Mensagem viva de saúde

Participantes da assembleia mundial da igreja organizam corrida para impactar San Antonio com a mensagem de saúde

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Mais de 2,5 mil pessoas participaram de uma corrida organizada pela Igreja Adventista em San Antonio no início da manhã do último domingo, dia 6. O evento buscou chamar a atenção da comunidade para a importância do estilo de vida saudável. Segundo a coordenadora do evento e responsável pelo departamento de Saúde da igreja na América do Norte, Kátia Reinert, a população local sofre com problemas de obesidade, diabetes e outras doenças crônicas. Por isso, a iniciativa foi uma mensagem viva de saúde transmitida pelos adventistas à cidade sede da 60ª assembleia da Associação Geral. [Fotos: Leônidas Guedes]

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Divisões não poderão autorizar a ordenação de mulheres ao ministério pastoral

Decisão foi tomada pela assembleia mundial da igreja hoje à noite em San Antonio, no Texas (EUA)

Diante da falha registrada nessa semana no sistema eletrônico, votação foi realizada com cédulas.  Foto: Adventist Review

Votação foi realizada com cédulas de papel. Foto: Adventist Review

As 13 divisões da igreja adventista espalhadas pelo mundo não poderão autorizar a ordenação de mulheres ao ministério pastoral. O voto foi tomado nesta quarta-feira, 8 de julho, na assembleia que reúne líderes mundiais da igreja na cidade de San Antonio, Texas (EUA). Dos 2.363 delegados, 1.381 (58,4%) votaram “não” e 977 (41,3%) “sim”. Houve cinco abstenções.

O assunto vem sendo discutido pela igreja há alguns anos. Em 1990, quando ocorreu a primeira votação, 76% decidiram pela não ordenação das mulheres. Num segundo momento decisivo, durante a assembleia de Utrecht, na Holanda, 69% também se manifestaram contrários.

Cinco anos depois, na sessão da Associação Geral de Atlanta, em 2010, a pauta veio à tona novamente, acompanhada de uma solicitação para que o assunto fosse reapresentado. Durante dois anos, teólogos de todo o mundo formaram um comitê para tratar do assunto. As conclusões obtidas a partir do estudo aprofundado do tema resultaram numa declaração de consenso sobre a teologia adventista da ordenação (leia o documento abaixo).

Vice-presidente da Igreja Adventista, Mike Ryan, preside o Concílio Anual na terça-feira, dia 14 de outubro, enquanto delegados votaram quase unânimes para colocar um item na agenda da Assembleia da Associação Geral do ano que vem perguntando se as Divisões regionais podem permitir que as mulheres sejam ordenadas como ministros (ou ministras). O voto foi de 243 a 44, com três abstenções (Foto: Viviene Martinelli).

Vice-presidente da Igreja Adventista, Mike Ryan, preside o Concílio Anual realizado em outubro de 2014, quando foi decido que o assunto da ordenação das mulheres ao ministério pastoral seria tratado na assembleia de San Antonio. A proposta. Foto: Viviene Martinelli.

Em outubro de 2014, o Concílio Anual da Associação Geral da Igreja Adventista, em Silver Spring, Maryland (EUA), decidiu inserir o item na agenda da 60ª assembleia. A proposta de se promover uma terceira votação sobre o tema recebeu 243 votos favoráveis e 44 contra (houve três abstenções).

Ponto em questão

A pergunta em questão na tarde de hoje foi se as divisões (ou escritórios administrativos da Igreja Adventista) devem permitir que as mulheres sejam ordenadas como pastoras. Por ser o item mais sensível da agenda da 60ª assembleia da igreja, o presidente mundial dos adventistas, Ted Wilson, apelou aos delegados para que buscassem a Deus em oração antes de manifestar sua decisão nas urnas.

Sem perder esse espírito, ao longo de toda a tarde, enquanto dezenas de delegados manifestavam publicamente diferentes opiniões a respeito do tema, a reunião administrativa foi interrompida pelo presidente da mesa, pastor Michael Ryan, para momentos de oração.

Após a decisão, em um discurso solene, o líder mundial dos adventistas reiterou que a votação nesta assembleia não encerra com vencedores ou perdedores. Segundo ele, mais do que nunca a igreja precisa seguir unida e com o foco na missão. [Márcio Tonetti, equipe RA]


 

DECLARAÇÃO CONSENSUAL SOBRE A TEOLOGIA ADVENTISTA DA ORDENAÇÃO

VOTADO o recebimento e o endosso do documento “Declaração Consensual sobre a Teologia Adventista da Ordenação”, que afirma o seguinte:

Em um mundo alienado de Deus, a igreja é composta por aqueles que Deus reconciliou consigo mesmo e uns com os outros. Por meio da obra salvadora de Cristo, seus membros estão unidos em missão pela fé mediante o batismo (Ef 4:4-6), tornando-se um sacerdócio real, cuja missão é “anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2:9). Os cristãos recebem o ministério da reconciliação (2Co 5:18-20), chamados e capacitados pelo poder do Espírito e pelos dons que Ele derrama sobre cada um para cumprir a comissão evangélica (Mt 28:18-20).

Embora todos os cristãos sejam chamados para usar seus dons espirituais no ministério, as Escrituras identificam algumas posições específicas de liderança que eram acompanhadas da ratificação pública pela igreja de que tais pessoas atendiam os requisitos bíblicos (Nm 11:16, 17; At 6:1-6; 13:1-3; 14:23; 1Tm 3:1-12; Tt 1:5-9). Revela-se que vários desses endossos envolviam a “imposição de mãos”.

As versões da Bíblia em inglês usam a palavra ordenar para traduzir muitas palavras diferentes em grego e hebraico que exprimem a ideia básica de selecionar ou nomear, descrevendo a colocação de tais pessoas em seus respectivos ofícios. Ao longo da história cristã, o termo ordenação adquiriu significados que vão além do que as palavras originalmente subentendiam. Levando em conta esse contexto, os adventistas do sétimo dia entendem que ordenação, no sentido bíblico, é a ação da igreja de reconhecer publicamente aqueles a quem o Senhor chamou e capacitou para o ministério na igreja local e global.

Além da função única dos apóstolos, o Novo Testamento identifica as seguintes categorias de líderes ordenados: os presbíteros e presbíteros-chefes (At 14:23; 20:17, 28; 1Tm 3:2-7; 4:14; 2Tm 4:1-5; 1Pe 5:1) e os diáconos (Fp 1:1; 1Tm 3:8-10). Ao passo que a maioria dos presbíteros e diáconos ministrava em contextos locais, alguns presbíteros eram itinerantes e supervisionavam um território maior, formado por várias congregações, função que pode refletir o ministério de indivíduos como Timóteo e Tito (1Tm 1:3, 4; Tt 1:5).

Por meio do ato da ordenação, a igreja confere autoridade representativa sobre indivíduos para a obra específica de ministério à qual são nomeados (At 6:1-3; 13:1-3; 1Tm; Tt 2:15). Tais papéis podem incluir: representar a igreja, proclamar o evangelho, ministrar a Ceia do Senhor e o batismo, plantar e organizar igrejas, guiar os membros e cuidar deles, opor-se a falsos ensinos e prover serviço geral para a congregação (cf. At 6:3; 20:28, 29; 1Tm 3:2, 4, 5; 2Tm 1:13, 14; 2:2; 4:5; Tt 1:5, 9). Embora a ordenação contribua para a ordem da igreja, ela não confere qualidades especiais aos indivíduos ordenados, nem introduz uma hierarquia monárquica na comunidade da fé. Os exemplos bíblicos de ordenação incluem a concessão de um mandato, a imposição de mãos, jejum e oração e a entrega das pessoas separadas à graça de Deus (Dt 3:28; At 6:6; 14:26; 15:40).

Os indivíduos ordenados dedicam seus talentos ao Senhor e à sua igreja em serviço vitalício. O modelo básico de ordenação foi a nomeação dos doze apóstolos (Mt 10:1-4; Mc 3:13-19; Lc 6:12-16) e o modelo supremo de ministério cristão é a vida e a obra de nosso Senhor, que não veio para ser servido, mas, sim, para servir (Mc 10:45; Lc 22:25-27; Jo 13:1-17). [Tradução: Cecília Eller Nascimento]


 

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VÍDEO: O pastor e jornalista Diogo Cavalcanti comenta a decisão direto de San Antonio

Cultura ou Escritura?

O grande teste da fé é se manter fiel à Bíblia quando ela contraria os valores do nosso tempo

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A declaração de Ellen White de que a Bíblia é “a voz de Deus nos falando […] como se pudéssemos ouvi-la literalmente” (Testemunhos para a Igreja, v. 6, p. 393) é, ao mesmo tempo, confortante e desafiadora.

Ela é facilmente aceita quando a Bíblia diz que “Deus é amor” (1Jo 4:8), que Jesus foi preparar “moradas” para nós (Jo 14:2) e que ele pode “nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1:9).

No entanto, a mesma Bíblia também afirma que os israelitas foram instrumentos divinos para punição dos cananeus (Lv 26:7, 8), que o escravo Onésimo deveria voltar para seu senhor (Fm 12), que as mulheres devem ser “sujeitas” ao marido (Ef 5:22; 1Pe 3:1) e que os “efeminados” não herdarão “o reino de Deus” (1Co 6:10). Para muitos, nisso, a Bíblia entra em choque com os valores mais lógicos e atuais e deixa de parecer a voz de um Deus de amor.

Inclusão e igualdade são hoje ideais hegemônicos. É coerente e atual abrir espaço para as minorias marginalizadas. Defender os direitos femininos irrestritos é politicamente correto. Diante disso, certas declarações bíblicas têm causado constrangimento. As indagações surgem às dezenas:

Por que Deus manteria aliança com os israelitas se eles fizeram “pior” do que os cananeus que haviam contaminado a terra de Canaã (2Rs 21:9)? Não teria essa história sido narrada da perspectiva de Israel, retratando os cananeus como ímpios, quando na verdade os israelitas foram piores do que eles? Por que a escravidão foi tolerada ao longo de séculos sem nenhuma condenação direta? Por que a Bíblia, desde o princípio, não estabeleceu a igualdade entre homem e mulher, combatendo o machismo? Por que a marginalização não foi encarada corajosamente, da mesma forma que Jesus defendeu a mulher adúltera?

Lentes da cultura

Para muitos, a resposta é simples: a verdade bíblica, transmitida pelos autores inspirados, se acomoda às estruturas socioculturais do contexto em que foi escrita. Essa abordagem procura resolver os dilemas causados pelo relato bíblico quando este entra em choque com os valores e a visão de mundo do tempo atual. Para os defensores do ponto de vista da verdade aculturalizada, o relato bíblico da criação, por exemplo, incorpora as ideias mitológicas do tempo de Moisés e a descrição dos costumes sociais reproduz os valores do contexto em questão sem interferir neles. Portanto, essas pessoas defendem que, hoje, o ensino das origens deve substituir as ideias de Moisés pela visão dominante da ciência. Da mesma forma, uma abordagem atual da condição da mulher e dos excluídos deve incorporar o sentimento de igualdade e inclusão predominantes.

Além disso, a valorização da pluralidade na cultura pós-moderna tem fomentado leituras diversas da Escritura, possibilitando a cada grupo social uma teologia específica. Existe a teologia da libertação, que usa a Bíblia para dar voz aos pobres e oprimidos; a teologia feminista, que empreende a defesa da mulher; a teologia negra e a teologia homossexual, em defesa dos marginalizados. Todas essas abordagens partem da suspeita de que há sistemas de dominação na sociedade e que a tarefa da teologia é desmontar tais estruturas sociais e promover a emancipação das diversas classes oprimidas. Henry A. Vikler afirma que “a hermenêutica da suspeita reivindica a tarefa de desmascarar a visão de mundo em que o texto bíblico se apoia, a qual se suspeita ser o suporte dos poderosos em sua opressão sobre os fracos” (Hermeneutics: Principles and Process of Biblical Interpretation, p. 69).

Orientados por esse espírito desconstrucionista, os teólogos dissecam o texto bíblico como se fosse possível estabelecer quando os autores inspirados estão transmitindo uma verdade espiritual e quando estão apenas refletindo a visão de mundo e as ultrapassadas estruturas socioculturais de seu tempo. Decorre daí a centralidade do intérprete em detrimento da autoridade do texto sagrado.

Submissão à Palavra

Contrariamente a essa tendência de elevar o intérprete acima do autor inspirado e de considerar a Palavra de Deus como acomodada à cultura antiga, Cristo endossou “todas as Escrituras” (Lc 24:27), e Paulo declarou que “toda a Escritura é divinamente inspirada por Deus” (2Tm 3:16).

Em defesa da verdade bíblica, Ekkehardt Mueller afirma que “a Palavra de Deus não é cultural nem historicamente condicionada, mas cultural/historicamente constituída”. Apesar de ser transmitida por meio da linguagem humana, “ela transcende a cultura e nos alcança hoje”. Por isso, diz ele, “o que o texto bíblico significava em seu ambiente original é precisamente o que ele significa para nós hoje”, e toda a verdade bíblica precisa ser entendida a partir de “seu significado original” (Compreendendo as Escrituras, p. 113).

Quando os dilemas sociais são analisados no contexto bíblico, deve-se notar que a salvação é o objetivo primordial da revelação divina. Nessa perspectiva, Deus foi capaz de libertar o povo de Israel da escravidão egípcia, quando essa condição comprometia o plano da salvação, mas ele também foi capaz de entregar esse mesmo povo à escravidão novamente, sob as mãos do rei pagão Nabucodonosor, a quem ele chamou de “meu servo” (Jr 25:9). Libertar e escravizar do ponto de vista social são ações subordinadas ao plano da salvação, que é superior e essencial, ficando subentendido que a escravidão decorre do afastamento do plano salvífico de Deus.

Diante das expectativas dos discípulos acerca da restauração do reino de Israel e da libertação do jugo romano, Jesus foi claro em dizer que o reino de Deus estava dentro deles (Lc 17:20, 21). Esse reino espiritual, que liberta do poder do pecado, é a essência do reino da graça inaugurado por Jesus. Mais tarde, antes da descida do Espírito, ele disse que não competia aos discípulos saber o tempo para a implantação do reino da glória (At 1:6, 7), que incluiria libertação social e política de todo tipo de jugo. O objetivo da manifestação e da ação de Deus na história é a salvação de seus filhos.

É notório que Jesus não só frustrou as expectativas emancipatórias imediatas dos discípulos, mas disse que eles seriam perseguidos e maltratados por causa de seu nome (Lc 21:12). Ele deixou sugerido que Roma continuaria soberana e que perseguiria os próprios crentes. E não esboçou nenhum plano de quebrar esse poder, senão no reino da glória. O plano da salvação é prioritário, e essa questão deve ser levada em conta na leitura dos relatos bíblicos envolvendo questões sociais.

A despeito disso, porém, é preciso considerar que a submissão da mulher na Bíblia não é a mesma da cultura machista do mundo. A relação da igreja com Cristo é o modelo da submissão feminina e da autoridade masculina. O escravo na Bíblia também não é o mesmo escravo da história europeia-americana, pois não raro o escravo em Israel preferia ficar com seu senhor quando ele podia ser livre (Dt 15:13-16). Todos os pecadores, por mais socialmente excluídos que sejam, são salvos mediante o arrependimento e abandono do pecado possibilitados pela graça de Cristo.

Nas últimas décadas, os cristãos têm manifestado grande reverência para com as Escrituras. Nunca se leu tanto a Bíblia nem jamais foram vendidas tantas cópias do livro sagrado. No entanto, as Escrituras têm sido lidas mais como um compêndio de autoajuda do que como revelação da verdade divina.

O teólogo britânico John Barton considera que as hermenêuticas pós-modernas “permitem às pessoas atribuir o significado que elas desejam ver nos textos sagrados”. Essa abordagem oferece um modelo de exegese que proporciona às pessoas “bem-estar dentro de suas comunidades”. Segundo ele, na verdade, os crentes pós-modernos não desejam ser desafiados pelo significado do texto bíblico, a despeito do “lugar de honra” que dão à Bíblia (Cambridge Companion to Biblical Interpretation, p. 18).

Teste da fé

O grande teste da reverência para com a verdade bíblica não é quando a Bíblia afirma o que acreditamos, mas quando ela contraria nossas expectativas e convicções mais íntimas. A mesma voz que diz que Jesus pode perdoar nossos pecados também afirma que a igreja não é deste mundo nem deve se acomodar à cultura secular; em vez disso, precisa ser separada.

O teste da fé é quando a Bíblia diz uma coisa que a ciência, com seus métodos, tem demonstrado o contrário. É quando um autor inspirado faz uma afirmação que entra em choque direto com os valores do nosso tempo. Manter essa afirmação inspirada é não apenas uma questão de fé, mas de submissão.

Nisso, a própria Bíblia nos dá inúmeros exemplos. Jó pôde dizer: “ainda que ele me mate nele esperarei” (Jó 13:15). O pequeno Samuel disse: “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve” (1Sm 3:9). A primeira característica da fé é a submissão à voz de Deus.

Vanderlei Dorneles é Doutor em Ciências pela Escola de Comunicação e Artes (USP) e redator-chefe associado na CPB

A unidade é possível se …

… o foco da igreja não estiver excessivamente nas divergências, mas naquilo que nos une: nossa mensagem e missão
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Unidade na diversidade é uma das características que definem a Igreja Adventista do Sétimo Dia em seus 152 anos como um movimento oficialmente organizado. Porém, muitos se perguntam: O que significa essa unidade em nossos dias? Além disso, alguns questionam: Até que ponto permaneceremos unidos enquanto crescemos agregando pessoas e culturas tão diferentes entre si? Como podemos ter opiniões divergentes e ainda nos considerarmos irmãos?

Em 1870, sete anos depois de sua organização, os adventistas reuniam pouco mais de 5 mil pessoas, distribuídas em 179 igrejas, em uma denominação essencialmente norte-americana. A ideia de unidade nesse contexto parecia viável. Como é possível, contudo, falar na unidade de uma igreja que soma quase 19 milhões de membros, espalhados em 216 países, vivendo a fé e os desafios da vida em realidades tão contrastantes? Como manter a unidade doutrinária e administrativa numa realidade tão diversificada e em constante mudança?

Divergências teológicas e administrativas já sacudiram o movimento adventista ao longo das décadas. Em 1888, a doutrina da justificação pela fé e a compreensão do significado da lei no livro de Gálatas dividiam as opiniões. A reorganização administrativa no início do século 20 foi realizada buscando o consenso de diferentes pontos de vista. Na década de 1980, polêmicas teológicas levantadas por Desmond Ford e Walter Rea sacudiram a igreja, questionando pilares distintivos do adventismo como a doutrina do santuário e a inspiração profética de Ellen G. White. Na atualidade, assim como aconteceu nos anos 1990, o debate sobre a ordenação de mulheres ao ministério pastoral divide opiniões.

Em diversas situações de tensão e divergências, muitos viram a igreja prestes a sofrer um cisma ou muito perto de um racha irreversível. Porém, uma igreja levantada por Deus não seria destruída pelo capricho humano. Após as polêmicas de 1888, os adventistas chegaram a uma compreensão muito mais clara da justificação pela fé em sua mensagem profética. A reorganização administrativa deu novo impulso às missões e ao crescimento da igreja. Os questionamentos sobre o santuário e o ministério profético resultaram em profundo estudo bíblico desses temas e colocaram a igreja em um novo patamar de compreensão de pilares de sua mensagem. Não há motivo para acreditar que, com a discussão sobre a ordenação feminina será diferente. Assim como aconteceu no passado, Deus continuará guiando seu povo a uma compreensão mais clara a respeito de temas em debate.

Convergências

Em seu livro The Fragmenting of Adventism, lançado há 20 anos, o ex-redator-chefe da Revista Adventista dos Estados Unidos, William Johnsson, cita alguns fatores que desafiavam a unidade da igreja naquela época e deveriam continuar a desafiar os novos líderes: diferenças de geração, novas mídias, forte crescimento, diversidade de vozes e opiniões, polarização teológica, entre outros pontos. “A igreja nunca mais retornará à relativa calma e ordem dos anos 1960 e 1970”, ele afirma. Na opinião do experiente editor, a saída não está em focalizar excessivamente as divergências, mas buscar a convergência no que é essencial à fé e à missão do povo do advento.

Johnsson sugere o enfoque no que é fundamental: “Somos o povo da esperança – isso é básico, então a segunda vinda de Cristo deve ser central. Somos o povo do sábado – então a lei deve ter destaque, mas colocada sob o prisma da graça. E somos o povo da Bíblia. E um povo com o espírito de profecia. E a mensagem do santuário. E temos uma missão para o mundo. E Deus nos chamou para vivermos como seus filhos, para representá-lo nos últimos dias” (p. 121). “Vamos dirigir nossos esforços para esse objetivo”, ele orienta.

Surgida no século 19, a Igreja Adventista do Sétimo Dia atravessou as turbulências do século 20 e chegou ao século 21 com o desafio de continuar crescendo de maneira integrada, em espírito de unidade. O desafio parece impossível? Porém, todas as conquistas alcançadas até aqui não são fruto das possibilidades humanas, mas resultado do poder de Deus. O mesmo poder continuará atuando enquanto houver homens e mulheres dispostos a cumprir as orientações divinas.

Guilherme Silva é pastor, jornalista e editor de livros na CPB

Deus é fiel, suas promessas são certas

Leia o relatório financeiro apresentado pelo ex-tesoureiro mundial da igreja, Robert Lemon, referente aos últimos cinco anos

Foto: ANN

Segundo Roberto Lemon, que deixa o cargo para se aposentar, a igreja tem priorizado investimentos na chamada Janela 10/40. Foto: ANN

Desde que Wayne Hooper escreveu a letra e a melodia da música tema da assembleia da Associação Geral de 1962, “Oh! Que Esperança!” se tornou o hino favorito dos adventistas. Já tivemos outras músicas temas das assembleias mundiais ao longo dos anos, mas essa passou a fazer parte de todas das quais participei. A esperança no breve retorno de Jesus é o profundo anseio de todo cristão verdadeiro.

“Oh! Que esperança! Vibra em nosso ser. Pois aguardamos o Senhor. Fé possuímos que Jesus nos dá. Fé nas promessas que nos fez. Eis que o tempo logo vem e as nações aqui e além, bem alerta, vão cantar: Aleluia! Cristo é rei! Oh! Que esperança! Vibra em nosso ser. Pois aguardamos o Senhor.”

Desde seus primórdios, a Igreja Adventista do Sétimo Dia prega o breve retorno de Cristo. Nossa esperança não diminuiu. Estamos cinco anos mais perto do que quando nos encontramos em Atlanta para a assembleia da Associação Geral de 2010. Aqueles que são pais já devem ter ouvido os filhos perguntarem: “Já estamos chegando em casa?”. Nós, filhos de Deus, somos impacientes e, com frequência, perguntamos: “Já estamos chegando em casa?”

A resposta de Jesus se encontra na última parte de João 14:3: “Voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver” (NVI).

Deus é fiel, ele provê para sua igreja

Em nosso relatório para a assembleia da Associação Geral de 2010, louvamos ao Senhor por sua condução e observamos que, “depois de superar um dos períodos financeiros mais tumultuados dos últimos 75 anos, conseguimos ver com clareza a orientação divina e nos alegramos pela fidelidade de seus filhos”.

Este quinquênio foi de recuperação econômica, mas ainda vivemos neste mundo de incertezas. Mais uma vez, louvamos ao Senhor por ter abençoado e provido para sua igreja de maneira maravilhosa.

Dízimos e ofertas

Ao longo dos últimos cinco anos, os dízimos anuais ao redor do mundo cresceram 31%, de 1,85 bilhões de dólares em 2009 para 2,43 bilhões em 2014. As ofertas missionárias mundiais aumentaram 38% no último quinquênio, passando de 64,2 milhões de dólares em 2009 para 88,9 milhões em 2014. Em 2010, relatamos que, no período de 1975 a 2005, as ofertas missionárias mundiais, depois de permanecerem praticamente estáticas em torno de mais ou menos 50 milhões de dólares por ano, haviam alcançado 64 milhões em 2009, um aumento de 28%. Durante o mesmo período, 1975 a 2009, os dízimos cresceram de 398 milhões de dólares para 1,85 bilhões, um aumento de 365%. Neste quinquênio também testemunhamos um aumento substancial em ofertas missionárias das sedes administrativas (divisões) fora da América do Norte. No fim de 2014, as ofertas missionárias mundiais ultrapassaram 88,9 milhões de dólares. Louvamos ao Senhor por essa bênção! Nos últimos anos, tem havido uma mudança no padrão de doação, mais voltado para projetos, que têm estimulado o interesse em missões e sido uma bênção para essas áreas. Somos gratos a Deus por isso!

Mas um dos desafios de depender demais da doação para projetos é que a atenção dada a eles costuma ser curta. Quando surgem novas áreas de interesse, o apoio muda a ênfase, frequentemente deixando a organização local (quando há uma) sozinha para dar continuidade ao evangelismo sem recursos suficientes. Há casos em que se perde quase todo o progresso feito. A necessidade de um programa forte de ofertas missionárias que possa sustentar grandes iniciativas de longo prazo é cada vez mais importante ao nos concentrarmos na Janela 10/40. O aumento recente na doação de ofertas missionárias é de importância vital.

Dízimos extraordinários

Ao relembrarmos o grande tumulto financeiro de 2008 e 2009, só podemos louvar a Deus por sua bênção especial na forma de um grande total de dízimos extraordinários recebidos em 2007. Deus sabia que haveria necessidades especiais e proveu para elas sem nem mesmo pedirmos. Ele abençoou a fidelidade dos envolvidos e permitiu que novas iniciativas fossem empreendidas mesmo durante esse período econômico difícil.

A maioria dos recursos foi destinada às diversas iniciativas e projetos, muitos deles focalizando a Janela 10/40. Eles serão usados durante cinco a dez anos para espalhar o evangelho. O restante ainda não utilizado será empregado após a avaliação da viabilidade de longo prazo de tais iniciativas e projetos, sobretudo na Janela 10/40.

Uma vez que o total extraordinário de dízimos dificultaria a comparação com as informações financeiras de anos passados e futuros, estamos registrando esses dízimos e as despesas relacionadas a ele em separado das operações regulares, muito embora os números estejam combinados nas declarações financeiras auditadas.

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Entradas, gastos e patrimônio líquido da Associação Geral

Durante o quinquênio, o fundo operacional da Associação Geral (excluindo os dízimos extraordinários e recursos direcionados pelo doador) teve uma renda total (entrada e ganhos) de 1,075 bilhão de dólares e a despesa total de 999 milhões. O patrimônio líquido total do fundo operacional regular da Associação Geral (excluindo os dízimos extraordinários e recursos direcionados pelo doador) teve um aumento de 162 milhões de dólares para 246 milhões, e o capital de giro (excluindo os dízimos extraordinários), em 31 de dezembro de 2014, totalizava 224 milhões de dólares, 104% do montante recomendado nos Regulamentos Eclesiástico-Administrativos da Associação Geral.

Investimentos

A Associação Geral detém fundos e investe neles para uma série de propósitos. A comissão diretiva criou uma política que recomenda um nível mínimo de capital de giro. Esse montante corresponde a 45% da renda operacional irrestrita de um ano, ajudando a controlar oscilações temporárias na economia. Também auxilia a custear as necessidades de fluxo de caixa para verbas, salários e outras despesas mensais do orçamento, que devem ser pagas ao longo do ano, muito embora só recebamos a maior parte dos recursos no fim do ano.

A Associação Geral investe recursos alocados e restritos, delimitados pelos doadores e pela comissão diretiva, em projetos e iniciativas. Muitos deles se estendem ao longo de vários anos ou necessitam de tempo para ser concluídos. Além disso, a Associação Geral conta com fundo de doações, fundo de dízimos extraordinários, fundo de depreciação e fundos de crédito, acordos de renda vitalícia, doações de caridade, anuidades, etc., que necessitam de investimentos. Os fundos da Associação Geral costumam ser usados no ano em que são recebidos, mas alguns precisam ser mantidos por um tempo a fim de honrar alguns compromissos. O investimento em fundos da Associação Geral é feito de maneira conservadora.

Em janeiro de 2008, cerca de 87% dos fundos da Associação Geral correspondiam a investimentos de renda fixa (títulos e investimentos semelhantes) e 13% em ações. O declínio dos mercados financeiros em 2008 cobrou seu preço nos investimentos da Associação Geral, mas graças ao Senhor, entre 2008 e 2009, o retorno total dos investimentos (renda proveniente de lucros, dividendos etc., bem como os ganhos e as perdas acima ou abaixo do mercado em investimentos) da combinação de todos os fundos alcançou 4,4%.

Isso significa um aumento médio de cerca de 2,2% ao ano. Provavelmente o impacto mais duradouro da recessão tenha sido a mudança no nível dos lucros que indivíduos e organizações podem esperar dos investimentos. Em muitas partes do mundo, os investimentos (sem incluir as ações) costumavam proporcionar retorno de 5 a 7% com regularidade. Os números agora estão mais próximos de 1 a 3%. Isso exerceu grande impacto sobre os lucros em cima do capital de giro, aposentadoria e outros fundos.

 

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Efeito da flutuação da taxa de câmbio

As mudanças na taxa de câmbio sempre foram um desafio para organizações que trabalham com moedas diferentes. É difícil mostrar um retrato fiel dos dízimos e das ofertas ao redor do mundo, pois é possível que um aumento na moeda local apareça como diminuição quando convertido para dólares norte-americanos. É claro que os desafios não se limitam aos relatórios, mas também ao montante recebido de fato.

O orçamento da Associação Geral tem por base em dólares norte-americanos e suas verbas e compromissos financeiros são feitos principalmente nessa moeda. Ao planejar o orçamento do ano seguinte, precisamos presumir que as taxas de câmbio permanecerão relativamente estáveis. No entanto, se os dólares norte-americanos se fortalecem em relação a outras moedas importantes, isso significa que entrarão menos dólares na Associação Geral, mas aumentará o montante em moeda local para as organizações que receberem suas verbas em dólares norte-americanos.

Como as flutuações na economia nem sempre estão em harmonia com os momentos de recebimento de renda e de gastos, existe a necessidade de manter determinado nível de recursos à mão o tempo inteiro. Tais fundos são chamados de capital de giro. Dependendo da natureza da organização, a porcentagem da renda operacional anual necessária para operar com tranquilidade varia. Em 2002, 75% da renda recebida pela Associação Geral ainda provinha da Divisão Norte-Americana e cerca de 25% eram provenientes das outras Divisões, os quais eram sujeitos às flutuações nas taxas de câmbio. Em 2014, mais de 50% dos dízimos e das ofertas recebidos pela Associação Geral vieram de outras moedas que não o dólar norte-americano, estando sujeitos às flutuações.

O montante equivalente a 20% da renda anual irrestrita era considerado um nível adequado de capital de giro para a Associação Geral, mas a volatilidade muito maior da economia e das taxas de câmbio levou a Associação Geral a aumentar aos poucos essa porcentagem, chegando a 45% atualmente. Essa porcentagem está programada para aumentar 1% por ano até chegar a 50%. Isso permite à Associação Geral manter recursos suficientes para custear seus compromissos orçamentários mesmo com flutuações em suas entradas no curto prazo. Seria muito prejudicial para o trabalho ao redor do mundo se a Associação Geral precisasse cortar verbas no meio do ano depois que as divisões já fizeram compromissos contando com os recursos enviados pelo orçamento da Associação Geral.

O dólar norte-americano se fortaleceu substancialmente em 2014, até março de 2015, em relação a muitas das principais moedas do mundo. Isso reduziu o montante de dólares que entra na Associação Geral e, além de ter afetado 2014, terá um grande impacto sobre 2015 e é possível que posteriormente também. Apenas para colocar essa realidade em perspectiva, as seis moedas a seguir representam quase 70% das entradas da Associação Geral provenientes de fora dos Estados Unidos. Ao lado de cada uma delas, encontra-se listado o declínio percentual do valor da moeda em relação do dólar norte-americano entre janeiro de 2014 e março de 2015.

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Operações da AG durante 2014

Durante 2014, os dízimos e as ofertas missionárias que chegaram à Associação Geral foram 0,7% menores em comparação com o ano anterior, por causa da diminuição de 0,5% de dízimos da Divisão Norte-Americana. Esse decréscimo fez parte do ajuste programado de 8 para 6% de dízimos brutos. A despeito disso, a Associação Geral teve um aumento nos fundos operacionais (excetuando os dízimos extraordinários e os fundos direcionados pelo doador) de 7,8 milhões de dólares. Esse aumento foi resultado do funcionamento abaixo do orçamento previsto em várias das áreas principais e de ter sido levado em conta o decréscimo programado ao planejar o orçamento de 2014.

Durante o quinquênio

A Associação Geral continua a direcionar mais recursos para os territórios da Janela 10/40. As recomendações da Comissão de Revisão de Verbas de 2009 para o realinhamento das verbas e recursos missionários interdivisões foram colocadas em prática, dando mais ênfase à obra na região da Janela 10/40.

A Associação Geral começou a transição de um ajuste da porcentagem de dízimos da Divisão Norte-Americana para o orçamento da Associação Geral, envolvendo uma redução de 8 para 6% ao longo de determinado período. O índice atual de contribuição da Divisão Norte-Americana é de 7%, em comparação com 2% das outras divisões.

O canal de televisão Hope Channel foi estabelecido como uma instituição separada da Associação Geral em 2012. Antes disso, era um centro de custos dentro das declarações financeiras da Associação Geral.

A fim de atender com mais eficiência os aspectos de seleção, recursos humanos e logística dos missionários de status interdivisão, uma série de funções antes abordadas em separado pela secretaria e tesouraria foi combinada em uma área hoje conhecida como Recursos e Serviços Pessoais Internacionais.

A Associação Geral mantém o compromisso de reduzir ao mínimo o crescimento de sua equipe de funcionários a fim de permitir que o crescimento ocorra nos campos. Embora o total de membros tenha aumentado de 8,8 milhões em 1995 para 18,5 milhões em 2014, o número de funcionários da Associação Geral cresceu apenas de 282 para 288.

Deus é fiel, ele prometeu voltar

A serva do Senhor, Ellen White, escreveu: “Passando em revista nossa história, percorrendo todos os passos de nosso progresso até ao estado atual, posso dizer: ‘Louvado seja Deus!’ Quando vejo o que Deus tem executado, encho-me de admiração por Cristo e de confiança nEle como dirigente. Nada temos a recear quanto ao futuro, a não ser que nos esqueçamos do caminho pelo qual Deus nos tem conduzido” (Vida e Ensinos, p. 204).

Que emoção ela deve ter sentido ao ver como o Senhor nos tem conduzido. Nós também podemos dizer “louvado seja Deus” ao ver “o que Deus tem executado”. Sim, estamos chegando ao lar. Nossa oração é a mesma de João, o revelador: “Amém. Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22:20, NVI). [Fonte: Adventist Review / Tradução: Cecília Eller Nascimento]

Igreja Adventista já é a quinta maior comunidade cristã do mundo

Relatório do secretário-executivo mostrou avanços, mas também desafios da igreja no mundo

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Não foi só em termos econômicos que alguns países emergentes do Hemisfério Sul passaram a exercer maior protagonismo no cenário mundial nos últimos anos. O chamado Sul Global também assumiu um papel de destaque no contexto da Igreja Adventista pelo fato de concentrar a maior parte dos membros da denominação. Atualmente, 92% dos 18,5 milhões de adventistas vivem nessa parte do globo. Em 1960, o quadro era praticamente o oposto. Para se ter uma ideia, hoje a África reúne 38% do total de adventistas e a América Latinha, 32%. Os dados que mostram essa inversão histórica fizeram parte do relatório apresentado pelo secretário-executivo da sede mundial da organização, G. T. Ng, nesta sexta-feira, 3, durante a assembleia mundial que acontece em San Antonio, Texas (EUA).

T. Ng, que foi reeleito para continuar na função por mais cinco anos, apresentou estatísticas que mostram um avanço significativo da igreja no número de batismos. Hoje, de acordo com o secretário-executivo, a Igreja Adventista é a quinta maior comunidade cristã do mundo se for levada em conta a sua unidade mundial e o fato de que outras denominações, embora com maior número de membros, não possuem abrangência global ou são fragmentadas.

No ano passado, 1,6 milhão de novos membros foram batizados ou passaram a fazer parte da igreja por profissão de fé, o equivalente a 3.200 novos batismos por dia ou 2,2 batismos por segundo. Outro número recorde foi o plantio de 2.446 igrejas, uma congregação a cada 3 horas e 58 minutos. Esse crescimento chamou a atenção da mais prestigiada publicação evangélica norte-americana, a Christianity Today, que destacou o fato de, em 2014, mais de um milhão de fiéis terem se tornado adventistas pelo décimo ano consecutivo.

Se a Igreja Adventista fosse uma vila, essa seria a proporção de membros por região do mundo.

Se a Igreja Adventista fosse uma vila, essa seria a proporção de membros por região do mundo.

No entanto, a liderança da igreja vê as estatísticas com ponderação. Afinal, o número de membros em algumas partes do mundo tem estagnado ou entrado em declínio. Essa realidade é mais acentuada nos países ricos, fortemente influenciados pelo materialismo e o secularismo.

Conforme mostrou David Trim, responsável pela área de estatísticas da Igreja Adventista, em relatório apresentado na assembleia mundial, embora tenha havido crescimento, esse incremento foi lento nos últimos cinco anos. Na opinião dele, não está havendo uma crise de crescimento global, mas os dados emitem um sinal de alerta. Por isso, de acordo com Trim, a igreja está tentando criar mecanismos mais sofisticados para obter diagnósticos que retratem com maior precisão a realidade da organização no mundo.

Não por acaso, G. T. Ng foi reeleito por unanimidade. Sua capacidade analítica, que lhe permite enxergar além dos números, tem ajudado a igreja a lidar com esses desafios. “Sua longa experiência como professor mostra a capacidade analítica que ele tem para questões difíceis e sua prontidão para enfrentar situações positivas e negativas”, avalia Lowell Cooper, vice-presidente da Associação Geral. “A liderança de Ng tem aumentado a consciência da igreja global quanto às oportunidades e desafios da missão”, acrescenta Cooper. Essa opinião também é compartilhada por Geoffrey Mbwana, outro vice-presidente da sede mundial adventista. “Muito além da manutenção e análise de estatísticas, ele tomou medidas concretas para abordar as questões da missão”, analisa. Nos próximos cinco anos, G. T. Ng contará com o apoio de Myron Iseminger, cujo nome também foi votado na última sexta-feira para atuar como secretário associado. [Márcio Tonetti, equipe RA / Com informações de Felipe Lemos, da ASN, e Stephen Chavez, da Adventist Review]


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Leia o relatório apresentado pelo secretário-executivo da igreja mundial na assembleia

A igreja diante do espelho

Missão incompleta

Cinco anos na Ucrânia

Nas terras geladas do leste europeu, pioneiro da TV adventista conta como Deus derreteu corações

jonatanEm 2008, fui surpreendido com um convite para trabalhar na Divisão Euro-Asiática da Igreja Adventista. Confesso que nunca havia pensado em trabalhar fora do Brasil. Foi por isso que nos reunimos em família e, depois de orarmos, disse para minha esposa: “se aceitarmos esse chamado, vamos ver e viver coisas que nunca imaginamos e ter uma experiência única.”

Aceitamos o desafio, e no dia 17 de novembro de 2009 chegamos em Kiev, capital da Ucrânia. Embora tenha procurado me informar sobre o país, não sabia muita coisa sobre a região. Assim que chegamos, passamos a trabalhar para transmitir ao vivo uma grande série evangelística a partir da Moldávia. Seria a primeira transmissão ao vivo de uma igreja evangélica naquele país.

Para começar, já foi uma aventura apenas levar os equipamentos da Ucrânia para a Moldávia. Em certa noite, debaixo de muita neve, chegamos à pequena cidade da fronteira, onde um grupo de irmãos nos esperava. Após orarmos juntos, colocamos cada equipamento em pequenas sacolas para que fossem transportados para o outro lado.

O pastor que me acompanhava e eu, só recebemos o carimbo em nossos passaportes quando já passava das 22 horas. Em território moldávio, continuamos nossa viagem debaixo de forte nevasca. O vidro do carro congelava e mesmo com o aquecimento interno do veículo, a temperatura era muito baixa.

Não havia nenhum carro transitando pela estrada, apenas o nosso. Foi por isso que passei a imaginar o que aconteceria se nosso veículo quebrasse e ficássemos ali no caminho, ao relento, com 18 graus negativos. Perto da meia-noite, paramos em um posto de gasolina, que estava fechado e totalmente às escuras. Logo chegou outro carro e parou à nossa frente. Eram nossos irmãos adventistas que haviam trazido todos os equipamentos.

Fizemos a transferência do material de um carro para outro, oramos novamente e seguimos viagem. Chegamos em Chisinau, capital do país, já depois das 2 horas da madrugada. Aquela seria a primeira vez que enfrentaria um frio tão intenso.

A cada noite da série evangelística, o pastor Peter Kulakov pregou com muito vigor e milhares de pessoas acompanharam suas mensagens na Moldávia e em países como a Ucrânia, Rússia, Bielorrússia, Geórgia, Armênia. Cerca de 3 mil pessoas foram batizadas como resultado desse esforço evangelístico.

jonatan2Confesso que não poderia imaginar como o canal adventista (Hope Channel) cresceria naquela região. Poucos anos depois, a igreja decidiu fazer um pedido oficial para ter uma emissora de TV na Ucrânia. Isso seria algo inédito no país. Nenhuma igreja, nem evangélica, pentecostal, protestante, católica ou ortodoxa tinha essa concessão.

O pastor Veiceslav Demyen foi escolhido para representar a denominação diante de 16 parlamentares. Ele precisava convencê-los de aprovar o pedido da igreja. Ele fez o seu melhor, mas parece que a desconfiança comunista em relação à religião iria prevalecer.

Até que um parlamentar disse: “assisti a um seminário, no passado, em um dos colégios adventistas e foi excelente. Na verdade, acho que eles deveriam fazer um desses seminários aqui no parlamento. Por esse motivo, eu voto favoravelmente ao canal.”

O depoimento dele providencialmente mudou a mente de alguns parlamentares e o grupo decidiu autorizar uma nova defesa para a instalação de um canal religioso no país. O fato é que Deus abençoou de tal forma que o funcionamento da emissora foi autorizado e hoje está no ar via satélite, internet e tevês a cabo, alcançando milhões de pessoas. No tempo em que trabalhei na Divisão Euro-Asiática ainda pude ver outro milagre: a autorização de um canal adventista na Rússia.

Sinto-me feliz e realizado por ver como Deus tem abençoado o trabalho missionário por meio da televisão nessa região. Muitas são as histórias de conversão através desse ministério. Uma delas foi o batismo de dois artistas de TV na Ucrânia: Kiril Andrev e Iuri Sossa. Eles se interessaram pela mensagem adventista e começaram a estudar a Bíblia. Andrev e Sossa deixaram o trabalho na emissora comercial para servir no canal adventista.

Depois de cinco anos trabalhando na Divisão Euro-Asiática, recebi o chamado para iniciar o mesmo ministério na Divisão Centro-Leste Africana, em Nairóbi, no Quênia. As três regiões administrativas da Igreja Adventista na África (divisões) estão trabalhando em conjunto para produzir programas em inglês, francês e outras línguas faladas no continente. O nome desse novo canal é Hope Channel Africa e já estamos trabalhando a todo vapor para que mais e mais pessoas tenham esperança na breve volta de Jesus.

Jonatan Conceição é pastor e foi missionário na Ucrânia até 2014. Desde o início do ano, ele está trabalhando na África

Avanço na África

O crescimento e as dificuldades da igreja no continente que concentra 38% dos adventistas

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Continente tem 7 milhões de adventistas. Foto: Leônidas Guedes

Como ilustrou o secretário-executivo da sede mundial da igreja, G. T. Ng, se o povo adventista ao redor do mundo formasse uma vila com cem pessoas, 38 delas seriam da África. A força do continente no contexto do adventismo pode ser verificada em outro dado recente. Há poucos meses, a Zâmbia entrou para o seleto grupo de países com mais de um milhão de adventistas (para saber mais sobre o assunto, clique aqui). Com 14,5 milhões de habitantes, a nação do sudeste africano só fica atrás do Brasil, Índia e Estados Unidos.

A comemoração pelo crescimento da igreja na Zâmbia, felizmente não se restringe ao país, é uma tendência em todo o continente, abaixo do deserto do Saara. Em maio, por exemplo, 30 mil pessoas foram batizadas numa grande campanha evangelística no Zimbábue (leia mais aqui), que integrou pregação pública com atendimento gratuito de saúde. O país é vizinho da Zâmbia e já caminha a passos largos para chegar a um milhão de adventistas.

Dividida em três grandes áreas administrativas (divisões), a igreja hoje na África tem 7 milhões de adventistas. E conforme afirmou o pastor Paul Ratsara, presidente da Divisão Sul-Africana Oceano Índico, os líderes têm trabalhado para que na África evangelismo não seja apenas um evento, mas um estilo de vida.

No entanto, pregar o evangelho por lá não é tão fácil quanto possa parecer. Embora os números sejam animadores, a igreja tem enfrentado grandes dificuldades em alguns lugares. Segundo o pastor Osni Fernandes, missionário por seis anos nas ilhas de Cabo Verde, a liderança local muitas vezes é carente de treinamento e material para realizar o trabalho. São muitos os casos em que faltam Bíblias, lições, livros de Ellen White, hinários e folhetos. A igreja africana também reflete a pobreza do continente. De acordo com a revista Global Finance, dos 50 países mais pobres do mundo, 42 estão na África.

Além do mais, o continente africano é um dos mais culturalmente diversos do planeta. Conforme informa o pastor Gilberto Araújo, vice-presidente da Divisão Sul-Africana Oceano Índico e missionário há 28 anos, existem mais de 600 culturas apenas no território dessa divisão que é formada por 20 países. Em regiões como essas, “crescer de forma harmoniosa, mantendo a unidade na fé e na doutrina” é particularmente desafiador.

Mas nem sempre o missionário é chamado para trabalhar diretamente com evangelismo na África, alguns, como pastor brasileiro Matson Santana e sua família, vão para lá a fim de atuar em ministérios de promoção do bem-estar integral. No caso da família Santana, ao trabalharem no Egito com pessoas que possuem deficiências físicas, sensoriais e mentais, eles conseguiram transpor barreiras religiosas, políticas e socioculturais para compartilhar a fé.

Outra realidade do trabalho da África e de qualquer campo missionário transcultural, é que a missão ocorre em mão dupla. Ou seja, ao mesmo tempo em que o missionário procura transformar pessoas e culturas, ele também é impactado. “Conviver com eles e ver de perto o entusiasmo das pessoas, apesar dos muitos problemas que enfrentam”, confessa o pastor Osni, “tem sido uma experiência marcante e positiva em meu ministério”. Aprendizado semelhante tem experimentado o pastor Gilberto Araújo: “posso dizer que esse trabalho me ajudou a manter meu primeiro amor, conservou minha paixão pela salvação de pessoas, ampliou a visão sobre meu campo missionário e tem me ensinado a conviver com pessoas de outras culturas e a desejar estar pronto para o breve retorno de Cristo.”

Glauber Araújo é filho de missionários, cresceu na África e trabalha como editor de livros na CPB. É pastor e mestre em Ciências da Religião


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Direto do Líbano

Pastor brasileiro dá um panorama do trabalho da igreja no Oriente Médio

guntherA União Norte-Africana Oriente Médio é uma das maiores regiões administrativas da Igreja Adventista em termos de território, área maior do que os Estados Unidos ou a Europa. É formada por 20 países e se estende do Marrocos, no extremo oeste da África, até o Qatar, no Golfo Pérsico. Esse vasta geografia, onde vivem mais de 500 milhões de pessoas, é o berço do cristianismo, mas atualmente a religião predominante ali é o islamismo. A região tem 55 centros urbanos com mais de 1 milhão de habitantes, e na maioria deles não há presença adventista.

É interessante viver numa região muito diferente da nossa realidade na América do Sul. As diferenças religiosas e de costumes são oportunidades para conhecer, compreender, apreciar e adaptar-se. Porém, os desafios são imensos. Alguns países de maioria muçulmana toleram a presença de cristãos, enquanto outros são mais fechados e dificultam a presença deles. Sendo assim, a igreja trabalha levando em consideração a situação de cada nação, encontrando meios para cumprir a grande comissão deixada por Jesus, uma motivação forte e urgente para levar a mensagem de esperança para todos.

Embora o número de adventistas na região seja ínfimo comparado com o de habitantes (1 adventista para cada 170 mil), a denominação considera que o testemunho pessoal é uma forma para cumprir a missão e apressar a volta de Jesus. Se não podemos plantar igrejas, podemos “plantar” missionários. Nessa região, também utilizamos os meios de comunicação como a internet, rádio e televisão para alcançar milhões de pessoas.

Alguns países como o Líbano, cuja população é praticamente dividida entre muçulmanos e cristãos, existe liberdade religiosa. Por essa razão, entre outras, em Beirute está a sede da igreja para a região. É onde também está situada a Universidade Adventista do Oriente Médio, que atende as necessidades de formação profissional em áreas de interesse da igreja e da comunidade em geral. Ali fica também a TV Al Waad, canal adventista cujo nome em árabe significa “promessa”.

No Egito, a denominação está presente há décadas, com uma sede de associação, uma fábrica de alimentos, um centro de influência na área de saúde e um internato que oferece o Ensino Médio, o Nile Union Academy. Por sua vez, outros países são mais restritivos, não permitindo que denominações religiosas preguem para a população local. É possível ministrar para os membros da própria igreja, mas distribuir literatura, dar estudos bíblicos ou realizar reuniões de pequenos grupos é considerado uma contravenção. Nesses contextos, uma das melhores maneiras de testemunhar é por meio de feiras de saúde.

Talvez você se pergunte: “o que posso fazer, mesmo à distância, pelas milhões de pessoas que vivem no Oriente Médio e Norte da África, que pouco ou nada sabem sobre a vida, ministério, morte, ressurreição e breve volta de Jesus?” Sugiro algumas atitudes: ore pela igreja, seus servidores e por sua missão na região; diariamente entregue sua vida a Jesus e testemunhe de seu amor; e se coloque à disposição de Deus para, talvez, servi-lo nesta região do mundo.

Günther Wallauer é coordenador de projetos na União Norte-Africana e Oriente Médio e vive em Beirute, no Líbano