Carência do evangelho

Após 100 anos de presença adventista em Bangladesh, a pregação do evangelho ainda é pouco expressiva no país com a maior densidade demográfica do mundo

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Créditos da imagem: ADRA Bangladesh

Apenar de mais de um milhão de adventistas viverem no território da Divisão do Pacífico Sul-Asiático da Igreja Adventista, a população dessa geografia é de quase um bilhão de pessoas. Neste contexto está Bangladesh, país com a maior densidade demográfica do mundo, se não forem levados em conta cidades-estado e nações com menos de 10 milhões de habitantes. São quase 160 milhões de pessoas numa área um pouco maior do que o Amapá, o que significa mil pessoas dividindo o mesmo quilômetro quadrado (no Brasil, são 23 habitantes/km2).

A pobreza é outra característica do país: 43% da população vivem com menos de 1,25 dólar por dia. Segundo dados de 2013, a renda per capita é de 1.044 dólares, enquanto a média mundial é de quase 8 mil. No Índice Global da Fome, Bangladesh está entre os dez piores países, sendo a falta de diversidade na dieta um dos principais problemas. A nação também está entre os cinco países com maiores chances de sofrer desastres naturais. Todos os anos, enchentes, ciclones e maremotos arrasam cidades e matam milhares de pessoas.

Mesmo com esse cenário, a Igreja Adventista está há mais de 100 anos em Bangladesh. No entanto, os desafios ainda são enormes. Sendo realista, a igreja tem pouco menos de 10 mil membros ativos, mesmo que conste com mais de 30 mil na secretaria. Se faltam adventistas, não faltam alegria e música por aqui.

Com mais de 92% da população adepta ao islamismo, menos de 1% de cristãos e muitas restrições à pregação do evangelho, o adventismo enfrenta obstáculos para crescer. Por causa da renda per capita tão baixa, a igreja não consegue sequer manter três ou quatro pastores que se formam a cada ano. Bangladesh possui quatro Missões e uma União, mas sobrevive com subsídios da Divisão local, Associação Geral e doações esporádicas de estrangeiros.

Os adventistas representam apenas 0,019% da população bengali: são supostos 30.115 membros distribuídos em 129 igrejas. A grande maioria dos membros não conhece muito da Bíblia. Na luta diária pela sobrevivência, investem pouco tempo à oração e estudo da Palavra, que são fundamentais para o crescimento sadio da fé cristã.

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Por meio de projetos sociais e na área de saúde, a ADRA Bangladesh tem ajudado a mudar a vida da população. No Índice Global da Fome, o país está entre os dez piores. A falta de diversidade na dieta é um dos principais problemas. Foto: arquivo pessoal / Landerson Serpa

O país faz parte da Janela 10/40, região em vivem 66% da população mundial, e que corresponde a 33% da área do planeta, compreendendo 62 países. Bangladesh, cujo governo insiste em dizer que é laico, está na lista das 50 nações mais intolerantes aos cristãos, o que torna muito difícil a vida dessa minoria.

No campo das possibilidades, a educação tem sido uma das principais frentes de atuação da igreja em Bangladesh. Com um total de 150 escolas, incluindo sete internatos, a igreja trabalha bastante para ajudar a comunidade local, atendendo 9.085 alunos. Mas os desafios são grandes. Apenas um internato consegue se manter por conta própria. O mesmo ocorre com as 13 escolas nas cidades, apenas uma não representa prejuízos financeiros para a igreja. As outras 137 escolas são as chamadas village school (escolas de vilas), que não possuem prédios próprios e as aulas são ministradas nas casas dos pastores.

A Igreja Adventista tem um papel muito importante a exercer nesse país: ser luz em meio às trevas. Por isso, cada adventista de Bangladesh deve se apegar ainda mais a Cristo, e permitir que ele o transforme diariamente a fim de que a missão de Deus avance nesse país desafiador. Ore por Bangladesh e pela Janela 10/40.

Landerson Serpa Santana é pastor e trabalha para a ADRA Bangladesh (com colaboração de Ketlin Brito e Kevin Dantas)

Declaração reafirma a confiança na Bíblia como revelação infalível e universal da vontade de Deus

Documento votado nesta segunda, dia 6, ressalta a relevância da Bíblia para qualquer tempo e cultura

declaracao-Biblia-homeAlém de eleições e ajustes no Manual da Igreja e nas crenças fundamentais dos adventistas, os quase 2.600 delegados que se reúnem em San Antonio, Texas, desde o dia 2, votaram hoje à tarde um documento que reafirma a confiança da igreja na Bíblia como revelação de Deus.

Basicamente, a declaração trata de quatro pontos: (1) reconhecimento de que a Bíblia é a infalível expressão da vontade de Deus; (2) reafirmação de que as Escrituras oferecem orientação para os dilemas intelectuais e éticos da atualidade, como a tentativa de redefinição do casamento; (3) reconhecimento de que a Bíblia tem relevância para qualquer tempo e cultura; e (4) compromisso de estimular o estudo diário das Escrituras, especialmente entre os novos conversos e mais jovens.

Até o próximo sábado, dia 11, os delegados estarão envolvidos em outros debates e decisões administrativas, doutrinárias e de aplicação prática para a denominação. Leia a seguir a declaração na íntegra.

RESOLUÇÃO SOBRE A BÍBLIA SAGRADA

Nós, delegados da assembleia da Associação Geral em San Antonio, Texas, reafirmamos nosso compromisso com a autoridade da Bíblia como a revelação infalível de Deus e de sua vontade. Nela, Deus revelou seu plano para redimir o mundo mediante a encarnação, vida, morte, ressurreição, ascensão e mediação de Jesus Cristo. Por ser um registro fidedigno dos atos de Deus na história desde a criação até a nova criação, repleto de instruções doutrinárias e éticas, as Escrituras moldam a experiência intelectual e prática dos cristãos.

Reconhecemos que as Escrituras oferecem uma perspectiva divina para avaliar os desafios intelectuais e éticos do mundo contemporâneo. Considerando as redefinições atuais de instituições estabelecidas por Deus, como o casamento, por exemplo, o compromisso com a revelação escrita de Deus permanece mais necessário do que nunca. Somente a cosmovisão bíblica de um Deus amoroso que batalha para redimir a criação do pecado e do mal provê uma estrutura coerente para a compreensão da realidade e para a obediência à lei de Deus.

Reafirmamos que, em meio à desesperança e ao relativismo do mundo contemporâneo, a Bíblia apresenta uma mensagem de esperança e certeza que transcende tempo e cultura. As Escrituras dão a certeza de que, em Jesus, nossos pecados foram perdoados e a morte foi derrotada. As Escrituras também anunciam que ele logo voltará para dar fim ao pecado e recriar o mundo. Enquanto aguardamos a consumação de todas as coisas, a Bíblia nos chama a ter uma vida santa e a nos tornar arautos do evangelho eterno, aproveitando cada oportunidade e todos os recursos para anunciar as boas-novas por palavras e ações.

Considerando a importância das Escrituras, os benefícios de seu estudo para a igreja e os desafios impostos pelo mundo contemporâneo, os delegados da Associação Geral, em assembleia, apelam a todos os adventistas do sétimo dia que leiam e estudem a Bíblia todos os dias, em atitude de oração. Além disso, por causa dos desafios especiais enfrentados por novos conversos e jovens, insistimos para que cada cristão busque maneiras de compartilhar a Bíblia com esses grupos de maneira especial e promova a confiança deles na autoridade das Escrituras. Também apelamos aos pastores e pregadores que baseiem seus sermões no texto bíblico e transformem cada sermão em uma oportunidade para exaltar a autoridade e a relevância da Palavra de Deus.

Que mostremos a beleza, o amor e a graça de nosso Senhor Jesus Cristo revelada nas Escrituras. Que nossos pensamentos e ações estejam de acordo com a esperança bíblica do breve retorno de Jesus, nosso Senhor. [Wendel Lima, equipe RA]

Eles nos representam

O modelo de governo representativo e a realização de assembleias têm precedente bíblico

assembleia-San-Antonio-2015-02.07-creditos-leonidas-guedes-4De praticamente cada nação do globo, há representantes dos adventistas do sétimo dia em San Antonio, Texas. Eles vão passar os dias 2 a 11 de julho acompanhando a 60ª assembleia da Associação Geral. O evento, descrito por Sheri Clemmer, uma das suas organizadoras, como uma “reunião campal gigante”, deve receber, além dos 2.570 delegados, mais de 65 mil visitantes nos cultos sabáticos. O encontro irá gerar um impacto missionário na metrópole, que receberá projetos sociais dos adventistas e conhecerá a face multicultural da igreja. No entanto, as principais finalidades da reunião são administrativas e doutrinárias.

Nas assembleias mundiais, são apresentados os relatórios das atividades e do progresso de cada uma das 13 regiões administrativas da igreja (divisões). Os delegados – grupo formado por administradores, pastores, funcionários de linha de frente e membros da igreja – elegem os líderes da sede mundial da igreja e das 13 divisões. Eles também podem decidir mudanças no Manual da Igreja e na redação das crenças fundamentais da denominação (Nisto Cremos). O sistema de assembleias mantém a unidade e a representatividade da igreja e é necessário por causa do modelo administrativo adotado pelos adventistas.

Algumas igrejas cristãs são regidas por um líder carismático, que legisla a ordem e, às vezes, a doutrina da igreja (modelos papista e personalista). Outras mantêm cada congregação local bastante independente em questões de ordem, finanças e costumes (modelo congregacionalista). Já os adventistas mesclaram o sistema episcopal dos metodistas com o modelo presbiteriano de governo. O resultado foi uma estrutura representativa, com uma hierarquia flexível, mas com as decisões sendo tomadas pelas comissões de delegados. Não é uma democracia no sentido de que cada membro pode votar no que a denominação vai crer ou quais práticas vai seguir. Mas harmoniza-se com o ensino bíblico sobre a igreja e com a doutrina do sacerdócio de todos os cristãos.

Portanto, as crenças e procedimentos da igreja não são definidos pelo presidente da Associação Geral e outros líderes eclesiásticos, como alguns podem ser tentados a pensar. As decisões que afetam a igreja como um todo são tomadas por representantes de todo o mundo em assembleias como a que ocorre no Texas.

Sistema já aprovado

O sistema, aparentemente moderno, foi elaborado a partir de princípios seguidos pelos apóstolos. Obviamente, no primeiro século não havia a necessidade de uma estrutura como a de hoje. Mesmo assim, os primeiros cristãos tomaram grandes decisões em assembleias gerais.

Na história narrada em Atos 15, a unidade do cristianismo estava ameaçada por uma difícil questão: a inclusão dos não judeus na igreja. As congregações estabelecidas fora da Judeia enviaram representantes a Jerusalém a fim de arbitrarem o procedimento teologicamente correto quanto ao assunto. A Bíblia fala da diversidade dos representantes: eram “apóstolos e presbíteros” (v. 6). Menciona os relatórios (v. 4) e descreve o debate e a argumentação bíblica do tema (v. 7 a 19). O consenso foi estabelecido e um documento com as resoluções foi publicado e enviado a todas as igrejas (v. 20, 21, 23 a 30). Líderes foram eleitos com a responsabilidade de fazer valer as resoluções do concílio e manter a unidade da igreja (v. 22). Todos esses são procedimentos usuais nas reuniões administrativas da Igreja Adventista.

Apesar da enorme distância no tempo e espaço entre Jerusalém e San Antonio, ambas as assembleias compartilham os mesmos princípios. Assim como o apego à Palavra de Deus manteve a unidade há tanto tempo, é ainda indispensável para preservar a harmonia da igreja. A Bíblia, a base da nossa fé, é também o cimento de nossa unidade denominacional.

Fernando Dias é pastor e editor de livros didáticos na CPB


 

Para saber +

Andrew McChesney, “Surpresas em San Antonio”, em Adventist World, junho de 2015.

George R. Knight, Uma Igreja Mundial (CPB, 2000).

Wendel Lima, “Lições da nossa história”, Revista Adventista, maio de 2013.

Manual da Igreja (CPB, 2010).


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Pastor Magdiel Pérez será o assessor especial do presidente mundial da igreja

O ex-secretário da Divisão Sul-Americana foi eleito para a função pela assembleia mundial da igreja na última segunda-feira, dia 6

Há cinco anos e meio servindo como secretário da sede da igreja para oito países da América do Sul, o pastor chileno Magdiel Perez deixa o cargo para atuar como assessor especial do presidente mundial dos adventistas, pastor Ted Wilson. Ele foi eleito para a nova função na última segunda-feira, 6 de julho, pela assembleia mundial da igreja, em San Antonio, Texas (EUA). Pérez assume o posto deixado por Orville Parchment, que se aposentou recentemente.

Magdiel Pérez, que tem 50 anos e também trabalhou na Divisão Sul-Americana durante um ano e meio como assessor da presidência, também possui cidadania australiana. Ele é casado com Susan, com quem teve três filhos.

Em entrevista à Revista Adventista, Pérez falou sobre quais serão suas atribuições na Associação Geral e fez um balanço da secretaria da igreja durante a sua gestão.

O futuro da missão

Igreja brasileira deve atentar para a diversidade de métodos e para os novos fluxos migratórios

o-futuro-da-missaoEm 2014, pelo décimo ano consecutivo, mais de 1 milhão de pessoas se tornaram adventistas no intervalo de um ano. Esse crescimento fez a denominação atingir a marca de 18,5 milhões de fiéis e ser considerada a quinta maior denominação cristã do mundo, segundo a revista Christianity Today. Diante desses números, a possibilidade de evangelizar as nações e ver o retorno de Cristo em nossos dias parece estar mais próximo hoje do que nunca antes na história.

No entanto, o cenário das missões está sendo afetado por vários fatores que devem influenciar nossas estratégias e métodos de trabalho. São variáveis demográficas, econômicas, políticas, tecnológicas, culturais e religiosas. Esse panorama em mutação inclui as mudanças que têm ocorrido na compreensão e prática do evangelismo nos últimos cinco anos no Brasil. Estamos diante de desafios e oportunidades únicas para a missão.

Visão ampliada

Na medida em que a possibilidade de completar a grande comissão (Mt 28:18-20) se torna uma realidade, os estrategistas de missões estão aprendendo a ver o mundo com outros olhos. Com isso, o paradigma do simples alcance de países e geografias tem sido substituído pelo da evangelização de grupos etno-linguísticos. Textos como o chamado de Deus a Abraão para que ele fosse uma bênção para todas as nações (Gn 12:3) e a visão de João sobre a diversidade cultural da grande multidão de salvos (Ap 7:9) têm ajudado a igreja a enxergar o globo como Deus enxerga: dividido em grupos étnicos, em grego, panta ta ethn?.

Perceber essas nuances da evangelização e colocar o foco nesses grupos têm sido a tendência mais notável e significativa da estratégia missionária da Igreja Adventista na América do Sul nos últimos anos. Ao investir na evangelização de cegos, surdos, ciganos, tribos urbanas, grupos étnicos e segmentos específicos da população, a igreja reconhece a necessidade de diversificar suas abordagens a fim de que o evangelho eterno circunde o globo. O despertamento para esse cenário vem em hora oportuna, porque a missão adventista se vê desafiada a responder a três tendências mundiais que se verificam também no Brasil: urbanização, migração e internacionalização.

Urbanização

Se o adventismo começou na zona rural nos Estados Unidos do século 19, hoje ele é desafiado a comunicar o evangelho eterno para uma audiência do século 21 que majoritariamente vive nas cidades. Se em 1950, havia 83 cidades no mundo com uma população de mais de 1 milhão, hoje são 280, e 14 que excedem 10 milhões.

Ao mesmo tempo em que o contexto urbano exige dos seus habitantes um ritmo acelerado de vida com o foco na sobrevivência e no consumo, as metrópoles são ambientes propícios para novas experiências, inclusive religiosas. São nas grandes cidades também que muitas pessoas podem ser alcançadas de uma só vez. Apesar da aglomeração urbana, as metrópoles não são monolíticas, mas sim um labirinto de comunidades etnicamente distintas e com estratos sociais e econômicos diversificados que desafiam qualquer abordagem tamanho único. Assim, para que o mundo seja evangelizado, as cidades devem ser alcançadas.

Migração

Estima-se que 125 milhões de pessoas vivem fora dos seus países de origem, de forma permanente, e outros como uma força de trabalho temporário. Nos séculos 18 e 19, a migração fluiu de países mais ricos para os mais pobres; agora, o fluxo é de regiões menos desenvolvidas para as mais desenvolvidas. Segundo o jornal El Pais, Quase 57.300 imigrantes ilegais chegaram à Europa só no primeiro trimestre de 2015.

O Brasil também está na rota dos fluxos migratórios. Temos recebido novos trabalhadores de Bangladesh, Gana, Senegal, Haiti e Bolívia, em uma das maiores ondas migratórias já registradas no país. As ruas das principais cidades do Brasil estão cheias de cores, sons e cheiros de dezenas de diferentes culturas asiáticas, andinas, africanas e árabes.

Com isso, já não podemos mais falar em alcançar outras culturas, se negligenciarmos os estrangeiros descrentes que estão do outro lado da rua. Será que estamos atentos à essa nova realidade? Temos recebido os refugiados e imigrantes de braços abertos ou os enxergamos como invasores de nossas igrejas e bairros? Em alguns casos, grupos que são altamente resistentes ao evangelho em seus países de origem, podem ser muito receptivos num ambiente urbano longe de suas raízes. Além disso, o contato intencional com essas comunidades poderia servir de treino para missionários que desejam atravessar o mar e servir em contextos mais desafiadores.

Globalização

Se no passado a rota das missões saia do mundo desenvolvido para o subdesenvolvido, do ocidente para o oriente e do norte para o sul, hoje é de qualquer lugar para qualquer lugar. De acordo com Todd Johnson, professor do Gordon-Conwell Theological Seminary (EUA), dos 400 mil missionários enviados em 2010, 34 mil partiram do Brasil, o segundo país no ranking liderado pelos Estados Unidos com 127 mil missionários enviados.

Uma das portas que se abrem com a globalização é para a participação de escolas, igrejas e agências missionárias em missões de curta duração. Congregações paulistanas como a de Moema e o Unasp, campus São Paulo, têm feito isso por meio de seus estudantes e profissionais voluntários. Apesar dos cuidados que devem ser tomados com esses projetos para que não se tornem meras viagens de turismo ou de intercâmbio cultural, o envolvimento de pessoas nesse tipo de iniciativa só tem aumentado. As vantagens são que as missões de curta duração podem envolver pessoas até então sem treino e experiência ministerial no trabalho de Deus, liberando assim os missionários mais experientes para trabalhos mais específicos. Ao que parece, somente uma grave crise financeira inibiria esse fluxo.

Futuro

Hoje, essas três tendências representam grandes desafios e oportunidades para a Igreja Adventista que não podem ser ignorados. A primeira lição a ser aprendida é que não existe só um método para a evangelização. Com a globalização, precisamos desenvolver abordagens que não ofendam, mas que atraiam diversos povos ao evangelho. Isso significa que atendimento de saúde, aulas de inglês, séries públicas de evangelismo e pequenos grupos que enfatizam o discipulado podem ser métodos úteis para contextos distintos, e não necessariamente para todos os contextos.

Em segundo lugar, o sucesso da empreitada missionária não pode ser medida apenas pelo número de batismos. Numa reunião realizada em 2013, líderes revelaram que a igreja perdeu um em cada três membros ao longo dos últimos 50 anos. Além disso, para cada 100 pessoas que a Igreja Adventista batiza ao redor do mundo, ela perde 43 membros antigos. http://www.christianitytoday.com/gleanings/2013/december/seventh-day-adventists-assess-why-1-in-3-members-leave-sda.html Portanto, o evangelismo bem-sucedido deve deixar de ser mensurado apenas em termos de “números de batismos” ou de quantos “vieram à frente”, mas em crescimento real que se traduz na multiplicação de discípulos.

Felizmente, a missão é a prioridade de Deus, e assim permanecerá até a volta de Cristo. Os desafios que a Igreja Adventista enfrenta podem tornar-se cada vez mais difíceis, mas Deus transcende a todas eles. É nossa crença de que Deus proverá as habilidades e dons necessários para o desafio de alcançar os povos do mundo. Essa é a agenda de Deus; e pode tornar-se cada vez mais a nossa também. A missão é obra de Deus. O mundo é a esfera de sua missão. E a igreja é sua parceira no reino vindouro.

Emílio Abdala é doutor em Ministério pela Universidade Andrews (EUA) e diretor de Missão Global na sede paulista da Igreja Adventista


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Relatório da Divisão Sul-Americana apresentado na assembleia mundial da igreja nesta terça-feira, 7 de julho

 

Tempo de agir

Relatório de Guillermo Biaggi, então presidente da Divisão Euro-Asiática, no dia 5, emocionou o público com histórias de fidelidade no leste europeu e na Rússia

 

As atividades evangelísticas da Divisão Euroasiática são projetadas para alcançar o máximo possível de pessoas. Crédito: departamento de comunicação da ESD

As atividades evangelísticas da Divisão Euro-Asiática são projetadas para alcançar o máximo possível de pessoas. Crédito: departamento de comunicação da ESD

O território da Divisão Euro-Asiática (Euro-Asian Division — ESD) da Associação Geral abrange uma área imensa, formada por onze fusos horários, treze países e uma população de 330 milhões de habitantes, os quais representam mais de duzentos grupos étnicos, professam o cristianismo, o islamismo, o budismo, o paganismo, o ateísmo e cuja maioria é influenciada por uma cosmovisão secularizada.

Evangelismo 7-7-7

A iniciativa 7-7-7 da igreja mundial, que conclamou os membros a se unirem em oração pela manhã e pela noite se tornou uma grande bênção. Em nossa Divisão, foi o ponto de partida para cada membro:

  • Dedicar pelo menos sete minutos por dia ao estudo da Bíblia.
  • Dedicar pelo menos sete minutos por dia para compartilhar as boas-novas.
  • Interceder diante de Deus por pelo menos sete pessoas.
  • Encontrar sete motivos por dia para agradecer a Deus.

O dia 15 de maio de 2013 foi a data de início de um período de “777 Dias de Evangelismo Contínuo”, que durou até a abertura desta assembleia mundial.

A fim de incentivar o maior número possível de missionários, a igreja organizou e realizou diversos congressos para pastores, anciãos e jovens, atraindo mais de 2 mil participantes em cada um deles. Programas de missão urbana começaram em duas capitais, Kiev e Moscou, a fim de abranger eventualmente todas as nove Uniões e 33 Associações, Missões e Postos Missionários.

Em outubro de 2013, foi inaugurada uma escola de evangelismo em Kiev para capacitar pastores, instrutores bíblicos e médicos missionários. O programa “Um Ano em Missão” facilitou o treinamento de equipes de jovens missionários. O conhecimento adquirido foi colocado em prática. Missionários compartilharam as boas-novas em ruas, praças, shopping centers e outros locais públicos.

Houve um tempo em que o território da Divisão Euroasiática era considerado um dos mais inacessíveis para a pregação do evangelho. Mas “a palavra de Deus não está presa” (2Tm 2:9). No fim da década de 1980, o Senhor abriu o Kremlin em Moscou. O evangelista Mark Finley pregou as três mensagens angélicas ali, resultando em milhares de batismos. Hoje, novamente o Senhor oferece oportunidades únicas. Em Kiev, na Ucrânia, e em Moscou, na Rússia, o canal de televisão Hope Channel conseguiu licença governamental, abrindo caminho para alcançar milhões de espectadores em potencial.

 

Jovens da Divisão Euroasiática estão envolvidos em atividades variadas de divulgação da mensagem, como evangelismo público e serviço à comunidade. Crédito: departamento de comunicação da ESD

Jovens da Divisão Euroasiática estão envolvidos em atividades variadas de divulgação da mensagem, como evangelismo público e serviço à comunidade. Crédito: departamento de comunicação da ESD

De criminoso a testemunha do Senhor

Sete dos treze países da ESD são dominados pelo Islã e pertencem à Janela 10/40. Não é seguro pregar o evangelho ali, nem mesmo dentro de igrejas. Pregadores e missionários adventistas já foram expulsos muitas vezes desses países. Diante de tais circunstâncias, o testemunho pessoal é o método mais apropriado de evangelismo, sobretudo quando sai dos lábios de pessoas nativas.

Malik Ashirov, líder de um grupo do Cazaquistão, pertence à etnia uigur. Ele professa abertamente o cristianismo. Apesar de ser relativamente jovem, já passou mais de 15 anos da vida na prisão. Enquanto cumpria uma de suas penas, ouviu um pastor adventista falar sobre Jesus.

No dia 9 de agosto de 2000, guardas tiraram Ashirov de sua cela e ele foi solto em sistema de liberdade condicional. Seus companheiros de prisão e os guardas testemunharam o batismo dele, algo que nunca haviam visto antes.

O Senhor mudou a vida de Ashirov. Depois de sair da prisão, ele se casou e teve uma filha e um filho. As pessoas o veem muitas vezes com a Bíblia na mão. O testemunho cristão se transformou em seu propósito de vida.

Ventos de intolerância

Em seis países da Divisão, a maioria das pessoas pertence à Igreja Ortodoxa. As igrejas protestantes costumam ser consideradas estrangeiras, ao passo que a Igreja Ortodoxa dominante cria uma série de problemas. Em alguns países, a lei permite que os cristãos adorem ou preguem o evangelho somente em prédios dedicados para esse fim. Por isso, ter casas de oração é nossa única chance de testemunhar. Graças aos esforços de membros e pastores, com o apoio da igreja mundial, dezenas de novas capelas e centros de influência foram construídos.

Recentemente, membros e pastores da República da Bielorrússia realizaram algo que parecia impossível. Em apenas 45 dias de trabalho, eles construíram com as próprias mãos um prédio de quatro andares como centro de influência na cidade de Minsk. As paredes do novo edifício foram erguidas bem diante de nossos olhos, um testemunho de fidelidade e dedicação à obra.

Educação adventista do sétimo dia

Temos 25 escolas que oferecem educação cristã na Divisão Euroasiática.

Até pouco tempo atrás, nossa igreja não tinha permissão para administrar as próprias escolas. Mas assim que tivemos essa possibilidade, percebemos que nos faltavam as premissas necessárias para as atividades de ensino e aprendizagem. Com tantas pessoas que desejavam estudar em escolas da igreja, não perdemos tempo. Em resposta a esse desafio, os administradores das Associações Ucraniana Ocidental e de Bujovinskaya, da União Ucraniana, tomaram uma decisão incomum: desocuparam seus escritórios em Lvov e Chernovtsy a fim de acomodar salas de aula ali.

Ventos de guerra

Enquanto nos regozijávamos com nosso sucesso na pregação do evangelho na Ucrânia, ninguém previa a série de acontecimentos políticos que levaria a uma guerra com centenas de milhares de refugiados e migrantes forçados, com belas cidades e povoados transformados em ruínas.

A fim de aliviar o sofrimento e levar consolo aos sofredores, os adventistas da Ucrânia deram início à campanha “Anjo Oriental”. O objetivo do projeto é conseguir alimento e remédios para os necessitados, feridos e aflitos, bem como contribuir com a restauração de construções danificadas pela guerra. Pastores e membros criaram equipes de reforma e saíram para trabalhar no leste da Ucrânia.

Ao mesmo tempo, nossos membros da Rússia cuidaram daqueles que fugiram dos horrores da guerra. Refugiados eram instalados dentro das igrejas e em apartamentos particulares. Foram organizados programas de doação de refeições e alimentos, seguindo este preceito divino: “Partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado” (Is 58:7).

A igreja continua seu ministério em regiões assoladas pela guerra. Vez após vez, granadas explodem perto de casas de oração, causando morte e destruição. Mas assim que o ruído das armas silencia, ouve-se novamente o som de hinos e das orações. Os templos adventistas são literalmente ilhas de esperança dentro deste mundo louco e cruel.

Embora algumas igrejas tenham sido danificadas, até hoje, nenhum membro da igreja foi morto dentro das zonas de conflito. Louvamos ao Senhor e expressamos profunda gratidão aos líderes da igreja, a todas as Divisões e, em especial, às Divisões Interamericana e Intereuropeia, que nos apoiaram e estenderam uma mão ajudadora.

 

Os meios de transporte na Divisão Euro-Asiática são tão variados quanto sua população. Crédito: departamento de comunicação da ESD

Os meios de transporte na Divisão Euro-Asiática são tão variados quanto sua população. Crédito: departamento de comunicação da ESD

Jovens envolvidos na missão

Além de sua função direta, o ministério social da igreja ajuda os jovens adventistas a enxergar a própria missão e a colocar em prática suas virtudes.

Os jovens tomam a iniciativa de projetos sociais em lanchonetes que funcionam como igrejas, organizando concertos de caridade e ações governamentais, prestando auxílio aos idosos e enfermos, fazendo assim novos amigos para Jesus e fortalecendo a própria fé.

Isso também se evidencia pela energia dos jovens que competiram no evento “O Mundo da Bíblia”, que foi organizado em todos os níveis administrativos, desde as Associações até a Divisão. A vencedora, com maior conhecimento das Sagradas Escrituras, foi Tatyana Krashevskaya, da Ucrânia.

Nova tradução da Bíblia para o russo

A Bíblia não consiste apenas em uma fonte de conhecimento — é também a Palavra da Vida. A fim de levar a mensagem das Escrituras ao máximo possível de pessoas, o Instituto de Tradução da Bíblia, sediado em nosso Seminário Teológico Zaokski, foi criado na Divisão sob a liderança de Mikhail Petrovich Kulakov [autor do livro Ainda que Caiam os Céus], há mais de vinte anos. Hoje, a gigantesca tarefa de traduzir a Bíblia para o russo contemporâneo foi concluída e milhares de exemplares foram impressos.

Literatura distribuída como “folhas de outono”

Outro projeto foi a distribuição do livro missionário O Grande Conflito, de Ellen G. White. Mikhail Oskola, aluno do último ano do ensino médio, foi um dos muitos que participaram desse projeto. Em um ano, ele distribuiu mais de 5 mil livros! Foi entregue um total de 1,9 milhão de exemplares de O Grande Conflito na Divisão Euroasiática, na maioria dos casos, a versão completa.

Ao longo dos últimos cinco anos, cerca de 100 milhões de exemplares impressos se tornaram ferramentas para a proclamação das boas-novas.

Nosso Senhor disse a seus discípulos: “Mas recebereis poder […] e serão minhas testemunhas […] até os confins da Terra” (At 1:8). A península de Kamchatka pode ser considerada um dos “confins da Terra”. Essa terra de vulcões e gêiseres é cercada por mares gelados. Menos de 300 mil pessoas habitam as três cidades e os vários vilarejos. Mas o Senhor não se esquece deles e também envia seus mensageiros para lá.

Duas colportores-evangelistas, Yulia e Taisia, tinham o antigo sonho de visitar esse rincão da Rússia ainda não alcançado por missionários, a fim de testemunhar do amor de Cristo e de seu breve retorno. Confiando nas promessas divinas e buscando direcionamento em oração, elas pegaram a estrada. Levaram pouca bagagem, com exceção das caixas de livros que carregaram em uma minivan. Essas missionárias percorreram longas distâncias — a pé, de ônibus ou de carona — durante um ano e meio. No fim do outono, a maioria dos livros já havia sido distribuída.

Yulia e Taisia estavam em Kozyrevsk, uma vila de pescadores que fica a cerca de 500 km da cidade mais próxima. A vila tem apenas cerca de mil moradores. Para a surpresa delas, encontraram um grupo de pessoas sedentas pela verdade. Depois de terminarem o trabalho e partirem da vila, Yulia e Taisia receberam uma carta dos novos amigos, pedindo que voltassem. Embora o inverno já tivesse chegado, essas duas mulheres pegaram a estrada de novo. Em meio a precipitações e tempestades de neve, elas precisaram caminhar na neve, que chegava a bater no meio das pernas. No entanto, o compromisso de espalhar a Palavra de Deus superava qualquer obstáculo. Vindos de todas as partes da vila, aqueles que desejavam estudar a Palavra de Deus se reuniam em uma pequena casa na qual as duas mulheres estavam ficando. Depois de um tempo, convidaram um pastor. Cinco pessoas foram batizadas. Assim um grupo adventista foi plantado em uma pequena vila de pescadores.

Em muitas dessas regiões remotas, desconectadas da civilização, as pessoas não têm acesso à televisão por satélite, internet ou até mesmo à energia elétrica. Os povos nativos — aleutians, komis, evenkis, khantys, mansis, nenets, chukchis e outros — também necessitam ouvir a mensagem salvadora do Jesus que pode mudar a vida deles para melhor e transformá-los em parte da família global de Deus. Orem por nós!

Chegou o tempo de agir

Agradecemos e louvamos a Deus pelo caminho que trilhamos até aqui. Com fé em seu breve retorno, estamos indo para o alto, através e além, a fim de alcançar os habitantes de vilarejos remotos e das grandes cidades. Os habitantes do extremo norte e da Sibéria, do Cáucaso e do Afeganistão, da Ásia Central e do Extremo Oriente estão aguardando os mensageiros de Deus. A fim de cumprir essa missão, a igreja tem buscado o poder do Espírito de Deus mediante oração fervorosa e compromisso inabalável. Chegou o tempo de agir. [Fonte: Adventist ReviewTradução: Cecília Eller Nascimento]

Prévia do Céu

Com apenas 10 anos de idade, ela visitou a assembleia na Holanda e se encantou com o evento que aumentou seu respeito pela igreja

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Créditos da imagem: Adventist Review

Dizem que a primeira impressão é a que fica. No caso da minha primeira visita a uma assembleia mundial da igreja, foi exatamente o que aconteceu: nunca apagarei da minha memória, ainda que juvenil (na época eu tinha 10 anos), a cena vívida de centenas de pessoas bem vestidas, caminhando para a entrada do pavilhão, com a Bíblia na mão, sob uma enorme faixa, que dizia: Welcome, Seventh-day Adventists! (“Bem-vindos, adventistas do sétimo dia!”).

Sempre me emociona relembrar: a sensação foi uma pálida prévia do que será ver as multidões dos salvos sendo recebidas com um “bem-vindos” de Cristo na Nova Jerusalém.

E é realmente uma sensação de prévia do Céu tudo o que ocorre numa convenção como essa. São dez dias de reuniões administrativas, é verdade, mas até para uma criança é muito esclarecedor ver a igreja em movimento organizacional, usando de bom senso representativo, respeito democrático e dependência de Deus, como acontece em todos os dias da sessão da Associação Geral.

Apesar de o auditório em que ocorreu a assembleia de Utrecht, na Holanda, ser limitado e todos os dias termos que lutar para achar lugar para sentar em família, nada nos tirou a alegria de estar lá! As músicas, as roupas, as línguas, tudo tão internacional e colorido! A emoção de saber quem são os novos oficiais no momento em que são escolhidos, o encontro com “celebridades” adventistas de todo o mundo e, é claro, os inúmeros brindes que você ganha nos estandes de ministérios e instituições, num universo à parte da assembleia e sem fim. Tudo é impressionante!

Para uma menina que cresceu amando a igreja de seus pais, viver dez dias intensos de adventismo internacional foi um privilégio. Depois dessa experiência, passei a ter mais respeito e carinho pelo movimento adventista mundial.

Hoje, 20 anos depois, louvo a Deus pela forma maravilhosa como ele tem dirigido essa igreja desde sua organização. Sei que ele a guiará pela fase mais escura da História, até vermos no Céu nosso Senhor Jesus, não com uma grande faixa de boas-vindas, mas com seus grandes braços abertos para nos levar para casa!

Marisa Ferreira é jornalista, designer gráfico e natural de Portugal. Depois de trabalhar na CPB, ela está se preparando para servir como missionária na Turquia

Assembleia vota documento que reafirma a confiança dos adventistas nos escritos de Ellen White

Documento foi votado pela assembleia mundial da igreja em San Antonio, Texas (EUA).

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Alterações na redação das crenças fundamentais dos adventistas foram votadas no início da tarde desta terça-feira, 7 de julho. Foto: Leônidas Guedes

Há dez dias do centenário da morte de Ellen G. White, co-fundadora da Igreja Adventista, os 2.570 delegados que representam os 18,5 milhões de adventistas votaram um documento em que reafirmam a confiança da denominação nos escritos da mensageira do Senhor. A decisão foi tomada nesta tarde, dia 7, em San Antonio, no Texas (EUA).

Basicamente, a declaração trata de cinco pontos: (1) reconhecimento de que esse dom é um presente de Deus para seu povo; (2) alegria de ver esse material traduzido e divulgado ao redor do mundo; (3) convicção de que esses escritos foram divinamente inspirados e de que têm valor normativo para a igreja hoje; (4) compromisso de estudá-los e; (5) incentivo para que novas estratégias sejam elaboradas para ampliar o acesso a esse legado, dentro e fora da igreja.

Até o próximo sábado, dia 11, os delegados estarão envolvidos em outros debates e decisões administrativas, doutrinárias e de aplicação prática para a denominação. Leia a seguir a declaração na íntegra.

DECLARAÇÃO DE CONFIANÇA NOS ESCRITOS DE ELLEN G. WHITE

Nós, delegados da assembleia da Associação Geral de 2015 em San Antonio, Texas, expressamos profunda gratidão a Deus pela presença contínua dos diversos dons espirituais em meio a seu povo (1Co 12:4-11; Ef 4:11-14), sobretudo pela orientação profética que recebemos por meio da vida e do ministério de Ellen G. White (1827—1915).

No ano do centenário de sua morte, alegramo-nos porque seus escritos foram disponibilizados ao redor do planeta em muitos idiomas e em vários formatos impressos e eletrônicos.

Reafirmamos nossa convicção de que seus escritos são inspirados por Deus, verdadeiramente cristocêntricos e fundamentados na Bíblia. Em lugar de substituir as Escrituras, eles exaltam seu caráter normativo e corrigem interpretações imprecisas derivadas de tradições, da razão humana, de experiências pessoais e da cultura moderna.

Comprometemo-nos com o estudo dos escritos de Ellen G. White em atitude de oração e com o coração disposto a seguir os conselhos e as instruções ali encontrados. Seja em oração, em família, em pequenos grupos, em sala de aula ou na igreja, o estudo combinado da Bíblia e de seus escritos proporciona uma experiência transformadora e edificadora da fé.

Incentivamos o desenvolvimento continuado de estratégias tanto mundiais quanto locais para promover a circulação de seus escritos dentro e fora da igreja. O estudo de tais escritos consiste em um meio poderoso de fortalecimento e preparo do povo de Deus para a vinda gloriosa de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. [Reportagem: Wendel Lima, equipe RA / Tradução: Cecília Eller Nascimento]

Quem mexeu em nossas doutrinas?

Teólogo explica a necessidade de periodicamente a igreja revisar sua declaração de crenças

Mudanças editoriais nas crenças adventistas, que estão sendo votadas pela assembleia em San Antonio, foram propostas durante o Concílio Anual realizado nos Estados Unidos no ano passado. Foto: Ansel Oliver

Mudanças editoriais nas crenças adventistas, discutidas na assembleia em San Antonio, foram propostas durante o Concílio Anual realizado na sede mundial da igreja no ano passado. Foto: Ansel Oliver

Um dos importantes itens da agenda da assembleia mundial em San Antonio (EUA) é a revisão da declaração de crenças fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia, cuja publicação em português se intitula Nisto Cremos. Algumas das 28 crenças fundamentais que figuram nesse livro foram objeto de discussão na manhã e tarde de hoje, dia 6. As revisões mais importantes, porém, ocorreram em duas crenças: “A Criação” (nº 6) e “Matrimônio e Família” (nº 23).

É possível que você, se for um adventista, tenha se incomodado com a ideia de que a assembleia poderia estar votando a “mudança das doutrinas da igreja”. Embora essa inquietação seja justificável num primeiro momento, ao você entender como se dá esse processo, poderá constatar a seriedade com que a Igreja Adventista lida com as verdades bíblicas e confirmar sua confiança na Palavra de Deus. Para tanto, é preciso responder a duas perguntas: (1) o que é uma crença?; e (2) o que é uma declaração de crenças? Espero, ao fim desse artigo, ter explicado também se uma crença e uma declaração de crença podem mudar.

Pode uma crença mudar?

No contexto cristão, crença pode ser definida como a convicção ou compreensão acerca da realidade, a partir das “lentes” oferecidas pela Bíblia. Nesse sentido, doutrinas se referem à uma determinada realidade descrita pela Bíblia, como o conceito que temos sobre Deus, a criação, o grande conflito e a lei. É importante também fazer uma distinção entre a realidade em si e a compreensão acerca dela. A primeira é sempre mais profunda e abrangente do que a segunda. Ou seja, na medida em que estudamos as Escrituras, nós adquirimos uma compreensão cada vez mais ampla das verdades bíblicas, mas a realidade delas ainda vai muito além da nossa compreensão. Por isso, dizemos que nosso entendimento é parcial e progressivo.

Ao ler a Bíblia, é possível perceber como Deus lida com esse processo de progressão cognitiva dos seres humanos na compreensão de realidades espirituais, um processo tanto do desenvolvimento de indivíduos, quanto de um desenvolvimento histórico. Jesus, por exemplo, não informou os discípulos acerca de coisas que eles ainda não podiam “suportar” ou entender (Jo 16:12). Nova luz viria com o tempo por influência do Espírito Santo (Jo 16:13). Num contexto mais amplo, histórico, temos o exemplo das profecias dadas para Daniel, que seriam compreendias apenas em certa época (Dn 8:26-27; 12:4, 8-9). Desse modo, o próprio Daniel não foi capaz de entender plenamente o significado da revelação que ele recebeu. Nesse caso, é possível falar não apenas de uma revelação progressiva, mas também de uma compreensão progressiva (o conhecimento profético se multiplicaria no tempo do fim de acordo com Daniel 12:4) acerca das realidades espirituais.

Portanto, uma crença não se refere a um “produto final” ou credo imutável. Elas tratam de realidades cuja a compreensão humana ainda não esgotou. Isso significaria que uma crença pode ser revisada? Sim, na medida em que haja uma compreensão mais ampla das realidades espirituais, derivada do estudo das Escrituras. Note que uma compreensão mais ampla não requer a rejeição do conhecimento prévio. Antes, a ampliação pressupõe a presença de um conhecimento anterior que passa a se conectar com outras ideias que dão mais profundidade a esse conhecimento. Pense, por exemplo, na ampliação que Jesus ofereceu da compreensão da lei mosaica no sermão da montanha (Mt 5:21-48). Essa ampliação não contraria a revelação do Antigo Testamento, mas demonstra que sua aplicação é bem mais abrangente que a compreensão oferecida pelos líderes religiosos daquela época.

Pode uma declaração de crença mudar?

No entanto, existe outro elemento que precisa ser considerado. A declaração ou expressão de crenças. Uma crença pode ser expressada em diferente formas, ênfases ou estilos. Se existe distinção entre a realidade crida e a crença, o mesmo ocorre entre a crença e sua expressão. Um quadro geral da sequência dessas distinções seria: (1) realidade – (2) crença – (3) declaração. Em outras palavras, a crença não é a compreensão final e definitiva da realidade, assim como a declaração não é a expressão final e definitiva da crença. As limitações de uma declaração de crença estão relacionadas ao caráter dinâmico da linguagem, ou seja, as palavras e expressões ganham novo sentido com o tempo.

E se uma declaração de crença não é clara e inteligível, acaba distorcendo a mensagem original ou não comunicando nada. Logo, ela perde sua utilidade, pois acaba não sendo compreendida pelos membros (público interno), nem pelos que não são adventistas (público externo), mas desejam conhecer as doutrinas da igreja por meio de uma fonte confiável e oficial. Para quem pesquisa com seriedade o que acreditamos, um material como esse pode ajudar a minimizar ou a evitar a má compreensão sobre nossas crenças.

Tendo em vista a importante função de uma declaração de crenças, a editora adventista de Battle Creek, Michigan, publicou em 1872 uma “sinopse de nossa fé” em 25 proposições. Revisado e ampliado para 28 proposições, esse documento apareceu no Yearbook denominacional em 1889. Uma declaração de 22 doutrinas fundamentais foi impressa no Yearbook de 1931. E em 1980, a assembleia mundial em Dallas votou um sumário mais abrangente de 27 crenças fundamentais. Esse sumário corresponde ao texto atual do Nisto Cremos, com a adição da crença “Crescendo em Cristo”, aprovada em St. Louis, em 2005 (veja a introdução do Nisto Cremos).

Em realidade, essas revisões da expressão do pensamento doutrinário adventista em 1872, 1889, 1931, 1980 e 2005 não representam uma mudança na crença, mas ajustes na declaração que resume e sistematiza o que acreditamos. Essas mudanças vão desde ajustes editoriais até a inclusão de uma ou mais crenças, que em sua essência não eram novas para a igreja.

A denominação entende que revisões das declarações de crença podem ser esperadas “numa assembleia da Associação Geral, quando a igreja é levada pelo Espírito Santo a uma compreensão mais completa da verdade bíblica ou encontra melhor linguagem para expressar os ensinos da Santa Palavra de Deus.” (Nisto Cremos, p. 4, grifos acrescentados). Perceba que essa citação contempla dois tipos de revisão: da crença (no caso de uma compreensão mais ampla) e da expressão ou declaração da crença (no caso de uma linguagem mais adequada).

Em geral, as revisões adotadas se referem mais ao segundo tipo, como foi o caso das revisões aprovadas hoje em San Antonio. A igreja não mudou sua compreensão doutrinária. Contudo, na sociedade atual, visões seculares com respeito à origem do universo e à natureza do matrimônio têm penetrado vários círculos religiosos, que passam a utilizar uma linguagem doutrinária mais geral (e até mesmo ambígua) para acomodar essas visões. Em absoluto contraste a essa tendência, a sugestão de revisão da declaração das crenças fundamentais 6 e 23 teve o objetivo de imprimir uma linguagem mais clara e explícita que reflita de forma inequívoca a compreensão bíblica adventista: de que a semana da criação foi real/literal e de que o matrimônio é entre homem e mulher. Portanto, em vez de se tratar de mudança de conteúdo, a revisão foi um ajuste de redação a fim de tornar mais claro o que a igreja sempre acreditou.

Adriani Milli é professor de Teologia no Unasp e aluno do Ph.D. em Teologia Sistemática na Universidade Andrews (EUA)