Em busca de consenso

Os dilemas da igreja de hoje são menores do que os enfrentados pelos primeiros cristãos e adventistas

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Foto: Josef Kissinger

No próximo dia 11 de julho, os adventistas celebrarão o encerramento da sua 60ª assembleia mundial. No fim do evento, a igreja terá eleito seus líderes mundiais e as novas lideranças continentais. Provavelmente, também tenha um manual de igreja ligeiramente alterado e sua declaração de crenças modificada, a fim de definir precisamente pontos que podem abrigar posições antibíblicas, como o evolucionismo teísta e a união conjugal homoafetiva.

Porém, até lá, estará votada a questão mais controversa desse encontro: a liberdade/autonomia de cada sede continental da igreja (suas 13 Divisões) poder ordenar ou não mulheres ao ministério pastoral. Para muitos membros da igreja, decisões dessa magnitude poderão significar insegurança quanto aos rumos que a denominação toma, ainda mais se levado em conta a responsabilidade profética que a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem para com o restante do mundo na iminência do retorno de Cristo.

No entanto, todas essas decisões, para nós tão cruciais, não passam de pequenos ajustes quando comparadas ao tamanho dos impasses pelos quais a igreja cristã e a adventista já passaram. No período de definição das crenças dos adventistas, por exemplo, ocorreram as “assembleias sabáticas”. Realizadas de 1847 a 1850, as reuniões atraíram estudiosos da Bíblia que tinham em comum apenas a expectativa do segundo advento e o sábado como dia de guarda, para definirem tudo o mais que não lhes era comum. Eventualmente, não havia mais que dois congressistas que compartilhavam o mesmo ponto de vista sobre determinada doutrina cristã. Porém, guiados pelo Espírito Santo, esses pioneiros formaram a base para uma igreja de coesão teológica inigualável entre outras denominações.

Matias, diáconos e circuncisão

É na Bíblia, especificamente no livro de Atos, que encontramos as maiores polêmicas que a igreja teve que resolver. Três delas se destacam: a eleição de um novo apóstolo para substituir o traidor e suicida Judas Iscariotes (At 1:15-26); o estabelecimento do grupo de sete (diáconos) para atender às necessidades das viúvas de fala grega (At 6:1-7); e a inclusão dos não judeus na igreja (At 15:1-35).

A eleição de Matias foi o primeiro impasse. O próprio Cristo havia pessoalmente escolhido os doze discípulos (Lc 6:12-16). Preencher a vaga de Judas era um ato que, de certo modo, trazia ao grupo uma responsabilidade que havia pertencido ao próprio Mestre. E talvez essa seja uma importante lição: eventualmente, a igreja deve se posicionar sobre assuntos em que, literalmente, precisa agir em lugar de Deus na Terra.

É obvio que não devemos alterar o que foi claramente revelado pelo Espírito Santo nas Escrituras. Afinal, Deus não muda seus princípios. Mas necessidades eventuais demandam decisões específicas. E a escolha do novo apóstolo foi um caso desses. O ponto é como os primeiros cristãos procederam: definiram biblicamente os motivos da decisão (veja a argumentação de Pedro em Atos 1:14-22) e oraram (At 1:24 e 25), permitindo a atuação de Deus por meio de sortes, recurso usado apenas essa vez no Novo Testamento.

Por sua vez, a eleição dos sete primeiros diáconos pode ser um exemplo de quando a igreja precisa decidir a respeito de uma necessidade não prevista anteriormente na Bíblia. Em Atos 6:1 a 7, diferentemente da eleição de Matias, não há uso de textos bíblicos para justificar a questão. O tópico parece ser de natureza mais prática do que teológica. No entanto, critérios bíblicos guiaram a decisão (At 6:3). E a igreja prosperou como resultado de uma deliberação acertada (At 6:7).

Por fim, a maior polêmica da fase primitiva da igreja foi a inclusão dos não judeus. A circuncisão tinha sido estabelecida por Deus como emblema de sua aliança com seu povo (Gn 17:9-14). Não se circuncidar indicava estar excluído da aliança com Deus. E, no pensamento de grande parte dos primeiros cristãos, predominantemente de origem judaica, fazer parte do concerto de Abraão por meio da circuncisão era requisito indispensável para a genuína conversão. Afinal, Deus mesmo havia feito essa exigência no Antigo Testamento. Portanto, a questão era complexa, porque tinha implicações teológicas, administrativas, evangelísticas e éticas. Um impasse insuperável na história cristã posterior.

No entanto, a assembleia ocorrida em Jerusalém encontrou justificação bíblica para a questão (At 15:15-21). A isso somou-se a observação de como Deus agia diante da situação (At 15:7-11). Afinal, os conversos incircuncisos demonstravam todos os sinais de regeneração e apresentavam evidências da atuação do Espírito Santo (At 10:47). O consenso foi bem diferente do que uma leitura superficial do Antigo Testamento sugeria. Por isso, a assembleia de Jerusalém publicou um documento dispensando os novos convertidos da prática da circuncisão (At 15:23-29).

Assim o Senhor tem atuado quando sua igreja está diante de impasses. Assim é dever de cada membro da igreja ao redor do mundo orar pelos 2.570 delegados que, durante dez dias, terão a responsabilidade de usar critérios bíblicos para tomar decisões importantes. Dobre seus joelhos em favor dessa assembleia! [Créditos da imagem: Josef Kissinger]

Fernando Dias é pastor e editor de livros didáticos na CPB


Para saber +

Bernhard Oestreich, “Unidade na diversidade”, Ministério, maio-junho de 2012, p. 14-16.

Cinco anos na Ucrânia

Nas terras geladas do leste europeu, pioneiro da TV adventista conta como Deus derreteu corações

jonatanEm 2008, fui surpreendido com um convite para trabalhar na Divisão Euro-Asiática da Igreja Adventista. Confesso que nunca havia pensado em trabalhar fora do Brasil. Foi por isso que nos reunimos em família e, depois de orarmos, disse para minha esposa: “se aceitarmos esse chamado, vamos ver e viver coisas que nunca imaginamos e ter uma experiência única.”

Aceitamos o desafio, e no dia 17 de novembro de 2009 chegamos em Kiev, capital da Ucrânia. Embora tenha procurado me informar sobre o país, não sabia muita coisa sobre a região. Assim que chegamos, passamos a trabalhar para transmitir ao vivo uma grande série evangelística a partir da Moldávia. Seria a primeira transmissão ao vivo de uma igreja evangélica naquele país.

Para começar, já foi uma aventura apenas levar os equipamentos da Ucrânia para a Moldávia. Em certa noite, debaixo de muita neve, chegamos à pequena cidade da fronteira, onde um grupo de irmãos nos esperava. Após orarmos juntos, colocamos cada equipamento em pequenas sacolas para que fossem transportados para o outro lado.

O pastor que me acompanhava e eu, só recebemos o carimbo em nossos passaportes quando já passava das 22 horas. Em território moldávio, continuamos nossa viagem debaixo de forte nevasca. O vidro do carro congelava e mesmo com o aquecimento interno do veículo, a temperatura era muito baixa.

Não havia nenhum carro transitando pela estrada, apenas o nosso. Foi por isso que passei a imaginar o que aconteceria se nosso veículo quebrasse e ficássemos ali no caminho, ao relento, com 18 graus negativos. Perto da meia-noite, paramos em um posto de gasolina, que estava fechado e totalmente às escuras. Logo chegou outro carro e parou à nossa frente. Eram nossos irmãos adventistas que haviam trazido todos os equipamentos.

Fizemos a transferência do material de um carro para outro, oramos novamente e seguimos viagem. Chegamos em Chisinau, capital do país, já depois das 2 horas da madrugada. Aquela seria a primeira vez que enfrentaria um frio tão intenso.

A cada noite da série evangelística, o pastor Peter Kulakov pregou com muito vigor e milhares de pessoas acompanharam suas mensagens na Moldávia e em países como a Ucrânia, Rússia, Bielorrússia, Geórgia, Armênia. Cerca de 3 mil pessoas foram batizadas como resultado desse esforço evangelístico.

jonatan2Confesso que não poderia imaginar como o canal adventista (Hope Channel) cresceria naquela região. Poucos anos depois, a igreja decidiu fazer um pedido oficial para ter uma emissora de TV na Ucrânia. Isso seria algo inédito no país. Nenhuma igreja, nem evangélica, pentecostal, protestante, católica ou ortodoxa tinha essa concessão.

O pastor Veiceslav Demyen foi escolhido para representar a denominação diante de 16 parlamentares. Ele precisava convencê-los de aprovar o pedido da igreja. Ele fez o seu melhor, mas parece que a desconfiança comunista em relação à religião iria prevalecer.

Até que um parlamentar disse: “assisti a um seminário, no passado, em um dos colégios adventistas e foi excelente. Na verdade, acho que eles deveriam fazer um desses seminários aqui no parlamento. Por esse motivo, eu voto favoravelmente ao canal.”

O depoimento dele providencialmente mudou a mente de alguns parlamentares e o grupo decidiu autorizar uma nova defesa para a instalação de um canal religioso no país. O fato é que Deus abençoou de tal forma que o funcionamento da emissora foi autorizado e hoje está no ar via satélite, internet e tevês a cabo, alcançando milhões de pessoas. No tempo em que trabalhei na Divisão Euro-Asiática ainda pude ver outro milagre: a autorização de um canal adventista na Rússia.

Sinto-me feliz e realizado por ver como Deus tem abençoado o trabalho missionário por meio da televisão nessa região. Muitas são as histórias de conversão através desse ministério. Uma delas foi o batismo de dois artistas de TV na Ucrânia: Kiril Andrev e Iuri Sossa. Eles se interessaram pela mensagem adventista e começaram a estudar a Bíblia. Andrev e Sossa deixaram o trabalho na emissora comercial para servir no canal adventista.

Depois de cinco anos trabalhando na Divisão Euro-Asiática, recebi o chamado para iniciar o mesmo ministério na Divisão Centro-Leste Africana, em Nairóbi, no Quênia. As três regiões administrativas da Igreja Adventista na África (divisões) estão trabalhando em conjunto para produzir programas em inglês, francês e outras línguas faladas no continente. O nome desse novo canal é Hope Channel Africa e já estamos trabalhando a todo vapor para que mais e mais pessoas tenham esperança na breve volta de Jesus.

Jonatan Conceição é pastor e foi missionário na Ucrânia até 2014. Desde o início do ano, ele está trabalhando na África

Avanço na África

O crescimento e as dificuldades da igreja no continente que concentra 38% dos adventistas

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Continente tem 7 milhões de adventistas. Foto: Leônidas Guedes

Como ilustrou o secretário-executivo da sede mundial da igreja, G. T. Ng, se o povo adventista ao redor do mundo formasse uma vila com cem pessoas, 38 delas seriam da África. A força do continente no contexto do adventismo pode ser verificada em outro dado recente. Há poucos meses, a Zâmbia entrou para o seleto grupo de países com mais de um milhão de adventistas (para saber mais sobre o assunto, clique aqui). Com 14,5 milhões de habitantes, a nação do sudeste africano só fica atrás do Brasil, Índia e Estados Unidos.

A comemoração pelo crescimento da igreja na Zâmbia, felizmente não se restringe ao país, é uma tendência em todo o continente, abaixo do deserto do Saara. Em maio, por exemplo, 30 mil pessoas foram batizadas numa grande campanha evangelística no Zimbábue (leia mais aqui), que integrou pregação pública com atendimento gratuito de saúde. O país é vizinho da Zâmbia e já caminha a passos largos para chegar a um milhão de adventistas.

Dividida em três grandes áreas administrativas (divisões), a igreja hoje na África tem 7 milhões de adventistas. E conforme afirmou o pastor Paul Ratsara, presidente da Divisão Sul-Africana Oceano Índico, os líderes têm trabalhado para que na África evangelismo não seja apenas um evento, mas um estilo de vida.

No entanto, pregar o evangelho por lá não é tão fácil quanto possa parecer. Embora os números sejam animadores, a igreja tem enfrentado grandes dificuldades em alguns lugares. Segundo o pastor Osni Fernandes, missionário por seis anos nas ilhas de Cabo Verde, a liderança local muitas vezes é carente de treinamento e material para realizar o trabalho. São muitos os casos em que faltam Bíblias, lições, livros de Ellen White, hinários e folhetos. A igreja africana também reflete a pobreza do continente. De acordo com a revista Global Finance, dos 50 países mais pobres do mundo, 42 estão na África.

Além do mais, o continente africano é um dos mais culturalmente diversos do planeta. Conforme informa o pastor Gilberto Araújo, vice-presidente da Divisão Sul-Africana Oceano Índico e missionário há 28 anos, existem mais de 600 culturas apenas no território dessa divisão que é formada por 20 países. Em regiões como essas, “crescer de forma harmoniosa, mantendo a unidade na fé e na doutrina” é particularmente desafiador.

Mas nem sempre o missionário é chamado para trabalhar diretamente com evangelismo na África, alguns, como pastor brasileiro Matson Santana e sua família, vão para lá a fim de atuar em ministérios de promoção do bem-estar integral. No caso da família Santana, ao trabalharem no Egito com pessoas que possuem deficiências físicas, sensoriais e mentais, eles conseguiram transpor barreiras religiosas, políticas e socioculturais para compartilhar a fé.

Outra realidade do trabalho da África e de qualquer campo missionário transcultural, é que a missão ocorre em mão dupla. Ou seja, ao mesmo tempo em que o missionário procura transformar pessoas e culturas, ele também é impactado. “Conviver com eles e ver de perto o entusiasmo das pessoas, apesar dos muitos problemas que enfrentam”, confessa o pastor Osni, “tem sido uma experiência marcante e positiva em meu ministério”. Aprendizado semelhante tem experimentado o pastor Gilberto Araújo: “posso dizer que esse trabalho me ajudou a manter meu primeiro amor, conservou minha paixão pela salvação de pessoas, ampliou a visão sobre meu campo missionário e tem me ensinado a conviver com pessoas de outras culturas e a desejar estar pronto para o breve retorno de Cristo.”

Glauber Araújo é filho de missionários, cresceu na África e trabalha como editor de livros na CPB. É pastor e mestre em Ciências da Religião


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Igreja Adventista já é a quinta maior comunidade cristã do mundo

Desafio no país da Disney

Pastor conta como é liderar uma igreja multiétnica e centenária no centro de Orlando, na Flórida

Servir a Deus como pastor é um privilégio em qualquer lugar do mundo. Porém, trabalhar em outra cultura é sempre desafiador. Depois dos ajustes da mudança e do estresse que isso traz para a família pastoral, é hora de conhecer a liderança da igreja e ajudá-la a ser funcional. O passo seguinte é tomar conhecimento das necessidades da cultura local e verificar como a Palavra de Deus pode impactar essa realidade. Creio que todos esses são medidas importantes para um ministério pastoral relevante.

cleber-machado-3Em 2012, Deus me chamou para cuidar de uma igreja multiétnica no coração de Orlando, na Flórida (EUA). A Igreja Central de Orlando foi organizada no dia 17 de março de 1890 e, portanto, tem 125 anos de existência. Ao descobrir a história dessa congregação e conhecer os grandes pastores que já passaram por ali, senti-me pequeno diante de tamanha responsabilidade. Foi nesse contexto que entendi melhor o conflito pelo qual Josué passou ao receber o chamado de Deus para liderar o povo e suceder a Moisés (Js 1).

O meu primeiro desafio foi entender as barreiras linguísticas. A igreja está no centro dessa cidade turística e a cada sábado tenho que pregar em duas línguas: inglês e espanhol. Por sua vez, nossa Escola Sabatina opera nesses dois idiomas e em francês. Eu sabia falar inglês antes de assumir a igreja, mas não expressões culturais que apenas são aprendidas com o tempo.

Lembro-me, por exemplo, de uma situação em que, ao pregar, usei uma palavra que poderia ser traduzida como “caipira”. Foi quando todos me olharam com certa apreensão. Ao perceber a reação deles, perguntei se o que estava falando era inadequado e todos balançaram a cabeça positivamente, dando muitas risadas da minha trapalhada cultural. Depois do culto, alguns vieram me explicar que aquela expressão não é negativa em outras regiões dos Estados Unidos, mas soa pejorativa no sudeste do país.

O desafio cultural é grande. A Igreja Central de Orlando é formada por pessoas de 20 países. Cada uma dessas nacionalidades e suas subculturas possuem compreensão e perspectiva de vida diferente, o que acaba resultando em diferentes maneiras de ser igreja. Não é raro membros da igreja falarem para mim: “lá no meu país a gente faz de outro jeito”. Confesso que tenho a mesma tentação, e que muitas vezes já caí nela! Contudo, com o amadurecimento entendi que não se trata de como fazemos aqui ou ali, mas em como podemos encontrar o “assim diz o Senhor” para a realidade local, o que requer muita oração e estudo da Bíblia. Aprender a viver em uma realidade de exílio não é particularidade de nossos dias, mas encontra precedentes no povo de Deus (Jr 29:4-8).

Nesses últimos três anos, trabalhando como missionário e agente de transformação, a grande lição que tenho aprendido é confiar mais em Deus e nos princípios eternos de sua Palavra. Percebi que Deus tem feito muito mais em mim e por mim a partir do momento em que as mudanças me fizeram reconhecer minhas limitações pessoais e culturais. Isso tem sido um grande exercício de fé e humildade, bem como uma ótima oportunidade para aprender a depender mais do Pai (2Cr 7:14).

A grande verdade é que para gerar impacto para o reino de Deus, o fruto do Espírito (Gl 5:22, 23) tem que deixar as páginas do livro sagrado e se tornar a forma como vivemos: amor pelo evangelho a ponto de estar disposto a ser mártir por essa causa; paz em meio ao turbilhão de ideias e complexidade cultural; paciência para ouvir e entender que Deus trabalha em todos de forma diferente; bondade ao responder sensivelmente a quem é diferente de mim; fidelidade para com a Palavra de Deus e; domínio próprio para não oprimir qualquer que seja a cultura– afinal de contas, o chamado de Deus para a igreja é fazer discípulos de todas as nações (Mt 28:18).

Cleber Machado é pastor na Igreja Central de Orlando, na Flórida

Direto do Líbano

Pastor brasileiro dá um panorama do trabalho da igreja no Oriente Médio

guntherA União Norte-Africana Oriente Médio é uma das maiores regiões administrativas da Igreja Adventista em termos de território, área maior do que os Estados Unidos ou a Europa. É formada por 20 países e se estende do Marrocos, no extremo oeste da África, até o Qatar, no Golfo Pérsico. Esse vasta geografia, onde vivem mais de 500 milhões de pessoas, é o berço do cristianismo, mas atualmente a religião predominante ali é o islamismo. A região tem 55 centros urbanos com mais de 1 milhão de habitantes, e na maioria deles não há presença adventista.

É interessante viver numa região muito diferente da nossa realidade na América do Sul. As diferenças religiosas e de costumes são oportunidades para conhecer, compreender, apreciar e adaptar-se. Porém, os desafios são imensos. Alguns países de maioria muçulmana toleram a presença de cristãos, enquanto outros são mais fechados e dificultam a presença deles. Sendo assim, a igreja trabalha levando em consideração a situação de cada nação, encontrando meios para cumprir a grande comissão deixada por Jesus, uma motivação forte e urgente para levar a mensagem de esperança para todos.

Embora o número de adventistas na região seja ínfimo comparado com o de habitantes (1 adventista para cada 170 mil), a denominação considera que o testemunho pessoal é uma forma para cumprir a missão e apressar a volta de Jesus. Se não podemos plantar igrejas, podemos “plantar” missionários. Nessa região, também utilizamos os meios de comunicação como a internet, rádio e televisão para alcançar milhões de pessoas.

Alguns países como o Líbano, cuja população é praticamente dividida entre muçulmanos e cristãos, existe liberdade religiosa. Por essa razão, entre outras, em Beirute está a sede da igreja para a região. É onde também está situada a Universidade Adventista do Oriente Médio, que atende as necessidades de formação profissional em áreas de interesse da igreja e da comunidade em geral. Ali fica também a TV Al Waad, canal adventista cujo nome em árabe significa “promessa”.

No Egito, a denominação está presente há décadas, com uma sede de associação, uma fábrica de alimentos, um centro de influência na área de saúde e um internato que oferece o Ensino Médio, o Nile Union Academy. Por sua vez, outros países são mais restritivos, não permitindo que denominações religiosas preguem para a população local. É possível ministrar para os membros da própria igreja, mas distribuir literatura, dar estudos bíblicos ou realizar reuniões de pequenos grupos é considerado uma contravenção. Nesses contextos, uma das melhores maneiras de testemunhar é por meio de feiras de saúde.

Talvez você se pergunte: “o que posso fazer, mesmo à distância, pelas milhões de pessoas que vivem no Oriente Médio e Norte da África, que pouco ou nada sabem sobre a vida, ministério, morte, ressurreição e breve volta de Jesus?” Sugiro algumas atitudes: ore pela igreja, seus servidores e por sua missão na região; diariamente entregue sua vida a Jesus e testemunhe de seu amor; e se coloque à disposição de Deus para, talvez, servi-lo nesta região do mundo.

Günther Wallauer é coordenador de projetos na União Norte-Africana e Oriente Médio e vive em Beirute, no Líbano

Um lar para quem está longe de casa

Igrejas étnicas querem alcançar 1 milhão de pessoas que falam português e vivem na América do Norte

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Denison Moura é pastor em Nova York e foi recentemente eleito coordenador das igrejas adventistas de fala portuguesa da América do Norte. Foto: arquivo pessoal

Apesar de se concentrar basicamente em dois grandes países, Estados Unidos e Canadá, a Igreja Adventista na América do Norte tem muita diversidade cultural. Por isso, há alguns anos, um ministério multiétnico foi oficializado pela sede da denominação, tendo as igrejas de fala portuguesa como uma das áreas de atuação.

A iniciativa tem justificativa: estima-se que mais de 1 milhão de pessoas falam português por aqui. No contexto adventista, são 5.139 membros em 51 congregações distribuídas por 16 regiões administrativas (associações). Atendidas por 30 pastores, essas igrejas levaram 1.866 pessoas ao batismo nos últimos cinco anos.

Esses números representam um desafio que exige intenso esforço e dependência do poder do Espírito Santo. Da década de 1970 até o início dos anos 2000, as igrejas de língua portuguesa registraram um amplo crescimento. A imigração para os Estados Unidos favoreceu o acolhimento desses migrantes que se uniram no propósito de partilhar a fé com seus compatriotas. Porém, nos anos 2007 a 2009, a crise financeira americana e o rigor das leis de imigração atingiram fortemente a comunidade de língua portuguesa, fazendo com que muitos retornassem para sua terra natal. As igrejas de migrantes perderam de 30 a 50% dos membros e o crescimento só voltou a ser retomado em 2013.

O evangelismo é a mola propulsora do avanço desse ministério, e as formas convencionais e inovadoras de evangelização devem continuar convivendo por aqui. Nessa tendência, o modelo de discipulado e a proposta de pequenos grupos ganham espaço, e localizar pessoas que falam português, sejam concentradas em comunidades ou vivendo isoladamente delas, passa a ser prioridade. Para tanto, o contato pessoal e o uso da mídia são recursos eficazes.

Imersos numa comunidade secular e influenciados pelo pós-modernismo, os imigrantes tendem a ter uma postura diferente em relação à religião do que teriam em seu país de origem. Logo, é preciso mostrar a relevância da fé nesse novo contexto, o que, via de regra, se traduz em fortes vínculos comunitários.

Um desafio que tem se tornado mais forte neste tempo é a integração das novas gerações no ambiente das igrejas de língua portuguesa. Isso envolve eficácia na comunicação em dois idiomas, inglês e português, e o uso de tecnologia e de uma linguagem cultural que faça sentido aos jovens, adolescentes e crianças.

Entendemos que não existe um único modelo que atenda todas as necessidades, mas o objetivo é encontrar todos os caminhos possíveis para que as próximas gerações estejam integradas e envolvidas no ambiente da igreja e no cumprimento da missão. Para tanto, temos organizado cultos específicos para essa audiência, além de pequenos grupos de relacionamento, atividades sociais e comunitárias. Porém, por vivermos numa sociedade em constante transformação, estamos atentos ao que tem efeito no coração das pessoas.

Oferecer suporte para essas igrejas por meio de materiais para o trabalho missionário também é um dos desafios do nosso ministério. Muito do que utilizamos aqui vem da igreja sul-americana, mas temos buscado produzir materiais que retratem melhor nossa realidade. O site, que está sendo reformulado, visa a favorecer o acesso e a distribuição desses recursos.

Os desafios se transformam e o empenho se intensifica. Priorizando o crescimento espiritual e o comprometimento com Jesus e sua missão, acreditamos que seremos movidos ao cumprimento do nosso papel como discípulos de Cristo, dia após dia, até o tempo em que ouviremos dele: “Bem está servo bom e fiel (…) entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25:23).

Denison Moura é pastor em Nova York e foi recentemente eleito coordenador das igrejas adventistas de fala portuguesa da América do Norte

Nas terras de Aladim

Saiba por que a perda do vínculo familiar é o maior desafio e a secularização é a maior oportunidade para a missão no Oriente Médio

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O Oriente Médio é um grande emaranhado de culturas milenares, onde nasceram as três principais religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Várias civilizações dominaram a região que é palco de conflitos quase eternos. Mais recentemente, a região foi tomada por impérios coloniais europeus e o termo Oriente Médio só foi cunhado após a Segunda Guerra Mundial, quando divisas territoriais foram estabelecidas sem levar em conta o histórico dos povos que ali habitam. Resultado: desde então, a região tem vivido em constante tensão entre o modelo de estado e o étnico tribal. Soma-se a tudo isso, as disputas religiosas e políticas.

mapa-da-MENAO que chamamos Oriente Médio é a junção de três grandes áreas geográficas definidas de maneira imprecisa. A primeira região é o Norte da África, formada por nações com grandes desafios sócio econômicos, como a Líbia, Tunísia e Argélia. Por sua vez, o Egito, Jordânia, Israel, Síria, Líbano e Turquia formam a segunda região, chamada de Levante. Marcada por conflitos, essa geografia convive com o constante enfrentamento entre palestinos e israelenses, xiitas e sunitas, além do terror imposto por grupos como Hezbollah e Estado Islâmico.

A terceira região é a do Golfo Árabe ou Pérsico. Aqui ficam as nações mais ricas e algumas das mais secularizadas do Oriente Médio, destino certo para os jovens árabes que buscam trabalho e prosperidade. É nesta região que está, por exemplo, a famosa cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos; a Arábia Saudita, que concentra 20% das reservas de petróleo do planeta; e o Irã, que produz 16% de todo gás natural do mundo.

Apesar de possuir 60% das reservas de petróleo do planeta, as disparidades no Oriente Médio são tremendas. O desemprego entre os jovens, por exemplo, varia entre 48,7% na Líbia e 1,1% no Qatar. As diferenças se espalham por áreas como educação, expectativa de vida e direitos femininos. Porém, o que une a região mesmo, apesar de sua diversidade étnica, é a religião islâmica e língua árabe.

Talvez no imaginário brasileiro, o Oriente Médio ainda seja a terra encantada de Ali Babá, o Gênio da Lâmpada, das Mil e Uma Noites e do Aladim. De fato, essa é a terra dos camelos, desertos, majestosas montanhas rochosas, tapetes, castelos e vilas milenares com seus sheiks, sultões e emirs. O que os contos das arábias não revelam são as condições extremas como temperaturas acima dos 50 graus, escassez de água, alimento limitado, tempestades de areia e constantes guerras ao longo dos milênios. É nessa terra de contrastes que o cristianismo em geral, e o adventismo em particular, encontra um de seus maiores desafios

Desafios

Diversidade étnica. Os maiores grupos são os árabes, berberes, iranianos, turcos, curdos e israelenses. A Igreja Adventista não possui membros em todos esses grupos étnicos e os conflitos constantes forçam a migração dos poucos adventistas nativos. O ódio racial é uma constante tentação aos irmãos desta região marcada por atrocidades. Missionários estrangeiros também enfrentam grandes dificuldades para serem aceitos entre as comunidades nativas, o que dificulta a aprendizagem da língua, costumes e o desenvolvimento de relacionamentos significativos. O estrangeiro é alvo de suspeita, quando não é visto apenas como uma “ponte” para facilitar a migração para a Europa e América do Norte. Em lugares com visão de mundo tribal os relacionamentos são fechados dentro do circulo familiar, que pode facilmente conter milhares de pessoas. Embora o islamismo seja a religião predominante, vivem ali cristãos como os coptas e assírios, além dos judeus em Israel.

Sistema islâmico. Diferentemente do Ocidente, em que a religião é uma área da vida, no Oriente Médio, a influência do islamismo ultrapassa as mesquitas, é um sistema social completo e complexo. Ou seja, em muitos países a religião é indissociável do governo, da política, das leis e das regras sociais. Nesse caso, ser cidadão é ser islâmico. Embora em alguns países o cristianismo seja tolerado por conta da grande quantidade de migrantes, ainda sim a fé cristã não pode ser pregada a muçulmanos e a presença de nativos em cultos de outras religiões é proibida. O proselitismo também é vetado por lei a apostasia da fé islâmica pode ser punida com pena de morte. Porém, ao contrário do que pareça, essas leis rígidas não são a maior barreira para a conversão de muçulmanos, e sim a perda do vínculo famíliar, da identidade étnica e do senso de pertencimento.

Oportunidades

População jovem urbana. Eles são maioria nas metrópoles emergentes da região, ambiente que dificulta a fiscalização religiosa e possibilita a formação de pequenos núcleos de influência cristã. Nesse contexto, os encontros casuais permitem que relacionamentos sejam desenvolvidos de maneira mais natural. Esses jovens urbanos vivem um momento de profunda desilusão, seja com a falta de perspectiva de dias melhores ou pelo tédio da prosperidade excessiva. Enquanto os que conseguem migram para outros países, a maioria permanece e parece aberta a explorar outras narrativas para sua fé.

Crenças adventistas. Islamismo e o adventismo possuem semelhanças quanto à modéstia, alimentação, abstinência de álcool e substâncias tóxicas.

Secularização. Tão combatida no discurso cristão ocidental, no Oriente Médio ela é uma oportunidade para a missão adventista. No contexto urbano, muitos são muçulmanos nominais. Estão insatisfeitos com os desdobramentos políticos, outros são pluralistas e por isso abertos ao diálogo religioso existencial, e ainda alguns notam hipocrisia e incoerência em sua religião. Esse fenômeno deve ser acentuado nos próximos anos com a entrada de muitas cidades da região no circuito mundial de negócios e turismo. Com essa abertura, mais cristãos devem migrar para os países, levando na bagagem o testemunho sobre a fé em Cristo.

Embora os desafios nesta região sejam humanamente intransponíveis e o perigo de conflitos regionais iminente, é claro que Deus está ativo ali, conduzindo a história do Oriente Médio. Contra todas as adversidades, multiplicam-se os relatos de nativos convertidos ao cristianismo, que mantêm sua fé em secreto, e afirmam terem recebido sonhos e visões do próprio Jesus.

Apesar dos desafios e além das possibilidades, está a promessa divina para Isaque – “Aliança eterna para os seus futuros descendentes” – e para Ismael – “Também o abençoarei; eu o farei prolífero e multiplicarei muito a sua descendência” (Gn 17:19, 20). De muitas formas, os olhos de Deus repousam sobre a terra de Aladim, e o Espirito Santo está ativo em missão “reconciliando consigo mesmo mundo” em Cristo Jesus (2Co 5:19).

PAULO CÂNDIDO é doutor em Ministério e missionário no Oriente Médio

A mão de Deus ao leme

Ele já participou de dez assembleias mundiais e viu a igreja atravessar muitas intempéries

Desde 1962, com exceção do encontro em Detroit (1966), tive o grande privilégio de assistir a dez assembleias mundiais da Igreja Adventista. Em San Antonio, no Texas, estou acompanhando esse evento pela 11ª vez. Foram reuniões que marcaram meu ministério e me inspiraram a servir o Mestre.

Os pontos altos das assembleias são os relatórios, o desfile das nações, os sermões, a diversidade da música e as celebrações de fins de semana que reúnem de 65 mil a 75 mil adventistas. A multidão sai deslumbrada com o crescimento da igreja e inspirada para servir em suas igrejas e comunidades.

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Assembleia foi tema de reportagem especial da edição de outubro de 1970 da Revista Adventista. Evento reuniu mais de 33 mil adventistas. Imagem: Acervo RA

A mais especial para mim, sem dúvida, foi a de 1970, em Atlantic City. Nos cinco anos anteriores à reunião, eu havia atuado como líder do Ministério Jovem em duas sedes administrativas da igreja: Associação Paraná-Santa Catarina e na União Sul-Brasileira. Participando numa caravana com 50 adventistas liderada pelo Dr. Wilson Rossi, fui como delegado para os Estados Unidos. Lá, em Nova Jersey, a pedido do pastor Oswaldo Azevedo, ajudei como tradutor dos brasileiros na comissão de nomeações.

Naquela reunião, testemunhei a eleição de vários líderes e o primeiro choque foi ver o pastor Moysés Nigri ser eleito como um dos vice-presidentes da sede mundial. Porém, a maior surpresa ainda estava para vir. Quando a comissão passou a eleger os líderes de ministérios, o pastor Charles Griffing, um missionário norte-americano, levantou-se e indicou meu nome para uma função. Ele brincou dizendo que havia sugerido meu nome para que um dia pudesse contar para meus netos que havia sido escolhido. Resultado: fui eleito diretor associado do Ministério Jovem. Dali para frente, passei por oito eleições e reeleições em 33 anos de serviço na sede mundial. Foi a primeira vez que a igreja escolheu brasileiros para trabalhar em seu nível administrativo mais alto.

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Capa da edição de agosto de 1975 da Revista Adventista. Imagem: acervo RA

De 1975, lembro-me da iniciativa do pastor Robert H. Pierson, líder mundial dos adventistas na época, de internacionalizar a liderança da igreja. Naquele ano, pela primeira vez a assembleia ocorreu fora dos Estados Unidos: em Viena, na Áustria. Lá, tivemos que preparar equipes para as traduções e coube a mim a responsabilidade de trabalhar com 25 pastores de fala alemã. Essa foi a única vez em que a reunião foi bilíngue. Hoje, os delegados acompanham o programa em inglês munidos de rádios para a captação da tradução simultânea.

Não me esquecerei também da assembleia de Dallas (Texas), em 1980. Ali fui surpreendido novamente com outra eleição: então para ser o diretor mundial do Ministério Jovem, algo novamente inédito para um brasileiro. Na ocasião, tive que conversar com o pastor Neal C. Wilson, nos bastidores, para indicar para ele qual seria a minha equipe, a fim de que os nomes fossem aprovados pela comissão de nomeações. Atualmente, apenas os diretores de ministérios são escolhidos na assembleia, enquanto os associados eleitos no concílio anual. Tradicionalmente realizada em julho, naquele ano, pela primeira vez a assembleia ocorreu em abril.

Em 1990, na cidade de Indianápolis (Indiana), houve algo inusitado. É imprescindível que o presidente da Associação Geral seja eleito ou reeleito na primeira sexta-feira das reuniões, a fim de que ele lidere os votos sobre os demais itens da agenda. Como um dos secretários associados da sede mundial na época, eu conversava sobre a inclusão das novas uniões na hora do almoço com o pastor George Brown, então presidente da Divisão Interamericana. Então ele foi chamado para se apresentar para a comissão de nomeações. Comentei com meus colegas que eu já sabia que ele seria o novo presidente mundial. No entanto, para surpresa geral, ele não aceitou e foi assim que, quase ao pôr do sol, o pastor Robert Folkenberg foi eleito. Naquela mesma assembleia fui escolhido como um dos vice-presidentes, seguindo os passos de outros dois grandes líderes brasileiros: Moysés Nigri e Enoch de Oliveira.

Por sua vez, em 1995, na Holanda, a igreja discutiu o mesmo tema que tem gerado polêmica na assembleia de San Antonio: a ordenação de mulheres. Recordo dos delegados formando enormes filas para falar no microfone contra e em favor da questão. O mesmo ocorrerá agora em San Antonio, mas tenho certeza de que não haverá divisão da igreja. Ao longo dessas décadas, tive um vislumbre de como o Senhor esteve ao leme dirigindo seu povo através das intempéries. Seja na crise teológica com Desmond Ford, em 1980, ou na polêmica sobre a ordenação de mulheres, em 1995, os delegados, guiados pelo Espírito Santo, conseguiram encontrar uma solução e o mesmo ocorrerá no Texas. Deus intervirá para que a igreja continue seguindo o espírito da primeira assembleia, de 1863, levando adiante a pregação sobre a volta de Cristo em glória e majestade.

Léo Ranzolin foi vice-presidente mundial da igreja e hoje, aposentado, reside em Estero, na Flórida (EUA)

No mesmo tom

Ele testemunhou a unidade teológica em meio à diversidade étnica da igreja

Tive o privilégio de participar de três assembleias mundiais da Igreja Adventista do Sétimo Dia: em Indianápolis (1990), Saint Louis (2005) e Atlanta (2010). Em cada um desses eventos, várias coisas me impressionaram: o belo mosaico étnico do povo adventista, seu refinado talento musical, os relatórios e testemunhos sobre o crescimento da igreja ao redor do mundo e os sermões inspiradores. No entanto, o que mais chamou minha atenção foi o espírito de unidade com que o povo do advento reagiu, por meio de seus representantes, ao tratar de temas complexos.

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Rubens Lessa fez a cobertura especial da assembleia de Indianapolis para a Revista Adventista. Créditos da imagem: acervo RA

Em Indianápolis, por exemplo, após um dia em que mais de dois terços dos 2.239 delegados disseram “sim” à proposta de não ordenar mulheres ao ministério pastoral, milhares de adventistas retornaram a seus hotéis convictos de que o Espírito Santo havia conduzido, com segurança, as reuniões da igreja. Houve momentos de polarização, mas a atmosfera de unidade básica foi mantida até o fim da assembleia.

Naquela noite, ao retornar para o hotel, presenciei um acontecimento singular: um dos passageiros do ônibus – todos adventistas – começou a tocar em sua gaita o hino Blessed Assurance, Jesus Is Mine! (“Bendita Segurança”, HA – 240), e logo um africano aqui, um asiático ali e um europeu acolá passaram a cantar suavemente o coro em inglês. Na segunda estrofe, todos os passageiros estavam cantando, uns em inglês, outros em francês, e ainda outros em línguas asiáticas. Formou-se um lindo coral. Eu, inicialmente, me uni aos que cantavam em inglês, mas, com o tempo, passei a cantar em português. Idiomas diferentes, mas a mesma mensagem, a mesma fé, a mesma esperança!

Quando cheguei ao meu quarto, agradeci a Deus o privilégio de pertencer a um povo que, muito em breve, formará no Céu um coral afinadíssimo para cantar hosanas ao Cordeiro de Deus! Então, pela eternidade afora, haverá unidade absoluta, em meio a uma diversidade que não causará constrangimentos a ninguém. Na assembleia dos santos, não haverá liberais nem fanáticos.

RUBENS LESSA serviu por 36 anos como redator-chefe da CPB e agora, aposentado, continua a residir em Tatuí (SP)