No país das vuvuzelas

Pastor explica os desafios da missão na África do Sul, país marcado pela segregação racial e culturalmente semelhante ao Brasil

vuvuzelas-creditos-da-imagem-DundasEntre os continentes, a África é o segundo maior em território e em população. É lá que vivem mais de um bilhão de pessoas e cerca de 7 milhões de adventistas, ou 38% dos membros da igreja ao redor do mundo. Adventistas africanos são encontrados em megacidades, povoados e aldeias das três regiões administrativas (Divisões) africanas: com sedes no sul, leste e oeste do continente.

A diversidade da região é impressionante: 2 mil línguas são faladas por 3 mil grupos étnicos. Esse mosaico cultural é uma poderosa influência sobre a forma como os princípios bíblicos são compreendidos e praticados. Como consequência, a proclamação da mensagem adventista de forma clara, significativa e contextualmente relevante para cada grupo étnico torna-se um enorme desafio para missionários, pastores, professores, teólogos e servidores da igreja.

O contexto do país

0707missao-dioi-homeHá quase cinco anos sou missionário na África do Sul. Um país lindíssimo situado no extremo sul do continente e conhecido por sua diversidade de culturas, idiomas e crenças religiosas. A constituição sul-africana reconhece onze línguas como oficiais. Duas delas são de origem europeia: o africâner, um idioma que se originou principalmente a partir do neerlandês (holandês), que é falado pela maioria dos brancos e mestiços sul-africanos; e o inglês, que é a língua mais falada na vida pública e comercial.

Lá, as pessoas são calorosas e se orgulham de sua história, resultado das relações multiétnicas frequentemente conflituosas, mas também da riqueza resultante da mistura entre as culturas europeia, indiana e africana.

Quando se fala em missionários na África do Sul, sabe-se que o primeiro a pisar no cabo da Boa Esperança foi George Schmidt, em 1737; seguido por centenas de outros corajosos, como os aclamados Robert Moffat, em 1820, e David Livingstone, em 1841. Mas as atividades missionárias nesse país começaram bem antes. Em 1486, o rei de Portugal, D. João II, passou o comando de uma expedição marítima a Bartolomeu Dias. A missão era estabelecer relações pacíficas com um lendário rei cristão africano, conhecido como Prester John. Ele tinha ordens também de explorar o litoral da África e encontrar uma rota para as Índias.

O contexto da igreja

O adventismo chegou à África do Sul em julho de 1887, por meio de duas famílias missionárias: C. L. Boyd e D. A. Robinson. Alguns anos antes, William Hunt, um mineiro norte-americano adventista, distribuiu alguns folhetos para Pieter Wessels e George Van Druten, que se impressionaram com a verdade sobre o sábado. A primeira igreja adventista foi organizada por Boyd, em Beaconsfield, Kimberley.

Infelizmente, o apartheid ou o segregacionismo racial e sua influência sobre a Igreja Adventista ainda é e talvez será uma realidade na África do Sul por alguns anos. O apartheid é uma palavra do idioma africâner que significa separação. Foi o nome dado ao sistema político que vigorou no país de 1948 a 1990. Assim como a santificação não é obra de um momento, de uma hora, de um dia, mas de toda a vida, a igualdade racial na África do Sul é um processo que pode durar certo tempo. Afinal, pessoas traumatizadas não são curadas de um dia para outro. Apesar da forte influência segregacionista, a igreja tem crescido e conta com 160 mil membros.

O contexto do meu ministério

Fui com minha família para a África do Sul a fim de servir como pastor em um distrito multicultural de fala portuguesa e inglesa em Johanesburgo, formado por grupos étnicos de Portugal, Angola, Moçambique, Zimbábue, Malaui e Congo. Um dos desafios do ministério em um distrito multicultural é proclamar o evangelho de maneira adequada ao cotidiano do imigrante e, ao mesmo tempo, permanecer fiel aos fundamentos bíblicos e eternos de Deus. Isso ocorre porque as formas tomam significados distintos em cada contexto cultural e o missionário deve estar atento a essas diferenças e ser criterioso para não se deixar influenciar por tradições contrárias à vontade divina.

Um outro desafio é a comunicação verbal e corporal. Nas primeiras semanas de trabalho, cometi uma gafe cultural ao cumprimentar os irmãos à porta da igreja. As mulheres portuguesas são cumprimentadas sempre com dois beijos na face, enquanto que os zimbabuanos apertam as mãos girando-as e deslizando-as até soltá-las lentamente. Em certo sábado, ao me despedir dos membros à porta, tentei dar dois beijinhos nas irmãs zimbabuanas, que se sentiram incomodas; e, em outra ocasião, apertei as mãos das irmãs portuguesas à maneira dos zimbabuanos. Isso causou desconforto para alguns e foi motivo de chacota para outros. Desde então, faço o meu melhor para respeitar essas formas de saudação.

Por sua vez, temos recebidos muitas bênçãos. Uma delas foi o modo como essa congregação adventista de zimbabuanos foi formada. Boa parte desses irmãos eram pentecostais e liderados pelo pastor John Jabulani. Porém, ao Jabulani ouvir sobre a mensagem do advento, espontaneamente trocou a placa da antiga igreja e convidou os fiéis a abraçar a nova fé. Hoje, a congregação tem 250 pessoas e continua crescendo. Amparado por doações, em dezembro, o pastor Jabulani deve concluir seus estudos em Teologia no seminário adventista do Zimbábue.

Como brasileiro, sinto-me feliz e realizado nesse ministério multiétnico. Nossa cultura tem muita influência africana, o que facilita a adaptação dos missionários brasileiros no continente. Por causa das semelhanças culturais, entendo as necessidades, temores e alegrias dos nossos irmãos africanos e também daqueles de formação mais ocidentalizada. Assim, posso servi-los da maneira mais apropriada.

Oro para que muitos jovens do nosso Brasil continuem sonhando e se preparando para servir a Deus por alguns meses ou anos na África. E para que novos missionários ofereçam um pouco de si para as pessoas queridas desse continente com tanta diversidade, que tem enormes desafios e que necessita urgentemente do amor de Jesus. [Créditos da imagem: Dundas]

Dioi Cruz é pastor há cinco anos em Johanesburgo, na África do Sul.

Novos desafios no velho continente

Pastor explica o que significa liderar igrejas multiétnicas na Europa, onde diferentes culturas e gerações convivem sob o mesmo teto

rickson1Nunca havia pensado em trabalhar no exterior. Na verdade, nem gostava da ideia. Porém, Deus tinha outros planos para mim. Fui tocado para viver essa experiência quando um amigo de quarto no internato me disse que estava indo para a África como missionário. Isso foi em 1997 e nunca mais voltei. Encontrei minha outra metade no campo missionário. Cláudia e eu fomos então tocados por Deus para seguirmos no campo missionário, só não sabíamos onde.

Chegamos à Suíça e pouco a pouco Deus nos mostrou que tinha planos para nós na Europa. Ambos terminamos nossos estudos em Teologia em Collonges-sous-Salève, na França, e trabalhamos sete anos em Paris, onde plantamos duas igrejas. Já estamos há quatro anos servindo na Suíça. Nossos filhos nasceram aqui e em todo esse período fomos apenas três vezes ao Brasil. Mesmo morando em um país desenvolvido, com grande qualidade de vida, somos missionários aqui. Foi por isso que somente em 2014 eu pude, finalmente, apresentar minha esposa e filhos para minha família, depois de 13 anos de casamento. Além do desafio financeiro, criar os filhos na Europa com os valores adventistas é muito mais complicado do que na África ou no Brasil.

Quanto ao evangelismo aqui com brasileiros, a questão não é simples. Primeiramente, porque nenhuma das 28 igrejas de fala portuguesa da Europa é exclusivamente brasileira. Em Genebra, por exemplo, existem muitos portugueses. Em Paris, por sua vez, há fortíssima presença de cabo-verdianos, enquanto em Zurique predominam os latino-americanos. Por isso, essas igrejas étnicas são chamadas de luso-brasileiras ou latinas. É o caso da minha congregação. Além de ter funções administrativas, lidero a Igreja Luso-Hispânica de Neuchâtel. Trata-se de uma pequena comunidade formada por sete nacionalidades (brasileiros, portugueses, colombianos, franceses, cubanos, suíços e venezuelanos) e onde o programa é realizado em três línguas.

rickson3Além da diversidade idiomática e cultural, o segundo desafio é o da tradição eclesiástica. Apesar de acreditarem nas mesmas doutrinas, os membros da minha congregação possuem vivências diferentes de igreja. Nesse contexto, coisas pequenas podem tornar-se debates teológicos acalorados. Soma-se a isso os hábitos eclesiásticos do adventismo europeu que, se for mais ao norte do continente, tende a ser mais “liberal”; enquanto no sul, a tendência é mais “conservadora” ou “tradicionalista”. Acredite, isso pode render uma boa dor de cabeça para um pastor!

A terceira peça na compreensão desse quebra-cabeça é o fator geracional. Os que chegaram adultos na Europa, a primeira geração, e ensinaram a língua portuguesa em casa para os filhos, vão esperar que o programa da igreja seja em português. Enquanto os que educaram os filhos apenas na língua local, vão ter outra expectativa. Mas esse não é o maior desafio quanto à idade. Muitos filhos da segunda geração de migrantes costumam não se identificar com o país de origem dos pais e, às vezes, o que é pior, nem com a igreja e os valores religiosos dos pais. Na melhor das hipóteses, eles participam de uma igreja nativa e, na pior delas, abandonam a fé.

A Igreja Adventista na Europa tem buscado alternativas para essa situação. Um culto na língua local dirigido pelos jovens ou em horário simultâneo ao dos adultos tem sido o caminho mais utilizado. Na verdade, estamos caminhando para ter igrejas de etnia brasileira, mas de fala francesa, alemã ou inglesa. Essa experiência tem sido realizada em Paris com jovens romenos. Se for positiva, poderá servir de modelo para outras congregações do continente.

O quarto e último desafio que percebo é quanto ao futuro do fluxo migratório. Se uma igreja étnica está recebendo constante número de imigrantes, a primeira geração, é provável que ela mantenha características muito semelhantes às da igreja do país do qual essas pessoas migraram. Porém, a situação no país de origem se torna mais vantajosa do que na Europa. A tendência é essa comunidade enfraquecer ou fechar. Essa foi a experiência de uma igreja de imigrantes iugoslavos em Paris. Sem novas pessoas migrando para a região, uma congregação étnica tende a envelhecer e a perder sua segunda e terceira gerações para as igrejas nativas. Por isso, o desafio é a transmissão de valores de uma geração para outra, de modo que, ainda que o estilo da igreja mude, a fé seja mantida.

Concluo dizendo que não é fácil sair do Brasil para viver o adventismo no exterior. Muitas vezes, as pessoas não pensam nas consequências dessa decisão em longo prazo. É claro que a riqueza cultural e a estabilidade político-financeira que os países europeus podem oferecer são muito boas, porém, tem que se pesar os prós e contras. E é nesse contexto que os pastores brasileiros, como missionários, procuram fazer a diferença. Nossas famílias sofrem muito, o trabalho é desgastante e mesmo que você esteja no primeiro mundo, financeiramente você acaba vivendo à margem de uma sociedade nada espiritual.

Por isso, quem trabalha aqui ou deseja vir para cá, precisa ter claro na mente o amor pela missão. Se isso está bem resolvido para o pastor e sua família, os desafios podem ser vencidos, porque eles sabem a quem servem e por que servem. Por favor, ore pelo ministério adventista com imigrantes no lindo continente europeu!

Rickson Nobre é secretário-executivo, diretor do departamento de comunicação e pastor de igreja na Associação Suíça de língua francesa e italiana.


 

Para saber+

Entrevista do pastor Rickson Nobre para a Revista Adventista de novembro de 2009

Conselho Europeu de Língua Portuguesa

Um lar para quem está longe de casa

Igrejas étnicas querem alcançar 1 milhão de pessoas que falam português e vivem na América do Norte

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Denison Moura é pastor em Nova York e foi recentemente eleito coordenador das igrejas adventistas de fala portuguesa da América do Norte. Foto: arquivo pessoal

Apesar de se concentrar basicamente em dois grandes países, Estados Unidos e Canadá, a Igreja Adventista na América do Norte tem muita diversidade cultural. Por isso, há alguns anos, um ministério multiétnico foi oficializado pela sede da denominação, tendo as igrejas de fala portuguesa como uma das áreas de atuação.

A iniciativa tem justificativa: estima-se que mais de 1 milhão de pessoas falam português por aqui. No contexto adventista, são 5.139 membros em 51 congregações distribuídas por 16 regiões administrativas (associações). Atendidas por 30 pastores, essas igrejas levaram 1.866 pessoas ao batismo nos últimos cinco anos.

Esses números representam um desafio que exige intenso esforço e dependência do poder do Espírito Santo. Da década de 1970 até o início dos anos 2000, as igrejas de língua portuguesa registraram um amplo crescimento. A imigração para os Estados Unidos favoreceu o acolhimento desses migrantes que se uniram no propósito de partilhar a fé com seus compatriotas. Porém, nos anos 2007 a 2009, a crise financeira americana e o rigor das leis de imigração atingiram fortemente a comunidade de língua portuguesa, fazendo com que muitos retornassem para sua terra natal. As igrejas de migrantes perderam de 30 a 50% dos membros e o crescimento só voltou a ser retomado em 2013.

O evangelismo é a mola propulsora do avanço desse ministério, e as formas convencionais e inovadoras de evangelização devem continuar convivendo por aqui. Nessa tendência, o modelo de discipulado e a proposta de pequenos grupos ganham espaço, e localizar pessoas que falam português, sejam concentradas em comunidades ou vivendo isoladamente delas, passa a ser prioridade. Para tanto, o contato pessoal e o uso da mídia são recursos eficazes.

Imersos numa comunidade secular e influenciados pelo pós-modernismo, os imigrantes tendem a ter uma postura diferente em relação à religião do que teriam em seu país de origem. Logo, é preciso mostrar a relevância da fé nesse novo contexto, o que, via de regra, se traduz em fortes vínculos comunitários.

Um desafio que tem se tornado mais forte neste tempo é a integração das novas gerações no ambiente das igrejas de língua portuguesa. Isso envolve eficácia na comunicação em dois idiomas, inglês e português, e o uso de tecnologia e de uma linguagem cultural que faça sentido aos jovens, adolescentes e crianças.

Entendemos que não existe um único modelo que atenda todas as necessidades, mas o objetivo é encontrar todos os caminhos possíveis para que as próximas gerações estejam integradas e envolvidas no ambiente da igreja e no cumprimento da missão. Para tanto, temos organizado cultos específicos para essa audiência, além de pequenos grupos de relacionamento, atividades sociais e comunitárias. Porém, por vivermos numa sociedade em constante transformação, estamos atentos ao que tem efeito no coração das pessoas.

Oferecer suporte para essas igrejas por meio de materiais para o trabalho missionário também é um dos desafios do nosso ministério. Muito do que utilizamos aqui vem da igreja sul-americana, mas temos buscado produzir materiais que retratem melhor nossa realidade. O site, que está sendo reformulado, visa a favorecer o acesso e a distribuição desses recursos.

Os desafios se transformam e o empenho se intensifica. Priorizando o crescimento espiritual e o comprometimento com Jesus e sua missão, acreditamos que seremos movidos ao cumprimento do nosso papel como discípulos de Cristo, dia após dia, até o tempo em que ouviremos dele: “Bem está servo bom e fiel (…) entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25:23).

Denison Moura é pastor em Nova York e foi recentemente eleito coordenador das igrejas adventistas de fala portuguesa da América do Norte