O futuro da Reforma

Apesar do preço das mudanças, a igreja não pode congelar suas ideias e práticas

Marcos De Benedicto

Crédito: LightStock

Celebrar os 500 anos da Reforma é um dever do mundo protestante. Por isso, esse é o tema de capa desta edição. Mas, no meio das comemorações, uma coisa que não podemos esquecer é que essa revolução religiosa teve um preço. Mudanças radicais não acontecem sem reação das forças da tradição e dos costumes.

Na Suíça, por exemplo, houve conflitos. O protestantismo chegou por volta de 1520 a Zurique, com Ulrich Zuínglio, e depois se espalhou para outras cidades. Calvino, que rompeu com a igreja de Roma em 1533, levou o movimento a Genebra, onde fez um experimento político e implantou uma espécie de governo teocrático. Essa trajetória não foi nada suave – nem para os opositores do reformador!

Na França, a sangrenta repressão ao protestantismo ficou simbolizada pelo massacre da Noite de São Bartolomeu, em 1572, quando ocorreu uma onda de assassinatos de huguenotes em 12 cidades, durante vários dias, tudo patrocinado pela casa real. Segundo apologistas huguenotes contemporâneos, o total de executados chegou a 300 mil. Historiadores mais neutros falam em 10 mil.

Na Espanha e em Portugal, um capítulo à parte, os números de vítimas da Inquisição variam entre milhares e milhões. Calcula-se que somente a Inquisição espanhola pode ter executado de 3 a 10 mil pessoas, enquanto outras 100 a 125 mil morreram na prisão como resultado de tortura e maus-tratos. Havia controle até sobre o que se lia e imprimia, e a utilização da fogueira era uma das maneiras de aplicar a pena de morte aos “hereges”.

Os reformadores também não eram “santos” e, infelizmente, revelaram traços de intolerância, a começar pela teologia radicalmente antijudaica de Lutero. Isso é quase incompreensível porque, com base em Romanos 9 a 11, vários exegetas da Reforma acreditavam em uma conversão em massa dos judeus antes do retorno de Cristo. Além disso, por valorizar a Bíblia, os reformadores reavivaram o estudo do hebraico, estimulando o interesse da intelectualidade e impulsionando o mercado de livros nessa língua.

O fato é que, assim como houve “guerra no Céu” (Ap 12:7), houve batalhas na Terra. A verdade une, mas também divide. Os reformadores, que, por sinal, não usavam o termo “Reforma”, popularizado somente no século 18, estavam conscientes disso. Eles adotaram uma posição e resolveram “protestar”, palavra que veio do século 16, embora originalmente aplicada aos príncipes que assumiram o lado de Lutero na assembleia de Speyer em 1529.

Hoje, em um sentido especial, a tocha da Reforma está com o povo adventista. Apesar de sua visão inicial negativa sobre o protestantismo como cristianismo apostatado, os adventistas passaram a se considerar herdeiros e continuadores do movimento do século 16. Em 1º de junho de 1886, ao relatar na Review and Herald uma viagem à região do Piemonte, no norte da Itália, Ellen White chegou a dizer que “Cristo foi um protestante”, e ligou os protestantes a Ele e aos apóstolos, que se levantaram contra uma religião de tradição, formalismo, hipocrisia, idolatria e supressão da Bíblia.

O adventismo tem o foco na verdade progressiva, e não na tradição solidificada em credos pétreos. Por isso, a igreja não pode congelar suas ideias e práticas. Contudo, sabe também da importância de se apegar aos pilares da fé, que, no caso da Reforma, foram sintetizados em cinco expressões latinas: (1) Sola Scriptura (a Bíblia somente); (2) Sola fide (somente a fé); (3) Sola gratia (somente a graça); (4) Solus Christus (somente Cristo); e (5) Soli Deo gloria (glória somente a Deus). Cristianismo sem essas dimensões é “meia-sola”!

O maior tributo à Reforma é levá-la adiante num âmbito global. Entretanto, para isso, precisamos reformar primeiro a própria vida e a igreja. Essa data não pode ser apenas um evento festivo, uma repetição ideológica do ato de 1517, sem engajamento individual e transformação real. A reforma deve ser contínua e movida pelo Espírito de Deus. O futuro da Reforma tem que ver com a redescoberta e a pregação da verdade, mas também com a mudança do coração.

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

(Artigo publicado originalmente na edição de outubro de 2017 da Revista Adventista)