Tradutor da salvação

O homem que defendeu o livre acesso à Bíblia e dedicou a vida ao trabalho de traduzi-la para a língua inglesa

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O ideal de ver a Bíblia nas mãos do povo era o sonho que unia os reformadores do século 16. O terreno preparado pelos precursores da Reforma ardia com as chamas deflagradas por Lutero, ao pregar contra o comércio de indulgências e enfatizar a suficiência das Escrituras como regra de fé e prática para o ser humano. E esse fogo se propagou não apenas na Alemanha, mas também por toda a Europa.

Na Inglaterra do século 14, a bandeira das verdades bíblicas já havia sido levantada por John Wycliffe, conhecido como “a estrela da manhã da Reforma Protestante” e o primeiro a traduzir a Bíblia para o idioma inglês. Entretanto, a Bíblia de Wycliffe havia sido preparada a partir da Vulgata, versão latina do texto sagrado, que continha vários erros. Além disso, sua circulação fora bastante restrita, uma vez que a imprensa ainda não tinha sido inventada e cada exemplar manuscrito custava um valor muito elevado, sendo privilégio de poucos. Ter sido proscrita pela igreja dominante foi outro fator que contribuiu para a divulgação limitada da primeira bíblia em inglês.

A obra de Wycliffe precisava ser completada e o cenário estava armado para isso. Com a invenção da tipografia por Gutemberg, havia ficado mais fácil difundir conteúdo escrito e, lançando mão desse recurso, Erasmo de Roterdã, em 1516, publicou sua edição grega do Novo Testamento. Pela primeira vez na história, as Escrituras, ainda que incompletas, eram impressas na língua original.

Vida e obra

Foi nesse contexto que surgiu a figura de William Tyndale. Nascido por volta de 1494, no condado de Gloucestershire (Inglaterra), estudou nas Universidades de Oxford e Cambridge, obtendo assim uma profunda erudição que o equipou com o conhecimento necessário para sua obra futura. Ordenado ao sacerdócio em 1521, Tyndale amava a Palavra de Deus e logo começou a manifestar o desejo – que acabou se tornando a obsessão de sua vida – de viabilizar ao povo inglês a Bíblia em seu idioma materno.

Conta-se que, certa vez, Tyndale dialogava com um teólogo católico quando, em meio ao debate, mencionou o tema do “anticristo”. O eminente doutor, então, não disfarçando seu descontentamento, afirmou de maneira áspera: “Melhor seria para nós não ter as leis de Deus do que não ter as leis do papa!” Em resposta, Tyndale declarou: “Desafio o papa e todas as suas leis; e, se Deus poupar minha vida, em pouco tempo farei com que um menino que conduz o arado saiba mais das Escrituras do que você!” (The Annals of the English Bible, v. 1, 1845, p. 36).

Foi com essa ideia fixa que o reformador se aplicou à obra de traduzir a Bíblia para a língua de seus compatriotas. Mas não seria em paz que ele cumpriria tal missão. Sua pregação e conduta despertaram oposição ferrenha por parte dos líderes religiosos, e Tyndale se viu forçado a ir embora para Londres. Percebendo que ali tampouco estava livre da perseguição, decidiu partir para a Alemanha, onde conseguiu, em 1526, publicar sua tradução do Novo Testamento, feita a partir do texto grego de Erasmo, a qual contou inicialmente com cerca de 3 mil exemplares. Além das Escrituras gregas, Tyndale traduziu também grande parte do Antigo Testamento, com base no texto original. Posteriormente, Myles Coverdale, seu discípulo, concluiu a tradução da Bíblia Hebraica.

Deixando a Alemanha, foi para Antuérpia, na Bélgica. A abundância de gráficas e o movimentado porto marítimo faziam dessa cidade um local estratégico. Dali era possível enviar secretamente para a Inglaterra os exemplares da Bíblia, que circulavam por todo o país.

Contudo, os inimigos da Reforma prosseguiam em seus esforços para impedir a propagação da verdade. Em determinada ocasião, por exemplo, um bispo comprou de uma só vez, de um mercador, amigo de Tyndale, uma enorme quantidade de Novos Testamentos, com a intenção de destruí-los. O que o clérigo não sabia, no entanto, era que todo o montante pago seria revertido para a produção de uma nova e melhor edição, numa tiragem triplicada. Assim, apesar das dificuldades, Deus abençoou e multiplicou os esforços de seu servo.

Traído e entregue a seus opositores, Tyndale foi finalmente martirizado em 1536, em Vilvoorde, cidade belga, após muitos meses de encarceramento. Preso a uma estaca, o reformador foi estrangulado e teve seu corpo consumido pelo fogo. Antes de morrer, sua última oração foi: “Senhor, abre os olhos do Rei da Inglaterra!”

A oração do mártir foi ouvida, pois, pouco tempo depois, Henrique VIII aceitou publicar como texto oficial da igreja da Inglaterra a versão de “Thomas Matthew”. Sob esse pseudônimo, John Rogers, amigo de Tyndale, juntou a tradução parcial feita pelo reformador ao trabalho realizado por Coverdale. O resultado foi a primeira Bíblia completa impressa em língua inglesa.

Teologia

Em linhas gerais, a teologia de Tyndale era bem semelhante à dos demais reformadores, com ênfase na Bíblia como única fonte de autoridade para o cristão, em Cristo como único mediador entre Deus e a humanidade, no sacerdócio de todos os crentes e na salvação pela graça, mediante a fé. No entanto, o pensamento de Tyndale, conquanto tenha sido profundamente influenciado pelos expoentes da Reforma, sobretudo pelas ideias de Lutero, era bastante diferente com respeito a alguns assuntos específicos.

Lutero, por exemplo, acreditava na “presença real” de Jesus durante a cerimônia da Santa Ceia, ponto de vista bastante próximo à ideia católica de transubstanciação, segundo a qual, no rito da Comunhão, o pão e o vinho se tornam, de fato, o corpo e o sangue de Cristo. Tyndale, contudo, considerava a Ceia do Senhor como tendo um valor simbólico e a função de recordar a morte de Jesus.

Outra diferença nos ensinamentos de Tyndale diz respeito ao destaque que ele dava ao valor das obras na vida cristã. Ao contrário da tendência de Lutero e outros de atribuir um valor excessivo à fé – embora não ignorassem a necessidade de conversão –, Tyndale cria que aquele que é salvo por Jesus e guiado pelo Espírito Santo produz bons frutos como resultado.

No que se refere à doutrina da salvação, à semelhança de Calvino, Tyndale tinha um elaborado conceito de eleição divina, fundamentado na soberania absoluta de Deus, e dedicou muito de seu tempo e suas obras para falar sobre o que entendia por “aliança eterna” – segundo sua concepção, um pacto entre os membros da Trindade em favor da salvação do homem, na qual este não teria absolutamente nenhuma participação.

Influência e legado

Embora Wycliffe já tivesse traduzido a Bíblia para o inglês, o grande diferencial de Tyndale foi fazer o mesmo a partir dos idiomas originais (hebraico e grego), assegurando uma maior fidelidade ao texto sagrado, além de colocar em circulação, à disposição do povo comum, milhares de exemplares das Escrituras em linguagem vernácula.

O alcance do trabalho de Tyndale, porém, não para por aí. A maioria das edições da Bíblia em inglês produzidas até o século 20, incluindo a maior parte da versão King James, de 1611, uma das obras mais importantes no processo de desenvolvimento da língua e da cultura inglesa, foi embasada na tradução feita pelo reformador britânico. Diversos vocábulos e expressões que hoje fazem parte do idioma anglo-saxão tiveram origem na maneira como Tyndale verteu as palavras da Bíblia, bem antes que Shakespeare surgisse com suas contribuições.

Além de sua herança espiritual e intelectual, Tyndale deixou também um legado por meio de seu exemplo. Seu empenho foi motivado pelo intenso amor à Palavra e pela convicção de que o caminho para Deus se encontra revelado nas Sagradas Escrituras, sendo, portanto, imperativo que cada pessoa tenha livre acesso à Bíblia, a fim de conhecer por si mesma a verdade.

Esse princípio, especialmente no que se refere à necessidade de uma experiência individual com o texto bíblico, foi sustentado por cristãos sinceros ao longo da história, antes e depois de Tyndale, e foi também a plataforma sobre a qual se firmaram os pioneiros do adventismo. De maneira idêntica, é nosso dever hoje, como herdeiros da Reforma, enfatizar o papel único e central da Bíblia para nossa fé e prática, e incentivar cada pessoa em nossa esfera de influência a experimentar por si mesma o poder transformador da Palavra de Deus.

EDUARDO RUEDA é editor na Casa Publicadora Brasileira

SAIBA +

Daniell, David. William Tyndale: A Biography. New Haven, CT: Yale University, 1994.

Teems, David. Tyndale: The Man Who Gave God an English Voice. Nashville, TN: Thomas Nelson, 2012.

Werrell, Ralph S. The Roots of William Tyndale’s Theology. Cambridge: James Clarke, 2013.

George, Timothy. Theology of the Reformers. Nashville, TN: Broadman & Holman, 2013.