Nos passos da minha mãe

As lições do cotidiano que um pedagogo e psicólogo aprendeu na infância e levou para a vida   

ERONIDES DE NICOLAS
Foto: Adobe Stock

Eram aproximadamente 4h da manhã quando desembarquei na estação de Pedra Branca (SP). O grande farol do trem foi se afastando e perdendo intensidade em meio à densa neblina, até se tornar um tênue ponto de luz na escuridão. Fazia frio e eu permaneci por alguns minutos parado na plataforma da velha e pacata estação enquanto as lembranças de um passado distante começavam a rolar como pedras pelos caminhos de minha mente.

Eu e minha mãe muitas vezes tomamos o trem naquela estação para realizar consultas médicas na cidade mais próxima, Botucatu. Naquela ocasião eu era um menino franzino de nove anos de idade, mas já repleto de fantasias para o futuro. Lembrei-me de que, quando o trem se aproximava, minha mãe apertava minhas mãos com mais força e me trazia para mais perto de si. Assim que o comboio ia parando eu desejava me soltar e correr em direção ao vagão num misto de receio e curiosidade, mas ela me segurava ainda com mais determinação.

“Mãe, não precisa me segurar, não vou fugir”, eu protestava.

“Meu filho”, ela me explicava, “nos momentos de temor ou quando o perigo se aproxima o que mais importa é nas mãos de quem estamos agarrados. O segredo não é nos focarmos no perigo, mas termos a certeza de que estamos seguros nos braços de alguém mais forte do que nós mesmos. Nos momentos de risco, se estivermos certos de que somos cuidados por um poder maior teremos mais segurança para enfrentar e vencer as adversidades”.

Eu caminhei pela plataforma e peguei a grande avenida que conduzia ao centro da pequena cidade. No silêncio da madrugada, fui reconhecendo a casa de muitos antigos moradores, a maioria dos quais já haviam partido para o descanso. Recordei o que minha mãe sempre me falava quando falecia alguém daqueles velhos conhecidos. Ao perceber minha tristeza, ela me confortava:

“Filho, não devemos viver amargurados pelo temor ou as agruras do fim da estrada. O importante é desfrutarmos cada momento durante a caminhada. Um dia teremos que partir, mas, todos os outros dias, não. Então vamos aproveitar todos os outros dias”.

Minha mãe caminhou durante anos pelas ruas daquela pequena e bucólica cidade para cuidar de seus netos que moravam do outro lado. Ela evitava passar pelo centro e sempre se desviava pelos caminhos dos arredores, de casas mais simples e pobres e de matas e arvoredos.

“Mas mãe, pelo centro é muito mais perto. Por que se desviar pelos subúrbios? Além disso, a senhora não ganha nada para fazer isso”, eu a indagava!

“Meu filho você sabe que eu não sinto a necessidade de ser vista pelas pessoas. Estou indo por uma necessidade, e é melhor ser útil do que ser notado. Quando fazemos algo importante não há a necessidade de buscarmos ser vistos. A fama e a riqueza sempre passam, mas o que fazemos pelos outros é que pode permanecer. Se você deseja se tornar importante arrume um modo de servir”.

Ao dobrar uma daquelas ruas passei em frente da nossa casa que meu sobrinho colocou fogo após uma crise de alcoolismo. A velha construção ainda parecia viva, como se eu nunca dela tivesse me mudado. Lembrei-me de que, naquela ocasião, todos nos revoltamos contra o fato, e alguns mais exaltados queriam agredi-lo. Minha mãe, então, nos conteve e pediu que nós o perdoássemos.

“Não há mérito em perdoar aqueles que merecem”, ela nos aconselhou. “O perdão só se torna valioso quando é concedido a quem não o merece. O ódio nunca convoca o perdão; só pode perdoar aquele em cujo coração habita o amor. Na perspectiva de amar e perdoar, o filho pode ser pobre, mas a mãe deve ser rica.” Todos então se calaram.

Pelas ruas de Pedra Branca, eu me sentia um pássaro livre e corria em disparada enquanto reproduzia com a boca o som de carros e caminhões. Por vezes, caía e me feria leve ou seriamente, e chegava em casa aos prantos. Minha mãe raramente me recriminava e apenas dizia:

“Todos os que correm estão mesmo sujeitos a cair. O segredo é se levantar, colocar-se em pé e prosseguir. Se decidirmos continuar caminhando, as feridas poderão sarar, mesmo que deixem algumas marcas. Essas feridas que se tratam com pomadas e curativos não são as mais perigosas. As mais perigosas, são as que escondemos dentro da gente e não as expressamos a ninguém. São essas, meu filho, que podem produzir as dores mais intensas e nos tirar a vontade de viver.”

No outro dia, levantei-me cedo e, ainda pela manhã, tomei a estrada que levava à abadia dos padres. Quando criança, acompanhei minha mãe, meus irmãos e outras mulheres da comunidade por aquela estrada para buscarmos lenha, uma vez que ainda não possuíamos fogão a gás. De acordo com minhas forças, minha mãe preparava um feixe de gravetos, que no começo parecia leve, mas depois se tornava pesado e inadequado. Eu então protestava e redarguia que a minha carga era mais pesada que a dos outros. Minha mãe então me alertava:

“Filho, se você deseja chegar ao seu alvo, não olhe para a carga dos outros. Não se demore em fazer comparações, pois aquele que se mede pela experiência de outros quase sempre perde o seu próprio valor e se desvia do alvo. O importante não é olharmos o tamanho de nossas cargas, mas a grandeza do nosso objetivo.”

Minha mãe via as coisas de um modo próprio. Ela me dizia que a vida nunca é uma estrada reta e plana, mas um cabedal íngreme de subidas e descidas; e que toda subida pode se tornar uma descida quando decidimos mudar e fazer o caminho inverso. Portanto, não devíamos desistir ante as dificuldades do caminho, mas nos prepararmos com todas as forças durante os declínios para superar os desafios da subida que certamente chegariam.

Continuei caminhando até que parei sobre a ponte do riozinho que ainda corria com suas águas turvas e lamacentas. Logo adiante, o rio fazia um recôncavo e se decompunha numa pequena lagoa. Nos áureos dias da infância, eu e outros meninos do bairro muitas vezes passávamos as tardes a nadar naquelas águas. Minha mãe me proibia e chamava aquelas águas de lama podre, pois havia indícios de que eram contaminadas e deixava nossa pele com uma coloração escura e cinzenta. Por esse motivo, eu passava pela bica de água limpa e me lavava antes de voltar para casa, na expectativa de poder enganá-la. Quando eu adentrava em casa, porém, ela logo me dizia:

“Vejo que você esteve se lambuzando na lama podre outra vez?”

“Como sabe disso, mãe? Eu estou limpo!”

“Meu filho, você pode estar limpo, mas o cheiro em você continua. Quando fazemos algo errado, poderemos arranjar estratégias para negar e disfarçar, mas nossos erros sempre deixam sinais no corpo ou na mente. Se você um dia se contaminar com as sujeiras deste mundo, poderá conservar suas marcas ainda que se lave ou se purifique.”

Desci toda a estrada da antiga prefeitura e cheguei ao antigo acampamento onde moravam os empregados que trabalhavam nas empresas e nas lavouras da região. Depois que meu pai faleceu, minha mãe visitou muitas vezes aquelas famílias vendendo algumas mercadorias. Ela saía pela manhã com a sacola cheia de costuras e outros objetos e sempre retornava à tarde com a sacola vazia. Um dia descobri que minha mãe não era tão boa vendedora como eu pensava. Ela doava muitas das mercadorias para as famílias mais necessitadas ou as trocava por alimentos. Quando a questionávamos ela respondia:

“Filhos, lembrem-se sempre de que pessoas são mais importantes do que coisas ou regras. Às vezes, é melhor perdermos algum lucro ou ignorarmos alguma regra se o mais importante for salvar uma vida ou suprir uma necessidade. Não há maior satisfação do que ganharmos afeição e amizades sinceras. Além disso, o importante é que não falte o alimento para vocês.”

Logo depois, subi em direção ao único hospital de Pedra Branca. Lembrei-me de que há mais de 40 anos minha mãe trabalhou ali, como auxiliar de enfermagem. Naqueles tempos, não existiam cursos em toda a região que ensinassem a profissão. Foi a freira coordenadora que a chamou para ajudar a cuidar dos doentes da cidade. Ela então aprendeu a dar injeções treinando em laranjas (fruta), e a fazer curativos praticando em si mesma ou em outros de nossa casa. Muitas pessoas passaram então a procurá-la em casa para que ela lhes aplicasse injeção. Se criticada, ela explicava:

“Não ter uma formação não é justificativa para ficarmos acomodados, passivos e improdutivos. Há sempre algum modo de ajudar e servir quando nos propomos a auxiliar aos outros, e você não precisa ter um diploma para ser útil a alguém.”

Quando passei pela pracinha arborizada da matriz, sentei-me por alguns minutos em um dos bancos defronte à catedral. Lembrei-me, então, de que minha mãe também cometia erros. Minhas irmãs já mocinhas costumavam se dirigir para as festas e comemorações realizadas ali, e muitas vezes demoravam a voltar para casa no horário estipulado. Minha mãe muitas vezes tinha que ir buscá-las. Houve uma ocasião em que ela, furiosa, bateu em minha irmã a tal ponto que ela teve que simular um desmaio para escapar de suas mãos. Logo depois, ela sofria pelo que havia feito e chorava em silêncio. No entanto, nós sabíamos que ela nos amava e nunca a odiamos por isso.

Logo depois, caminhei em direção ao único cemitério da cidade. Veio-me à memória, então, que algumas pessoas da cidade, por enfrentarem revezes e frustrações com a vida, tornaram-se alcóolatras e passaram a morar nas escadarias do cemitério, como um prenúncio do fadário que as aguardava. Lembrei-me de quando um dia encontramos um daqueles rapazes que antes tinha sido sóbrio e trabalhador, mas que também passou a viver entre os desiludidos da escadaria do cemitério. Assim que avistou minha mãe, ele então lhe falou:

“Viu, dona, aonde cheguei e em que me tornei? Era o meu destino!”

Minha mãe o abraçou e depois lhe disse:

“Meu filho, você pode escolher se quer viver entre os vivos ou enterrar seu futuro entre os mortos da escadaria. Levantar-se ou permanecer caído é mais uma questão de escolha do que de destino. No dia em que você decidir se recuperar e buscar ajuda, todo o Céu irá lutar em seu favor, mas se permanecer ali, logo passará para o lado de dentro.”

O último lugar que em que parei foi na pequena igreja onde fui ensinado nos caminhos da fé. Ali estava o segredo de eu e meus irmãos permanecermos firmes na verdade. Ela nos ensinou o caminho. Seu verso bíblico preferido era: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (Pv 22:6, ARA).

Em apenas um dia percorri todos os lugares que marcaram minha infância ao lado de minha mãe em Pedra Branca. Tudo agora estava concluído, minhas lembranças foram atenuadas, mas não toda a saudade. No mesmo dia, bem de tardezinha, estava de volta na estação, à espera do trem. Embarquei e vi novamente a cidade se tornar um traço no passado de minha existência. Não era o meu desejo viver algemado a memórias, mas repensar todos os ensinamentos que aprendi pelos passos de minha mãe naquela pequena cidade. Enquanto o trem se afastava, veio à minha mente um dos seus conselhos:

“Meu filho, lembranças são como o sal. Na medida certa pode dar sabor à comida. Porém, em exagero pode nos prejudicar e tornar o alimento intragável. Nosso passado, se belo ou atribulado é pequeno, nosso futuro é que será grandioso.”

ERONIDES DE NICOLAS, professor, pedagogo e psicólogo, é mestre em Psicologia da Saúde e autor dos livros Segredos da Vitória no Amor (publicado pela CPB), Um Lugar Chamado Saudade e Os Sete Maiores Segredos da Saúde Mental

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