Tarefa inacabada

Mais do que doutrinas esquecidas pelo catolicismo, os adventistas herdaram dos protestantes a missão de restaurar toda a verdade

Fábio Augusto Darius

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A celebração dos 500 anos do movimento protestante é uma boa oportunidade para resgatar um texto de Ellen White que deve estar constantemente diante de nós: “A Reforma não terminou com Lutero, como muitos supõem. Ela haverá de prosseguir até a conclusão da história terrestre. Lutero tinha uma grande obra a fazer, em refletir a outros a luz que Deus permitiu brilhasse sobre ele. Contudo, não recebeu toda a luz que devia ser dada ao mundo. Desde aquele tempo, nova luz tem continuamente resplandecido sobre as Escrituras, e novas verdades têm sido constantemente reveladas” (História da Redenção, p. 353).

Porém, em quais aspectos a Reforma continua? Afinal, 500 anos depois, o que ainda precisa ser feito? Um bom ponto de partida para reflexão é nossa própria história denominacional. Como adventistas do sétimo dia não somos simplesmente herdeiros da Reforma. Herdeiros geralmente recebem uma herança sem nada fazer por merecê-la e costumam dissipá-la em pouco tempo. Mas, sim, somos continuadores do movimento de restauração que começou antes de Lutero e se prolongará até a volta de Jesus.

Assim sendo, nossa missão consiste em, a partir da nossa submissão e obediência a Deus, denunciar as mazelas do mundo em que vivemos e, ao mesmo tempo, anunciar o reino Dele. Em poucas palavras, devemos fazer o que os profetas bíblicos fizeram. Isso sempre gerou profundas reformas naqueles que aceitaram a mensagem pregada pelos servos de Deus e pode ter o mesmo efeito hoje neste mundo secularizado e espiritualmente carente. No entanto, é preciso lembrar que agir profeticamente geralmente significa sofrer oposição e perseguição, como aconteceu com Lutero e outros reformadores.

Ainda fazendo referência à nossa história, é importante ressaltar a influência que o adventismo recebeu dos chamados reformadores radicais, como os anabatistas. Por isso, não devemos ceder nem deixar de progredir por causa de pressões seculares ou mesmo religiosas: nosso objetivo é avançar no estudo e na obediência da Palavra, sempre guiados pelo Espírito, para fazer as reformas individuais e coletivas que forem necessárias.

Ellen White se considerava uma continuadora da Reforma, pois percebeu pelas mensagens que recebeu de Deus, algumas delas sobrenaturalmente por meio de sonhos e visões, que havia muitas verdades para ser restauradas ainda no tempo do fim. Para ela, Lutero foi um grande personagem, digno da importância que tem hoje e de ter sua vida e escritos estudados. Porém, ela parece não ter levado em conta certos erros teológicos de Lutero, como o estado do homem na morte. O ponto é que ela enxergava todos os reformadores, a despeito de suas limitações, como colaboradores de uma mesma causa.

Infelizmente, o ímpeto de descoberta e restauração da verdade de muitos seguidores de Lutero, Calvino e Wesley arrefeceu e a Bíblia foi posta de lado. Se tivessem avançado, talvez teriam enxergado, como Ellen White, a integralidade do ser humano e concluído, como ela, que reforma com base na Palavra também implica mudança do estilo de vida.

Se levarmos a sério o chamado bíblico, nossa herança da Reforma e a denominacional, vamos entender que ser adventista é se reformar todos os dias.

FÁBIO AUGUSTO DARIUS é graduado em História, mestre e doutor em Teologia e professor dos cursos de Teologia e História no Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP)

(Artigo publicado originalmente na edição de outubro de 2017 da Revista Adventista)