Pai da Reforma

O que levou um monge desconhecido a lutar pela reforma religiosa que mudou o Ocidente

Crédito: Fotolia / Eduardo Olszewski

No ano em que se comemora o 500º aniversário da reforma religiosa que mudou o Ocidente, alude-se quase que automaticamente ao nome de Martinho Lutero como o reformador por excelência, aquele que se indispôs contra o abuso de autoridade perpetrado pela Igreja Católica medieval. Mas quem foi Martinho Lutero e como podemos definir seu contexto de mundo, bem como sua cosmovisão? Neste breve perfil serão utilizados apenas excertos de sua vida e obra, mostrando de maneira franca e direta o que o levou a fazer o que fez e seu legado para o mundo.

Em primeiro lugar, deve-se concordar que Lutero foi um homem angustiado e inquieto desde a juventude. Reconhecidamente inteligente e disposto a seguir os sonhos do pai, Hans, que almejava uma sólida carreira no mundo jurídico para o filho, o jovem de Eisleben logo se deparou com uma dura realidade: a peste negra. Costumava-se dizer que era desígnio de Deus que os pobres e miseráveis pecadores fossem tocados por esse flagelo divino, recebendo neste mundo as dores de uma morte terrível, que antecederia o castigo eterno.

De fato, Lutero perdeu alguns amigos e conhecidos para a peste que assolou um terço da população da Europa. Sendo fiel devoto, ele fez de tudo para evitar tal tormenta. Contudo, logo percebeu que nenhum de seus esforços poderia libertá-lo de tal sorte. Sua angústia em buscar o favor de Deus sem que tivesse a menor certeza de Seu amor precedeu sua entrada no Convento dos Agostinianos Mendicantes, em 1505.

Desde cedo, assim como muitos de seu tempo, ele percebeu que o melhor e mais seguro local para a salvação de sua alma não deveria ser em uma faculdade de Direito, mas próximo de Deus, servindo-O com todas as suas forças em um local especialmente preparado para esse fim conforme os costumes e preceitos da época. Contudo, a decisão que precipitou sua entrada no mosteiro foi uma tormenta terrível, próximo da aldeia de Stotternheim, onde um raio havia matado um amigo. Piedosamente clamou por Santa Ana e atribuiu a ela a graça de ter sobrevivido. Assim, sem avisar de antemão seus amigos e familiares, resolveu se tornar um monge.

Cabe aqui uma primeira reflexão: foi Lutero simplesmente fruto de seu tempo (para aludir a outro alemão, Hegel, e a seu conceito de espírito da época ou zeitgeist)? A resposta deve ser afirmativa, mas com ressalvas. Qualquer homem ou mulher que passivamente se submete a seu próprio tempo, sem a ele tecer qualquer crítica e viver achando que a vida “é assim porque é assim”, não é digno de ser chamado cristão. É claro que herdamos muitas características indeléveis de nossa própria cultura e vivemos com esses traços muitas vezes sem percebê-los. Contudo, nenhum cristão deve se conformar com este século (Rm 12:2). Lutero, assim como todo remanescente de ontem e de hoje, foi simultaneamente filho e pai de seu próprio tempo.

As contingências medievais, com todas as suas dores e lutas, levaram Lutero ao monastério e ele se tornou um agostiniano exemplar. Não contente com isso, ao perceber que sua angústia continuava, mesmo tendo ele se tornado doutor em Teologia, resolveu, sob a luz que progressivamente recebia do Espírito Santo, fazer progressos práticos em sua nova percepção da fé. Portanto, a inconformidade aos preceitos de seu tempo, ainda que ele tivesse uma vida segura e estável, deve ser algo principal no perfil do reformador.

Observe-se, no entanto, que essa transformação não ocorreu de maneira fácil nem rapidamente. Em fevereiro de 1507, apenas dois anos depois de sua entrada no convento, tornou-se sacerdote. Só então seu pai resolveu se reconciliar com o filho. Logo em sua primeira missa, diante do peso de seu ofício, o triste Lutero não encontrou forças para terminá-la. Percebendo as imensas dores do jovem Martinho, sem deixar de perceber sua facilidade acadêmica, Johann von Staupitz, seu conselheiro, o indicou para o cargo de professor de Filosofia na recém-inaugurada Universidade de Wittemberg. Ali o fideísmo, equilibrando o racionalismo e a chama humanista, encontrou espaço no coração de Lutero. Ainda assim, em 1512, finalmente doutor em Teologia e bom exegeta bíblico, ele ainda não tinha sua alma livre do peso do pecado.

Um ano antes da obtenção do título, recebeu de sua Ordem a incumbência de viajar até Roma, a capital das sete colinas. Ele esperava que a viagem finalmente colocasse suas ideias no lugar e ele almejasse fazer carreira na instituição que tão devotamente amava. Mas, como aludido anteriormente, Lutero era um inquieto. Ao perceber a existência de prostíbulos que atendiam exclusivamente sacerdotes e a óbvia injustiça dos ricos para com os pobres, sem contar a forma com que a igreja tratava seus membros, Lutero se revoltou.

Naquela mesma época, a Igreja Católica se utilizava de um triste expediente para lucrar às custas dos pobres e incautos. As indulgências compravam um pedaço do Céu e podiam salvar do purgatório algum parente morto tempos antes. A prática, infelizmente comum até hoje em certos meios evangélicos, dava aos compradores certas seguranças. Qual era a responsabilidade pessoal daquele que havia pago por sua salvação? Bastava tão somente ir à igreja e cuidar para não cometer o único pecado sem salvação, a partir da concepção da época: o pecado contra a igreja, a heresia que poderia levar o “criminoso” à terrível e tortuosa morte.

A indulgência era e é uma prática obviamente antibíblica, mas era compatível com a cosmovisão teocêntrica que imperava na Idade Medieval. Lutero, então como pai de seu tempo, acabou gestando outra visão mundo. A partir de sua descoberta, o ser humano foi libertado do peso de uma vida literalmente desgraçada, aumentando sua responsabilidade pessoal diante dele mesmo e do mundo.

Mas foi somente em 1513, no Convento Negro dos Agostinianos, que o véu caiu de seus olhos. Isso o levou a escrever: “‘Concluímos pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei’ (Romanos 3:28). Passei a considerar a Escritura Sagrada de maneira diferente, e tornei-me alegre, como que renascido, sim, como se tivesse entrado pelos portais abertos do próprio paraíso”. Mesmo em um lugar tão lúgubre como o Convento Negro, Lutero finalmente encontrou o que procurava. Deixou a tristeza no passado e passou a viver pela graça, mediante a fé. Eis a maior “redescoberta” de toda a história e o motivo pelo qual Lutero se tornou o grande reformador.

Em 31 de outubro de 1517, Lutero publicou suas famosas 95 teses. Elas não dizem respeito à justificação pela fé como muitos supõem, mas em grande medida questionam as vexatórias práticas das indulgências. Sua ideia não era romper nem dividir a igreja, mas propiciar reflexão de tal maneira que a igreja percebesse seus erros.

A partir desse momento, Lutero acabou não mais tendo um minuto de descanso. Passou a ser consultado por todos e a receber diariamente convites para pregações. Suas aulas se tornaram ainda mais concorridas. Lutero passou a ser um homem feliz e obcecado por levar sua mensagem de advertência ao mundo. Obviamente, com isso ele ganhou muitos e poderosos inimigos.

Paradoxalmente, sua mensagem foi bem aceita por certos poderosos que almejavam menos gerência da igreja romana. Assim, indiretamente, Lutero não apenas reformou a igreja, mas a política, a educação, a economia e até as ciências. A partir dessa transformação, ocorreu a sequência de eventos que já se conhece bem.

Em 1518, o papa Leão desejou interrogá-lo. Foi inútil. Lutero manteve suas ideias e, no segundo semestre de 1520, a Universidade de Wittenberg recebeu sua carta de excomunhão. Em dezembro do mesmo ano Lutero queimou a carta, bem como uma série de outros documentos católicos. Tornou-se oficialmente um inimigo da igreja.

Em 1522, o monge publicou o Novo Testamento em alemão e, três anos depois, casou-se com Katharina von Bora. A Reforma trouxe divisão e morte. Igrejas foram destruídas e camponeses, dizimados. Mas Lutero buscou forças no Senhor e compôs, em 1527, Castelo Forte, seu mais famoso hino. Anos antes, em Worms, sob risco de morte, ainda que com um salvo-conduto, defendeu sua fé. Em 1530, correndo o mesmo risco, Filipe Melâncton o representou, apresentando durante a Dieta imperial convocada por Carlos V a Confissão de Augsburgo, declaração pública de fé adotada pela maioria das Igrejas Evangélicas Luteranas.

Lutero não abandonou a fé. Sabia em quem cria! Que o Espírito Santo nos inspire e propicie as reformas que precisamos fazer!

FÁBIO AUGUSTO DARIUS é doutor pela Escola Superior de Teologia (EST) e atua como professor do curso de História no Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP)

SAIBA +

Brentano, Funck. Martim Lutero. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Vechhi, 1968.

Jorge, Fernando. Lutero e a Igreja do Pecado. Osasco: Novo Século, 2007.

Lienhard, Marc. Martim Lutero: Tempo, Vida e Mensagem. São Leopoldo: Sinodal, 1998.

Junghans, Helmas. Temas da Teologia de Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 2001.

Lutero, Martim. Da Liberdade Cristã. São Leopoldo: Sinodal, 1979.

Lutero, Martim. Ética Cristã: das Boas Obras. São Leopoldo: Sinodal, 1999.

Lutero, Martinho. Pelo Evangelho de Cristo: Obras Selecionadas de Momentos Decisivos da Reforma. Porto Alegre: Concordia.