Restaurador do sábado

O ex-sacerdote franciscano que resgatou a verdade bíblica sobre o sábado durante a Reforma Protestante

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Quando se discute a observância do sábado ao longo da história, normalmente se destaca momentos-chave da história religiosa, como a prática apostólica de ir às sinagogas aos sábados (Lc 23:56; At 13:14, 42; 17:2) e a resistência dos valdenses em aceitar o domingo como dia de guarda. Curiosamente, por alguns séculos o sábado foi esquecido pelos historiadores até reaparecer misteriosamente com os batistas sabatistas. Esse movimento é bastante popular no meio adventista, pois foi graças a ele que a verdade sobre o quarto mandamento chegou ao adventismo por meio de Rachel Oaks, uma batista sabatista que, na primavera de 1844, confrontou Frederick Wheeler sobre a importância de guardar todos os mandamentos de Deus. Essa crença foi transmitida a Thomas Preble que, ao escrever sobre o assunto em Hope of Israel, convenceu José Bates e John N. Andrews sobre a validade eterna do sábado como dia sagrado.

Embora Ellen White tenha enfatizado em O Grande Conflito que “em cada época houve testemunhas de Deus – homens que […] santificavam o verdadeiro sábado” (p. 61), há pouca informação a respeito da restauração dessa doutrina bíblica durante a Reforma Protestante. Sabemos que Lutero e Calvino rejeitaram a santidade do sábado e mantiveram a guarda do domingo em suas congregações. No entanto, houve um grupo que, por rejeitar essa atitude dos primeiros reformadores, foi considerado radical. Entre essas pessoas estavam os anabatistas.

O anabatismo é uma ramificação do protestantismo que, na tentativa de interpretar a Bíblia de maneira mais literal, afastou-se dos ensinos de Lutero e Calvino. Um dos ensinamentos que tornou mais conhecido o movimento tem que ver com o batismo (que deu origem ao próprio nome). Eles rejeitavam a prática católica de batizar crianças, pois acreditavam que o batismo se aplica unicamente a uma pessoa que, em plena maturidade mental, esteja disposta a aceitar Jesus como Salvador.

Entre os diversos grupos de anabatistas que existiram durante a metade do século 16, um é mencionado por ser sabatista e aceitar unicamente a divindade do Pai (Mennonite Quarterly Review 24, p. 48, 49). Ele se concentrava em Austerlitz, na Morávia, região sudeste da atual República Tcheca. Não se sabe exatamente quantos sabatistas havia na região, mas, em uma lista apresentada por Stredovsky, os sabatistas apareceram em terceiro lugar, depois dos luteranos e calvinistas, grupos protestantes de maior expressão na época. Isso dá a entender que, entre os anabatistas, os sabatistas formavam um grupo numeroso e consolidado (Andrews University Seminary Studies, nº 5, p. 106). A fama desse grupo era tamanha, que suas ideias chegaram aos ouvidos de Lutero, na Alemanha, e de Erasmo, na Inglaterra. Embora ambos rejeitassem as propostas sabatistas (Lutero até escreveu uma Carta contra os Sabatistas, em 1538), o fato de ambos conhecerem os avanços desse grupo é digno de nota.

Principal expoente

Entre os anabatistas sabatistas daquela época, o mais famoso foi Oswald Glaidt, que viveu de 1490 a 1546, aproximadamente. Ele nasceu em Cham, no Estado do Alto Palatinado, Alemanha. Antes de se unir ao anabatismo, foi sacerdote franciscano. No início da Reforma, ele se uniu aos luteranos e passou a atuar em Leoben, na Áustria. Devido à preferência austríaca pelo catolicismo, Glaidt foi expulso do território e se viu forçado a morar na Morávia.

Enquanto atuava no novo território, Glaidt foi convidado por Jan Dubcansky a participar na organização de um sínodo em Austerlitz, na tentativa de unificar os evangélicos da região. Glaidt também serviu de secretário desse encontro entre luteranos e hussitas, publicando, sob seu nome, os acordos obtidos durante o encontro. Como comenta Daniel Liechty em Sabbatarianism in the Sixteenth Century (Andrews University Press, 1993, p. 17), o fato de a obra receber unicamente o nome de Oswald Glaidt na capa leva a crer que os conceitos ali apresentados também refletiam sua opinião.

Em julho de 1526, Balthasar Hubmaier, grande teólogo e escritor anabatista, chegou em Nikolsburg, cidade em que Glaidt estava atuando. Sua pregação e influência converteu o sacerdote franciscano e toda a sua congregação ao anabatismo. Em poucos anos, os anabatistas naquela cidade chegaram a 12 mil.

Não há evidência de que Glaidt já acreditasse no sábado durante o período em que seguiu Hubmaier. No entanto, ao analisar um cântico intitulado “Os Dez Mandamentos”, publicado por Glaidt durante esse período, Daniel Liechty observou que, por esse tempo, ele já apresentava interesse no Decálogo e entendia sua relevância para o cristão. Ao contrário da dicotomia luterana entre a graça e a lei, Glaidt entendia essa última como uma evidência da graça divina concedida à humanidade. Deus havia oferecido não somente salvação ao pecador, mas também Sua lei.

Pouco tempo depois, a relação entre Glaidt e Hubmaier se desgastou. Hans Hut estava na cidade de Nikolsburg pregando uma nova mensagem escatológica. Para ele, o fim chegaria em breve e os cristãos dominariam o mundo inteiro, literalmente e fisicamente. Em pouco tempo, os líderes anabatistas começaram uma disputa teológica sobre o uso de armas. Glaidt optou pela posição pacifista. A discussão ficou tão intensa que ele se viu forçado a abandonar Nikoslburg, acompanhando Hut até Viena.

Em meados de 1527, Oswald começou a proclamar a mensagem do sábado. Especialistas não sabem dizer se ele obteve esse ensinamento de outra pessoa, ou se a descobriu sozinho. De seus esforços evangelísticos, Oswald conseguiu um discípulo que o seguiria pelo resto da vida, dando, inclusive, continuidade ao seu trabalho: Andreas Fischer.

Batizado por Glaidt entre 1527 e 1528, ele se tornou um dos principais propagadores da mensagem sabatista entre os anabatistas, visitando os vilarejos da região da Silesia e publicando folhetos sobre o sábado. Ambos defendiam que “o sétimo dia da semana, o sábado, é o memorial da Criação e da aliança eterna, confirmado por Cristo e a observância dos apóstolos, mas que foi alterado ‘pelo papa Vitor I e Constantino’” (The Radical Reformation, 3ª ed., 1992, p. 626). Gerhard Hasel estabelece a data do nascimento do anabatismo sabatista como sendo entre o ano 1527 e 1528, em Nikolsburg, Morávia.

Glaidt começou a propagar sua mensagem e a acumular seguidores nas cidades da Silesia. Uma das discussões que ele travou sobre o assunto do sábado foi com Caspar Schwenckfeld e seu associado, Valentine Krautwald. Em decorrência dessa disputa, em 1530 Glaidt publicou um livro intitulado Buchlenn vom Sabbath (Acerca do Sábado, em tradução livre). Infelizmente, nenhuma cópia dessa obra sobreviveu. Portanto, o que sabemos sobre suas ideias veio por meio daquilo que seus opositores contestaram.

O ensino sabatista

As informações que temos acerca de suas ideias e teologia foram extraídas das obras de Caspar Schwenckfeld, especialmente sua refutação ao livro de Glaidt, publicada sob o título Vom Christlichen Sabbath und Unterschaidt des alten und newen Testaments (Sobre o Sábado Cristão, Conforme o Antigo e Novo Testamento). Schwenckfeld foi uns dos poucos que, em seus dias, realmente se dava o trabalho de ler as publicações de seus oponentes na tentativa de retratar suas ideias fidedignamente. Para ele, essa prática era uma questão de honra.

Ao analisar o trabalho de Schwenckfeld, Hasel ressaltou que a comunidade sabatista que existia em Silesia era resultado do trabalho de Glaidt, já que Schwenckfeld o apontava como o professor principal e fundador da comunidade.

Glaidt fundamentava suas ideias acerca do sábado na autoridade das Escrituras e a interpretação literal delas. Na sua perspectiva, havia uma continuidade entre os ensinos do Antigo e do Novo Testamento. Por isso, Cristo e os discípulos não aboliram a observância dos Dez Mandamentos. Sua confiança na perpetuidade da lei foi tamanha que ele chegou a afirmar que, caso Jesus de Nazaré tivesse abolido o Decálogo, ele não creria que Jesus era o verdadeiro Messias.

Glaidt também chamou a atenção dos seus opositores para o fato de que, embora Paulo se opusesse à prática da circuncisão na igreja cristã apostólica, ele continuou guardando o sábado. Glaidt ainda defendia que, embora a circuncisão tivesse sido iniciada com Abraão, a guarda do sábado já existia muito tempo antes; que essa lei e outras dadas a Moisés já tinham sido entregues a Adão na Criação, e, portanto, deveriam ser guardadas por toda a humanidade. Já antecipando qualquer desculpa de que o sábado deveria ser guardado espiritualmente, Glaidt perguntou certa vez como deveria o sábado ser guardado espiritualmente se o mandamento ordena que até o gado descanse no sábado.

No entanto, o principal argumento de Glaidt em favor do quarto mandamento estava relacionado ao número dos Dez Mandamentos. Glaidt defendia a posição de que Deus não havia concedido oito nem nove mandamentos, mas dez. “Ou o sábado deve ser observado também, ou todos os nove mandamentos devem ser rejeitados”, ele afirmou.

Últimos anos

Infelizmente, em 1532, entediado de Glaidt, o duque de Silesia o expulsou de seu território. Não há registros detalhados do que aconteceu com ele depois desses eventos. Porém, é sabido que ele tentou se instalar na Prússia, embora um decreto do Duque de Albrecht o tenha expulsado dali também. Em seu estudo sobre o anabatismo sabatista, Gerhard Hasel cogitou que ele tivesse ido posteriormente para Falkenau, na Boêmia, haja vista que, pouco tempo depois, uma comunidade sabatista foi fundada ali.

Em relação aos últimos dias do reformador, historiadores descobriram que, cerca de um ano depois de ter sido aprisionado, Glaidt foi levado à noite até as margens do riu Danúbio e morto por afogamento na cidade Viena, em 1546.

Embora não existam muitas informações disponíveis sobre o mártir, sabemos o suficiente para afirmar que a doutrina do sábado também foi resgatada durante a Reforma Protestante. Oswald Glaidt é mais um elo na grande cadeia de fiéis que transmitiram a tocha da verdade ao longo da história do cristianismo.

GLAUBER ARAÚJO, pastor e mestre em Ciências da Religião, é editor de livros na Casa Publicadora Brasileira e organizador da obra A Reforma Protestante: uma Visão Adventista