O homem das 67 teses

Vida, obra e pensamento de Ulrich Zuínglio, pai da Reforma nos Alpes suíços

Crédito: Fotolia / Eduardo Olszewski

As colinas onduladas que configuram a topografia do extremo norte oriental da cordilheira dos Alpes suíços formam, nas suas depressões, extensos prados de ricas pastagens. Além dessas planícies em diversos tons de verde, erguem-se em direção às nuvens gigantescas coníferas que compõem bosques extensos e, em menor amplitude, florestas que matizam a área irrigada por afluentes do rio Reno. Nesse belo cenário geográfico, floresceu a cultura dos helvéticos, cujos descendentes ainda preservam algumas tradições e histórias com tintes mitológicos como a de Guilherme Tell, o herói que, com sua flecha, teria acertado a maçã colocada sobre a cabeça do seu filho.

No século 16, a Confederação Helvética, formada por 13 pequenos estados democráticos que haviam conquistado bastante autonomia em relação ao Sacro Império Romano-Germânico, participou do movimento que promoveu a reforma dos dogmas e padrões administrativos do cristianismo, impostos pelo papado romano.

A Reforma na Suíça brotou como outro ramo, alheio ao que despontou na Alemanha, mas no mesmo período. Esse movimento foi gerado na mente e no coração de um dos filhos dessa terra, Ulrich Zuínglio. Seu propósito principal era reformar a igreja cristã governada pelo papado sobre bases espúrias de autoridade eclesiástica e doutrinária.

Retrato do reformador

O vento polar, sobre a camada de neve, acrescentava a sensação do frio invernal nas colinas da pequena vila de Wildhaus, na região de Toggenburg, nordeste da Suíça. Nesse lugar, no dia 1º de janeiro de 1484, nasceu Ulrich, filho de um bem-sucedido e abastado camponês. Desde os primeiros anos de vida, Zuínglio demonstrou capacidades incomuns às outras crianças, e seu pai procurou bons instrutores a fim de desenvolver suas aptidões. Desde 1489, sua educação foi confiada ao tio Bartolomeu, que tinha sido sacerdote em Weesen.

Apesar de atravessar a fase pueril, Zuínglio seguiu com seriedade nos seus propósitos e frequentou as escolas de Basileia e Berna até conseguir ingressar na universidade de Viena, na Áustria, em 1498. Ali aspirou pela primeira vez o ar que transportava o pensamento filosófico do humanismo, que vitalizou suas concepções sobre o mundo.

Em 1502 e nos anos seguintes, frequentou a Universidade de Basileia, período em que fortaleceu a estrutura da sua personalidade por meio da relação com pessoas de espírito livre e conduta evangélica, a exemplo do professor Wyttenbach e do colega Leo Juda. Ao concluir os estudos, ele recebeu as ordens sacerdotais e, como tal, desempenhou essas funções na pequena cidade de Glarus. Essa fase revela o respeito e a obediência que ele prestava à autoridade papal. Estava disposto a defender a suprema hierarquia católica, até mesmo com o uso de armas!

Zuínglio era admirador da disciplina e fortaleza do exército suíço e chegou a atuar como capelão durante campanhas militares. Como conta Justo Gonzalez em um dos volumes da trilogia Uma História do Pensamento Cristão (v. 3, p. 72), por gerações, os suíços haviam usufruído da reputação de ser soldados bravos e consistentes, e tinham se beneficiado dessa reputação para vender seus serviços a príncipes estrangeiros. Segundo ele, nos dias de Zuínglio, isso havia se tornado uma prática aceita e raramente uma voz era ouvida contra a mesma, embora muitos reconhecessem que a vida dos soldados mercenários, tendo que complementar sua renda saqueando, não conduzia a padrões mais elevados de moralidade. “O próprio Zuínglio apoiou a prática do serviço mercenário e lucrou com ela. Mas depois da batalha de Marignano (1515), em que muitos soldados suíços morreram por uma causa indigna que não lhes pertencia, quando outros simplesmente se venderam para Francisco I por um preço mais alto, Zuínglio começou a atacar a prática do serviço mercenário. Esses ataques não foram bem recebidos por alguns de seus paroquianos na cidade de Glarus, e ele se sentiu compelido a deixar aquela paróquia”, o autor relata.

Porém, sua passagem por Glarus consolidou suas convicções de independência diante do autoritarismo papal. Ele leu com avidez os textos dos autores clássicos greco-romanos e dos recém-publicados pensamentos do autor holandês Erasmo de Roterdã. Deixando de lado qualquer preconceito filosófico ou religioso, Zuínglio chegou a remeter uma carta a Erasmo, expressando seu sentimento de respeito e admiração. O grande humanista lhe respondeu à altura das suas convicções e aspirações.

Nessa época, como flores da primavera, surgiu na sua mente a ideia de estudar grego, a fim de ler o Novo Testamento na língua original. Zuínglio pensava que, alcançando esse ideal, poderia entender a verdade na sua profundidade e praticar o verdadeiro cristianismo. Em 1519, precisamente no dia 1º de janeiro, iniciou na cidade de Zurique a pregação evangélica tendo por base o Novo Testamento.

No período em que exerceu o sacerdócio na comunidade de Einsiedeln, onde existia um santuário dedicado à Maria, no qual devotos depositavam ofertas e clamavam por bênçãos em palavras que combinavam confiança e superstição, Zuínglio atacou a venda de indulgências e a qualificou de abominação satânica! A oposição não demorou a se manifestar em forma de ameaças, insultos e violência.

Zuínglio, cujo porte estético representava a figura da nobreza suíça, falava com eloquência e manifestava semblante e temperamento admiráveis. A partir de 1520, ele se opôs mais abertamente à autoridade papal e aos dogmas católicos e ergueu a bandeira do princípio sola Scriptura, base para estruturar qualquer doutrina. Logo depois complementou esse fundamento com o princípio solus Christus (somente Cristo).

Em 1523, depois de ter divulgado suas 67 teses contra a autoridade da igreja papal, que ele denominou de Discursos Finais, enfrentou um debate público em que defendeu suas ideias contra a adoração aos santos, a celebração da missa, as ordens mendicantes, as ideias do purgatório, entre outras.

No ano seguinte, ele tornou público seu casamento com Anna Reinhordt, moça de boa reputação e de excelentes virtudes. São especulativas as opiniões sobre a razão da divulgação do casamento, sendo que havia sido celebrado dois anos antes. A vida matrimonial de Zuínglio foi de curta duração, como flor de outono, cujas pétalas caem inexoravelmente nas primeiras rajadas de vento.

Em 1531, as ideias propaladas pelo reformador suíço geraram perversa oposição, até chegar ao extremo de ele defender cada posição mediante um litígio bélico. Na batalha de Kappel, Zuínglio participava animando os soldados que defendiam a reforma, quando a lâmina da espada inimiga o feriu, deixando-o em agonia até o momento da aspiração final.

Ambiente e convicções

A autoridade papal durante a Idade Média era suprema sobre nações proclamadas como católicas e sobre povos que disputavam sua independência. Mais do que um sistema de estudo da teologia, a escolástica era a forma filosófica pela qual eram ditados os dogmas do papado. Os contrários ou dissidentes eram considerados hereges e estavam sujeitos a juízo e condenação pelos tribunais da Inquisição. O papado enriquecia graças a mecanismos de extorsão como venda de indulgências, taxas papais impostas aos governantes e contribuições coercitivas a fim de obter favores.

Por outro lado, o feudalismo, sistema que conferia poder e riqueza aos senhores feudais e tinha o clero como representante ideológico, afetava pequenos agricultores que viam nesse procedimento uma forma de extorsão desapiedada.

Pouco antes do século 16, surgiu na Europa ocidental um movimento literário com tinte filosófico que promovia a necessidade de voltar aos padrões do classicismo greco-romano.  Tratava-se do Humanismo, que procurava desenvolver uma ideia nova sobre o homem e a natureza.    

O Humanismo preparou o caminho para o advento da Reforma. Em sua obra Encomium Moriae (O Elogio da Loucura), Erasmo de Roterdã descreveu por meio de uma sátira a corrupção monástica, atacou os supostos milagres das imagens, condenou a distribuição de indulgências e qualificou a escolástica como ignorância da religião verdadeira. Essas declarações despertaram em Zuínglio a aspiração da Reforma, fortalecida pelos ensinamentos do seu mestre, Thomas Wyttenbach, sobre a justificação.

Imbuído dessas ideias, Zuínglio propagou suas convicções por meio de sermões eloquentes sobre o verdadeiro significado do evangelho e as implicações teológicas na vida cristã; combateu abertamente a venda de indulgências, esclareceu o conceito de eleição e destino, e evocou a realidade da aliança e a aceitação do sacrifício de Cristo.

As ideias zuinglianas foram registradas em diversos textos. Em Comentários Sobre a Verdadeira e a Falsa Religião faz afirmações claras e decisivas sobre o evangelho de Cristo; Clareza e Certeza da Palavra de Deus é uma obra que fundamenta o princípio sola Scriptura; em Batismo de Crianças combate o batismo infantil, fundamentando a transformação da alma; já no livro Eucaristia ele confirma o significado do pão e do vinho na ceia do Senhor. Nos seguintes três títulos, Justiça Divina e Humana, Providência e Exposição da Fé, Zuínglio expressou sua convicção sobre a salvação em Cristo pela fé no Seu sacrifício. Preparada para ser apresentada na Dieta de Augsburg, essa última foi um resumo dos seus ensinos.

Diferenças

É sustentável a afirmação de que o sucesso da Reforma Protestante se deveu à aceitação da doutrina da justificação pela fé. Porém, os que contribuíram em maior ou menor grau de participação no processo da Reforma apresentaram concepções diversas e, algumas vezes, completamente antagônicas.

Os movimentos liderados por Zuínglio na Suíça e por Lutero na Alemanha foram ramos distintos, embora ligados à mesma raiz. Na única vez em que se encontraram (em 1529, na reunião de Marburg), os dois reformadores não chegaram a um acordo, como se esperava.

As diferenças entre os dois reformadores não se limitaram ao campo doutrinário, mas também se mostraram no nível da personalidade. Lutero era severo e obstinado; Zuínglio, de caráter nobre e trato delicado. Lutero foi indiferente às ideias do Humanismo; Zuínglio, por sua vez, fez com que elas servissem a seus propósitos.

Porém, a maior disputa entre os dois reformadores foi sobre o tema da natureza de Cristo na eucaristia. Para Lutero, o pão e o vinho eram realmente corpo e sangue de Cristo; de outro lado, Zuínglio acreditava que eles eram apenas símbolos dessas realidades transcendentais.  Em relação à interpretação bíblica, Lutero mostrou inclinação a aceitar expressões de sentimento e a intuição; por sua vez, Zuínglio preferiu a aceitação do raciocínio lógico para chegar às premissas definitivas.

Lutero manifestou tolerância ao uso de imagens com ornamentos sagrados; já Zuínglio mostrou oposição a elas. O reformador alemão admitiu, embora com relutância, o uso de armas na defesa da Reforma; enquanto o reformador suíço foi contrário a qualquer postura agressiva.

Outros pontos de discordância ficaram evidentes ao comparar a Confissão de Augsburgo, redigida por Melâncton para ser apresentada na Dieta de Spira, em 1530, na presença do rei Carlos V, e a Exposição da Fé, documento em que Zuínglio apresentou seus pontos de vista doutrinários. Zuínglio negou a vigência do dogma do pecado original, declarando que o homem herdou a corrupção humana; aceitou de maneira um tanto exagerada a clemência divina para todos os pagãos de bom coração; afirmou que, junto aos santos da Bíblia, na eternidade estarão personalidades como Hércules, Teseu, Sócrates, Numa Pompílio, entre outros.

Finalmente, é importante lembrar que a obra de Ulrich Zuínglio elevou o padrão moral do cristianismo, destacou o plano divino da salvação humana em Cristo e colocou a Bíblia como o único fundamento da verdadeira doutrina.

RUBEN AGUILAR, doutor em História pela USP, é professor emérito do seminário teológico do Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP)

SAIBA +

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