Reformas na música

Saiba como a compreensão teológica a respeito da função do culto alterou a compreensão quanto ao uso da música

Joêzer Mendonça

Martinho Lutero e sua família. Quadro de Gustav Adolf Spangenberg (1866)

Durante a Reforma Protestante, ocorrida no século 16, as mudanças teológicas foram acompanhadas de mudanças musicais. Aliás, mais do que servir à liturgia, a música foi usada para divulgar os ensinos bíblicos redescobertos pelos protestantes. Para Martinho Lutero, depois da Bíblia, a música merecia o mais alto crédito. Em termos práticos, ele deu centralidade ao ensino judicioso e diligente da Bíblia e, ao mesmo tempo, valorizou a música como ferramenta de instrução e edificação da igreja.

Mas para que esse pensamento se concretizasse foram necessárias algumas mudanças. Até o período inicial da Reforma, os cristãos tinham pouca participação na liturgia. A missa era falada e cantada em latim e a música costumava ser apresentada por coros profissionais de padres e monges. Essa música, a qual chamamos de canto gregoriano, era bonita de ouvir e difícil de aprender, principalmente devido à técnica do canto melismático (quando uma sílaba é cantada com várias notas). Os músicos ligados à Reforma foram incentivados a preservar esse canto belo, mas complexo, mas também foram largamente estimulados a compor cânticos com melodias mais simples. Em carta a Jorge Espalatino, em 1523, Lutero escreveu: “A fim de ser entendido pelo povo, somente as palavras mais simples e mais comuns deveriam ser usadas para o canto; ao mesmo tempo, elas devem ser genuínas e apropriadas”.

Para Lutero, o principal propósito da música era favorecer o aprendizado do evangelho. Com essa intenção, ele promoveu a composição de novos corais que expressassem a crença evangélica. Lutero também se preocupava com a educação musical de leigos, pastores e professores, com o suporte financeiro da música nas igrejas, com a composição de corais para o canto comunitário e para a liturgia oficial.

Em suma, a noção de que a música era uma ferramenta prática de louvor e propagação do evangelho mobilizou a participação musical da congregação e a valorização da educação musical como fator de aprimoramento artístico destinado a todos, e não exclusivo da formação de músicos profissionais.

Partitura do hino Castelo Forte, composto por Lutero

Durante a Reforma do século 16, conviviam, nem sempre amistosamente, diferentes interpretações teológicas que, por sua vez, apoiavam atitudes diferentes quando o assunto era a música nos cultos. Exemplos dessas divergências teológicas e musicais podem ser encontrados nos pensamentos dos reformadores João Calvino (1509-1564) e Ulrich Zuínglio (1484-1531).

Enquanto a visão teológica de Lutero via a missão da igreja no contexto de atuação no mundo, a perspectiva de Calvino sustentava que a igreja não tinha propósitos para com o mundo. O princípio calvinista de “eleição”, doutrina a respeito da decisão divina que predestina um grupo de escolhidos para a salvação ou para cargos especiais no serviço religioso, motivava uma disciplina ascética e forte sectarismo. A austeridade calvinista produziu templos modestos e despojados do exuberante estilo arquitetônico das catedrais góticas e renascentistas e, também, desestimulou a variedade musical observada na reforma luterana.

Em Genebra, na Suíça, Calvino recuperou a utilização de música na liturgia, pois os cultos haviam excluído a atividade musical por completo. Os Salmos, e uns poucos textos bíblicos, foram adaptados com uma métrica adequada à quantidade de sílabas de cada verso e sua melodia era cantada em uníssono pela congregação sem acompanhamento instrumental. Também não havia coro litúrgico nem instrumentos musicais, pois, no entender de Calvino, essas coisas estavam ligadas à pompa do vestuário católico e luterano e ao cerimonialismo de seus cultos. No seu comentário ao Salmo 33, Calvino considerou que o uso de instrumentos musicais no culto era algo tão “inadequado para celebrar louvores a Deus quanto o queimar de incensos”.

O estilo de culto caracterizado por acento solene e reverente era reproduzido na música religiosa: “Quanto à melodia, tem nos parecido melhor moderá-la na maneira que temos feito, de maneira a emprestar a gravidade e majestade que convém a este assunto, e como pode mesmo ser apropriado para cantar na Igreja, de acordo com o que tem sido dito” (“Prefácio ao Saltério”).

No pensamento de João Calvino, o livro dos Salmos continha suficiente pedagogia e conteúdo para o louvor: “[…] não há outro livro em que somos mais perfeitamente instruídos na correta maneira de louvar a Deus, ou em que somos mais poderosamente estimulados à realização desse sacro exercício” (O Livro dos Salmos, p. 35, 36). Não por coincidência, nas igrejas de influência calvinista, somente os salmos bíblicos podiam receber melodia. Os salmos, então, eram adaptados seguindo uma prosódia e uma métrica que possibilitassem um canto simples e acessível. Esses cânticos é que foram incluídos nos hinários como o Saltério de Genebra, que influenciou bastante a prática musical das igrejas na Suíça e em algumas regiões da Inglaterra, principalmente os protestantes conhecidos como “puritanos”.

Por sua vez, Zuínglio enfatizava um aspecto altamente racionalista nos cultos, o que o levou a rejeitar a função mística dos rituais e a adotar um processo litúrgico com função exclusivamente didática. Essa atitude resultou na abolição do canto no primeiro rito germânico de 1525, em Zurique. Por temer que a estética de elementos como a música e os ritos litúrgicos se tornassem obstáculos à compreensão intelectual do conteúdo espiritual, realizou ali um culto sem música alguma, cantada ou instrumental.

Na Inglaterra, onde a versão protestante implantada estava mais próxima do culto reformado calvinista do que do luterano, a Igreja Anglicana instituiu uma eleição para abolir a música instrumental do culto em 1562. No entanto, numa votação apertada, pela diferença de um voto, 59 a 58, a prática continuou permitida.

Como vimos nesse curto resumo sobre as ações musicais durante a Reforma, a compreensão teológica a respeito da função do culto alterava a compreensão que se tinha do uso da música. Enquanto Lutero estimulava tanto a música complexa como a música simples e o uso de instrumentos na igreja, Calvino defendia o canto congregacional simples, uníssono e a capella. Zuínglio foi mais longe e excluiu a música das igrejas, exceto por algumas recitações entoadas no culto. Todos os reformadores tinham a visão de que o sermão era o evento mais importante do culto, desde que explanasse corretamente os ensinos bíblicos.

É claro que não podemos simplesmente adotar toda e qualquer ideia sobre música dos antigos reformadores e transplantá-las sem adaptações e reflexões para a igreja contemporânea. Mas vale a pena pensar sobre o alto valor que se deu à música como ferramenta de louvor, de instrução teológica, de divulgação do evangelho, de edificação da igreja, seja em músicas simples ou complexas, sem perder de vista a participação da congregação. Quando valorizamos mais as apresentações musicais do que o canto da congregação, é porque pouco aprendemos nesses 500 anos de reformas.

JOÊZER MENDONÇA, doutor em Musicologia (Unesp) com ênfase na relação entre teologia e música na história do adventismo. É professor na PUC-PR e autor dos livros Música e Religião na Era do Pop e O Som da Reforma: A Música no Tempo dos Primeiros Protestantes