto em latim como em inglês, em grande parte editada postumamente entre o fim do século 19 e o início do século 20. Muito desse material foi organizado em uma obra conhecida como Summa de Ente, composta de dois livros, contendo treze tratados. No entanto, parte da sua extensa obra não foi, ainda, sequer publicada.

Tratou com erudição de teologia, filosofia, política, tempo, domínio, lógica, divindade, antropologia, soteriologia, entre outros temas, mas também produziu folhetos para o público leigo, nos quais combatia os abusos cometidos pelos frades, no que tange à venda de indulgências, o acúmulo cada vez maior de riqueza nos monastérios e a transferência de recursos para o Vaticano. Isso desagradou a igreja, que não conseguia atingi-lo por ter a proteção real.

Porém, sua mais conhecida contribuição é a tradução da Bíblia que leva seu nome. Em 1374, depois de ter sido proibido pelo arcebispo de Londres de continuar pregando, foi nomeado reitor de Lutherworth. Nos anos seguintes, com o apoio de seus seguidores, passou a traduzir a Bíblia do latim para o inglês. Seus detratores os chamavam de lolardos, ou semeadores de ervas daninhas (do latim, lolium). A imprensa ainda não havia sido inventada, portanto, a cópia do texto bíblico traduzido era um trabalho extenso e demorado feito à mão. Não se sabe ao certo a participação de Wycliffe na tradução que recebe seu nome, mas é certo que ela foi reconhecidamente um instrumento que pavimentou a reforma inglesa por tornar a Bíblia mais acessível.

Condenado depois de morto

De fato, sua morte antecedeu sua condenação. Em 31 de dezembro de 1384, após um segundo derrame, ele descansou e foi sepultado em Lutterworth. Entretanto, por seus ensinos, foi sentenciado em 1415 no Concílio de Constança. Se estivesse vivo, teria sido excomungado e levado à fogueira, à semelhança de John Hus. Porém, mesmo depois de morto, foi condenado e, em 1428, queimaram seus restos mortais, lançando suas cinzas no rio Swift. O fato de suas águas desembocarem no rio Avon, que por sua vez deságua no rio Severn e dali segue para o oceano, se tornou uma ilustração comumente utilizada do alcance da mensagem de Wycliffe, que se espalhou por todo o mundo.

Como afirmou em sua obra Confessio, ele acreditava que, no fim, a verdade triunfaria. Com Wycliffe, a verdade experimentou seu alvorecer. Logo vieram dias em que ela brilhou como dia claro e muitos foram libertos das trevas do engano.

WILLIAN WENCESLAU DE OLIVEIRA, graduado em Teologia e mestre em Liderança, é professor no seminário de Teologia da Faculdade Adventista da Bahia (Fadba)

SAIBA +

Durant, Will; The Reformation: a history of european civilization from Wycliff to Calvin: 1300-1564. New York: Simon and Schuster, 1957. v. 6. 11 v. (The Story of Civilization).

Foxe, John. O Livro dos Mártires. São Paulo: Mundo Cristão, 2003. 360 p.

Lahey, Stephen E. Luscombe, D. E. Philosophy and Politics in the Thought of John Wyclif. Cambridge: Cambridge University Press, 2003. v. 54. (Cambridge Studies in Medieval Life and Thought).

______. Davies, Brian. John Wyclif. Oxford: Oxford University Press, 2009. (Great Medieval Thinkers).

Levy, Ian Christopher. A Companion to John Wyclif: Late Medieval Theologian. Leiden: Brill, 2006. v. 4. (Brill’s Companions to the Christian Tradition).

Spinka, Matthew. John Wiclif, Advocate of Radical Reform. In: Spinka, Matthew. Advocates of Reform From Wyclif to Erasmus: The Library of Christian Classics. Louisville, KY: The Westminster Press, 1953.

White, Ellen G. O Grande Conflito. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013, p. 80 (capítulo 5 – Arautos de uma era melhor).