Estabilidade emocional

Não existe saúde física sem saúde emocional, e as duas não existem sem saúde espiritual, diz especialista

Michelson Borges
Marcelo Niek palestra no Congresso de Saúde Emocional nos Estados Unidos
O médico Marcello Niek foi um dos palestrantes do Congresso de Saúde Emocional realizado em Orlando, na Flórida (EUA), entre os dias 13 e 17 de janeiro. Créditos da imagem: Michelson Borges

A maioria absoluta das pessoas experimenta com frequência sentimentos de preocupação, tristeza, medo e frustração. E isso pode ser considerado normal, adequado e até saudável. Segundo especialistas, o problema é quando a preocupação se generaliza, tornando-se ansiedade, quando a tristeza se transforma em depressão e interfere nos relacionamentos, ou ainda quando o medo se torna fobia. E convenhamos: o mundo contemporâneo parece conspirar contra o nosso equilíbrio emocional.

Quando as reações às diferentes situações da vida fogem da normalidade, é preciso buscar ajuda para reverter o quadro. Esse é um dos aspectos tratados pelo médico Marcello Niek nesta entrevista concedida ao jornalista Michelson Borges, editor da revista Vida e Saúde, durante o Congresso de Saúde Emocional, realizado nos dias 13 a 17 de janeiro em Orlando, na Flórida (EUA).

Mestrando na área de Ensino em Saúde, ele fala sobre as principais causas desse fenômeno e mostra como enfrentar adequadamente problemas como depressão, trauma, suicídio e outros. Niek, que coordena o Departamento de Saúde da sede sul-americana da Igreja Adventista, também analisa a relação entre espiritualidade e saúde emocional e explica em quais casos a fé pode favorecer ou prejudicar.

Na conversa, ele ainda sugere como a igreja pode ser mais efetiva diante do desafio de ajudar as pessoas a ter mais saúde emocional.

A saúde emocional ainda é um tema mal compreendido?

Embora seja relevante e atual, infelizmente o assunto ainda é muito mal compreendido, apesar de seu alto impacto na saúde de modo geral. Porém, há uma demanda crescente por esse tema, uma vez que, refletindo a sociedade moderna, muitos têm sofrido nessa área e têm encontrado alguma dificuldade de obter informações e apoio cristão especializado. Dessa forma, o assunto, além de rico e complexo, exige uma abordagem sob diferentes nuances, pois a estabilidade emocional é um dos mais ricos e delicados mecanismos biológicos que Deus criou, porque deriva de uma sofisticada interação biopsicossocial, exigindo da pessoa equilíbrio e manejo entre expectativas, frustrações, traumas, reações, fraquezas, desafios, ideias, vitórias, derrotas, personalidade, espiritualidade, afetividade, autoestima, etc. Assim, mais do que a biologia puramente, em si, estamos falando aqui da vida efetivamente na prática, muito além dos neurotransmissores.

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Como podemos definir “saúde emocional” e como ter mente saudável?

Saúde emocional é um estado de equilíbrio das reações diante das diferentes situações da vida. Por equilíbrio podemos entender um estado proporcional à realidade na intensidade, duração e nos efeitos dessas reações. Por exemplo, a maioria absoluta das pessoas fica preocupada diante de um teste ou desafio, fica triste ou frustrada diante de uma derrota, tem medo ante uma condição ameaçadora, sofre luto ao perder um ente querido, se alegra ao conquistar um objetivo ou ganhar um prêmio, e assim por diante. Isso é normal, adequado e saudável do ponto de vista emocional. O problema começa quando essas reações são exacerbadas ou desproporcionais e passam a afetar a vida além do que deveriam, fora do contexto original do problema enfrentado. Assim, a preocupação se generaliza e, ao se tornar ansiedade, prejudica o trabalho, o medo passa a ser fobia e atrapalha as atividades, a tristeza converge para depressão que interfere nos relacionamentos, a alegria se transforma em euforia afetando o convívio, etc.

Para se ter boa saúde emocional, devemos experimentar uma visão integrada da saúde, equilibrando as dimensões física, mental e espiritual, criando uma cadeia retroalimentável de hábitos saudáveis que fortalecem o corpo, desenvolvem a mente e trazem paz.

Como enfrentar adequadamente problemas como depressão, trauma, suicídio e outros?

Esses problemas são decorrentes de um desequilíbrio nas reações às situações cotidianas. A partir disso, vão criando uma cadeia de fatores recorrentes que intensificam ainda mais o estado emocional alterado. Na maior parte dos casos, estão associados a sentimentos de desesperança, solidão, culpa, vergonha e medo.

Dessa forma, é necessária a assimilação de mecanismos de reversão para esses sentimentos, que vão desconstruir o aspecto negativo e construir uma nova perspectiva positiva. Assim, essas pessoas precisam de ajuda para criar uma rede de relacionamentos e hábitos saudáveis que deem sustentação a essa mudança. Quando experimentam o amor e um sentimento genuíno de preocupação por si, as pessoas começam a vivenciar um processo de quebra desse ciclo perverso de sentimentos negativos e, ao serem envolvidas em atividades emocionalmente positivas, constroem uma perspectiva positiva da vida, desenvolvendo o processo de superação.

Contudo, deve-se destacar a importância da visão integral da saúde. Ainda, dentro de uma abordagem cristã, esse processo só se torna completo quando a experiência espiritual é acompanhada de um relacionamento genuíno com Deus.

Qual é a relação entre espiritualidade e saúde emocional? Quando a religião promove a saúde emocional e quando ela atrapalha?

A saúde emocional tem relação direta e necessária com o bem-estar na dimensão espiritual, pois esse é um dos componentes da saúde integral. Essa relação e seus efeitos intrínsecos estão bem demonstrados e analisados em vários estudos científicos de boa qualidade.

Por outro lado, a religião é um dos instrumentos utilizados para se exercer a espiritualidade, por meio do desenvolvimento da fé, procurando restaurar o relacionamento do ser humano com Deus. Assim, de maneira geral, a religiosidade está associada à menor apresentação de problemas emocionais, maior bem-estar pessoal, menos uso abusivo de substâncias químicas, maior rede de apoio social e melhores comportamentos saudáveis.

Entretanto, igualmente está bem demonstrado que, dependendo da forma pela qual a religião é praticada, ela pode ter um efeito positivo ou negativo na espiritualidade e, consequentemente, na saúde emocional. Assim, uma experiência religiosa extrínseca, concentrada nas aparências, no preconceito, nos padrões sociais, no criticismo e na intolerância, contribui negativamente para o aspecto emocional. Ao contrário, uma vivência intrínseca, focalizada na reflexão pessoal, na aceitação, na experiência individual, no senso de coletividade e no interesse genuíno pelo próximo, influencia positivamente a saúde emocional.

Na sua avaliação, por que ainda existe muito tabu e preconceito em relação a esse assunto?

O desconhecimento científico sobre o tema e a ideia generalizada de que religião e ciência sejam necessariamente conflitantes contribui significativamente para essa visão. As pessoas em geral simplesmente não têm ideia da seriedade dos estudos feitos sobre essa relação e da qualificação acadêmica dos profissionais envolvidos. De certa forma, algumas posturas públicas inadequadas de líderes religiosos também têm contribuído para essa visão preconceituosa.

Um dos desafios para se enfrentar esses problemas é a atuação do pastor e dos líderes espirituais, que geralmente são os primeiros a ser procurados quando há algum problema com os membros da igreja. Como esses líderes podem ser mais bem preparados para lidar com esse assunto?

Pastores e líderes espirituais são a “linha de frente” para se enfrentar esses problemas entre pessoas religiosas, seja porque têm a oportunidade privilegiada de perceber essas situações nas pessoas que lideram, ou porque são os primeiros a ser procurados por elas como fonte de confiança para apoio espiritual. Além disso, muitos buscam uma igreja ou religião na esperança de obter auxílio numa situação difícil que estejam enfrentando.

Por isso é necessária uma capacitação técnica dessas lideranças para que estejam aptas a identificar e manejar os casos presentes, não só conduzindo o assunto com serviços de apoio psicossocial e religioso, mas também identificando e encaminhando aqueles que necessitam de tratamento profissional especializado.

Essa capacitação pode acontecer em diferentes níveis, desde a formação básica na graduação, passando por programas e seminários específicos de treinamentos para os que já estão em atividade, até a formação acadêmica complementar em pós-graduação, para formar incentivadores e multiplicadores.

Quais hábitos comuns da atualidade são mais nocivos para a saúde emocional?

O mundo em que vivemos é contraditório. Por exemplo, a tecnologia se desenvolveu com a missão de promover ações automatizadas para se poupar tempo e aproximar pessoas, mas cujo efeito foi exatamente o oposto. As pessoas não mais têm tempo e cada vez mais experimentam o vazio dos relacionamentos superficiais. Estão cercadas por muitos, mas se sentem cada vez mais solitárias. Ampliam suas redes de contatos, mas não constroem relacionamentos. Compartilham experiências e fotos, mas não têm um ombro nem um ouvido amigo para desabafar.

Tem mais: o materialismo, o consumismo, os paradigmas sociais e a moda exigem grande investimento de tempo, recursos e energia.

Assim, o conjunto contribui para que as pessoas vivam cada vez mais isoladas e ansiosas, numa busca eterna pela satisfação efêmera, que se esvai a cada nova demanda, prejudicando o corpo, danificando a mente e corroendo a alma.

Em sentido geral, o que as pessoas deveriam fazer ou mudar em sua rotina, a fim de promover a saúde emocional?

Buscar uma verdadeira e genuína experiência com Deus, construindo e desenvolvendo uma experiência de fé por meio da comunhão pessoal, do relacionamento verdadeiro, criando uma rede emocionalmente saudável de amizades relevantes, e da missão em servir ao próximo.

Dessa forma, a esperança passa a fazer parte essencial na vida, alimentando a alma, dando motivação à mente e estímulo às atividades do corpo. O resultado disso será o equilíbrio emocional.

A academia está reconhecendo a função positiva da fé na manutenção da saúde emocional?

Sim. Isso está muito bem definido, independentemente da vocação ou vínculo religioso dos cientistas que estudam o assunto. Existem numerosos estudos na comunidade científica que abordam essa relação sob diferentes perspectivas.

Os estudos do Dr. Harold Koenig, da Duke University, e do Dr. Bonelli, da Freud University, são exemplos de alta credibilidade e relevância.

Quais são os principais desafios do departamento de Saúde da Divisão Sul-Americana para este quinquênio?

O maior e mais relevante desafio é mostrar às pessoas o verdadeiro sentido da mensagem de saúde da Igreja Adventista. Saúde é uma experiência pessoal e única de santificação, que gradativamente restaura no ser humano a imagem e semelhança de Deus. Quando entendemos isso, nossos olhos se abrem de tal maneira que passamos a enxergar todos os aspectos de nossa vida de maneira diferente, tridimensional e integral: mente, corpo e natureza espiritual. Assim, permitimos que Deus opere em nós tanto o querer quanto o realizar, e, de fato, experimentamos qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Para saber +

Trajetória profissional

Marcello Niek Machado Leal nasceu em 1977, na cidade de Belém, Pará. Iniciou seus estudos superiores como tecnólogo em Processamento de Dados e, posteriormente, graduou-se em Medicina. Especializou-se em Radiologia e Diagnóstico por Imagem, Gestão Empresarial e Gerenciamento de Projetos. Atualmente, está em fase de conclusão do mestrado em Ensino em Saúde. Trabalhou como professor de Matemática e Processamento de Dados, analista de sistemas, médico radiologista, consultor em gestão hospitalar e assessor estratégico em gestão clínico-hospitalar. Desenvolveu inúmeros projetos, palestras e programas de treinamento e assessoria em todo o Brasil e em alguns países da América do Sul. Atualmente é o diretor do Departamento de Saúde da Igreja Adventista para a América do Sul. É casado com Ingrid Streithorst Leal há 16 anos e tem três filhos: Giovanna (10), Marcellinho (7) e Bernardo (4). Sua verdadeira paixão é o ensino, e nas horas vagas gosta de criar e preparar receitas vegetarianas para seus maiores e fiéis fãs: sua família.

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