Protesto e liberdade

Professor da Universidade Andrews fala sobre a contribuição do protestantismo para a defesa das liberdades individuais

Por Lisandro Staut

Depois de 500 anos do início da Reforma Protestante é natural que sejam feitas releituras desse movimento, bem como das ideias e biografia dos seus líderes. Esse esforço pode ser válido no sentido de nos ajudar na compreensão do que foi a Reforma e suas implicações para o mundo moderno, além de evitar que figuras históricas sejam canonizadas, algo comum no contexto religioso.

Apesar da aparente inconsistência de alguns reformadores quanto à promoção das liberdades individuais e da separação entre Igreja e Estado, a Reforma foi, sem dúvida, um marco inicial de uma mudança de paradigma que ainda segue seu curso.

Quem tem propriedade para falar sobre o assunto é Nicholas Miller, teólogo com formação em Direito, que há dez anos ensina sobre história da igreja, liberdade religiosa e teologia adventista na Universidade Andrews (EUA). O interesse dele pelo tema resultou no livro 500 Years of Protest and Liberty: From Martin Luther to Modern Civil Rights (500 Anos de Protesto e Liberdade: De Martinho Lutero aos Direitos Civis Modernos), lançado em junho. Nesta entrevista, o doutor Miller visita o passado e analisa o presente para apontar desdobramentos futuros da promoção das liberdades e direitos civis.

Em termos de liberdade religiosa, qual era o cenário da Europa antes da Reforma?

Antes da Reforma, as instituições eram muito mais importantes do que os indivíduos. O conhecimento verdadeiro sobre questões espirituais foi considerado por muito tempo propriedade especial dos papas e dos sacerdotes. Não havia noção significativa de direitos individuais. Por ironia, nessa época o mundo muçulmano era mais tolerante do que a cristandade. Enquanto nos países cristãos era vetado que judeus, muçulmanos e dissidentes cristãos adorassem abertamente, nos estados muçulmanos, os cristãos e judeus, embora tivessem que pagar impostos específicos, geralmente usufruíam do direito de viver, trabalhar e cultuar.

Como exatamente a Reforma se tornou um fatorchave para essa mudança de paradigma?

Penso que a questão-chave tenha sido o ensinamento de Lutero sobre o princípio da sola Scriptura (que a Bíblia tem primazia sobre a tradição) e do sacerdócio de todos os crentes, o que tornou o indivíduo muito mais importante do que era. Ao enfatizar que o cristão tem acesso direto a Deus por meio da oração e do estudo pessoal da Bíblia, passou a fazer mais sentido falar em proteção da consciência individual. Foi a partir dessa semente que floresceram outros direitos ligados à dignidade humana. E foram essas ideias que levaram os protestantes a ver que, assim como o papa não era a autoridade final em assuntos religiosos, o rei também não cumpria esse papel nas questões políticas.

A liberdade de crença era um ideal dos reformadores ou foi um efeito colateral involuntário da Reforma?

A ideia de liberdade estava no cerne do pensamento inicial de Lutero. Nos seus primeiros escritos na década de 1520, ele deixou claro que os magistrados não deveriam decidir sobre heresia nem definir quais livros poderiam ser lidos. Ele escreveu que os governantes civis deveriam cuidar dos assuntos temporais, enquanto os líderes espirituais se encarregariam das questões religiosas, mas sem usar a força da espada; apenas a persuasão da Palavra. Mais tarde, ele mudou sua posição por razões políticas e pragmáticas, mas seus primeiros escritos influenciaram os anabatistas e batistas, que replicaram esses conceitos na Inglaterra e, posteriormente, na América, por meio de Roger Williams, John Milton e John Locke.

Por que, 500 anos depois, o espírito da Reforma ainda é importante para a igreja?

Porque a Reforma ainda não foi concluída. Na América atual, por exemplo, muitas pessoas estão questionando a diginidade humana com base nas diferenças raciais, étnicas e religiosas. Estamos começando a duvidar ou a esquecer que esses direitos têm que ver com a crença de que fomos feitos à imagem de Deus e que temos livre acesso a Ele.

Os adventistas mantiveram a chama da Reforma, reafirmando, por exemplo, o princípio da sola Scriptura. E quanto à liberdade religiosa?

Temos sido muito ativos no campo da liberdade religiosa, trabalhando em nome de nossos membros e de outros grupos religiosos. Em agosto, por exemplo, participei de um congresso global da International Religious Liberty Association com 500 pessoas na Flórida. E na semana seguinte fui à Universidade de Princeton, onde estudiosos e advogados adventistas se encontraram com especialistas de outros grupos para trabalhar no desenvolvimento de um quadro intelectual e jurídico da liberdade religiosa. Historicamente, essa área tem sido um dos grandes esforços da Igreja Adventista na construção de pontes.

Como Ellen White e os pioneiros lidaram com a defesa da liberdade religiosa?

Ellen White foi uma forte defensora da liberdade religiosa. Ela escreveu que repousa sobre o povo de Deus no tempo do fim a responsabilidade de erguer essa bandeira (Atos dos Apóstolos, p. 68 e 69). Para os pioneiros, liberdade não tinha que ver apenas com o direito de guardar o sábado, mas com uma revelação do caráter amoroso e justo de Deus, que concede liberdade a todos: crentes e não crentes.

Falar sobre liberdade e direitos civis é pensar também no diálogo com aqueles grupos que reivindicam questões contrárias à nossa fé. O que deveria nortear nossa postura?

Os pioneiros adventistas e dos Estados Unidos acreditavam que há diferença entre liberdade e licenciosidade. Para eles, o compromisso com a liberdade não significava que todo tipo de comportamento moral fosse aceitável ou legalizado. Na compreensão protestante dos séculos 17 a 19, respeitar a liberdade individual dos cidadãos de seguir os princípios da primeira tábua dos Dez Mandamentos não era incoerente com esperar que o Estado fornecesse orientação e leis sobre os mandamentos da segunda tábua. Essas matérias da segunda tábua, que tratam de questões como roubo, assassinato, perjúrio e imoralidade sexual, têm relação com o que chamamos de lei natural, que ensina a todos, cristãos e não cristãos, que certos princípios morais fazem com que indivíduos e sociedades funcionem de maneira mais saudável e feliz. Penso que as igrejas, instituições confessionais e as empresas dirigidas por pessoas religiosas não devem ser forçadas a aceitar em seu quadro de membros e/ou funcionários aqueles que assumem um estilo de vida divergente dos ideais dessas organizações.

No seu livro mais recente, o senhor fala sobre as conexões entre Martinho Lutero e Martin Luther King Jr. Existe ainda a necessidade de reformadores em nossa sociedade?

Absolutamente! Sempre que houver concentração e uso indevido de poder, vozes conscientes precisarão ser erguidas. Isso se faz necessário especialmente no campo da cultura americana de hoje, quando o clima político não tem favorecido os grupos minoritários. Como igreja, acredito que estamos começando a entender nossa responsabilidade de apoiar e defender os direitos dos mais vulneráveis como parte da nossa missão.

Como cada adventista pode ajudar na promoção da liberdade religiosa e dos direitos civis?

Precisamos nos envolver mais com uma série de questões sociais, assim como nossos pioneiros, e falar não apenas sobre o reino de Deus em sua dimensão futura, mas trabalhar para promover os princípios do reino aqui e agora, como cristãos e cidadãos. Isso significa, por exemplo, promover a liberdade religiosa para as minorias, proteger os direitos das crianças de ter mãe e pai, atuar em favor dos imigrantes perseguidos e ajudar na alfabetização e nos cuidados com a saúde dos mais pobres. Todas essas atitudes fazem parte da nossa herança adventista, talvez só precisamos redescobri-la.

SAIBA +

Doutor da lei

Nicholas Patrick Miller é professor na Universidade Andrews (EUA). Graduado em Teologia e Direito, ele cursou o programa de PhD na Universidade de Notre Dame com ênfase na história religiosa e jurídica americana. Antes de lecionar no seminário, Miller trabalhou como advogado e chegou a colaborar na elaboração da legislação federal que protege a liberdade religiosa nos Estados Unidos. Autor de inúmeros artigos sobre o tema, ele escreveu e editou alguns livros. Miller gosta de surfar, mergulhar, escalar, andar de bicicleta, tocar trompete e jogar basquete e futebol com os três filhos: Patrick, Kelli e Nicole. Ele é casado com Leanne, que é cantora e violinista.

(Entrevista publicada originalmente na edição de outubro de 2017 da Revista Adventista)