Ministério de todos os crentes

A ideia de que o ensino da Palavra e a defesa da fé não são tarefas exclusivas de um clero deve ser plenamente restaurada pelos adventistas

Isaac Malheiros

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Desde pequeno me acostumei a ver meu pai dirigindo séries de evangelismo público e ministrando estudos bíblicos. Como ele, dezenas de pregadores e instrutores voluntários me alimentaram espiritualmente com o ensino da Palavra e fizeram meu coração juvenil vibrar. Por isso, creio que a celebração dos 500 anos da Reforma seja uma ocasião mais do que oportuna para redescobrirmos uma das principais implicações da ênfase protestante no sacerdócio de todos os crentes: de que o ministério da Palavra é para todos.

O ensino sobre o “sacerdócio de todos os crentes” não surgiu com a Reforma Protestante, mas foi nesse movimento que essa ênfase começou a ser resgatada. Segundo o teólogo Norman Nagel, Martinho Lutero (1483-1546) tinha como base de sua compreensão a descrição bíblica da igreja como sacerdócio santo e real (1Pe 2:5 e 9), uma imagem apresentada no Novo Testamento que ecoa o plano de Deus para Israel (Êx 19:5, 6) no Antigo Testamento (Luther and the Priesthood of All Believers, p. 277-298).

Para o teólogo e apologista cristão Alister McGrath, Lutero não via justificativas para que o clero fosse considerado uma elite espiritual, detentora exclusiva da vocação de interpretar e ensinar a Bíblia. Essa ideia radical passou a libertar os crentes de uma relação nociva de dependência com a instituição religiosa (Christianity’s Dangerous Idea: The Protestant Revolution – A History from the Sixteenth Century to the Twenty-First, p. 52-53).

Contudo, apesar de os chamados reformadores magisteriais, como Lutero, Calvino e Zuínglio, serem os grandes divulgadores desse ensino, a ênfase deles estava mais no acesso direto e individual a Deus do que na dimensão coletiva dessa ideia: a igualdade de todas as pessoas na comunidade cristã. De acordo com o teólogo Timothy George, os reformadores magisteriais mantiveram uma sutil divisão entre clero e laicato. Lutero, por exemplo, ensinava que todo cristão tinha o direito de pregar para os pagãos, mas o ensino aos cristãos, nos cultos e reuniões da igreja, era atribuição dos líderes ordenados (Teologia dos Reformadores, p. 98).

Quem trabalhou na restauração desse aspecto eclesiológico do sacerdócio de todos os crentes foram os chamados reformadores radicais, como os anabatistas, grupo que foi duramente perseguido pelos católicos e demais protestantes. Com base em 1 Coríntios 14:26, 30 e 31, eles acreditavam que cada cristão tinha o direito de falar numa reunião da igreja. Essa prática ficou conhecida como lex sedentium (“direito do que está sentado”). Por isso, num típico culto anabatista, os membros oravam, liam a Bíblia, aconselhavam-se e discutiam sobre a Palavra. Essa dinâmica das reuniões anabatistas estimulou a fraternidade e influenciou a visão dos pioneiros adventistas.

Vocação de todos

No entanto, a má compreensão sobre esse ensino bíblico tem levado ainda hoje os cristãos a assumir duas posições extremadas: (1) o clericalismo, em que o líder religioso monopoliza a pregação e o ensino, fazendo dos demais meros espectadores; e (2) o anticlericalismo, no qual predomina o espírito de rejeição e oposição a qualquer figura de liderança. Vale reconhecer que, assim como o sacerdócio de todos os crentes, a organização da igreja e o exercício da liderança são prescrições bíblicas. O equilíbrio está em reconhecer que líderes e liderados são todos discípulos de Cristo, e igualmente vocacionados para o ministério da Palavra.

No Novo Testamento existem inúmeras referências a essa dinâmica da igreja. No Pentecostes, por exemplo, todos ficaram cheios do Espírito e todos começaram a declarar “as maravilhas de Deus” (At 2:1-4, 11). Isso foi o cumprimento de Joel 2, texto que destaca a promessa de que “toda a carne” receberia o Espírito (At 2:16-18).

Em Atos 4, após a libertação de Pedro e João, todos levantaram a voz a Deus, e todos queriam anunciar a Palavra com intrepidez (At 4:24, 29). A resposta de Deus a esse clamor foi que “todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com intrepidez, anunciavam a Palavra de Deus” (At 4:31). A grande comissão (Mt 28:18-20) foi entregue à igreja, e participar dela é dever e privilégio de todos os cristãos.

Os apóstolos tinham a oração e o ministério da Palavra como prioridade (At 6:4), mas não como exclusividade ou monopólio. Se a decisão de Atos 6:1-4 pudesse ser usada para justificar a restrição do ministério da Palavra a um grupo específico de crentes, o mesmo deveria acontecer com a oração, o que seria um absurdo! Mas, curiosamente, após a escolha de Estêvão para o ministério de servir às mesas como diácono, a Bíblia o apresenta pregando publicamente (At 6:8-7:53). Epafras também não era um dos apóstolos, era alguém comum, mas pregou aos colossenses (Cl 1:7; 4:12).

Segundo a orientação bíblica, a pregação da Palavra não deve ficar restrita ao culto e púlpito (2Tm 4:2). A proclamação e o ensino podem ocorrer de modo formal ou informal, em diferentes contextos. E esse é um chamado até mesmo para quem está iniciando a caminhada cristã (Lc 9:60, Mc 5:19). Além disso, declarar publicamente que Jesus é o Cristo pode ter consequências negativas (Jo 9:22), mas é dever de todos que seguem o Mestre (Rm 10:9).

A apologética cristã ou defesa da fé também é um dever de todos, e não apenas de alguns poucos especialistas, porque cada cristão deve estar capacitado a responder perguntas sobre as razões da sua esperança (1Pe 3:13-16). No que se refere ao louvor congregacional (Ef 5:19) e ao ensino da Palavra no contexto do culto, todos são chamados a participar, ministrando e aconselhando uns aos outros (Cl 3:16; Rm 15:14; Hb 3:13; 10:24-25).

Por sua vez, há um ministério do ensino no lar. Os pais devem criar seus filhos na instrução do Senhor (Ef 6:4) e os jovens são fortes quando a Palavra de Deus permanece neles (1Jo 2:14). Timóteo, por exemplo, sabia as “sagradas letras” desde a infância, seguindo o exemplo de fé de sua avó Loide e de sua mãe Eunice (2Tm 1:5; 3:15). É uma tarefa da família, não apenas de um clero especializado ou de um magistério eclesiástico, incutir nos filhos os valores do reino de Deus.

Portanto, o chamado à proclamação e ao ensino do evangelho é para discípulos comuns (Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, p. 69). Não requer um chamado nem talentos especiais, apenas disposição para ser instrumento do Espírito (At 4:29).

A tarefa dos especialistas

Se todos são chamados a testemunhar sobre a Palavra, que função cabe aos especialistas (pastores, teólogos e professores) que “se afadigam na Palavra e no ensino” (1Tm 5:17)? Talvez esta declaração de Ellen White, pioneira da igreja, nos ajude a responder: “Abram a Bíblia aos nossos jovens, atraiam a atenção deles a seus tesouros ocultos, ensinem-lhes a pesquisar em busca de suas joias de verdade” (Mensagens aos Jovens, p. 254-255).

Em outras palavras, a esse grupo tecnicamente treinado cabe a tarefa de ensinar os demais a pesquisar a Bíblia por conta própria. Ellen White enfatiza que o ensino bíblico deve possibilitar o desenvolvimento da autonomia e da individualidade, nunca da dependência: “O primeiro e mais elevado dever de todo ser racional é aprender nas Escrituras o que é a verdade, e então andar na luz e estimular outros a imitar seu exemplo. Devemos formar opiniões por nós mesmos, visto que teremos que responder por nós mesmos perante Deus” (O Grande Conflito, p. 261, edição condensada).

Dessa forma, ao serem discipulados, os liderados exercerão seu sacerdócio admoestando, consolando, amparando os fracos e sendo longânimos para com todos (1Ts 5:12-14). Eles farão basicamente as mesmas coisas que os líderes fazem. Isso porque a missão de Deus é um trabalho pessoal, é a transmissão de Sua Palavra de uma pessoa para outra, acompanhada de uma vida piedosa. Hoje, a redescoberta do “sacerdócio de todos os crentes” deve nortear os ministérios da igreja, seus objetivos e seus esforços em torno do aprendizado e do anúncio da Palavra de Deus.

ISAAC MALHEIROS é pastor, mestre em Teologia e professor do seminário teológico do IAP, em Ivatuba (PR)

(Artigo publicado originalmente na edição de outubro de 2017 da Revista Adventista)