Reformador da Reforma

O que um ex-padre holandês do século 16, considerado um protestante radical, tem a ver com a fé adventista

Crédito: Fotolia / Eduardo Olszewski

Abraçar a verdade normalmente tem um preço. Contudo, permanecer nela, firme e inabalável, pode ser ainda mais caro e complicado, dependendo do lugar e época em que você estiver, e de quanta resistência e poder tiverem aqueles que discordam de você. Intolerância, oposição férrea, falta de empatia, suspeitas e acusações, aversão e crueldade: foram essas as armas que tanto católicos quanto protestantes usaram para combater os defensores mais tenazes do movimento reformador do século 16 na Europa. Muitos cristãos piedosos foram então perseguidos e mortos por seus próprios “irmãos”, cumprindo, em parte, a profecia bíblica segundo a qual os inimigos dos filhos de Deus seriam “os de sua própria casa” (Mt 10:36).

Entre os apelidados de “reformadores radicais” está o nome de um ex-padre holandês que, tendo sido sacerdote católico por mais de dez anos, decidiu abandonar suas vestes sacerdotais e, junto com elas, todo prestígio e comodidade financeira que tinha, a fim de ser fiel à sua consciência e à luz do conhecimento bíblico que um dia o alcançou. Menno Simons (1496-1561) jamais sonhou em ser o importante líder que viria a se tornar. Tampouco imaginou que sua vida seria tão atribulada e cheia de sofrimento causado justamente por aqueles que se diziam seguidores do mesmo Cristo a quem ele devotava sua lealdade. Depois de ser ordenado bispo protestante, em 1537, sua cabeça foi posta a prêmio. Carlos V,  imperador do Sacro Império Romano Germânico, ofereceu, em 1542, cem moedas de ouro como recompensa para quem o entregasse, além do perdão por eventuais crimes cometidos. Desse modo, na tentativa de acabar com o reformador, o monarca católico se aliou tanto a criminosos mercenários e interesseiros como àqueles que discordavam da doutrina de Simons, cuja vida seria dedicada doravante a, com esforço, estabelecer congregações e a ensinar a Bíblia.

Os grupos que o tinham como líder foram chamados de “rebatizadores” ou “anabatistas”, um rótulo zombeteiro posto por aqueles que defendiam a tradição de batizar crianças pequenas, por aspersão, uma prática que entrou na igreja cristã já no fim do 2º século d. C. e que não tem nenhum precedente nas Escrituras. Em Crenças Populares, Samuele Bacchiocchi conta que nenhuma outra ordenança causou tanta controvérsia, divisão, hostilidade e desconfiança mútua como a do batismo infantil. Os principais líderes da Reforma – Lutero, Calvino e Zuínglio – “mataram companheiros cristãos pelo único crime de batizar ou rebatizar crentes adultos em vez de crianças” (p. 322). Condenaram, por exemplo, Felix Manz à morte por afogamento no lago Zurique, na Suíça, em cuja ocasião Zuínglio teria exclamado com desdém: “Imerjamos aquele que defende a imersão!” De igual modo, Calvino, em 24 de outubro de 1553, induziu o Concílio de Genebra a sentenciar Miguel Servet à morte na fogueira por negar a Trindade e o batismo infantil.

Refletindo no passado

É curioso que, naquele contexto, o batismo infantil pudesse ter tamanha importância. Será que havia alguma razão, além da doutrinária, para uma reação tão forte? Sim, havia: a união da Igreja com o Estado. A “heresia” do batismo de adultos era uma espécie de afronta aos poderes seculares aliados à igreja oficial. Ser batizado ainda bebê significava lealdade ao Estado para o resto da vida, algo estratégico dentro de uma Europa sacudida pelo fervor dos nacionalismos emergentes. Há quem diga, inclusive, que “a perseguição aos anabatistas tinha raízes políticas bem determinadas” devido a seu desafio explícito ao cristianismo oficial e às autoridades constituídas (As Grandes Religiões, Abril Cultural, 1973, p. 504).

Por influência desse grupo, em janeiro de 1525, quase oito anos depois da divulgação das 95 teses na catedral de Wittenberg, o primeiro adulto converso foi batizado na Europa, algo bem chamativo frente à tradição cristã milenar de batizar bebês. Logo, outros 13 jovens também se decidiram pelo batismo, fazendo-o ainda por aspersão ou efusão (derramamento de água), como era o costume. Em fevereiro desse mesmo ano, um membro da congregação de Baltasar Hubmaier pediu o batismo por imersão nas águas do rio Reno, dando-se ali, entre os anabatistas, segundo Bard Thompson (1996), a (re)instituição dessa prática (Humanists & Reformers, p. 466). Só um século mais tarde a forma bíblica de proceder ao batismo seria finalmente recuperada também em outras confissões religiosas, a exemplo dos batistas ingleses. Desse modo, a tradição de batizar crianças pequenas começava a ser posta em xeque abertamente. Era só o começo de uma fragmentação progressiva que o movimento reformista jamais desejou e com a qual claramente não soube lidar.

A questão do batismo e da politização da igreja, no entanto, não foram os únicos pontos de controvérsia entre as igrejas da época. Havia entre os anabatistas aqueles que guardavam o sábado, a exemplo de Oswald Glait. Isso atraiu a atenção e a ojeriza de Lutero e de outros líderes religiosos. Negando a guarda do sábado bíblico, em 1538 Lutero escreveu “Wider die Sabbather” (Contra os Sabatistas), uma dentre suas muitas investidas em oposição ao que ele considerava ser uma prática judaizante, exatamente como ainda hoje, infelizmente, é vista por muitos cristãos protestantes e evangélicos que professam uma fé reformada não submetida, em tese, à tradição da Igreja Católica (The Mennonite Encyclopedia, v. IV, 1955, p. 396).

Enquanto Lutero, o grande ícone da Reforma, opunha-se à guarda do sábado e defendia a união da igreja com os poderes políticos seculares, outros reformadores, erguendo bem alto a bandeira da sola Scriptura, deram aos ensinamentos da Bíblia a centralidade que o movimento reformista do século 16 propunha. Caçados e massacrados; quando muito, tolerados, os anabatistas, desde que surgiram, sempre estiveram sob vigilância e suspeita. Visto que repudiavam o mundo, opunham-se à guerra e denunciavam a injustiça, não atraíram historicamente sobre si senão rechaço e perseguição. O drama desses crentes perseguidos é retratado por Louise Vernon de maneira vívida em The Silent Church (A Igreja Silenciosa), um interessante relato publicado pela Review and Herald. Nele, a família de Richard Janssen, na cidade alemã de Münster, é confrontada com o dilema de proteger e alimentar (ou não) os anabatistas foragidos, sob pena de excomunhão, encarceramento ou coisa pior, caso deixasse de delatá-los. A história termina com essa família sendo, por causa de sua solidariedade, banida sumária e definitivamente do país, o que a levou à região da Frísia, na Holanda, onde, em 1543, finalmente se encontra com Menno Simons.

Em Uncertain Journey (Jornada Incerta), Frank e Ava Wall registram que, ao persistir no estudo das Escrituras por conta própria, Menno foi pouco a pouco avançando para além de Lutero e de Zuínglio, pois não apenas aceitou a grande verdade de que “o justo viverá pela fé”, mas também rejeitou as falsas doutrinas do batismo infantil, da transubstanciação do corpo de Cristo na eucaristia e do estado consciente dos mortos (p. 15). Menno Simons, mesmo não tendo sido o fundador do movimento, foi a figura humana que instruiu e, com seus escritos e exemplo, alimentou e deu uma identidade coletiva àquele grupo fragmentado, sofrido e alvo do ostracismo das diversas nações nas quais se refugiaram. Foi um fiel paladino da verdade por cuja defesa entregou a própria vida, constantemente ameaçada, sem poder dar à esposa Geertruydt, às duas filhas e ao filho a paz e tranquilidade que mereciam ter. Ele não poupou esforços para sustentar os princípios de uma fé verdadeiramente reformada. Mais ainda, ele levou tais princípios quase que às últimas consequências, tornando-se um ícone da busca pela verdade e pureza do evangelho de Cristo.

Por isso, quando migraram para a América, os anabatistas abandonaram sua antiga pecha de “rebatizadores” e passaram a se chamar “menonitas”. Em sua história de perseguição e martírio, eles parecem exemplificar bem a profecia relacionada à igreja apocalíptica de Sardes, que representa um período turbulento da história sagrada (1517-1755) marcado por violentas controvérsias e disputas em busca de um reavivamento necessário e urgente, tanto doutrinário como litúrgico e eclesiástico. Nela, ainda existiam “umas poucas pessoas” que não tinham contaminado as suas vestiduras, pessoas dignas que, trajadas de branco, devido ao seu nobre caráter e sã doutrina, haveriam de chamar os demais crentes ao arrependimento (Ap 3: 3-5). Sua abnegação e testemunho destemido são realmente inspiradores.

Na Holanda, Prússia, Rússia, Morávia, Boêmia, Polônia, Estados Unidos, Canadá e demais países para onde fugiram em busca de liberdade religiosa, os menonitas deixaram nas páginas da história profundas pegadas de fidelidade cristã marcadas por suor, sangue e lágrimas derramadas ao longo de uma jornada árdua e injusta. Foram opressos por autoridades tirânicas, compatriotas cruéis, anfitriões desconfiados e vizinhos invejosos, cujos olhos curiosos os espreitavam todo o tempo, interessados em sua momentânea prosperidade, mas não em conhecer o Deus que os instruía e guiava em suas muitas labutas. Sua saga lembra a dos valdenses no Piemonte, que também sofreram a fúria da maioria ensandecida, arregimentada em torno do desejo febril de proteger a si mesma, sentindo-se gratuitamente ameaçada e estando mais disposta a eliminar os “hereges” que a amá-los. Infelizmente, ferozes querelas relativas à disciplina eclesiástica e à excomunhão surgiram também no seio do cristianismo reformado, tendo sido esse o tema do último escrito de Menno Simons, cuja morte, em 31 de janeiro de 1561, o encontrou viúvo e enfermo em seu leito, depois de uma perna fraturada num acidente e uma vida gasta em prol da igreja, exatamente vinte e cinco anos depois de sua renúncia formal ao catolicismo.

Espelhando o futuro

Analisando friamente, adventistas e menonitas têm muito em comum. Historicamente foram malvistos e malquistos tanto por católicos quanto por protestantes devido às suas crenças e práticas peculiares. Do ponto de vista doutrinário e organizacional, têm mantido uma fé firme na necessidade de separação entre a Igreja e o Estado, na importância do batismo voluntário e por imersão, bem como na opção pacifista pela não-combatência em caso de conflitos armados.

Como adventistas, sabemos que parte dessa história se repetirá. Parte da igreja morna de Laodiceia haverá de despertar, e seu despertamento será o estopim de uma perseguição jamais vista, uma “grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais. Não tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo”, nem mesmo os escolhidos (Mt 24:21, 22).

A história dos menonitas perseguidos, assim como a dos valdenses, nos diz que as profecias bíblicas não falham. Diz-nos que, no altar do sofrimento e do martírio, Deus há de revelar o verdadeiro caráter tanto dos que se dizem cristãos – mas não são – como o dos poderes políticos mundiais e, por que não, daqueles cuja fé está firmada em Cristo e em Sua Palavra. Do fiel testemunho destes depende a última poderosa mensagem de advertência que sacudirá um mundo prestes a ser objeto dos mais pungentes juízos que o Senhor derramará sobre os homens antes de Sua segunda vinda.

JÚLIO LEAL é pastor, doutor em Educação e editor de livros didáticos na Casa Publicadora Brasileira