Justiça pela fé

A importância do conceito sola fide na compreensão da dinâmica da salvação

Glauber S. Araújo

Porta da Igreja do Castelo de Wittenberg (Alemanha), que traz as 95 teses de Lutero. Crédito: Foto_tech / Fotolia

Quinhentos anos se passaram desde que Martinho Lutero, o renomado reformador alemão, pregou suas 95 teses contra as indulgências na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha. Seu protesto contra os abusos da Igreja Católica se tornou o marco de um movimento cujo clamor, sola fide (somente pela fé), permanece até hoje como a doutrina principal da Reforma – a justificação pela fé.  Para Lutero, esse assunto era tão importante que ele chegou a afirmar que, “se esse artigo (a justiça pela fé) se sustentar, a igreja será capaz de se sustentar; se o artigo cair, a igreja cairá”.1

Essa percepção também foi compartilhada por grandes reformadores, como João Calvino, de Genebra. Para ele, a justificação era “o ponto principal sobre o qual a religião (cristã) se sustém”.2

Segundo Alister McGrath, professor de Teologia Histórica na Universidade de Oxford, “poucas ideias têm a capacidade de desmantelar grandes instituições e inverter o julgamento de gerações anteriores”.3 A justificação pela fé, conforme defendida por Lutero, foi uma delas. Ela não apenas golpeou a igreja institucionalizada da Idade Média como também instituiu uma nova forma de ver o indivíduo e a sociedade. Para começar, o ensino da fé permitiu um relacionamento libertador entre a humanidade e Jesus Cristo, inaugurado pela morte e ressurreição do Salvador e não pela vida justa e penitencial do cristão. O fiel não precisava mais da igreja como intermediária para ter acesso a Deus, muito menos de santos. Ele passou a obter, pela fé, acesso direto ao trono de Deus e justificação imediata das mãos de Cristo. Desse modo, todo o sistema teológico levantado pela Igreja Católica durante a Idade Média, envolvendo penitências, confissões, missas, venda de indulgências e o purgatório, foi lançado por terra em um só golpe.4

Entretanto, não devemos cair no erro de achar que esse foi um assunto que atraiu a atenção do cristianismo somente a partir do século 16. Teólogos católicos debateram por séculos acerca do significado da justificação. Um deles, Agostinho de Hipona, acabou se tornando um dos nomes mais influentes do catolicismo, chegando a nortear, inclusive, muito da teologia protestante sobre a justificação pela fé.

Agostinho e a Igreja Medieval

É amplamente divulgada a noção de que, enquanto os reformadores defendiam a doutrina da justiça pela fé, a igreja medieval, inspirada por Agostinho, defendia a justiça pelas obras. Entretanto, Agostinho advogava a salvação pela graça, não pelas obras. Para ele, o ser humano estava eternamente condenado à morte, devido à sua natureza pecaminosa. Sua capacidade de escolher livremente havia sido completamente perdida desde a queda. Isso veio a se tornar conhecido como a teologia do “pecado original”. “A regeneração de um indivíduo só pode ser efetuada pela obra sobrenatural do Espírito Santo. Um pecador não é capaz nem mesmo de cooperar com essa obra. A salvação é puramente um dom de Deus.”5

Contudo, a questão crucial nessa discussão é que Agostinho diferia dos reformadores na interpretação do conceito de justificação. Para ele, o termo “justificar” significava “tornar justo”, em vez da compreensão protestante de “declarar justo”.6 Esse conceito agostiniano dominou a Igreja Católica por séculos, consolidando o ensino de que, antes de ser tido justo por Deus, o cristão deve primeiro se tornar justo. Conforme explica Alister McGrath, “do tempo de Agostinho em diante, a justificação sempre foi entendida como se referindo tanto ao evento de ser declarado justo como ao processo de ser tornado justo”.7

Ao analisarmos essa percepção, fica evidente que, para o catolicismo, aquilo que os protestantes posteriormente vieram a chamar de santificação (purificação e abandono do pecado), fazia parte do processo chamado justificação. Tendo consolidado essa teologia, todo o sistema medieval de penitências, confissões, missas e indulgências era entendido por católicos como mecanismos da graça divina que deviam ser empregados para habilitar o cristão a viver uma vida de pureza e santidade.

Reforma e justificação

Diferentemente de Agostinho, os reformadores entendiam a justificação como sendo uma declaração de mudança do status do pecador perante Deus. Antes de transformar o pecador, Ele o declara justo; não porque o ser humano vive em santidade, mas porque Deus o enxerga como se ele assim vivesse. “Em outras palavras, a justiça de um fiel não é intrínseca, mas extrínseca; é declarada, em vez de inerente.”8 Por isso, os reformadores se referiam a essa justificação como sendo forense ou passiva.9 Ao contrário da alegação católica de que o cristão deveria demonstrar obras de justiça para ser declarado justo, a pregação evangélica afirmava que o cristão permanecia passivo enquanto recebia a justiça de Deus, sendo assim, “pela graça”.10

Conforme o ensino católico, o perdão de pecados era obtido por meio de obras, fossem elas de caridade ou penitência, o que nos leva a questionar a legitimidade da afirmação de Agostinho. Em contrapartida, a mensagem protestante eliminava por completo a intermediação da igreja no processo de salvação e liberava o acesso direto do pecador a Deus.

Foi com o objetivo de não reproduzir a confusão provocada pelo sistema católico que os reformadores enfatizaram que a justificação acontece somente pela fé. Lutero, em sua tradução do texto de Romanos 3:28, acrescentou intencionalmente a palavra “somente” para reforçar seu significado original.11

Simul iustus et peccator

Os reformadores entendiam que, no momento em que o cristão é declarado justo, ele continua sendo pecador. Lutero afirmou que “o cristão é simultaneamente justo e pecador, santo e profano, inimigo de Deus e filho de Deus”.12 Em outras palavras, o pecador não é transformado, mas é perdoado.13 A partir do momento em que é justificado, ele recebe um novo status legal perante Deus, embora ainda permaneça pecador.

Lutero exemplificou essa ideia da seguinte maneira: “É como um homem doente, que crê no médico que promete sua total recuperação. Enquanto isso, ele obedece às ordens do médico na esperança da recuperação prometida. […] Ora, essa pessoa doente está bem? De fato, ela está tanto doente quanto bem ao mesmo tempo. Está doente na realidade, mas bem por causa da promessa segura do médico, em quem confia, e o qual o considera como já curado.”14 Note que a certeza da cura não se encontra no novo comportamento do paciente, mas na promessa do médico. A certeza da salvação do pecador se dá pela confiabilidade da promessa de Deus: “Crê […] e serás salvo” (At 16:31).

Tal declaração enfurecia católicos, pois pensavam: “Como poderia alguém ser declarado justo sem que, de facto, fosse justo?” No entanto, devemos nos lembrar de que, assim como Calvino, “Lutero era fortemente predestinacionista”.15 Para eles, se Deus predestinou certo pecador para a salvação, essa declaração resulta na mesma coisa que o pecador ser de fato justo. O reformador alemão “falava da justificação como um acontecimento concluído” porque Deus assim o predeterminara.16 Para ambos, os salvos deveriam ter certeza de sua salvação não porque “se salvam a si mesmos”, mas “porque dependem unicamente de Cristo para salvação; e assim, sua fé lhes dá certeza, pois ela se prende e se apossa daquilo que Cristo é por nós”.17

De obras para fé

Nessa discussão, alguns podem achar que “fé”, em contraste com “obras”, era o novo esforço humano para obter a salvação das mãos do Redentor. No entanto, sola fide não significa que a fé é um substituto das obras. Segundo a perspectiva evangélica, fé não é o mecanismo de salvação, mas é por intermédio dela que o pecador recebe a Cristo. “Apesar de a fé não ser nosso salvador ou nosso mérito, ela é o instrumento ou condição de salvação.”18 Conforme Calvino explicou, fé é meramente um conduto ou instrumento que capacita o pecador a se unir a Cristo.19

Para Lutero, a fé é o vínculo que une o pecador a Jesus. “Pecado, morte e danação passam a ser de Cristo; e graça, vida e salvação passam a ser do crente.”20 Portanto, fé não é meramente um “assentimento a um conjunto abstrato de doutrinas”. É um compromisso “mútuo de união entre Cristo e o crente”.21

Adventismo e sola fide

Por décadas, os pregadores adventistas do sétimo dia, zelosos por exaltar o papel da obediência à lei de Deus, deixaram a fé em Cristo em segundo plano.22 Pioneiros como Urias Smith, José Bates e Tiago White colocavam a obediência em pé de igualdade com a fé. Tiago White, por exemplo, até chegou a ressaltar em uma edição de The Present Truth que “a guarda do quarto mandamento, […] por si só, não salvará ninguém. Devemos guardar todos os Dez Mandamentos, seguir estritamente todas as orientações do Novo Testamento e ter uma fé em Jesus que seja viva e ativa”.23 Embora ele tenha sido um dos poucos a tratar do tema da justificação pela fé antes de 1888, continuou equiparando a lei e a fé como mecanismos de salvação. José Bates, o primeiro líder adventista a guardar o sábado, chegou a afirmar que “a observância do santo sábado de Deus […] salva a alma”.24 Mesmo após a Assembleia de 1888, pioneiros como Urias Smith continuavam advogando a antiga posição: “a única maneira de alguém alcançar justiça […] procede de estar em harmonia com a lei de Deus”.25

Ellen G. White lamentou esse desequilíbrio quando escreveu que a “mensagem do evangelho de Sua graça” devia voltar a receber primazia, para que o mundo evangélico cessasse de declarar “que os adventistas do sétimo dia falam na lei, na lei, mas não ensinam a Cristo nem Nele creem”.26 “A raiz e causa de nossa justificação diante de Deus não é nossa obediência, mas a de Cristo.”27

No entanto, a Igreja Adventista não pretende afirmar que proclama exatamente a mesma mensagem de justificação pela fé, como o fizeram os primeiros reformadores. No adventismo, ela abraçou um elemento inicialmente rejeitado por Lutero e Calvino – a regeneração. Para os adventistas, a justiça de Cristo implica mais do que uma mera transação legal – ela é “um poder regenerador”.28 “É não somente perdão pelo pecado, mas livramento do pecado”.29 Não se limita unicamente à justificação, mas inclui justificação e santificação. “Ser justo pela fé significa, no pleno sentido, que recebemos de Deus, tanto nosso título para o Céu (justificação) como nossa aptidão para o Céu (santificação).”30

Além disso, o adventismo não concorda com Lutero e Calvino no que se refere à predestinação. A igreja acredita que a cada dia o cristão corre o risco de cair em pecado e perder sua salvação. Portanto, “todos nós precisamos ser justificados diariamente pela fé em Cristo, quer tenhamos transgredido conscientemente, quer tenhamos errado inconscientemente”.31 Dessa maneira, os adventistas não creem que Deus escolhe alguns para a salvação e predestina outros à eterna perdição.

Jesus Cristo morreu na cruz pelos pecados de toda a humanidade e “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2:4). Essa salvação nos é oferecida livremente pelos méritos de Cristo, e temos acesso a ela sola fide. 

GLAUBER S. ARAÚJO, mestre em Ciências da Religião (Universidade Metodista de São Paulo), é editor de livros na Casa Publicadora Brasileira

(Texto publicado originalmente na edição de setembro-outubro da Revista Adventista)

Referências

1 Martinho Lutero, Weimarer Ausgabe (Weimar: Verlag Hermann Böhlaus Nachfolger, 1930) v. 40.3, p. 352.

2 João Calvino, Institutas da Religião Cristã, 3.11.1.

3 Alister McGrath, A Revolução Protestante (Brasília: Editora Palavra, 2012), p. 48.

4 Ibid., p. 49, 50.

5 Raoul Dederen, Tratado de Teologia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013), p. 292.

6 Thomas R. Schreiner, Faith Alone: The Doctrine of Justification (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2015), p. 34.

7 Alister McGrath, O Pensamento da Reforma (São Paulo: Cultura Cristã, 2014), p. 153.

8 Schreiner, p. 43.

9 McGrath, Pensamento, p. 145.

10 Martinho Lutero, Lectures on Galatians 1535: Chapters 1-4, ed. Jaroslav Pelikan, Luther’s Works,
v. 26 (St. Louis, MO: Concordia, 1964), p. 8.

11 Schreiner, p. 44.

12 Lutero, Lectures on Galatians, p. 232.

13 Calvino, 3.11.6.

14 Lutero, Weimarer Ausgabe, v. 56, p. 272.

15 Dederen, p. 342.

16 Ibid.

17 Schreiner, p. 46.

18 Hans. K. LaRondelle, O que é Salvação? (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988), p. 71.

19 Schreiner, p. 56.

20 Citado em McGrath, Pensamento, p. 147. Cf. Weimarer Ausgabe, v. 7, p. 25, 26.

21 McGrath, Pensamento, p. 147.

22 George R. Knight, Em Busca de Identidade (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013), p. 103-105.

23 Tiago White, “Dear Brethren and Sisters”, The Present Truth, julho de 1849.

24 José Bates, The Seventh Day Sabbath: A Perpetual Sign (1847), p. 55.

25 Urias Smith, RH, 11 de junho de 1889, p. 376, 377.

26 Ellen G. White, Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), p. 92.

27 LaRondelle, p. 65.

28 Ibid., p. 70.

29 Ellen G. White, O Maior Discurso de Cristo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), p. 114, ênfase acrescentada.

30 Dederen, p. 345.

31 LaRondelle, p. 68.