Os caminhos da Reforma

Há 500 anos, um monge desconhecido que pregou um documento na porta da igreja de um castelo numa cidade de 2 mil habitantes mudou o mundo. Conheça o contexto desse evento crucial na história do cristianismo

Marcos De Benedicto

Crédito: Fotolia / Eduardo Olszewski

Em 1500, o mundo era menor e não tão redondo, pois muitos ainda tinham a ideia de que a Terra fosse plana. A população mundial, aproximadamente 500 milhões, sendo 100 milhões na Europa e na Rússia, era uma fração dos 7,5 bilhões de hoje. Lutero, com 17 anos, ainda não era o gigante que conhecemos. A Mona Lisa, que seria pintada em 1503, talvez somente existisse na imaginação de Leonardo da Vinci. Tampouco Michelangelo havia pintado o teto da Capela Sistina, obra-prima iniciada em 1508 e concluída em 1512. Uma versão informal do famoso livro de Nichollò Machiavelli, O Príncipe, circularia em 1513, mas a obra somente seria publicada em 1532, após a morte do autor.

A Europa ainda não conhecia o chocolate, que seria levado do México para a Espanha em 1520. O Sol ainda “girava” em torno da Terra, pois o livro de Copérnico provando o contrário seria publicado em 24 de maio de 1543 (no dia da morte do astrônomo). A Bíblia já vinha sendo impressa em latim desde 1450 por Gutenberg, mas o Novo Testamento em grego preparado por Erasmo de Roterdã, que serviria de base para várias versões em línguas europeias, somente surgiria em 1516. Enfim, muitos fatos marcantes que conhecemos ainda não eram fatos.

No entanto, o mundo passava por grandes turbulências e profundas transformações. Na esfera política, o Sacro Império Romano, que abrangia toda a parte central da Europa, reunindo mais de 300 estados independentes e cidades livres, estava se fragmentando. Na área das conquistas marítimas, as viagens de Cristóvão Colombo e outros ampliavam o conceito de mundo. No campo da tecnologia, a invenção dos tipos móveis e o barateamento do papel possibilitaram a divulgação das ideias. No plano artístico, a Renascença voltou o olhar para o passado greco-romano clássico e deu novo impulso à arquitetura, à pintura e à literatura. Na arena religiosa, as mudanças da Reforma afetaram o modo de ler a Bíblia, a arquitetura das igrejas, a organização do espaço sagrado, o conceito de adoração e a unidade do cristianismo, para citar uns poucos aspectos. Tudo isso serviu de contexto cultural para o desenvolvimento da modernidade.

Essa revolução foi possível por uma combinação de fatores e ocorreu em múltiplas áreas. Não foi um evento, mas um processo caótico, com muitas camadas, tensões, diferentes cronologias e diversas geografias. Um aspecto que não deve ser minimizado é o social. As condições de vida do povo eram precárias. Já a nobreza tinha grandes privilégios. Várias vozes expressavam o desejo de uma reconfiguração política, econômica e social.

Crise na igreja

Mudando o foco do cenário geral para o palco religioso, o que vemos? No vácuo da queda do Império Romano no Ocidente, em 476, a igreja assumiu o poder, cumprindo a profecia do “chifre pequeno” de Daniel 7, e por mil anos vinha dominando boa parte do mundo civilizado. Porém, nesse processo, a extensão do território, o peso dos projetos grandiosos, a burocracia da máquina político-religiosa, o ritual do poder, a corrupção do clero e a deturpação do evangelho de Cristo tiveram um preço. O principal aspecto que capitalizou a atenção de Martinho Lutero e o levou a pregar as 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, foi a venda de indulgências. Entretanto, a situação era tão ruim?

Nessa época, a igreja havia se tornado um império político-religioso com todos os vícios e corrupções que o poder desperta. Por exemplo, o rico Rodrigo Borgia, que comprou o posto de pontífice supremo no conclave de 1492 e assumiu o ambicioso nome de Alexandre VI, tinha seis filhos e três filhas de várias mulheres e amantes, sendo que a mais bonita, Giulia Farnese, era apenas uma menina de 15 anos quando cedeu à paixão e sedução do religioso. O temperamental, belicoso e guerreiro Júlio II, apelidado de Júlio o Terrível, lançou uma campanha massiva de vendas de indulgências (ou seja, perdão dos pecados e compra da salvação) para (re)construir a Basílica de São Pedro. O pródigo Leão X, eleito por meios escusos, teria dito: “Deus nos deu o papado. Vamos desfrutá-lo!” E foi o que fez, vendendo indulgências como nunca para financiar seus projetos e extravagâncias. Em 16 de março de 1517, ele encerrou o concílio convocado em 1512 por Júlio II e que sugeria mudanças. Em vez de reformar a igreja, ele lançou uma Cruzada contra os turcos e aumentou os impostos para pagar a conta. Foi o papa Leão X
quem excomungou Lutero em 1520.

Na Idade Média, como pontífice máximo, o papa aspirava a governar o mundo inteiro. Nessa aristocracia religiosa, o Colégio Sagrado era uma espécie de senado. Na época da Reforma, para assegurar seu poder monárquico
e até mesmo tirânico, os papas Sisto IV e Alexandre VI começaram a nomear cardeais-príncipes de seu interesse – filhos, sobrinhos e amigos leais. As funções religiosas se tornaram essencialmente políticas. Nesse contexto, o chapéu cardinalício, é claro, valia uma grande quantidade de dinheiro e se tornou o alvo das ricas famílias europeias. A política era um xadrez mundano disputado pelo papa, os cardeais e os reis.

O aparato papal era um instrumento para realçar seu poder, a começar pelos impressivos rituais de escolha, coroação e posse. Desde o papa Júlio II, a cerimônia de coroação passou a ser distinta da cerimônia de posse. No século 16, conforme descreve Irene Fosi em seu capítulo no livro Court and Politics in Papal Rome, 1492-1700, o papa era eleito na Basílica de São Pedro e fazia uma cavalgada pelos pontos mais emblemáticos da glória de Roma, como o Fórum, o Arco de Constantino e o Coliseu, símbolos históricos ressacralizados e revitalizados pela presença da igreja. À moda das antigas entradas triunfais, o caminho processional incluía quatro momentos: exitus (saída do Vaticano), ascensus (subida à Colina Capitolina), triumphus (vitória do Novo Testamento sobre o Antigo) e introitus (entrada na Basílica de Latrão, onde o papa recebia as duas chaves, que simbolizavam o poder espiritual e o temporal). Na terceira fase, sob o Arco de

Tito, conquistador de Jerusalém, para simbolizar a superioridade de Roma sobre Jerusalém, representantes da comunidade judaica entregavam ao papa as leis mosaicas.

Na época da Reforma, para citar outro aspecto, a superstição era a regra. O culto das relíquias era somente um dos sintomas da religiosidade problemática. Frederico III (1463-1525), também conhecido como Frederico, o Sábio, o príncipe eleitor da Saxônia que garantiu que Lutero fosse julgado na Alemanha e não em Roma, tinha uma vasta coleção de relíquias. O catálogo incluía cinco peças da mesa em que Jesus tomou a Última Ceia com os discípulos, três pedaços da pedra onde o Mestre suou gotas de sangue, um fio da barba de Jesus, oito espinhos da coroa de Cristo e 22 peças da santa cruz… Há quem diga que o acervo ultrapassava 9 mil peças!

Questão central

Em várias frentes a igreja apresentava dificuldades. Mas o que realmente desencadeou a Reforma? O estopim foi a venda de indulgências. Esse mecanismo para eliminar a culpa e garantir benefícios ao pecador surgiu no contexto da primeira Cruzada (1096-1098). Na teologia católica, os pecados eram perdoados e absolvidos pelo sacramento da penitência, mas ficavam alguns “resquícios” que precisavam de um mérito extra a fim de que a pessoa não sofresse no purgatório. As indulgências davam direito a esse mérito. Inicialmente, elas visavam prover “crédito” para os soldados das Cruzadas. Depois, o alcance delas foi ampliado.

As explicações teológicas também foram aprofundadas. Por exemplo, o teólogo inglês Alexander de Hales (1185-1245) argumentou que a fonte das indulgências era um “tesouro de méritos” acumulado pelo excesso de
virtudes de Cristo e dos santos. O papa tinha o poder de canalizar esses méritos para o “caixa” zerado dos pecadores. Com o tempo, a suposta eficácia das indulgências se tornou ainda maior, e o programa de vendas também. Na época da Reforma, as indulgências funcionavam como compra da salvação. Foi contra esse comércio do perdão que Lutero protestou.

Aqui entra a questão da justificação pela fé. Sendo monge agostiniano dedicado, Lutero tentava agradar a Deus para conseguir o favor divino. No entanto, não encontrava paz. Tinha uma visão distorcida de Deus. Até que, lendo Romanos e Gálatas, ele percebeu que a justiça não é algo que Deus exige, mas que oferece. Isso o levou ao conceito de que o ser humano é salvo totalmente pela graça. Em Cristo, Deus declara justo o pecador. Assim, sua ênfase foi deslocada do fazer humano para o efetuar divino (Rm 3:28).

Não há consenso sobre a existência ou não de precursores medievais para o pensamento dos reformadores sobre a salvação. Porém, para nossos propósitos, isso não vem ao caso. O fato é que, assim como ocorreu com Lutero, a Reforma foi uma redescoberta do evangelho, cuja definição funcional mais antiga veio do apóstolo Paulo: “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que Nele crê” (Rm 1:16).

Nos meios protestantes, a justificação passou a ser conhecida como “o artigo pelo qual a igreja permanece de pé ou cai”. Lutero disse uma frase parecida, que se encontra no volume 40 de suas Obras Completas em alemão: “Se este artigo está de pé, a igreja está de pé; se este artigo cai, cai a igreja”. Mas foi Johann Heinrich Alsted, em sua obra Theologia Scholastica Didacta (1618), quem cunhou a expressão definitiva. Conceito-chave para a exclusividade do cristianismo, a justificação revela a gravidade do pecado, a extensão da graça, a profundidade do amor, o desejo de reconciliação e a beleza do caráter de Deus.

Um dos problemas da espiritualidade católica medieval é que, na prática, Cristo não era o centro exclusivo da salvação e da mediação. Havia um aparato em torno Dele e da cruz na religiosidade popular. Apesar dessas manifestações visuais, Jesus era visto de maneira distorcida. Os reformadores procuraram resgatar o papel Dele como única fonte de salvação e a personificação do evangelho.

Um terceiro aspecto da Reforma a ser destacado aqui é a redescoberta da Bíblia como autoridade suprema em matéria de fé e prática. Na época, a igreja de Roma não negava a inspiração das Escrituras. O problema é que ela colocava a tradição, incluindo as decisões de concílios, no nível (ou acima) do livro sagrado. A Reforma representou uma mudança radical nesse aspecto. Ela deslocou a fonte de autoridade do papa para a Bíblia. Assim, cada um podia estudar e interpretar a revelação divina.

Além disso, os reformadores ajudaram a popularizar as Escrituras. Antes da Reforma, já existiam várias traduções para idiomas da época. Porém, a Reforma deu um novo ímpeto à tradução e divulgação da Palavra de Deus. Calcula-se que, entre 1520 e 1640, mais de 1,3 milhão de cópias da Bíblia (ou do Novo Testamento) tenham sido impressas na Inglaterra. Isso fez a diferença, especialmente porque a cultura religiosa católica era toda em latim, e o sermão era o único momento em que muitas pessoas conseguiam entender algo. Ler a Palavra de Deus na própria língua abriu novos horizontes.

A influência da Reforma foi marcante em muitas outras áreas, como o culto, a participação dos membros nos ofícios da igreja e a ética trabalhista. Por exemplo, o pensamento de Lutero sobre a liberdade do cristão influenciou profundamente a intelectualidade alemã. Até a liturgia e o ambiente físico passaram por uma releitura. Para os luteranos, os elaborados rituais católicos e o aparato visual das igrejas eram uma forma de desviar a atenção da Bíblia e de tirar o foco de Cristo e de Seu sacrifício.

Complementaridade

A Reforma foi a união de muitas personalidades, além, é claro, da ação divina. Sem essa cooperação, seu sucesso seria improvável. O próprio humanismo de Erasmo de Roterdã (1466-1536) ajudou a moldar o pensamento reformista, o que deu origem ao dito popular: “Erasmo botou o ovo e Lutero o chocou.” No entanto, é importante ressaltar que o conciliador Erasmo criticou certas abordagens e doutrinas do impetuoso Lutero, distanciou-se do movimento reformista e jamais deixou o catolicismo.

Para promover sua causa entre a juventude, a Reforma tentou surfar na onda de popularidade do humanismo nos meios mais sofisticados intelectualmente. Contudo, as propostas dos dois movimentos não eram iguais. Enquanto o humanismo era mais elitizado, cultural e secularizado, o reformismo tinha um foco religioso e atendia aos anseios de múltiplas camadas sociais. Se o humanismo influenciou a Reforma, em contrapartida foi influenciado e suplantado por ela.

O intercâmbio entre os reformadores também foi providencial. Uma das conexões da Reforma veio da Inglaterra e passou pela Boêmia (na atual República Tcheca). John Wycliffe (1330-1384), a estrela da manhã da Reforma, além de questionar o poder dos clérigos em transformar o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo, ensinou que Cristo é a única cabeça da igreja, popularizou a Bíblia e conquistou muitos seguidores. Por meio de estudantes tchecos em Oxford, seus escritos, ideias e influência chegaram a Praga, onde ajudaram a transformar o futuro reitor da universidade da cidade, Jan Hus (1369-1415), em um novo reformador.

Por sua vez, antes de ser queimado por suas ideias, Hus (“ganso” em tcheco) teria feito uma profecia: “Vocês podem cozinhar este ganso [Hus], mas dentro de um século surgirá um cisne que prevalecerá.” Um século depois, Martinho Lutero aplicou a profecia de Hus a si mesmo, considerando-se o “cisne” cujo canto não poderia ser silenciado.

O fato de a Reforma ter ocorrido por uma soma de influências é um lembrete de que a igreja não é lugar de figuras solitárias ou dominantes. Martinho Lutero era notável, embora difícil, mas não deve ser visto como um gênio solitário. Personalidade vibrante, figura mais famosa da Europa na época, uma estrela da mídia impressa com uma influência desproporcional e uma voz que transcendia o círculo acadêmico e chegava ao povo, sua rotina diária “era preenchida com horas coloridas e emocionais entre amigos, colegas, parentes e críticos”, diz o biógrafo Scott Hendrix (veja o quadro “Personalidade intensa”).

“Lutero e Calvino nunca se encontraram, mas trocaram cartas”, e numa delas o reformador de Genebra disse que gostaria de desfrutar da “felicidade” da companhia do reformador alemão nem que fosse “por algumas horas”, relata outro biógrafo, Stephen Nichols. Porém, não sendo possível na Terra, esperava que isso acontecesse “no reino de Deus”.

A Reforma somente foi possível por esse tipo de complementaridade, que também foi vista entre o pacífico Philipp Melanchthon (1497-1560) e o agitado Lutero. É interessante que Melanchthon foi aluno de teologia de Lutero, que, por sua vez, estudou grego com o amigo mais jovem.

Nova Reforma

Carlos Eire, professor na Universidade Yale (EUA) e um especialista na história da Reforma, disse em uma entrevista para o site norte-americano CBN News que Lutero ficaria surpreso com a celebração de 2017. Primeiro, “Lutero esperava que o mundo fosse terminar durante sua vida ou pouco depois”, ele comenta. De fato, Lutero vivia em um mundo diferente e acreditava na iminência do fim. Em certo sentido, o mundo em que ele vivia realmente chegou ao fim. Em segundo lugar, pontua Eire, “se Lutero pudesse viajar no tempo, ele ficaria chocado com o mundo cristão de hoje e o fato de tão poucos europeus frequentarem a igreja”. O secularismo do continente o assustaria e seria combatido por ele.

Talvez Lutero ficasse ainda mais abalado com a desconstrução da Reforma. Hoje há uma tentativa de desfazer a divisão comprometendo a mensagem. Em 1994, um grupo de líderes/teólogos evangélicos e católicos divulgou uma declaração intitulada “Evangélicos e Católicos Juntos: A Missão Cristã no Terceiro Milênio”. Embora o documento não tenha sido assinado por representantes eclesiásticos oficiais, ele causou surpresa e reações acaloradas. Em resposta, o conceituado teólogo anglicano James Packer explicou que havia assinado a declaração porque “aqueles que amam o Senhor devem permanecer juntos”. A esperança era de que o documento pudesse ter reverberações e “mudar padrões estabelecidos de comportamento”. De fato, o documento sinalizou uma mudança de atitude no relacionamento entre católicos e evangélicos, elevando o nível intelectual da discussão. Isso não quer dizer que as narrativas de cada grupo tenham mudado de uma hora para outra.

Apesar dos conflitos históricos entre catolicismo e protestantismo, a percepção das diferenças doutrinárias diminuiu e está facilitando a reaproximação (veja o quadro “500 anos depois”). O relatório da pesquisa divulgada pelo Pew Research Center no fim de agosto comenta que “as diferenças teológicas que racharam o cristianismo ocidental nos anos 1500 diminuíram a um nível que teria chocado os cristãos dos séculos passados”. Porém, a que preço? Enquanto muitos tentam desconstruir a mensagem da Reforma, o melhor caminho é desconstruir a belicosidade, mas aprofundar as reformas. A unidade é um grande valor, mas não está acima da verdade. A história da Reforma sinaliza uma rota para a descoberta do que pode e deve ser feito para que o cristianismo recupere seu frescor, sua relevância e seu poder. Não precisamos do fim da Reforma, mas de uma Reforma contínua.

MARCOS DE BENEDICTO, doutor em Ministério, é redator-chefe da Casa Publicadora Brasileira

(Matéria publicada originalmente na edição de outubro de 2017 da Revista Adventista)