As pedras falam

Cilindro achado na Jordânia traz mais informações a respeito do período de domínio de Israel sobre os moabitas
BRUNO ALVES BARROS
O cilindro encontrado oferece contexto histórico e evidências documentais para os estudiosos do Antigo Testamento. Imagem: Christopher Rollston

Em meados de 2010, o arqueólogo Chang-ho Ji, juntamente com outros estudantes da Universidade La Sierra, instituição adventista localizada no sul da Califórnia (EUA), lideravam uma expedição arqueológica no sítio de Khirbat Ataruz, na Jordânia. Ali eles realizaram uma grande descoberta: acharam um objeto cilíndrico de pedra contendo inscrições. O artefato foi encontrado nos limites de um templo que também havia sido descoberto pelo professor Ji em 2000.

Apesar de Chang-ho Ji e seus alunos terem se deparado com o cilindro em 2010, o conteúdo da inscrição só foi divulgado no fim do ano passado. Um grupo de especialistas em línguas semíticas da Universidade George Washington (EUA), liderado pelo professor Christopher Rollston, precisou de 300 horas para analisar e traduzir as inscrições. O resultado da pesquisa foi publicado na revista científica Levant, no jornal The Times of Israel, além de ter sido noticiado no Oriente Médio e na comunidade acadêmica.

No cilindro existem inscrições antigas que aparecem escritas horizontal e verticalmente no objeto, e fazem referência a uma batalha vencida pelo rei moabita Mesa numa revolta contra um rei de Israel. As inscrições também confirmam relatos de guerras citados na Pedra Moabita, um dos achados arqueológicos mais importantes relacionados com a Bíblia, que está no museu do Louvre, em Paris.

Encontrada em Dibom, atual Jordânia, em 1868, e datada aproximadamente do ano 849 a.C., a Pedra Moabita tem sua inscrição no alfabeto hebraico, embora o idioma seja o moabita. Ela detalha o nome de cidades, pessoas e eventos que também são mencionados nas Escrituras. Por exemplo, é referido o rei moabita Mesa (2Rs 3:4) como alguém que estava subordinado a Israel durante o governo de Onri, pai de Acabe (1Rs 16:28).

Segundo Alfred J. Hoerth, ­deve-se ressaltar que os autores bíblicos não se preocupavam em registrar as realizações de seus reis ímpios, como Onri, mas a arqueologia revela que o pai de Acabe foi um governante mais poderoso do que se imaginava (Archaeology and the Old Testament, Baker, 2001, p. 308-310). A Pedra Moabita menciona também a cidade de Atarote, que é identificada atualmente como Khirbat Ataruz, o sítio arqueológico em questão. Atarote aparece na Bíblia como uma cidade ocupada pela tribo de Gade (Nm 32:1-4; 33-36).

Portanto, a importância do cilindro descoberto pelos pesquisadores adventistas está em sua conexão com a Pedra Moabita e a Bíblia. As duas inscrições encontradas no cilindro foram feitas na língua moabita, algo raro. Além de citar as batalhas mencionadas por Mesa na Pedra Moabita, essas inscrições podem conter a forma escrita mais antiga da palavra “hebreus” e confirmar que Mesa ocupou e destruiu a cidade de Atarote.

Com base nesse achado, estudos futuros podem confirmar também que os hebreus habitaram a terra de Moabe desde longa data. Sem dúvida, as incrições da Pedra Moabita e do cilindro encontrado em Khirbat Ataruz oferecem para os estudiosos da Bíblia, especialmente do Antigo Testamento, contexto histórico e evidências ­documentais, uma vez que foram feitas por dois diferentes autores em períodos distintos.

BRUNO ALVES BARROS, graduado em História e Teologia, é mestre em Arqueologia pela Universidade Andrews (EUA) e leciona numa rede privada de ensino em Poços de Caldas (MG)

(Artigo publicado originalmente na seção Enfim da Revista Adventista de março de 2020)

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