Por trás da “cortina de ferro”

Novo documentário conta a história do adventismo na Ucrânia e mostra os desafios enfrentados por uma família de pioneiros para pregar o evangelho durante o regime comunista no leste europeu
Márcio Tonetti
Imagem: Reprodução do documentário Vidas Entre Páginas

Atualmente, a Igreja Adventista na Ucrânia tem mais de 47 mil membros, que congregam livremente em 812 templos, uma instituição de ensino que oferece dez cursos de nível superior, um canal de TV e uma editora. Mas em um passado não tão distante a realidade era completamente diferente.

Em meados da década de 1930, a história tomou um rumo diferente com a ascensão do regime comunista em vários países. Situada no leste europeu, a Ucrânia, que integrava o bloco da extinta União Soviética (URSS), foi palco de uma violenta perseguição religiosa. Em meio à intolerância perpetrada atrás da “cortina de ferro”, a família Samoylenko decidiu se manter fiel e pregar a mensagem adventista mesmo sob risco de captura, prisão e morte.

Essa é a sinopse de um documentário recém-lançado no Brasil. Dividida em três partes, totalizando 1h15 de duração, a produção audiovisual roteirizada por Larissa Preuss, foi coordenada pelo centro de mídia da sede administrativa adventista para a região central do Paraná (Associação Central Paranaense).

As imagens de abertura são do Memorial Ucraniano, inaugurado em 1995 em Curitiba (PR), por ocasião do centenário da chegada dos primeiros imigrantes da Ucrânia à capital paranaense. No entanto, a maior parte das cenas de Vidas Entre Páginas foi feita no próprio país europeu. A ponte entre os dois países não se limita a uma relação de cenários, mas se deu também no âmbito da própria narração, feita por Svitlana Samoylenko (leia uma entrevista especial com ela aqui), ucraniana que é descendente de pioneiros adventistas e vive no Brasil desde 2013.

Documentário é narrado por Svitlana Samoylenko, ucraniana que se casou com pastor brasileiro. Foto: reprodução / Vidas Entre Páginas

“A história da Igreja Adventista da Ucrânia é também a história da minha família”, ela relata. A ideia original de falar sobre os desafios vividos pelos adventistas do leste europeu nos tempos do regime comunista, tendo como fio condutor a trajetória da família Samoylenko, partiu do pastor Daniel Meder, esposo de Svitlana. “No início, a ideia era apenas filmar algumas coisas para a família mesmo. Mas o projeto foi crescendo. A Associação Central Paranaense se dispôs a ajudar, colocando profissionais e equipamentos à nossa disposição. Algumas pessoas também ajudaram financeiramente, a fim de que pudéssemos levar a equipe de filmagem para a Ucrânia”, ele conta, ressaltando que o esforço de resgatar o testemunho desses adventistas foi uma forma de não deixar morrer a história. “Vivemos em um país livre e encontramos mil desculpas para ‘justificar’ nossa falta de missão pessoal. No entanto, esses adventistas ucranianos corriam risco de morte todos os dias. Mesmo assim, viveram plenamente a missão de levar a Palavra de Deus ao mundo deles. Por causa de pessoas assim, o adventismo não morreu no contexto soviético. Para mim, isso sempre foi uma inspiração!”, completa o pastor Meder.

De fato, a história desses pioneiros vale a pena ser contada. Entre os muitos relatos surpreendentes do documentário, estão as memórias de batismos realizados em meio a temperaturas baixíssimas e o sacrifício daqueles que espalharam secretamente a literatura adventista, a exemplo do avô de Svitlana, que copiou livros inteiros de Ellen White (como O Desejado de Todas as Nações) à mão, a fim de que a mensagem do advento chegasse aos lares ucranianos. Além de se inspirar nesses e em outros exemplos, o espectador brasileiro também pode se identificar com alguns aspectos em comum entre a história do adventismo na Ucrânia e no Brasil. Lá, assim como ocorreu aqui, a mensagem chegou por meio da literatura em alemão e hoje continua sendo distribuída, porém de maneira muito mais ampla e na língua nativa.

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