Novas leituras

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As hermenêuticas alternativas e suas implicações para a igreja

Carlos Flávio Teixeira

Foto: Adobe Stock

Recentemente a igreja cristã vem sendo alvo de tentativas persistentes de aceitação de novas leituras da Bíblia. Na pauta dessas iniciativas estão incluídas ideias como a de que a homossexualidade seria aceitável; o aborto, tolerável; o feminismo, necessário; o ativismo político, parte do papel da igreja em coletividade; e a doutrina e o estilo de vida do crente contemporâneo deveriam se adaptar às novas formas de religiosidade, tendo em vista o ideal do amor e das relações sem julgamentos, o que seria a expressão autêntica do cristianismo.

Assim, pastores e líderes de igreja têm sido desafiados a se posicionar, tornando-se essencial reconhecer quais são as noções teológicas que estão por trás dessas ideias e avaliar se essas propostas são compatíveis com as Escrituras Sagradas. Com o objetivo de auxiliar nessa reflexão, este artigo se propõe a apresentar o paradigma hermenêutico mais amplo que fundamenta essas novas leituras e quais são as implicações dessas teologias para a igreja.

Hermenêuticas alternativas

Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que, para os adventistas do sétimo dia, a hermenêutica bíblica parte do pressuposto de que a Bíblia é a Palavra de Deus, inspirada pelo Espírito Santo e expressa em linguagem humana (2Tm 3:14-17; 2Pe 1:20, 21). Comprometidos com a natureza revelacional e o conteúdo canônico das Escrituras, entendemos que os critérios para sua interpretação estão estabelecidos em seu conteúdo (Sola Scriptura). Nessa perspectiva, qualquer proposta de aproximação, compreensão e aplicação da Bíblia diferente daquela existente em seu texto é reprovável por estar em desacordo com o que foi definido pelo próprio Revelador. Essas iniciativas interpretativas têm sido chamadas de “hermenêuticas alternativas”, “novas leituras” ou “novos modelos”.

A essência desse tipo de perspectiva pode ser notada desde o Éden quando, em alternativa à Palavra de Deus, foi apresentada uma noção a ela contrária, a qual se desdobrou numa compreensão e prática também opostas à orientação divina (Gn 3:5-7). Desde então, incontáveis interpretações alternativas têm sido propostas quanto às verdades reveladas por Deus em Sua Palavra.

A ressurgência mais recente pode ser notada desde o período Iluminista, no século 18, desdobrando-se como ondas ao longo dos séculos seguintes. No século 19, mediante insistentes tentativas, o ímpeto de razão autônoma do pensamento revolucionário iluminista aos poucos teve seu impacto também sobre a teologia cristã (Hermisten da Costa, Raízes da Teologia Contemporânea [São Paulo: Cultura Cristã, 2004], p. 293-315).

Embora houvesse alguma resistência, no decorrer do século 20, dois movimentos concomitantes pressionaram ainda mais por uma nova forma de interpretar as Escrituras. Ao movimento de dentro para fora, proposto por filósofos da interpretação, que já vinha sendo feito, somou-se o movimento de fora para dentro, proposto por grupos sociais (ver Stanley Grenz e Roger l. Olson, 20th Century Theology: God and the World in a Transitional Age [Downers Grover, IL: IVP Academic, 1993]; Cauê Krüger, “Impressões de 1968: Contracultura e identidades”, Acta Scientiarum, v. 32, n. 2, p. 139-145).

Na década de 1960, por exemplo, no contexto dos movimentos contraculturais, novas leituras existencialistas da vida e das relações humanas passaram a ser grandemente disseminadas no meio social. Nas décadas seguintes, esses movimentos geraram forte expectativa de sua aceitação nos meios político e também religioso. Este último já vinha, desde as décadas de 1930, sofrendo forte pressão interna pela influência de filósofos alemães que propunham diferentes ênfases nos métodos de interpretação de texto (Urbano Zilles, Panorama das Filosofias do Século XX [São Paulo: Paulus, 2016]). O método histórico-crítico adotado, com suas práticas da crítica literária, canônica e histórica, deu origem ao que ficou conhecido como “nova hermenêutica” (Gerald Bray, Biblical Interpretation: Past & Present [Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1996], p. 221-228 e 465ss). Por meio dela foi proposto ir além da interpretação centrada no texto, para uma interpretação centrada nas experiências do autor e/ou do leitor, com contextualização e relevância.

Assim, o ecletismo interpretativo que vinha ocorrendo de forma emblemática no meio acadêmico, principalmente por influência de elementos da alta crítica, facilitou o processo de recepção e acomodação gradual de algumas das ideias dos movimentos de contracultura.

Esses movimentos, tanto os de contracultura quanto os de abertura interpretativa, passaram a se retroalimentar, e seus desdobramentos atingiram o cristianismo de maneira expressiva a partir da década de 1980. Na medida em que suas ideias foram sendo progressivamente aceitas, as denominações e suas novas gerações de adeptos foram sendo redirecionadas em sua forma de crer, muitas sem se dar conta de que estavam sendo moldadas por ideologias contrárias à Bíblia, agora formatadas numa diversidade de novas leituras teológicas.

Assim, ao longo da década de 1980, essas ideias já podiam ser notadas em variados âmbitos eclesiásticos. Nessas manifestações públicas, os movimentos que a princípio se apresentaram como iniciativas de apoio, logo assumiram o papel de movimentos de colisão/resistência ao que entendiam ser estruturas tradicionais enviesadas e opressoras quanto à interpretação teológica e práxis eclesiástica.

O objetivo era libertar indivíduos e igrejas, e por meio desses, a sociedade, das amarras interpretativas que não estariam correspondendo às novas leituras propostas.

Com o tempo, foi ficando claro que cada nova leitura teológica era resultante de uma hermenêutica alternativa peculiar. Embora não seja possível mapear todas neste artigo, pode-se notar na tabela a seguir os contornos daquelas que são citadas por muitos estudiosos como as principais.

As ideias mencionadas na tabela têm sido propostas e praticadas de forma intercambiável e, muitas vezes, uma ou mais teorias servem de base para mais de uma entre as teologias propostas. Entretanto, elas têm como denominador comum o que se chama de “hermenêutica da suspeita”. São baseadas na dúvida crítica e desconstrutiva acerca das narrativas bíblicas, negando-lhes a literalidade e, consequentemente, a existência de um sentido único definido pelo texto. Essa crítica alcança também as estruturas, autoridades, discursos e práticas estabelecidos nessas narrativas. Na crítica a esse conjunto que chamam de “tradição opressiva”, a ideia é propor teologias “pós-tradicionais” capazes de subverter os sistemas que reproduzam esses valores, forçando assim o surgimento de uma nova mentalidade e sociedade mediante ruptura.

Resultados das hermenêuticas alternativas

As consequências da aceitação de qualquer hermenêutica alternativa àquela estabelecida pela Bíblia são desastrosas desde os primórdios da humanidade. Primeiro causa o distanciamento de Deus e Suas verdades (Gn 3:8, 9), em seguida leva à falta de unidade (Gn 3:12) e, por fim, termina em apostasia (Gn 4:5, 8). Na história do cristianismo não tem sido diferente. Por trás de muitos dos questionamentos doutrinários e posturas críticas em relação à doutrina, igreja e sua liderança, acha-se um impasse hermenêutico decorrente da aceitação de pressupostos derivados de outras fontes que não da Bíblia (Roger Olson, História das Controvérsias da Teologia Cristã [São Paulo: Vida, 2004]).

Uma vez que a autoridade das Escrituras é dessa forma negada ou fragilizada, mina-se também a autoridade delegada pela revelação à igreja e sua liderança. Não por acaso, as denominações cristãs que em alguma medida recepcionaram as hermenêuticas alternativas nas últimas décadas, recentemente vêm pagando o preço da falta de unidade teológica, passando pela cisão denominacional e chegando à esterilidade missionária.

Diante do potencial destruidor que a má interpretação da Bíblia mostrava em seus dias, Ellen White lembrou que, no que diz respeito às verdades reveladas, “não é a inspiração de Deus que conduz as pessoas a opiniões diferentes” (Ellen G. White, Este Dia com Deus [Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1979], p. 169). Opiniões divergentes quanto a temas doutrinários sobre os quais há um claro e inequívoco “assim diz o Senhor” são um sinal claro de alerta quanto à inadequação na interpretação da Palavra de Deus. A autora alertou que o “ceticismo e a infidelidade na interpretação das Escrituras” levariam muitos a duvidar de pontos claros na Bíblia (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas [Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2016], v. 1, p. 15).

A crítica que nega os valores, princípios e regras apresentados nas Escrituras usualmente é feita com o intuito de ressignificá-los e redefinir sua prática para a vida pessoal e da igreja. Acerca de como isso ocorria em seu tempo, Ellen White escreveu que “umas poucas palavras das Escrituras são separadas do contexto, o qual, em muitos casos, mostra que o sentido é exatamente o contrário da interpretação dada; e tais passagens desconexas são distorcidas e usadas para provar doutrinas que não têm fundamento na Palavra de Deus” (Ellen G. White, O Grande Conflito [Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014], p. 539.

Sobre o porquê de algumas pessoas agirem assim em relação à Bíblia, ela disse que “diferentes são os cunhos mentais. As expressões e declarações não são compreendidas da mesma forma por todos. […] As prevenções, os preconceitos e as paixões têm forte influência para obscurecer o entendimento e confundir a mente mesmo ao ler as palavras da Santa Escritura” (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 20). Quanto aos resultados desse tipo de interpretação, ela alertou que “as Escrituras são deturpadas e mal aplicadas, e as gemas da verdade são colocadas na moldura do erro” (Ellen G. White, Este Dia com Deus, p. 169).

Diante da seriedade da tarefa interpretativa, dizia ela, fazemos bem em lembrar que “não podemos, com segurança, aceitar as opiniões de qualquer pessoa, por instruída que seja, a menos que esteja em harmonia com as palavras do grande Mestre. Serão apresentadas a nós opiniões de pessoas sujeitas ao erro, mas a Palavra de Deus é nossa autoridade, e nunca devemos aceitar ensinos humanos sem a mais conclusiva evidência de que eles estejam em harmonia com os ensinos da Palavra de Deus. Devemos estar seguros de que estamos na plataforma da verdade eterna, a Palavra do Deus vivo” (Ellen G. White, Para Conhecê-Lo [Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1964], p. 207).

Neste artigo relembramos que o paradigma hermenêutico mais amplo que fundamenta as leituras alternativas da Bíblia é a crítica narrativa, perspectiva que coloca em dúvida a literalidade e o sentido definido/definitivo do texto. Além disso, demonstramos que essa postura interpretativa viola o princípio bíblico Sola Scriptura na medida em que se vale de fontes e métodos estranhos, e por isso incompatíveis, com a própria Bíblia. Por fim, concluímos que os resultados já conhecidos desse tipo de hermenêutica e suas muitas leituras têm sido destrutivos para a igreja.

Nesse horizonte, é perceptível que estamos diante de um problema cuja causa é nitidamente hermenêutica. Por isso, a única salvaguarda é nos voltarmos com humildade, compromisso e diligência ao estudo e à proclamação da Palavra de Deus e, por Sua graça, permanecermos fiéis ao “assim diz o Senhor”. Nesse desafiador cenário, pastores, obreiros e líderes de igreja precisam assumir seu papel diante das pressões e conflitos que essas leituras têm causado.

Que todos entendamos que o ministro ou líder de igreja age contra a autoridade das Escrituras quando deixa de instruir a congregação quanto às noções, crenças e atitudes biblicamente estabelecidas; quando não se posiciona em favor da Palavra de Deus diante das tentativas de releituras ressignificadoras ou mesmo quando manifesta apoio a essas ideias e suas práticas, em qualquer nível de publicidade. Que Deus nos ajude a pensar, agir e proclamar segundo a hermenêutica Sola Scriptura.

Referências bibliográficas (tabela acima)

1 Hugh Mackintosh, Teologia Moderna: De Schleiermacher a Bultmann (São Paulo: Fonte Editorial, 2004); John Barton (ed.), The Cambridge Companion to Biblical Interpretation (Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2003).

2 W. Randolph Tate, Handbook for Biblical Interpretation (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2012), p. 280.

3 Jacques Arnould, Darwin, Teilhard de Chardin e Cia: A igreja e a evolução (São Paulo: Paulus, 1999).

4 André Musskopf, “Teologias Gay/Queer”, em Jaci Maraschin e Frederico Pires (orgs.), Teologia e Pós-Modernidade (São Paulo: Fonte Editorial, 2008).

5 Rosino Gibelini, A Teologia do Século XX (São Paulo: Edições Loyola, 2021), p. 326.

6 Susan Frank Parsons, The Cambridge Companion to Feminist Theology (Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2002).

7 Christopher Rowland, The Cambridge Companion to Liberation Theology (Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2007).

8 Gibelini, A Teologia do Século XX, p. 383-414.

9 Jione Havea, Postcolonial Voices from Downunder: Indigenous matters, confronting readings (Eugene, OR: Pickwick Publications, 2017).

10 Gibelini, A Teologia do Século XX, p. 301-321.

11 Jeremy Punt, Paul and Postcolonial Hermeneutics: Marginality and/in early biblical interpretation. Disponível em: bit.ly/3vNTboq.

12 Paul Tillich, Theology of Culture (Oxford, UK: Oxford University Press, 1964); H. Richard Niebuhr, Christ and Culture (San Francisco, CA: Harper & Row, 1975).

13 Dan Kimball, A Igreja Emergente (São Paulo: Vida, 2008); Stanley Grenz, Beyond Foundationalism: Shaping theology in a postmodern context (Louisville, KY: Westminster John Knox Press, 2000).

CARLOS FLÁVIO FILHO tem pós-doutorado em Teologia Bíblico-Sistemática e direge o Seminário Teológico da Faculdade Adventista da Amazônia

(Artigo publicado na edição de julho-agosto da revista Ministério)

Última atualização em 21 de julho de 2021 por Márcio Tonetti.

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